quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A TRAJETÓRIA DO BICHEIRO CASTOR DE ANDRADE

 

O BICHEIRO DO FUTEBOL E DO CARNAVAL.

 

 


É difícil imaginar que duas das maiores paixões do brasileiro que é o futebol e o carnaval tiveram contribuições escusas da máfia do jogo do bicho para ganhar o nível da popularidade simbólica da identidade nacional. Ainda mais se a gente for  analisar que a  poderosa figura do jogo do bicho chamado Castor de Andrade(1926-1997) comandou a presidência  de um time de futebol e de uma escola de samba.

 
Castor de Andrade ao lado de Jô Soares(1938-2022) sendo entrevistado 
no Jô Soares Onze e Meia do SBT em 1991

Nesse aspecto é o que podemos constatar com  a série documental do Globoplay, Doutor Castor(Brasil, 2021) dividida em 4 episódios. 




Contando a trajetória do folclórico bicheiro. Um sujeito que conseguia se infiltrar na alta sociedade carioca financiando o futebol e o carnaval.

Contando  toda a sua  trajetória de  ascensão e queda com um vasto e riquíssimo  conteúdo apresentando imagens de arquivos das muitas reportagens que deu tanto como técnico do time do Bangu ou mesmo Presidente da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel e das investigações da justiça e com muitos depoimentos de gente com ele já foi próximo tanto no meio esportivo como os ex-jogadores do Bangu, time do bairro periférico carioca que carregava no nome do qual Castor fazia dali seu QG com a Toca do Castor.




 Onde podemos notar um ar um tanto tendencioso e ingênuo  da parte deles em glorificar demais ele como um homem generoso e gentil, a mesma coisa com relação aos depoimentos de  ex-membros da Mocidade Independente de Padre Miguel, o que chega a ser pitoresco, por mostrar que eles não  faziam muita ideia do quão cruel ele era capaz de ser com quem se intrometesse em seu caminho e  o tom pesado  pode ser sentido nos depoimentos de gente do judiciário, dentre esses   posso destacar  a da  jurista e ex-deputada federal pelo Rio  Denise Frossard que foi  responsável por julgar os bicheiros e das constantes ameaças  de morte que eles eram capazes de fazer. Ela também aparece nas imagens de arquivos de reportagens investigativas com relação  as prisões de Castor.



 Do mesmo modo pode ser sentido  em relação ao depoimento do jornalista Aloy Jupiara que demonstrou ter profundo conhecimento sobre o mundo do jogo do bicho,  ele é autor junto com Chico Otávio que também aparece no documentário dando depoimento,  do livro Os Porões da Contravenção, enfatizando o nível da periculosidade que  aquele sujeito era capaz de ser. Jupiara faleceu dois meses depois do documentário ser lançado  no serviço do Globoplay no dia 13 de Abril de 2021, aos 56 anos vitimado pela Covid-19.




Também destaco os depoimento de nomes importantes  do   jornalismo  esportivo como Tino Marcos, ex-reporter da Globo comentando algumas situações pitorescas das  oportunidades que teve de entrevistar Castor quando ele comandou o time do Bangu  e Juca Kfouri comentando de quando o entrevistou para a revista Playboy em 1984.



 Também há depoimentos de intelectuais, como um historiador comentando o contexto histórico  do surgimento do jogo do bicho antes do surgimento de Castor de Andrade e de um economista explicando de uma forma mais didática como funcionava a execução do esquema.

Também mencionar a participação  do cantor Agnaldo Timóteo(1936-2021), ícone brasileiro do bolero, dando seu depoimento de como se relacionou com Castor, na época que assumia o cargo de deputado federal e recebia financiamento dele e  também de uma forma pitoresca a ponto dele cantar a Ave Maria no seu enterro como são mostradas nas imagens de arquivos. Castor de Andrade faleceu em 1997, aos 71 anos,  vitimado por um ataque cardíaco fulminante.





  A presença dele no documentário marca o seu  último registro público, já  que Agnaldo Timóteo   faleceria logo  em seguida  ao lançamento do documentário do mesmo modo que o jornalista Aloy Jupiara, vitimado pela Covid-19 no dia 03 de Abril aos 84 anos. 

 
O cantor Agnaldo Timóteo(1936-2021) dando seu depoimento no documentário 
Doutor Castor. Meses depois do lançamento desse documentário Agnaldo Timóteo falecia vitimado pela Covid-19. 

O documentário é dirigido por Marco Antônio Araújo que também é encarregado de escrever o roteiro que divide a função com Rodrigo Araújo.

O que posso destacar de interessante do seu trabalho de direção está na forma como o diretor soube bem como conduzir a narrativa ao intercalar entre os depoimentos as cenas de planos abertos mostrando a panorâmica do bairro periférico do Bangu, mostrando o sambódromo, que também vão se intercalando com os recortes de jornais, os arquivos das reportagens com o vasto acervo da Globo.

Nos arquivos há umas  presenças saudosas, dentre as que  posso mencionar está a de Fernando Vanucci(1951-2020), nome importante do jornalismo esportivo que por anos foi apresentador  do Globo Esporte e do  Esporte Espetacular na Rede Globo, marcado pelo bordão do Alô Você.



Outro nome saudoso que também aparece nos arquivos e também faço menção é a do sociólogo Herbert de Sousa(1935-1997), popularmente conhecido como “Betinho”, celebre ativista dos direitos humanos e de campanhas contra a fome,  que aparece concebendo uma entrevista esclarecendo sobre a polêmica doação recebida pelo Castor de Andrade.

Também vale mencionar outra presença saudosa no documentário  que aparece nas imagens de arquivo é   do humorista Jô Soares(1938-2022) recebendo Castor de Andrade  para sentar no sofá  de seu antigo talk show do SBT, o  Jô Soares Onze e Meia(1988-1999) e lhe conceder uma pitoresca entrevista  ocorrida em 1991.

Algo que seria impensável para os dias de hoje, cuja maneira calma e descontraída como ele conseguia entrar nas graças da plateia e como Jô conseguia extrair alguma tentativa de provocação, nem parecia se tratar do  mesmo ameaçador bicheiro,  capaz de tamanha crueldade com quem ousasse ameaçar  o seu reinado.

Recomendo conferir esse documentário para conhecer um pouco mais  da situação sociocultural e econômica do nosso Brasil.

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