O
BICHEIRO DO FUTEBOL E DO CARNAVAL.
É
difícil imaginar que duas das maiores paixões do brasileiro que é o futebol e o
carnaval tiveram contribuições escusas da máfia do jogo do bicho para ganhar o
nível da popularidade simbólica da identidade nacional. Ainda mais se a gente
for analisar que a poderosa figura do jogo do bicho chamado Castor
de Andrade(1926-1997) comandou a presidência de um time de futebol e de uma escola de
samba.
Nesse
aspecto é o que podemos constatar com a
série documental do Globoplay, Doutor Castor(Brasil, 2021) dividida em 4
episódios.
Contando
a trajetória do folclórico bicheiro. Um sujeito que conseguia se infiltrar na
alta sociedade carioca financiando o futebol e o carnaval.
Contando
toda a sua trajetória de ascensão e queda com um vasto e riquíssimo conteúdo apresentando imagens de arquivos das
muitas reportagens que deu tanto como técnico do time do Bangu ou mesmo
Presidente da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel e das
investigações da justiça e com muitos depoimentos de gente com ele já foi
próximo tanto no meio esportivo como os ex-jogadores do Bangu, time do bairro
periférico carioca que carregava no nome do qual Castor fazia dali seu QG com a
Toca do Castor.
Onde podemos notar um ar um tanto tendencioso
e ingênuo da parte deles em glorificar
demais ele como um homem generoso e gentil, a mesma coisa com relação aos
depoimentos de ex-membros da Mocidade
Independente de Padre Miguel, o que chega a ser pitoresco, por mostrar que eles
não faziam muita ideia do quão cruel ele
era capaz de ser com quem se intrometesse em seu caminho e o tom pesado pode ser sentido nos depoimentos de gente do
judiciário, dentre esses posso destacar a da jurista e ex-deputada federal pelo Rio Denise Frossard que foi responsável por julgar os bicheiros e das constantes
ameaças de morte que eles eram capazes
de fazer. Ela também aparece nas imagens de arquivos de reportagens
investigativas com relação as prisões de
Castor.
Do mesmo modo pode ser sentido em relação ao depoimento do jornalista Aloy
Jupiara que demonstrou ter profundo conhecimento sobre o mundo do jogo do
bicho, ele é autor junto com Chico
Otávio que também aparece no documentário dando depoimento, do livro Os Porões da Contravenção,
enfatizando o nível da periculosidade que aquele sujeito era capaz de ser.
Jupiara faleceu dois meses depois do documentário ser lançado no serviço do Globoplay no dia 13 de Abril de
2021, aos 56 anos vitimado pela Covid-19.
Também
destaco os depoimento de nomes importantes do jornalismo
esportivo como Tino Marcos, ex-reporter
da Globo comentando algumas situações pitorescas das oportunidades que teve de entrevistar Castor
quando ele comandou o time do Bangu e
Juca Kfouri comentando de quando o entrevistou para a revista Playboy em
1984.
Também há depoimentos de intelectuais, como um
historiador comentando o contexto histórico
do surgimento do jogo do bicho antes do surgimento de Castor de Andrade
e de um economista explicando de uma forma mais didática como funcionava a
execução do esquema.
Também mencionar a participação do cantor Agnaldo Timóteo(1936-2021), ícone brasileiro do bolero, dando seu depoimento de como se relacionou com Castor, na época que assumia o cargo de deputado federal e recebia financiamento dele e também de uma forma pitoresca a ponto dele cantar a Ave Maria no seu enterro como são mostradas nas imagens de arquivos. Castor de Andrade faleceu em 1997, aos 71 anos, vitimado por um ataque cardíaco fulminante.
A presença dele no documentário marca o seu último registro público, já que Agnaldo Timóteo faleceria logo em seguida
ao lançamento do documentário do mesmo modo que o jornalista Aloy
Jupiara, vitimado pela Covid-19 no dia 03 de Abril aos 84 anos.
O
documentário é dirigido por Marco Antônio Araújo que também é encarregado de
escrever o roteiro que divide a função com Rodrigo Araújo.
O
que posso destacar de interessante do seu trabalho de direção está na forma
como o diretor soube bem como conduzir a narrativa ao intercalar entre os
depoimentos as cenas de planos abertos mostrando a panorâmica do bairro
periférico do Bangu, mostrando o sambódromo, que também vão se intercalando com
os recortes de jornais, os arquivos das reportagens com o vasto acervo da
Globo.
Nos
arquivos há umas presenças saudosas, dentre
as que posso mencionar está a de
Fernando Vanucci(1951-2020), nome importante do jornalismo esportivo que por
anos foi apresentador do Globo
Esporte e do Esporte Espetacular
na Rede Globo, marcado pelo bordão do Alô Você.
Outro
nome saudoso que também aparece nos arquivos e também faço menção é a do
sociólogo Herbert de Sousa(1935-1997), popularmente conhecido como “Betinho”,
celebre ativista dos direitos humanos e de campanhas contra a fome, que aparece concebendo uma entrevista
esclarecendo sobre a polêmica doação recebida pelo Castor de Andrade.
Também
vale mencionar outra presença saudosa no documentário que aparece nas imagens de arquivo é do
humorista Jô Soares(1938-2022) recebendo Castor de Andrade para sentar no sofá de seu antigo talk show do SBT, o Jô Soares Onze e Meia(1988-1999) e lhe
conceder uma pitoresca entrevista ocorrida em 1991.
Algo
que seria impensável para os dias de hoje, cuja maneira calma e descontraída
como ele conseguia entrar nas graças da plateia e como Jô conseguia extrair
alguma tentativa de provocação, nem parecia se tratar do mesmo ameaçador bicheiro, capaz de tamanha crueldade com quem ousasse ameaçar
o seu reinado.
Recomendo
conferir esse documentário para conhecer um pouco mais da situação sociocultural e econômica do
nosso Brasil.










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