Nesse
ano de 2026, existe uma imensa expectativa para a estreia da produção épica de A
Odisseia de Homero, dirigido por Christopher Nolan.
Não
é de hoje que Hollywood costuma explorar a jornada heroica dos mitos da
antiguidade grega.
E
se tem um filme interessante que soube trabalhar bem a interação do
protagonista da Odisseia com o herói
semideus Hércules esse filme em questão que vou comentar aqui trata-se de Hércules
e a Rainha da Lídia (Ercole e la regina di Lidia, França, Espanha, Itália,
1959).
O
filme trata-se de uma produção italiana pertencente ao subgênero peplum, nome
derivado de peplo, que era referente aquela vestimenta das túnicas usadas na
Grécia Antiga. Também referido como filme de espada e sandália.
O
subgênero peplum de filmes épicos históricos surgiu na Itália ali por volta da
década de 1950, naquele momento pegando carona na fase em que Hollywood estava
investindo em produções épicas históricas monumentais com temáticas de heróis
mitológicos, bíblicos ou mesmo da Antiguidade Clássica.
Ainda
mais porque muitas das grandes produções épicas de Hollywood tiveram suas
locações filmadas na Itália, nos estúdios da Cinecittà.
Essas produções peplum de baixo orçamento refletiam um pouco aquele momento em que a indústria do cinema italiano estava querendo investir nesse toque mais escapista, ainda mais depois que o pais já estava começando a se recuperar economicamente uma década após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, que deixou o país destruído após dar fim ao autoritário e opressor governo fascista de Benito Mussolini(1883-1945), esse que ironicamente foi o fundador da Cinecittá que foi inaugurada em 1937.
O
desolador cenário que a Itália viveu Pós-Segunda Guerra Mundial foi bastante
representado e retratado no movimento do cinema Neorealista Italiano, em obras
de cineastas como: Roberto Rosselini(1906-1977), Vittorio de Sica(1901-1974),
Luchino Visconti(1906-1976) e Federico Fellini(1920-1993).
Digamos
que naquele momento do final dos anos 1950, com a Itália conseguindo voltar a
ter sua economia em crescimento e vendo que Hollywood fazia locação gravando suas
produções monumentais. Ela decidiu então tirar uma casquinha disso, produzindo
com orçamento baixo essas produções do subgênero peplum.
E
a produção de Hércules e a Rainha da Lídia, ou como internacionalmente é
mais conhecido pelo título de Hércules Unchained, onde inclusive quando
eu tive um DVD do filme lançado pela distribuidora brasileira ClassicLine era
assim que o título era conhecido, bem reflete esse contexto.
Nessa
produção estrelada pelo fisiculturista americano Steve Reeves(1926-2000),
vencedor de concursos de Mr. Universo e Mr. América como o mítico semideus
Hércules, esse foi o segundo filme a contar com ele no papel, no ano anterior
ele estrelou As Façanhas de Hércules(Le Fatiche de Ercole, Itália,
Espanha, 1958).
Nos
apresenta Hércules chegando no barco da Argonauta até Tebas.
Ao
chegar em Tebas, ele acompanhado de sua amada Iole(Sylva Koscina) e do jovem
Odisseu(Gabrielle Antonini) se dirigem até o Palácio do Rei Édipo(Cesare
Fantoni) dirigindo numa carruagem.
Ao
chegar lá descobre que o Rei Édipo cego resolve descer até o Hades com desgosto
dos seus filhos Eteocles(Sergio Fantoni) e Polinices(Mimmo Palmara) vivendo em
pé de guerra para ver quem vai ficar com o trono.
Hércules
resolve intervir, levando acompanhado de Odisseu um papel com um acordo de paz,
ocorre que Hércules acaba caindo numa ilha da rainha Onfale(Sylvia Lopez), a
ilha da Lídia, onde ela usa de todo o feitiço possível para mantê-lo fazendo
com que ele se mantivesse apaixonado por ela. E o pobre do Odisseu terá de
fazer de tudo para tentar tira-lo desse feitiço para ele não ser o próximo a
cair numa poça de gesso e virar estátua como já ocorreu com outros amantes de
Onfale, e enfrentar a batalha contra os irmãos Eteocles e Polinices pelo trono
de Tebas.
Essa
produção italiana do subgênero peplum contou com a direção de Pietro
Francisci(1906-1977) que também assina o roteiro junto de Ennio de
Concini(1923-2008) inspirado na obra de dois autores gregos da Antiguidade
Clássica que foram: Sófocles(496-405
A.C) com Édipo em Colono e Ésquilo(524-455 A.C) com Sete contra Tebas.
Cuja produção é assinada por Bruno Vailati(1919-1990) e também contou com o
envolvimento de Mario Bava(1914-1980), outro importante nome do cinema italiano.
Além
de ser estrelado por Reeves, que apesar do seu desempenho mediano de ator
beirando ao canastrão, ainda mais pelo fato de não saber dominar o idioma
italiano, onde foi preciso que sua voz fosse dublada. Ainda assim, ele consegue
transmitir uma ótima imponência na pele do mítico herói da antiguidade
clássica, graças ao porte físico atlético de tanto treinamento no
fisiculturismo que o ajudou nas cenas que exigiam mais fisicalidade por assim
dizer.
Antes
de se aventurar por essas produções na Itália, Reeves chegou a tentar estabelecer
uma carreira de ator em Hollywood, participando de uns papeis menores, antes de
ficar eternizado como o Hércules nessa produção peplum.
Ele ficou tão assimilado ao Hércules, que
no fim da vida comentava melancolicamente:
"As
pessoas pensam que eu fiz dez filmes como Hércules, quando na verdade só fiz
dois."
(Fonte:
Memórias Cinematográficas).
Isso
pode ser explicado pela confusão ocasionada de que ele chegou a ser convidado
para repetir o papel de Hércules em outras produções peplum, mas após se
recusar chamaram outros fisiculturistas, entre esses estava o britânico Reg Park(1928-2007), que representou Hércules
em Hércules na Conquista de Atlântida
(Ecolle ala Conquista di Altantida, Itália, 1961) dirigido e roteirizado por
Vittorio Cottafavi(1914-1998) e em
seguida, Reeves foi fazendo outros heróis épicos também em produções peplum
como em As Aventuras do Ladrão de Bagdá(Il
Ladro in Bagdá, Itália, 1961) que teve a codireção do americano Arthur
Lubin(1898-1995) e de Bruno Vailati que assina como um dos roteiristas.
O
que acabou criando um Efeito Mandela em torno de muita gente achar que o ator
estrelou dez filmes de Hércules, quando, na verdade só estrelou dois filmes.
O desempenho mediano de Reeves como ator em cena, é compensado pelo bom desempenho de grandes talentos do cinema italiano presentes no filme como: Gabrielle Antonini(1938-2018) que no filme faz um bom desempenho cômico como Odisseu, um ajudante de Hércules. Ele se destaca por tentar fazê-lo acordar do feitiço de Onfale sem saber do plano diabólico dela sobre ele. Daniele Vargas(1922-1992) que no filme representou o Anfiaros, o General de Eteocles, que nutre uma queda pela Iole, a amada de Hércules ao mantê-la refém.
A
croata-italiana Sylva Koscina(1933-1994) representando a Iole, a amada de
Hércules, ela empresta bem em cena uma docilidade junto a sua atraente beleza para a
personagem seguir o modelo do tropo narrativo da donzela indefesa a ser salva e
mostra um brilhante talento musical na cena onde está cavalgando numa carruagem
dirigida por Odisseu a canção acompanhada de uma lira que toca Con ter per l´eternitá, composta por
Enzo Maseti(1893-1961) especialmente para o filme que é tocada
instrumentalmente ao longo da história.
Algo
que em conjunto a atraente beleza da atriz acaba dando além daquele toque de
sexy appeal deu também um certo borogodó a personagem.
Outra
atriz de beleza atraente presente no filme é Sylvia López(1933-1959), nome artístico
de Tatjana Bent, uma francesa nascida na Áustria, que começou como modelo
desfilando para o designer de moda Jacques Fath(1912-1954) com o pseudônimo de
Sylvia Sinclair.
Estava
se consolidando na carreira de atriz desde 1956 ao participar de produções francesas
já assinando como Sylvia López, cujo sobrenome é de quando foi casada com o
compositor francês Francis López(1916-1995).
Sua
representação como a Onfale no filme é incrível, o seu rosto e olhar magnético
conseguiam bem captar a essência ardilosa dessa víbora do que ela era capaz de
se utilizar para conseguir manipular um monte de homens para transforma-los em
seus escravos sexuais e manda-los caírem numa poça de liquido de gesso que os
transformam em estátuas.
Diagnosticada
com leucemia, Sylvia López morreu precocemente ao 26 anos, em 20 de Novembro de
1959. Consta que a sua última participação no cinema foi em O Moralista (Il Moralista, Itália, 1959)
do diretor Giorgio Bianchi(1904-1967) lançada postumamente.
O
elenco de feras também conta com: Primo Carnera(1906-1967), um ex-lutador de
boxe que no filme faz um brilhante desempenho do gigante Anteo que ousa
desafiar Hércules na sua chegada a Tebas, Cesare Fantoni(1905-1963) faz uma
participação especial na pele do Rei Édipo de Tebas, o filho de Cesare Fantoni,
Sergio Fantoni(1930-2020) faz um brilhante desempenho na pele do Eteocles e sua
disputa com o irmão Polinices, ele mostra um nível de insanidade, de loucura no papel com suas risadas sinistras que mostra
o nível de sua entrega ao personagem de perfil sociopático. Assim como Mimmo
Palmara(1928-2016) faz uma brilhante defesa do Polinices com seu jeito mais
calmo e estratégico.
Também
mencionar as participações de Carlo D´Angelo(1919-1973) representando o Creonte,
Patrizia Della Rovere como a Penélope, Andrea Fantasia(19??-1985) como o Rei de
Itaca Laerte, pai do Odisseu, Gianpaolo Rosmino(1888-1982) na pele do Esculápio
dentre outros.
Posso
concluir que essa produção do subgênero peplum, pode até não chegar aos pés das
grandes produções de Hollywood, no quesito qualidade de produção, mas no
entanto carregava lá seu charme no conceito estético e simbolizou bem o
contexto de sua época.
Esse
subgênero peplum acabou servindo de inspiração para que o jovem austríaco Arnold Schwarzenegger ao se mudar para os
Estados Unidos para competir no fisiculturismo ele tinha tanto em Reeves e Park como seus ídolos, cujo primeiro
trabalho dele no cinema foi justamente representando o mítico Hércules em Hércules em Nova York(Hercules in New
York, EUA, 1970) onde ele assinava como Arnold Strong e como carregava um forte
sotaque austríaco teve suas falas dubladas, uma produção obscura de sua
filmografia bem antes de se tornar o famoso ícone do cinema de ação nos anos
1980.
Essas épicas produções peplum do cinema
italiano ainda foram produzidas a rodo até a segunda metade da década de 1960,
quando uma saturação ocasionada principalmente quando as grandes produções épicas monumentais de
Hollywood também estavam gastas e após o fracasso com Cleópatra(1963) estrelado por Elizabeth Taylor(1932-2011) cujo gasto de produção geraram prejuízos para a
Fox, os filmes monumentais foram deixando de serem produzidos e o cinema
italiano estava investindo em outro
subgênero: o faroeste spaghetti.
Quanto ao astro Reeves após decidir se
aposentar da carreira artística, viveu uma vida comum criando cavalos ao
comprar um rancho em Valley Center, Califórnia. Onde lá também promovia o
fisiculturismo sem o uso de drogas, a qual sempre se posicionava contrário
publicamente. Foi nesse rancho que ele viveu ao lado de sua segunda esposa Aline
Czartjarwicz até a morte dela em 1989, eles não tiveram filhos.
Após
ter ficado viúvo, Reeves ainda viveu nos anos seguintes frequentando algumas
convenções e feiras de fãs de filmes épicos peplum.
Até
falecer no dia 1º de Maio de 2000, depois de enfrentar uma batalha com um
linfoma aos 74 anos, nesse ano de 2026, se ainda estivesse vivo o ator teria
completado 100 anos.

































