quarta-feira, 4 de março de 2026

30 ANOS DA ESTREIA DA NOVELA QUEM É VOCÊ

 

No dia 04 de Março de 1996, estreava em cartaz na Globo no horário das seis, a novela Quem é Você(1996).



Essa novela foi concebida com argumento de Ivani Ribeiro(1922-1995), que começou a desenvolver sua escrita em 1993.  Mas que foi engavetada, “O título original era Caminho dos Ventos. Passados oito meses da morte de Ivani (em 17/07/1995), a trama foi retomada e ganhou novo título: Quem é Você. No lançamento da novela, foi feita uma homenagem à autora.

(Nilson Xavier no site teledramaturgia)

A escolha do título “alude a uma série de segredo, as verdadeira faces  das personagens da história”.

(Fábio Costa no canal Observatório da TV com o título O TBT da TV relembra a novela Quem É Você, que completa 25 anos, publicado em 16 de Abril de 2021).




A autora já era um nome veterano da televisão desde seus primórdios nos anos 1950, foi daquela primeira geração de roteiristas que estavam começando a escrever naquele formato experimental que era a televisão, e boa parte era oriunda do rádio. Ela foi contemporânea de Janete Clair(1925-1983), Dias Gomes(1922-1999), Cassiano Gabus Mendes(1929-1993), Manoel Carlos(1933-2026) dentre outros.

Ela já teve passagens por outras emissoras e havia ingressado na Rede Globo  no começo da década de 1980.

A primeira novela que ela escreveu ao ingressar  na Globo  foi Final Feliz(1982-1983),que foi a única trama original que ela escreveu na emissora, já que as que vieram em seguidas foram remakes de sucessos que ela já havia escrito em outras emissoras como: Amor com Amor se Paga(1984), um remake de Camomila e Bem-Me-Quer(1972-1973) da Tupi, A Gata Comeu(1985) um remake de A Barba Azul(1974) também da Tupi, Hipertensão(1986) um remake de Nossa Filha Gabriela(1971) também da Tupi, O Sexo dos Anjos(1989-1990) um remake de O Terceiro Pecado(1968) da Excelsior, Mulheres de Areia(1993), um remake da novela de mesmo nome exibido na Tupi em 1973 onde ela inseriu um entrecho de outra novela sua O Espantalho(1977) pela Rede Record e A Viagem(1994), remake da novela de mesmo nome exibido pela Tupi em 1975. 

E o argumento que ela desenvolveu para essa novela foi original, não foi baseado em nenhum remake, ela começou a escrever em 1993, chegou a apresentar para a direção da Globo que não aprovou, ficou engavetado.

Depois que foi aprovado, Ivani Ribeiro antes de falecer no dia 17 de Junho de 1995, por insuficiência renal, ela era diabética. Ela deixou pronto alguns capítulos e deixou para Solange Castro Neves que foi sua colaboradora em Mulheres de Areia e A Viagem para escrever os capítulos da novela, que marcou o seu trabalho póstumo.

O enredo dessa novela girava em torno do conflito das irmãs Maria Luísa(Elizabeth Savalla) e Beatriz(Cassia Kiss), que nutrem uma relação complicada com o pai Nelson(Francisco Cuoco) que as abandonou na infância para viver com outra mulher. O que causou indiretamente a morte prematura da mãe delas.

“Maria Luísa passou a refugiar-se em um mundo de fantasia e a venerar o pai. Já Beatriz reprimiu seus sentimentos e defende-se para que não aconteça com ela o mesmo que ocorrera à mãe. A primeira tem o afeto do marido Afonso(Alexandre Borges)  e a superproteção do pai. E a segunda vive às voltas com a solidão.

Na década de 1970, durante um baile de máscaras em Veneza, Maria Luísa anuncia que está grávida. Porém, Afonso  pensa que o filho é fruto de uma traição e se vinga, tendo relações sexuais com uma mulher mascarada. Nove meses depois, Beatriz tem um filho, mas esconde a identidade do pai, que pode ser o marido da irmã.

No tempo presente, Beatriz declara à irmã que seu filho, Cadu(Pedro Brício), é filho de Afonso. Traumatizada com a revelação, Maria Luísa tem um surto de ausência. O problema se agrava com o aparecimento de Cíntia(Luiza Thomé), uma corredora de Fórmula 1 por quem Afonso fora apaixonado na adolescência e que está de volta para lutar por ele.

Todavia, o perigo maior ainda é Beatriz, que se aproveita da crise no casamento da irmã e de sua doença para convencer Afonso a interná-la em uma clínica, deixando o caminho livre para os dois. Maria Luísa não perdoa a traição do marido. Apesar de amá-lo, foge ajudada por Gabriel(Paulo Gorgulho), um homem misterioso apaixonado por ela.”

(Teledramaturgia).

Essa novela que foi concebida por Ivani Ribeiro antes de falecer, coube a Solange Castro Neves a dura tarefa de escrever os capítulos da novela durante os sete meses de duração dessa novela que chegou ao fim no dia 7 de Setembro.

Ela contou com o auxílio de Lauro César Muniz, outro veterano autor de novelas da velha guarda desde os primórdios da televisão brasileira, que  foi o supervisor do texto da novela. Quem assinou a direção foi o saudoso Herval Rossano(1935-2007), ator de longa carreira no cinema e na televisão, e foi na televisão dirigindo novelas que ele consolidou uma brilhante carreira.

Solange Castro Neves escreveu “apenas os 24 primeiros capítulos (um mês de novela). Diante da pouca repercussão da trama e, ao desentender-se com Lauro César Muniz, então supervisor de texto, foi afastada para que ele prosseguisse com os trabalhos. (“O Globo”, 24/03/1996, pesquisa: Sebastião Uellington Pereira)”

(Teledramaturgia).

Pelo que a Solange Castro Neves  declarou anos depois  aos jornalistas Flávio Ricco e José Armando Vanucci para o livro Biografia da Televisão Brasileira(Editora Matrix, 2017):

“Eu estava acostumada a trabalhar com pessoas que conheciam o meu estilo e o respeitavam, além da grande confiança mútua. Quando comecei a escrever, senti-me de certa forma órfã de pai e mãe. A Globo estava passando por uma enorme mudança com a saída do Boni, e Ivani, Cassiano [Gabus Mendes] e Paulo Ubiratan haviam falecido”.

Por conta de todo esse problema envolvendo o fator audiência fez com que essa novela acabasse não conseguindo fazer sucesso e virou um fracasso.

Um dos pontos que foi bastante criticado pela imprensa na época foi quanto a escalação de Alexandre Borges para protagonizar o Afonso, ainda mais pelo fato de sua pouca idade na época com apenas 29 anos ao ser escalado para representar um homem de meia-idade que na história central era disputado por duas irmãs que eram representados por atrizes mais velhas que ele.

Por exemplo: Elizabeth Savalla que fazia Maria Luísa era doze anos mais velha que Alexandre Borges e Cassia Kis que vivia a Beatriz era só  seis anos mais velha que Alexandre Borges. Fora o fato dele já ser pai de um filho rapagão,  o Mauricio vivido pelo estreante Thiago Picchi, que era filho na vida real de Elizabeth Savalla que viveu sua mãe na novela que na ocasião estava com apenas 19 anos e era o suposto pai do jovem Cadu, filho da Beatriz,  vivido pelo também estreante  Pedro Brício que estava com 24 anos.

Ainda mais levando em conta que naquele momento ele era um ator que havia ingressado na TV fazia pouco tempo. Seu primeiro trabalho foi em Guerra Sem Fim(1993-1994) exibida na extinta Rede Manchete.

Só ingressou na Globo a partir da minissérie Incidente em Antares(1994) onde representou o Padre Pedro Paulo nessa adaptação de Nelson Nadotti e Charles Peixoto do romance homônimo de Érico Verissimo(1905-1975).

Durante o ano de 1995, ele emendou participações em Engraçadinha(1995), minissérie adaptada do romance do controverso Nelson Rodrigues(1912-1980) onde ele representou Luís Claudio que fez a memorável cena picante com a protagonista na chuva. Também participou de um episódio de A Comédia da Vida Privada*(1995-1997) e do Você Decide(1992-2000) e em  A Próxima Vítima(1995) vivendo o gigolô Bruno, um amante que não valia nada da Romana Ferreto(Rosa Maria Murtinho).

Realmente gera uma estranheza vê-lo em cena nessa novela com apenas 29 anos representando um personagem central que era um homem de meia-idade sendo disputado por duas irmãs que eram representadas  por atrizes mais velhas que ele, e pude constatar isso quando recentemente eu revisitei o primeiro capitulo completo disponível no Youtube, eu conferi na época que passou, era bem moleque e não havia percebido nada de tão estranho.  

Ao contrário dessa revisitada três décadas depois  onde a   estranheza fica perceptível quando a gente observa o aplique que a produção usou para grisalhar os fios de cabelos do ator para fazê-lo parecer um cara de meia-idade, o que terminou  não convencendo a ponto da coisa ficar falsa, nem mesmo ele naturalmente barbudo consegue convencer representando um cara de meia-idade nessa novela.

Aliás, sobre o elenco que essa novela contou, há de mencionar as participações de Júlia Lemmertz, com quem Alexandre Borges já era casado e haviam se conhecido quando participaram de Guerra Sem Fim na Manchete,  que apesar de estar na mesma novela, mas não faziam parte do mesmo núcleo.

Na novela, ela representou Débora, uma produtora de vídeo, cujo sócio é seu marido Túlio que foi vivido pelo saudoso Cecil Thiré(1943-2020), um sujeito que tinha um estilo peculiar de comédia que envolvia a sua vaidade em esconder a careca usando uma peruca.

Aliás, um fato curioso envolvia a coincidência de ambos, apesar da diferença de idades de vinte anos, sendo Cecil mais velho vinte anos do  que sua colega de cena  Júlia, mas os dois carregavam o talento no DNA. Sendo Júlia dos seus pais, os atores Linneu Dias(1927-2002) e Lillian Lemmertz(1937-1986) e Cecil de sua mãe, a atriz  Tônia Carrero(1922-2018).

A novela também contou com um núcleo de personagens cômicos  que viviam na Casa de Repouso comandada por Beatriz, gente idosa representada por veteranos da atuação  como: Castro Gonzaga(1918-2007), que representou o Arquimedes que era tio das protagonistas, Eva Todor(1919-2017) como Augusta que no primeiro capitulo aproveita o incêndio para fugir a procura de sua  filha, Eloisa Mafalda(1924-2018) como Kitti que chega a dirigir seu irreverente carro rosa acompanhada do jardineiro  Bartô(André Valli) para irem  atrás de Augusta no primeiro capítulo.

Também contou com Alberto Pérez(1924-2002) como Vô Samuca com seu amigo imaginário Simão, Vanda Lacerda(1923-2001) como Anita, Norma Geraldy(1907-2003) como Carlota, Lafayete Galvão(1935-2019) como Hamilton e Ênio Santos(1922-2002) como Ladislau dois músicos que são amigos inseparáveis, Ruth de Souza(1921-2019) como Isolina uma pianista que já teve fama mundial.

Grande parte destes já são  todos falecidos no passar dessas três décadas após o lançamento dessa obra até o momento em que escrevo esse texto, do mesmo modo que já são falecidos o já citado Cecil Thiré que fez o Túlio, Francisco Cuoco(1933-2025) que vivia o Nelson, pai das protagonistas, Dirce Migliaccio(1933-2009), o irmão de Dirce, Flávio Migliaccio(1934-2020) que na novela representou o motorista de Maria Luísa Jacinto,   André Valli(1945-2008) como o Bartô, o jardineiro da Casa de Repouso e Lídia Matos(1924-2013) como Dona Mimi.

A novela também tinha o núcleo da família do imigrante russo Sacha(Jonas Bloch) que era dono de um restaurante de culinária russa. Nesse seu núcleo familiar era formado pela sua  ex-mulher Valentina(Sílvia Bandeira), está disposta a reconquistá-lo, os filhos Iuri(Marcelo Serrado), amigo de Maurício que vive um amor platônico pela mãe dele, Maria Luísa,
e Irina(Rita Guedes), que se envolve com Maurício mas se apaixona por Cadu
a irmã Tânia(Sandra Barsotti), sócia de Beatriz num herbário, envolve-se com Nelson e
a prima Nádia(Helena Fernandes), apaixonada por ele.

Essa novela deu o azar de estrear em uma semana muito complicada onde boa parte da população brasileira  estava muito comovida e de luto  com a cobertura da imprensa com a trágica morte  do irreverente conjunto musical Mamonas Assassinas ocorrido na noite de sábado, 02 de Março em consequência do acidente aéreo na Serra da Cantareira em Santos-SP, quando eles estavam retornando da última apresentação em Brasília-DF e se preparando para a turnê internacional em Portugal.

Um fato curioso diz respeito a sua abertura, que mostrava um baile de máscaras venezianas ao som da famosa  canção de carnaval  Noite dos Mascarados  de autoria de  Chico Buarque lançada em 1975  que para a novela a canção foi interpretada por Emilio Santiago(1946-2013), ela foi bem escolhida, já que seu primeiro refrão traz a frase título da novela:

- Quem é você?

- Adivinha se gosta de mim

Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...

- ...que eu quero saber o seu jogo

- ...que eu quero morrer no seu bloco...

- ...que eu quero me arder no seu fogo.

“Sobre a abertura, o designer gráfico Hans Donner narrou em seu livro “Hans Donner e seu Universo” que Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) ficou encantado com as imagens e perguntou qual software havia sido usado para reproduzi-las. Donner então explicou como foi feita:
“Não é computação gráfica. Mandei construir uma piscina rasa, formando um espelho de água, e gravei as pessoas usando as máscaras, refletidas na superfície, com a câmera de cabeça para baixo, para desfazer a inversão das imagens. As distorções foram produzidas por pequenas ondas que provocamos na água.””

(Teledramaturgia).

Fora que também simbolizou está muito bem ligado a trama central, já que no primeiro capítulo mostra Maria Luísa organizando em sua mansão uma festa de mascarados venezianos lembrando do Carnaval em Veneza de quando participou  há vinte anos,  para celebrar o aniversário do seu filho e é lá que ela ouve de sua irmã Beatriz a confissão de que seu filho Cadu era filho de Afonso.

A logo da novela trazia uma mascara de carnaval. 

*Essa série foi inspirada nas crônicas do escritor Luís Fernando Verissimo(1936-2025) que era filho do escritor Érico Verissimo.


segunda-feira, 2 de março de 2026

30 ANOS SEM OS MAMONAS ASSASSINAS

 

Em 02 de Março de 1996, o Brasil acompanhou a triste notícia do acidente aéreo que tirou a vida de todos os integrantes do irreverente  conjunto musical Mamonas Assassinas, e para lembrar essa data vou aqui comentar sobre duas obras que abordam sobre a importância cultural desse conjunto que surgiu bem fora da curva.




As duas obras em questão tratam-se de Mamonas Pra Sempre(Brasil,2009) e Mamonas Assassinas-O Filme(Brasil, 2023).





No documentário Mamonas Pra Sempre, obra que tem a direção e produção de Claudio Kahns e com roteiro assinado por Diana Zatz Muss com produção da Tatu Filmes, aborda a trajetória  do conjunto musical daquela forma bem descontraída com os depoimentos dos familiares, o depoimento de Rick Bonadio, o depoimento da noiva de Dinho, as imagens de arquivos pessoais mostrando as primeiras apresentações do conjunto com o nome de Utopia, ocorrido no programa de Savério Zacaninni, algo que torna bastante enriquecedor para a obra, servindo bem para explicar como se deu o contexto do surgimento do grupo cuja curta carreira marcou gerações que vale a pena assistir, principalmente para as gerações mais novas entenderem o que eles simbolizaram para a minha geração daquela segunda metade dos anos 1990 que era visto como improvável.



Já quanto a cinebiografia Mamonas Assassinas-O Filme, já não posso dizer a mesma coisa. Com roteiro de Carlos Lombardi e direção de Edson Spinello, ambos nomes que construíram suas carreiras na televisão dirigindo e escrevendo  novelas. Com produção da Total Entermainemnt em coprodução com a Mamonas Produções que é a detentora da marca e com a Claro.

A produção dessa cinebiografia levou anos para sair do papel, a começar pelo fato de que inicialmente o cérebro por trás  do projeto, Carlos Lombardi havia apresentado para ser uma minissérie para a Rede Record  prevista para ser lançada em 2016, ano que lembrou os vinte anos  da trágica morte do quinteto.

Acontece que, no percurso houveram muitos empecilhos que resultou no cancelamento do projeto como bem descreve esse trecho sobre o filme tirado da Wikipédia:

Em março de 2016, a Record anunciou que estava produzindo uma minissérie   televisiva sobre a banda de rock Mamonas Assassinas   intitulada Mamonas Assassinas - A Série, com produção da empresa "OSS Produções", e que sua estreia estava prevista para julho do mesmo ano. O ano de 2016 foi escolhido por marcar os 20 anos do trágico acidente que vitimou a banda. Meses depois de anunciar a série, contudo, a emissora cancelou as gravações, alegando não ter verba para dar continuidade ao projeto, uma vez que a produção não foi aprovada pela Ancine e, com isso, não conseguiu captar os recursos necessários para realizar a minissérie. 

Porém, conforme relatou o jornal O Globo, o motivo teria sido outro. A reportagem diz que, por pressão das famílias dos músicos, várias cenas que não aconteceram na vida real e incomodaram muito as famílias tiveram que ser cortadas do roteiro.

Uma delas mostraria os integrantes da banda assaltando um posto de gasolina para conseguir dinheiro para lançar um CD. Em outra, o pai do vocalista Dinho trairia a esposa com a mulher do prefeito de São Paulo.

 Por conta disso, a Fox, que planejava exibir a série de cinco capítulos tão logo a Record concluísse a veiculação, abandonou o projeto. Elenco e equipe técnica também acabaram dispensados.

Até 2018, nada mais se falou a respeito da minissérie, quando finalmente a Record  se pronunciou informando que o projeto havia sido retomado. Por conta do imbróglio com as famílias, passagens da vida pessoal dos músicos, sem comprovação ou irrelevantes para o enredo, acabaram suprimidas. Em maio, segundo a coluna do Flávio Ricco no UOL, o novo enredo do autor Carlos Lombardi  foi aprovado pela emissora paulista e pela Total Filmes (a nova produtora e parceira do projeto).

Inicialmente, será uma série em cinco capítulos que, depois, compactada, dará origem a um filme. Um novo elenco terá que ser escolhido, uma vez que parte dos autores anteriormente escalados já assumiu novos compromissos. Em 30 de janeiro de 2023 a Record   iniciou as gravações em Guarulhos, município na Região Metropolitana de São Paulo.”

O que isso terminou resultando em algumas mudanças na formação do elenco principal, que quando foram  anunciados em abril de 2016 para compor a minissérie.  Três atores que já os representavam no teatro na peça Mamonas Assassinas-O Musical como Ruy Brissac para virar o Dinho(1971-1996), Elcion Bozanni para ser Samuel Reoli(1973-1996) e Adriano Tunes para ser Júlio Rasec(1968-1996), fora que também eles chegaram a escalar Vinicius de Oliveira para o papel de Sérgio Reoli(1969-1996) e Beto Hinoto para viver Bento Hinoto(1970-1996).

Dessa escalação inicial para a minissérie foram mantidos os nomes de Ruy Brissac que foi mantido no papel de Dinho, Beto Hinoto foi mantido para viver Bento Hinoto, Adriano Tunes que primeiramente era para ser Júlio Rasec ficou com o papel de Samuel  Reoli e quem assumiu os papeis de Julio Rasec foi Robson Lima e Sérgio Reoli foi de Rhener Freitas.

O fato curioso é que Beto Hinoto é sobrinho  do guitarrista Bento Hinoto que o representa no filme.

Ele não chegou a conviver com o tio famoso, já que Beto nasceu dois anos após a trágica morte do tio no acidente aéreo na Serra da Cantareira-SP que também tirou a vida dos seus colegas de banda.

“— Sinto uma energia muito forte do meu tio. Sempre antes de entrar no palco, tento canalizar isso. Peço proteção, rezo e agradeço pelas oportunidades. Até porque, se não fosse ele, eu não estaria fazendo esse papel — destaca Beto.”

(Retirado da postagem É Extraordinário do Facebook de 30 de Outubro de 2025).

Diversos fatores fazem com que na época quando  foi lançado tenha recebido uma  recepção negativa da crítica e pelo que pude constatar com meus próprios olhos ao conferir no ano passado chegando na Netflix.




Um deles é o fato do roteiro se mostrar um tanto corrido, apressado, sem dar tempo de desenvolver a narrativa.

Junte isso ao fato da qualidade da produção se mostrar minimamente questionável, ainda mais  com o roteiro escrito por Lombardi que na sua longa carreira de roteirista na televisão quando escreveu novelas na Rede Globo ao longo dos 30 anos em que foi contratado tais como: Vereda Tropical(1984-1985), Bebê a Bordo(1988-1989), Perigosas Peruas(1992), Quatro por Quatro(1994-1995), Vira-Lata(1996), Uga Uga(2000-2001), a minissérie O Quinto dos Infernos(2002), Kubanacan(2003) e Pé na Jaca(2006-2007). 

Ele também roteirizou alguns trabalhos para cinema entre estes segundo consta em seu currículo no IMDB são: Um Trem para as Estrelas(Brasil, 1987) do diretor Cacá Diegues(1940-2025) e também consta que ele foi o colaborador nos roteiros dos filmes Zoando na TV(Brasil, 1999) uma produção de comédia paródica a tv,  estrelada pela popular apresentadora infanto-juvenil Angélica Ksyvickis e contou com a direção de José Alvarenga Júnior e a comédia romântica Mais uma vez Amor(Brasil, 2005) que contou com a direção da americana naturalizada brasileira Rosane Svartman que posteriormente faria carreira na televisão escrevendo novelas na Globo.

Quem assim como eu cresceu assistindo algumas novelas mencionadas de Carlos Lombardi, deve bem saber que o seu estilo de estética é um tanto quanto peculiar que fugia ao modelo folhetinesco tradicional de escrever novela por assim dizer, que dividiu muito as opiniões, agradava a uns e desagradava a outros.

O seu humor era caracterizado pelo estilo caótico e anárquico, que na descrição do seu perfil no site Teledramaturgia do jornalista Nilson Xavier, o  seu estilo peculiar de escrita se caracterizava “em uma linguagem cheia de ação, humor e diálogos sarcásticos.”

Ele costumava trabalhar em seus enredos  num ritmo  acelerado  e frenético principalmente ao trabalhar com cenas que envolviam pancadaria, tiroteio e correria.

Esse tipo de adrenalina em suas novelas as  que faziam  se aproximarem de uma linguagem cinematográfica dos filmes de ação mesclado a linguagem das histórias em quadrinhos de super-heróis.

Do mesmo modo, o seu texto se caracterizava pelo estilo irreverente e porquê não dizer excêntrico  dos diálogos sarcásticos dos personagens quando se envolviam  situações corriqueiras pelo tom do deboche  cínico  do moralismo hipócrita da sociedade brasileira bem escancarado. Ainda mais  quando apelava para erotismo masculino com seus protagonistas sem camisa mostrando os corpos sarados e peitorais.

Por toda essa descrição sobre o roteirista do filme, dá para se compreender o que levou em muitos aspectos o filme a desagradar tanto a crítica, fora que não ajuda o fato de que como a direção de Edson Spinello que sempre acumulou mais trabalhos na televisão dirigindo, a coisa só piora, ainda mais por sua inexperiência em dirigir cinema.

Além do que, o filme também apresenta os mesmos vícios que eu destaquei que é bem característico do estilo lombardiano, principalmente nos diálogos sarcásticos, nos momentos que mostram os protagonistas sem camisa, e fora que tentando seguir algumas convenções narrativas, a obra explora um conflito dos irmãos Sérgio e Samuel quando este se envolve com uma interesseira dentre outros problemas.

Posso concluir que entre a cinebiografia e o documentário, vale mais  a pena assistir ao documentário. Se quem não assistiu a cinebiografia, mas mesmo depois de tudo o que descrevi de defeitos que ele apresenta, mesmo assim por curiosidade você vai querer conferir, posso recomendar que assista e tire você mesmo suas próprias conclusões.

No passar desses 30 anos após a trágica morte do conjunto musical, seus familiares pais e irmãos passaram a cuidarem da memória e da marca Mamonas Assassinas, para manter preservado a memória deles.

Alguns deles partiram recentemente como a mãe do baterista Sérgio Reoli e do guitarrista Samuel Reoli, Dirice Reis de Oliveira(Dona Nena) que faleceu em fevereiro de 2024 após  conferir ao lançamento do filme. E no ano  passado partiu Toshiko Hinoto, mãe do baixista Bento Hinoto, ela já tinha 100 anos.

COMO COMPLEMENTO:

Além desses também citar outras obras audiovisuais interessantes sobre o conjunto que valem dar uma conferida. 





Um desses é  no episódio da série da Globo Por Toda Minha Vida(2006-2011), que começou como um especial de final de ano em 2006 se dedicando a Elis Regina(1945-1982) e em 2007 passou a ser um programa fixo na emissora que de mês em mês dedicava um programa focado num artista musical, sempre com apresentação e narração de Fernanda Lima, que trazia uma estética de docudrama onde os depoimentos das pessoas que ela entrevistava  eram intercalados  com as dramatizações que são creditados a diferentes diretores importantes da casa  encarregados de dirigir cada episódio como: João Jardim, Rogério Gomes, Ricardo Waddington, Paulo Silvestrini, Pedro Vasconcelos, Alexandre Ishikawa, José Luiz Villamarim, Fabricio Mamberti, Luiz Henrique Rios dentre outros, do mesmo modo como os roteiros de cada episódio conta com crédito de diferentes roteiristas  e no episódio especifico dedicado aos Mamonas Assassinas que foi originalmente exibido no dia 10 de Julho de 2008, o roteiro do episódio é creditado a Maria Camargo e a direção é de José Luiz Villamarim. Aqui pelo menos o trabalho de dramatização em comparação a cinebiografia  foi bem melhor trabalhado e com uma qualidade técnica  melhor apurada.

Outro complemento a ser citado é o documentário da extinta MTV Brasil(1990-2013) MTV na Estrada: Mamonas Assassinas(Brasil, 1996) registrando e  acompanhando a jornada irreverente conjunto musical do deboche Mamonas Assassinas cujas “gravações acompanhariam os Mamonas em alguns shows realizados no Rio Grande do Sul. O programa mostrou trechos dos shows, além de mostrar os Mamonas fora dos palcos e também entrevistou cada integrante(dessa vez com eles falando sério rs).”

(Trecho retirado da fanpage do Mamonas Assassinas do Facebook).

É nesse documentário o curioso  momento do vocalista Dinho se dirigindo ao cinegrafista debochando do   jato particular: “O avião quase caiu na Floresta Amazônica devido a um radar quebrado e que o dia a seguir seria “uma aventura.” .

Em seguida, ele diz ao cinegrafista em forma de deboche que é típico dele:

“Eu tenho uma boa e uma má noticia pra você que vai voar com a gente cameraman qual que você quer primeiro?”

A fala é interrompida repentinamente  pela aparição surpresa do  tecladista Júlio Rasec perguntando: “Você não é o Dinho dos Mamonas” e Dinho responde: “Eu era”. E Júlio olha para a câmera e diz: “Oi”.

Então Dinho volta a se dirigir para a câmera respondendo sobre o estado do jato:

“A boa é que eles consertaram o radar”. E dando uma risada diz assim: “Quebrou de novo”.

E Dinho ainda acrescenta que o combustível não estava passando do reservatório para o tanque com aquele ar todo debochado. E Júlio entra na situação dizendo: “Quebrou de novo?”

 

Esse registro e a exibição desse documentário  ocorreu em Fevereiro de 1996,  pouco antes do fatídico acidente aéreo na Serra da Cantareira em Santos-SP que tirou a vida dos cinco componentes do conjunto musical no dia 2 de Março de 1996 depois que eles estavam retornando  da última apresentação em Brasília e se  preparando para a turnê internacional em Portugal.

No fatídico dia do acidente, esse momento pitoresco de Dinho  foi bastante replicado pelas outras emissoras, principalmente durante a cobertura da tragédia onde houve muita comoção nacional e  foi quando se criou até alguma teoria conspiratória ligada a premonição, principalmente quando entrevistaram a famosa vidente Mãe Dináh(1930-2014) que dizia pressentir sobre a tragédia, ainda mais quando foi divulgado o vídeo caseiro do  tecladista Júlio Rasec, filmado horas antes dele ir se preparar para a última apresentação da turnê brasileira em Brasília.

 
A famosa vidente brasileira Mãe Dináh foi bastante entrevistada
na ocasião da cobertura do acidente dos Mamonas Assassinas 
comentando que já havia previsto isso. 


Júlio estava saindo do salão do qual era um cliente assíduo onde lá revelou para a câmera do cabelereiro dono do salão  em um tom sério de preocupação do seu sonho premonitório: "parecia que o avião caía". A trágica coincidência ocorreu na volta de Brasília para São Paulo. Cerca de 12 horas após o relato, o avião Learjet 25D colidiu na Serra da Cantareira, vitimando todos os integrantes da banda, incluindo Júlio.


 
O tecladista Júlio Rasec desabafando para a 
câmera do seu cabeleiro particular sobre o sonho que teve do avião 
caindo. Esse registro ocorreu horas antes 
dele ir se apresentar com o conjunto. 


Jamais houve um conjunto musical brasileiro igual aos Mamonas Assassinas, nem antes, nem depois.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A TRAJETÓRIA DO BICHEIRO CASTOR DE ANDRADE

 

O BICHEIRO DO FUTEBOL E DO CARNAVAL.

 

 


É difícil imaginar que duas das maiores paixões do brasileiro que é o futebol e o carnaval tiveram contribuições escusas da máfia do jogo do bicho para ganhar o nível da popularidade simbólica da identidade nacional. Ainda mais se a gente for  analisar que a  poderosa figura do jogo do bicho chamado Castor de Andrade(1926-1997) comandou a presidência  de um time de futebol e de uma escola de samba.

 
Castor de Andrade ao lado de Jô Soares(1938-2022) sendo entrevistado 
no Jô Soares Onze e Meia do SBT em 1991

Nesse aspecto é o que podemos constatar com  a série documental do Globoplay, Doutor Castor(Brasil, 2021) dividida em 4 episódios. 




Contando a trajetória do folclórico bicheiro. Um sujeito que conseguia se infiltrar na alta sociedade carioca financiando o futebol e o carnaval.

Contando  toda a sua  trajetória de  ascensão e queda com um vasto e riquíssimo  conteúdo apresentando imagens de arquivos das muitas reportagens que deu tanto como técnico do time do Bangu ou mesmo Presidente da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel e das investigações da justiça e com muitos depoimentos de gente com ele já foi próximo tanto no meio esportivo como os ex-jogadores do Bangu, time do bairro periférico carioca que carregava no nome do qual Castor fazia dali seu QG com a Toca do Castor.




 Onde podemos notar um ar um tanto tendencioso e ingênuo  da parte deles em glorificar demais ele como um homem generoso e gentil, a mesma coisa com relação aos depoimentos de  ex-membros da Mocidade Independente de Padre Miguel, o que chega a ser pitoresco, por mostrar que eles não  faziam muita ideia do quão cruel ele era capaz de ser com quem se intrometesse em seu caminho e  o tom pesado  pode ser sentido nos depoimentos de gente do judiciário, dentre esses   posso destacar  a da  jurista e ex-deputada federal pelo Rio  Denise Frossard que foi  responsável por julgar os bicheiros e das constantes ameaças  de morte que eles eram capazes de fazer. Ela também aparece nas imagens de arquivos de reportagens investigativas com relação  as prisões de Castor.



 Do mesmo modo pode ser sentido  em relação ao depoimento do jornalista Aloy Jupiara que demonstrou ter profundo conhecimento sobre o mundo do jogo do bicho,  ele é autor junto com Chico Otávio que também aparece no documentário dando depoimento,  do livro Os Porões da Contravenção, enfatizando o nível da periculosidade que  aquele sujeito era capaz de ser. Jupiara faleceu dois meses depois do documentário ser lançado  no serviço do Globoplay no dia 13 de Abril de 2021, aos 56 anos vitimado pela Covid-19.




Também destaco os depoimento de nomes importantes  do   jornalismo  esportivo como Tino Marcos, ex-reporter da Globo comentando algumas situações pitorescas das  oportunidades que teve de entrevistar Castor quando ele comandou o time do Bangu  e Juca Kfouri comentando de quando o entrevistou para a revista Playboy em 1984.



 Também há depoimentos de intelectuais, como um historiador comentando o contexto histórico  do surgimento do jogo do bicho antes do surgimento de Castor de Andrade e de um economista explicando de uma forma mais didática como funcionava a execução do esquema.

Também mencionar a participação  do cantor Agnaldo Timóteo(1936-2021), ícone brasileiro do bolero, dando seu depoimento de como se relacionou com Castor, na época que assumia o cargo de deputado federal e recebia financiamento dele e  também de uma forma pitoresca a ponto dele cantar a Ave Maria no seu enterro como são mostradas nas imagens de arquivos. Castor de Andrade faleceu em 1997, aos 71 anos,  vitimado por um ataque cardíaco fulminante.





  A presença dele no documentário marca o seu  último registro público, já  que Agnaldo Timóteo   faleceria logo  em seguida  ao lançamento do documentário do mesmo modo que o jornalista Aloy Jupiara, vitimado pela Covid-19 no dia 03 de Abril aos 84 anos. 

 
O cantor Agnaldo Timóteo(1936-2021) dando seu depoimento no documentário 
Doutor Castor. Meses depois do lançamento desse documentário Agnaldo Timóteo falecia vitimado pela Covid-19. 

O documentário é dirigido por Marco Antônio Araújo que também é encarregado de escrever o roteiro que divide a função com Rodrigo Araújo.

O que posso destacar de interessante do seu trabalho de direção está na forma como o diretor soube bem como conduzir a narrativa ao intercalar entre os depoimentos as cenas de planos abertos mostrando a panorâmica do bairro periférico do Bangu, mostrando o sambódromo, que também vão se intercalando com os recortes de jornais, os arquivos das reportagens com o vasto acervo da Globo.

Nos arquivos há umas  presenças saudosas, dentre as que  posso mencionar está a de Fernando Vanucci(1951-2020), nome importante do jornalismo esportivo que por anos foi apresentador  do Globo Esporte e do  Esporte Espetacular na Rede Globo, marcado pelo bordão do Alô Você.



Outro nome saudoso que também aparece nos arquivos e também faço menção é a do sociólogo Herbert de Sousa(1935-1997), popularmente conhecido como “Betinho”, celebre ativista dos direitos humanos e de campanhas contra a fome,  que aparece concebendo uma entrevista esclarecendo sobre a polêmica doação recebida pelo Castor de Andrade.

Também vale mencionar outra presença saudosa no documentário  que aparece nas imagens de arquivo é   do humorista Jô Soares(1938-2022) recebendo Castor de Andrade  para sentar no sofá  de seu antigo talk show do SBT, o  Jô Soares Onze e Meia(1988-1999) e lhe conceder uma pitoresca entrevista  ocorrida em 1991.

Algo que seria impensável para os dias de hoje, cuja maneira calma e descontraída como ele conseguia entrar nas graças da plateia e como Jô conseguia extrair alguma tentativa de provocação, nem parecia se tratar do  mesmo ameaçador bicheiro,  capaz de tamanha crueldade com quem ousasse ameaçar  o seu reinado.

Recomendo conferir esse documentário para conhecer um pouco mais  da situação sociocultural e econômica do nosso Brasil.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

FRASE DE JACQUES LEGOFF.

 "O homem não vive somente de pão; a História não tinha mesmo pão; ela não se alimentava se não de esqueletos agitados, por uma dança macabra de autômatos. Era necessário descobrir na História uma outra parte. Essa outra coisa, essa outra parte, eram as mentalidades" 

 Jacques Le Goff 

 (1924-2014).




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

RUBEM ALVES E O PENSADOR

“Minha filha me fez uma pergunta: “O que é pensar?” Disse-me que esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia proposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns.



Primeiro por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta.

Porque, se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento.

 O pensamento é como a águia que só alça voo nos espaços vazios do desconhecido.

Pensar é voar sobre o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas.

As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido.”

Rubem Alves(1933-2014), em A Alegria de Ensinar. Escultura O Pensador(1904) do francês  Auguste Rodin(1840-1917).


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

30 ANOS SEM O CRIADOR DO SUPERMAN

 

No dia 28 de Janeiro de 1996, partia para o  andar  de cima, o  criador do Superman Jerry Siegel(1914-1996).




Nascido em Cleveland, Ohio, em 17 de Outubro de 1914. Era o caçula dos seis filhos de imigrantes judeus da Lituânia.

Seu pai era um pintor de placas e dono de uma loja de materiais, sempre procurava encorajar as inclinações artísticas do filho, isso até ocorrer o trágico episódio do assalto a loja do seu pai  e com esse susto ele acabou sofrendo um ataque cardíaco que o levou a morte.





Foi quando ingressou na Greenville High School que ele conheceu seu futuro parceiro na cocriação do Superman Joe Shuster(1914-1992).

Nas palavras de Siegel sobre Shuster:

Quando Joe e eu nos conhecemos, foi como dois elementos se juntassem em uma perfeita reação química.”

Shuster que era canadense, mas assim como Siegel o fato de além de terem nascidos no mesmo ano, também carregavam descendência judaica o que gerou uma forte conexão, sendo Shuster filho de pai holandês que era alfaiate e sua mãe era ucraniana. Joe Shuster era primo do comediante Frank Shuster(1916-2002), que junto a Johnny* Wayne(1918-1990) a dupla humorística Wayne&Shuster.





       Com quem ele dividiu a autoria da criação do Superman para a revista Action Comics em 1938.

      Pode-se dizer que o Superman reflete um pouco de seus criadores, o fato de simbolizar um ser alienígena, que veio se refugiar na Terra ainda bebê depois que sua terra natal Kripton foi destruída.  E defende a humanidade que o acolheu, mesmo essa humanidade sendo preconceituosa com os diferentes.




        Traz uma metáfora interessante sobre ele simbolizando um pouco de cada  imigrante vivendo na América, na Terra das Oportunidades.  Sendo Shuster canadense e Siegel que carregava sangue de imigrantes lituanos e ambos carregavam sangue judaicos, isso tudo torna a obra muito fascinante.




A história da relação deles tanto profissional quanto pessoal é muito explorado na obra biográfica A História de Joe Shuster: O Artista por trás do Superman.

         Trata-se de uma HQ(História em Quadrinhos) biográfica sobre o cocriador do Superman de autoria da dupla Julian Voloj(Roteiro) e Thomas Campi(Arte).




 A obra originalmente publicada em 2018, ano dedicado ao  80ª aniversário do Superman.

      Contada pela ótica do próprio Shuster em primeira pessoa, a obra nos apresenta uma outra faceta interessante a respeito do cocriador do Superman e de como ele se relacionava com Jerry Siegel, seu parceiro na criação do Superman, de como foram os bastidores da criação do Superman e de como sua vida não foi nada glamourosa ao contrário do que muitos fãs imaginam.

Ainda mais  depois que sua famosa criação foi um sucesso,  ele passou anos sem receber um centavo de royalties, por conta de um acordo que precisou assinar com uma empresa de quem ele cedeu  e não recebeu crédito nenhum por isso e de como isso gerou a indignação do seu parceiro Jerry Siegel foi o que mais lutou na justiça para obter de volta a propriedade intelectual do Superman.

Também vai nos mostrando ao longo das páginas diferentes momentos da vida de cada um,  onde Shuster como fio condutor da narrativa nos apresenta como se deu sua trajetória de criar o Superman,  quando as primeiras páginas iniciam com ele idoso em 1975, jogado na rua e encontrado por um guarda que o leva a uma cafeteria, lá ele começa contando de sua família judia vinda da Holanda que imigrou para o Canadá de onde ele nasceu em 1914 e de como conheceu seu parceiro Jerry que colaborou com ele na criação do Superman e de como ele inconformado com isso, mas fez de tudo para exigir seu reconhecimento.

É uma leitura que super recomendo para conhecer mais outras camadas que envolvem seus criadores.

Trata-se de uma leitura envolvente com ilustrações incríveis de Thomas Campi, que se utiliza de uma técnica fotorealista em cada ângulo de quadro de cena, com uma expressividade sensacional e uma qualidade perfeita em especial nas paletas de cores solares.

A estética textual e ilustrativa do quadrinho traz muito um toque vintage que te faz imergir na história, conhecendo e se aprofundando um pouco sobre os criadores do Superman e vendo que nem sempre a relação dele era perfeita e de como no fim da vida, Siegel foi quem mais batalhou contra o sistema industrial sem receber nenhum royalties pela sua criação que o levou a vive na amargura da pobreza.

Um soco no estomago em retratar o lado pobre das industrias de entretenimento e seus esquemas predatórios. Recomendo.

Im Memoriam,

Jerry Siegel.

*Não confundir esse Johnny Wayne com John Wayne(1907-1979), o astro dos westerns. Já que apesar deles serem homônimos as grafias dos seus nomes  nos créditos são muito diferentes.