sábado, 27 de junho de 2026

O DOCUMENTÁRIO DO TETRACAMPEONATO DA SELEÇÃO BRASILEIRA EM 1994

 

Para mim, que carrego uma grande memória afetiva que tenho da seleção brasileira de futebol que conquistou o Tetra, principalmente com relação a Copa do Mundo foi na Copa de 1994, sediado nos Estados Unidos, que não por acaso é o mesmo que sedia essa de 2026 junto com o México e o Canadá.





Eu era moleque de nove anos, quando testemunhei na televisão a seleção brasileira conquistar o título do Tetra sem ter muita ideia do que era isso, e não tinha muita consciência disso, principalmente para compreender como naquele contexto a conquista do título do Tetracampeonato da seleção brasileira veio depois de um longo jejum de 24 anos sem conquistar nenhuma Copa, a última vez que a seleção venceu foi em 1970 onde conquistou o Tricampeonato.




E de como aquilo marcou uma aura escapista de alegria para a população brasileira já um tanto sofrida pela desigualdade social, e que naquele momento especifico foi muito importante, principalmente no complicado cenário socioeconômico que vivíamos no começo dos anos 1990 Pós-Fim da Ditadura Militar e Pós-Redemocratização com a inflação em alta que com essa conquista nos fez por um bom momento esquecer aquele drama.

Isso é o que nos mostra o documentário Tetra: Acreditar de Novo(Brasil, 2026) da Netflix abordando justamente esse momento especifico que marcou a alegria dos brasileiros.




Com produção executiva, roteiro e direção de Luis Ara, o documentário, conta a jornada da conquista do Tetra tendo como ponto de partida após a eliminação da seleção brasileira nas oitavas de final da Copa de 1990 na Itália, perdendo por um a zero da Argentina, que chegou a final, mas foi derrotada pela Alemanha conquistando o Tri.




Contando com depoimentos dos muitos heróis do Tetra: Romário, Bebeto, Branco, Zinho, Gilmar, do técnico Carlos Alberto Parreira*, dos jogadores das seleções adversárias naquela Copa, tais como: Demetrio Albertini da seleção italiana, nossos adversários na final, assim como os jogadores suecos, camaroneses, holandeses, americano Tab Ramos, que nasceu no Uruguai, mas que naquela Copa jogou pelos anfitriões EUA, por imigrado em solo americano com 10 anos dentre outros representando os adversários do Brasil naquela Copa.  

Também conta com depoimento do jornalista esportivo Tino Marcos, que sempre acompanhou a seleção nas coberturas, principalmente durante os mais de 30 anos que prestou serviço para a Globo.





Esses depoimentos são os que ajudam a construir toda a narrativa de como foi a conquista da seleção desacreditada conseguir conquistar a jornada heroica do Tetracampeonato.

Que vão se intercalando com o vasto material de arquivo das reportagens fazendo a cobertura do evento, e nesses arquivos aparecem algumas figuras saudosas como a de Mário Jorge Lobo Zagallo(1931-2024), técnico do Tri** que acompanhou a seleção como assistente técnico, o saudoso Pelé(1940-2022) dando seus pitacos em entrevista  e Fernando Vannunci(1951-2020), outro nome importante do jornalismo esportivo brasileiro também são mostrados nesses arquivos noticiando a cobertura da Copa.





Onde todos eles explicam a preocupação psicológica de trazer isso para a população brasileira, ainda mais naquele momento daquele contexto histórico específico, onde como já antecipei o cenário socioeconômico do Brasil naquela primeira metade da década de 1990, estava vivendo um caos herdado do fim da Ditadura Militar que foi  da alta taxa de inflação, quando houve a primeira eleição presidencial direta em 1989 que elegeu Fernando Collor de Mello como o primeiro presidente eleito diretamente a situação piorou com os seus planos econômicos desastrosos como o Plano Verão, Plano Collor 1 e Plano Collor 2. Isto acabou por resultar no seu Impeachment em 1992.

Até surgir o Plano Real em Julho de 1994,  do qual  acompanhei o seu surgimento que foi uma febre na época em que estávamos mais otimistas pela conquista do Tetracampeonato da Seleção Brasileira  de Futebol na Copa do Mundo nos EUA onde algumas coisas básicas dava para se comprar com 1,00 Real,  seu  crescimento e sua atividade até hoje passados mais de 30 anos,  eu não tinha a menor dimensão de como estava passando o nosso Brasil anteriormente quando o Plano Real  nasceu e nem como essa importante moeda foi concebida, como o filme Real-O Plano Por Trás da História(Brasil, 2017),  retratou  bem como foram os bastidores da criação desta importante moeda que ajudou a tirar o Brasil  do sufoco da inflação que já vinha acompanhado e atormentando os brasileiros desde a década de 1980.

Essa obra dirigida por Rodrigo Bittencourt  com roteiro escrito por  Mikael de Albuquerque, adaptado do livro 3.000 dias no bunker – Um plano na cabeça e um país na mão  de autoria do jornalista Guilherme Fiuza, faz uma excelente dramatização sobre o surgimento da moeda no mesmo momento em que o foco estava na Copa do Mundo com a seleção fazendo uma ótima campanha com o tetracampeonato. Onde mostra o envolvimento do sociólogo Fernando Henrique Cardoso***, então Ministro da Fazenda de Itamar Franco(1930-2011) entre as mentes criativas como Gustavo Franco do Plano Real que o ajudou a eleger para a Presidência da República no mesmo ano de 1994.

Também fazem menção ao momento triste de que antes da copa o Brasil perdeu dois talentos do esporte: Primeiro do jogador Denner de 23 anos que era um talento promissor do futebol estava jogando no time da Portuguesa e estava cotado para disputar aquela até que tragicamente ele morreu em um acidente automobilístico no dia 19 de Abril de 1994. Sobre Denner, Luciano Ubirajara Nassar, autor do livro “Denner-O Deus do Dribler”:

Pela etnia, história de vida, ligação com o samba e o drible, ele representava o povo brasileiro.”

       Em seguida foi a perda do ídolo brasileiro da Formula Ayrton Senna(1960-1994) aos 34 anos, em 1º de Maio de 1994 quando estava disputando o Grande Prêmio de San Marino. A quem os jogadores, dedicaram uma homenagem no dia da conquista do Tetracampeonato.

       No balanço geral, posso concluir que documentário vale a pena ser assistido para os amantes do futebol.

 

*No momento em que escrevo esse texto, o ex-técnico da seleção tetracampeã do mundo, aos 83 anos,  está hospitalizado desde do 16 de Junho no Hospital Samaritano Barra no Rio de Janeiro por conta de uma inflamação pulmonar. “O ex-treinador convive desde 2023 com um linfoma de Hodgkin, tipo de câncer que se desenvolve no sistema linfático — rede de vasos e gânglios responsável pela defesa do organismo. Parreira chegou a ser considerado em remissão em 2025, mas voltou a necessitar de tratamento oncológico após a retomada da doença, situação que exige acompanhamento rigoroso, especialmente em pacientes mais idosos.”(Fonte: Site G1).

**Também na Netflix tem uma produção que aborda sobre o Tricampeonato em 1970 no México, o mesmo que figura  os três países que estão sediando essa Copa de 2026. Trata-se da minissérie Brasil 70: A Saga do Tri(Brasil, 2026). Produção da Netflix em parceria com a produtora independente 02 Filmes, que dramatiza em cinco episódios a jornada dos bastidores da seleção brasileira pela campanha do Tri em 1970, um título que deu alegria aos brasileiros em plena época opressiva de Ditadura Militar no Brasil. Produção que conta com a direção de Paulo Morelli, do seu filho Pedro Morelli e de Quico Meirelles com roteiro assinado por seis roteiristas e dentre os destaques das feras presentes no elenco estão: Rodrigo Santoro representando João Saldanha(1917-1990), que foi escolhido para ser técnico, mas que foi substituído por Zagallo pouco antes da Copa começar. Zagallo que é representado por Bruno Mazzeo, Nelson Baskerville representa João Havelange, o polêmico dirigente esportivo brasileiro que chegou a ser um dos poderosos da FIFA que morreu já centenário em 2016 e Marcelo Adnet representando o locutor Eusébio Teixeira que é um personagem ficcional criado para fins de simbolizar um pouco da emoção de cada brasileiro e também para condensar os diferentes locutores brasileiros que narraram essa partida.

***No momento em que escrevo esse texto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vem enfrentando aos 95 anos, um drama de interdição judicial por conta do Alzheimer. Um de seus filhos foi nomeado curador provisório. Ele sequer nem se lembra mais que já foi Presidente da República.  

segunda-feira, 22 de junho de 2026

30 ANOS DO ASSASSINATO DE P.C.FARIAS

 

No dia 23 de Junho de 1996, era assassinado o empresário brasileiro Paulo César Farias ou como era nacionalmente conhecido P.C. Farias(1945-1996).




Ele foi encontrado morto junto com a sua namorada Suzana Marcolino, que era 24 anos mais nova que ele na sua residência de veraneio em Guaxuma, distrito litorâneo de Maceió, capital alagoana.

Foram mortos a tiros no peito de cada um que estavam deitados na cama.

A primeira hipótese foi crime passional, onde Suzana o matou e depois tirou a própria vida.




Mas logo foram questionadas pelas pericias criminais, logo começou a desconfiar que o seu crime teria alguma consequência envolvendo politicagem, principalmente porque P.C.Farias não era uma pessoa qualquer, mas sim um homem público que já trabalhou como tesoureiro da campanha de Fernando Collor de Mello a Presidência da República e conhecia todos os esquemas de corrupção. Portanto, sua morte foi uma queima de arquivo.




Para compreender melhor, vamos analisar aqui o contexto:

Começando pelo ponto de partida na Eleição de 1989, a primeira direta para eleger Presidente da República, que marcou a transição da Fase Pós-Ditadura Militar e começando na Redemocratização.




Foi nessa eleição que Fernando Collor de Mello foi o primeiro Presidente da República do Brasil eleito democraticamente.  

Ele obteve uma vitória acirrada num segundo turno contra o líder sindical, ex-torneiro mecânico e fundador do Partido dos Trabalhadores(PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que enfrentava pela primeira vez uma campanha para o cargo de Chefe de Estado da Nação, e sendo nosso atual Presidente da República.




Com seu lindo rosto jovial, que atraiu o eleitorado feminino, medindo 1,85 cm de altura, dono de uma voz de barítono que bem defini o perfil de sua oratória onde conseguiu persuadir com um eloquente discurso a convencer de que era um sujeito progressista, um tipo até então obscuro da política brasileira, cuja política já vinha do seu histórico familiar.

Nascido no berço de dois influentes clãs oligárquicos da política do Estado de Alagoas, seu avô materno “Lindolfo Collor (1890-1942), era descendente dos primeiros colonos   chegados ao Brasil, em 1824. Foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul nos anos de 1923 e 1927, tornando-se um dos líderes da Revolução e sendo nomeado por Getúlio Vargas(1882-1954) o primeiro titular do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, do qual se afastou em 1932 ao romper com o presidente, tendo participado da Revolução Constitucionalista daquele ano. Bisneto do jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva(1862-1932), criador da revista O Tico-Tico”. Além do fato dele ser filho de Arnon Afonso Farias de Melo(1911-1983), influente nome da política alagoana que já foi “deputado federal em 1950 e governador de Alagoas de 1951 a 1956. Após deixar o governo do estado, foi eleito senador por três mandatos consecutivos (1962, 1970 e 1978). Em 1963, no prédio do Senado Federal, Arnon de Melo matou seu colega José Kairala(1924-1963) quando tentava disparar à queima roupa em Silvestre Péricles de Góis Monteiro(1896-1972), que supostamente também estava armado. Arnon de Melo não foi jamais formalmente acusado pelo homicídio.” (Fonte: Wikpedia).

Usando do slogan de Caçador de Marajás, querendo adotar uma política de privatização para dar fim a empresas estatais que eram vistas como grandes Elefantes Brancos.





O que atraiu a camada dos empresários, que passaram a serem grandes apoiadores de sua campanha, que depositavam nele uma esperança de salvação para o setor econômico brasileiro que vivia aquela alta fase da inflação.




É nesse contexto que entra o empresário P.C. Farias virando seu tesoureiro de campanha, e foi um grande articulador dos bastidores de arrecadação de dinheiro para a campanha que lhe deu a vitória.

       Quando ele tomou posse em 1990, a primeira medida que tomou foi confiscar a poupança dos brasileiros, adotou uns planos econômicos que só aumentaram o problema da inflação e prejudicou a produção do cinema nacional mandando fechar a Embrafilmes. E mandando retirar os incentivos fiscais pelo governo.  

        O mandato de Collor iria se encurtaria quando dois anos depois, seu irmão Pedro Collor(1952-1994) veio a público aparecendo na capa da revista semanal Veja, publicada em Maio de 1992, com a manchete Pedro Collor Conta Tudo para denunciar todos os esquemas corruptos onde ele estava envolvido, junto com seu tesoureiro Paulo César Farias.




      O famoso Esquema PC Farias “arrecadou o equivalente a US$ 8 milhões de empresários privados, equivalente a R$ 30 milhões em 2015, em dois anos e meio do governo Collor (1990–1992). Além disso, o esquema que, segundo os depoimentos coletados, teria contado com o envolvimento direto do presidente, movimentou mais de US$ 1 bilhão dos cofres públicos.

      Inicialmente ninguém acreditava de que aquilo fosse verdade, visto seu histórico com problemas de saúde mental, o chamaram de louco. Mas depois que se investigou e se descobriu que era tudo verdade, a mesma camada dos empresários que os apoiaram na Campanha de 1989, resolveram se articularem para lhe derrubar e moveram as camadas populares com os jovens cara-pintadas que resultou no seu processo de Impeachment.





Após Collor ser impedido de continuar seu mandato pela decisão dos parlamentares, e quem assumiu seu lugar foi o vice Itamar Franco(1930-2011). Dois anos após denunciar o irmão, Pedro Collor faleceria em dezembro de 1994 de câncer com melanoma maligno da pele com metástase no cérebro, o que agravou o problema delicado de sua saúde mental.




      Depois do Impeachment de Collor, P.C.Farias viveu foragido, “Em 1993, com depósitos feitos pelo mafioso Angelo Zanetti na conta do advogado Ricca, PC subornou policiais da Interpol no Brasil  e no Uruguai, a fim de facilitar a fuga do Brasil num bimotor acompanhado pelo piloto Jorge Bandeira de Mello, seu sócio na empresa de táxi aéreo Brasil-Jet. Logo foi decretada a prisão preventiva de PC Farias por crime de sonegação fiscal. Em 1994, PC foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a sete anos de prisão por falsidade ideológica, obtendo posteriormente liberdade condicional”.

     Foi na cadeia que P.C. Farias conheceu e começou a se relacionar com Suzana Marcolino, depois que ele foi solto em liberdade condicional em Dezembro de 1995, ele estava viúvo:

     A partir de então, Suzana passou a levar vida de princesa. Ganhou joias, roupas caras, carro zero-quilômetro, uma generosa conta bancária e montou uma butique de grife – a Lady Blue – em Maceió. Passou a ser vista com frequência ao lado do namorado recém-liberto, a bordo de uma luxuosa BMW branca conversível.”

(Trecho retirado do site Aventuras na História de 15 de Fevereiro de 2020).

      A suspeita do crime ser passional se deveu ao fato de que os dois viviam discutindo e como P.C. Farias carregava uma fama de mulherengo, usava da sua influência para pegar rabo de saia se criou essa narrativa do crime ter sido passional.




     Algo que inclusive na época, eu era moleque, tinha só 11 anos, mas recordo bem que a cobertura jornalística apontava para esse caminho, sem eu que tivesse muita de que o P.C.Farias se tratava de um homem que já foi muito ligado a história política brasileira e isso foi bastante explorado até a última gota.




    O que dá para concluir com isso tudo é que realmente passados três décadas depois desse crime ainda hoje ele continua inconcluso, em diferentes oportunidades já foram feitas novas instigações contrariando antigas pericias de crime passional e até hoje não se qual foi sua autoria.

      Continua sendo o maior mistério da história criminal no Brasil.

quinta-feira, 18 de junho de 2026

20 ANOS SEM BUSSUNDA

 

            No dia 17 de Junho de 2006, o Brasil perdia o talento do humor de Claudio Besserman Viana vulgo Bussunda(1962-2006) cujo apelido Bussunda surgiu em referência ao personagem cartunesco chamado Sujismundo, criação do brasileiro Ruy Perotti(1937-2005) que nos anos 1970 costumava aparecer em comerciais de TV numa série de quatro filmetes, que variavam entre 60 e 90 segundos de duração, e eram exibidos na TV e no cinema.









             Com o intuito de conscientizar a higienização na população brasileira nessa campanha do regime militar com o lema: Povo desenvolvido, é povo limpo.

             O Sujismundo era representado justamente como uma pessoa sem higiene, um porcalhão cujo nome que foi batizado simbolizando bem isso.


Bussunda entrevistando o ícone brasileiro da Formula 1
Ayrton Senna(1960-1994) no primeiro ano do Casseta & Planeta, Urgente 
em 1992. 

          Juntando as palavras sujo com imundo. E se tornou popular em nós para definir esse tipo de pessoa sem higiene.


Sujismundo, personagem cartunesco que inspirou 
o nome artístico de Bussunda.


           E foi precisamente quando ele agia sem muita higiene quando estava num acampamento de férias na infância que ele ganhou o apelido de Bussunda, primeiro era Besserman Sujismundo que foi se alterando para Bessermundo, depois ficar Bessundo, Bussundo e até chegar a Bussunda que o tornou famoso nacionalmente no Casseta & Planeta.  

            Nascido numa família de classe média alta, filho caçula dos três filhos do cirurgião Luís Guilherme Vianna e da renomada psicanalista Helena Besserman Vianna(1932-2002) que carregava uma descendência judaico-polonesa e por conta disso Bussunda tinha uma formação religiosa judaica, esse casal inclusive esteve envolvido na luta comunista contra a Ditadura Militar no Brasil.

           Bussunda era irmão do economista Sergio Besserman Vianna que chegou a presidir o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) e do médico Marcos Besserman Vianna que desenvolve pesquisas para a Fundação Oswaldo Cruz. 

         A história de como ele conheceu e fundou a trupe do Casseta & Planeta aconteceu quando no final dos anos 1970, três amigos que se conheceram na UFRJ formado por: Beto Silva, Marcelo Madureira e Hélio de La Peña, juntos criaram uma fanzine humorística chamada de Casseta Popular que logo depois viraria uma revista que trazia uma estética anárquica de humor ácido provocativo paródico, posteriormente ingressaram nesse grupo Claudio Manoel e Bussunda.


 
Bussunda na capa da revista Casseta Popular 
publicada em 1991 que trazia o 
estilo de humor que o grupo levaria para a 
televisão.


E o grupo aumentaria quando três amigos que trabalhavam para outra mídia impressa humorística O Planeta Diário, uma sátira ao famoso jornal do Superman, formado por três ex-redatores de O Pasquim: Reinaldo Figueiredo, Hubert Aranha e Claudio Paiva ao se juntarem a eles formaram o Casseta & Planeta.

O fato deles terem começado a fazer humor no jornalismo explica o famoso lema deles do “humorismo verdade, jornalismo mentira”.


 
Reinaldo, Hubert e Claudio Paiva com um exemplar de
O Planeta Diário. 


O ousado estilo ácido de humor provocativo que o grupo fazia nesse modelo tradicional de mídia impressa foi colocado na TV quando eles primeiramente ingressaram compondo a equipe de redatores da TV Pirata(Brasil, 1988-1992) que foi um embrião do que seria depois o Casseta e Planeta, onde juntos de outros nomes importantes do humor brasileiro: como o escritor Luís Fernando Verissimo(1936-2025), o  cartunista Glauco Villas-Boas*(1957-2010), o dramaturgo Mauro Rasi(1949-2003) dentre outros.

Cujo elenco era formado por atores surgido do teatro de variedades, que abordavam sobre a comédia de costumes, também popularmente chamado pejorativamente de besteirol e do revolucionário Asdrúbal Trouxe o Trombone, que já eram estrelas popularmente conhecidas das novelas da Globo com nomes como:  Diogo Villela, Débora Bloch, Guilherme Karan(1958-2016), Cristina Pereira, Luiz Fernando Guimarães, Regina Casé, Ney Latorraca(1944-2024) dentre outros exemplos.

Cuja estética humorística também se conectava um pouco com o que a trupe fazia em satirizar e provocar o cotidiano social brasileiro. 

Em seguida, eles fizeram carreira na música lançando um LP de humor.

 

Posteriormente, mostrariam a cara e a coragem apresentando o programa Doris Para Maiores(Brasil, 1991), acompanhado da jornalista Doris Giesse e  somente  em 1992, passariam a comandar o programa Casseta & Planeta, Urgente, que durou 18 anos no ar.

 

Foi lá que eles ganharam a característica logomarca da cobrinha verde saindo do globo terrestre que foi idealizado pelo designer austríaco-brasileiro Hans Donner, que há mais de vinte anos prestava serviço a emissora desenhando logomarcas marcantes de novelas e produzindo aberturas.  Que simbolizava a união da Casseta Popular e do Planeta Diário, a escolha da cobra foi bem apropriado para simbolizar a identidade visual deles com o seu humor ácido.




Inicialmente nesse programa, ele não contava com a presença de Maria Paula, a primeira mulher a participar foi a jornalista Kátia Maranhão que não participava tanto das esquetes, apenas comandava o programa dentro do estúdio assumindo a função séria do jornalismo.




 Só depois é que colocaram a Maria Paula, egressa da extinta MTV Brasil para assumir a função de ser como ela ficou popularmente conhecida de “A Oitava Casseta”.

Isso porque o grupo era composto de sete homens formado por: Claudio Manoel, Beto Silva, Bussunda, Marcelo Madureira, Hélio de La Peña, Hubert e Reinaldo.

Já Claudio Paiva, ex-companheiro de Hubert e Reinaldo no O Planeta Diário não os acompanhou nessa nova empreitada.

E no que eles foram se consolidando na TV, foram se expandindo escrevendo muitos livros de piadas, eu cheguei a ter um desses que foi o Seu Creysson: Vidia e Obra(2002), sobre o tipo popular representado por Claudio Manoel.

Bussunda mostrava um ótimo talento artístico para representar de forma caricata celebridades, representou muitas personagens femininas quando parodiava novelas da Globo dentre outros.

 

 

QUANDO BUSSUNDA DESAGRADOU TIM MAIA.

Se teve uma celebridade que Bussunda tirou sarro que não ficou nada satisfeito com sua imitação foi o cantor Tim Maia(1942-1998), o ícone do funk e da soul music brasileira e junto a Roberto Carlos formou uma banda chamada The Sputniks no final dos anos 1950, o ameaçou publicamente de dar porrada ao vê-lo o imitando no Domingão do Faustão em 1989.








Isso ocorreu como consequência do fato de Tim Maia que já estava agendado para se apresentar no programa, resolveu de última hora não querer se apresentar.

Ele apesar de carregar um brilhante talento para compor e tinha um timbre de voz agudo inigualável que o tornava idolatrado, ao mesmo tempo era uma pessoa de personalidade explosiva, encrenqueira que vivia reclamando da qualidade do som, da falta de retorno, enfim, todos esses fatores o tornavam uma pessoa difícil de lidar a ponto dele ficar com sua reputação manchada por já  ter brigado c
om Deus e o mundo por assim dizer, principalmente ao  se recusar a cumprir o compromisso das agendas de shows.

Isso já resultou dele criar  desafetos com as gravadoras, com os empresários que já o agenciaram para agendar seus shows e esses se sentido lesados  pelo não cumprimento do compromisso moveram uma onda de processos na justiça contra ele, também criou desafetos com músicos que perderam a paciência com ele sempre pedindo para parar de executar   uma canção  por viver reclamando do som  ou mesmo  da falta de retorno no áudio ao acompanhá-lo nos seus shows e ensaios, para piorar sua situação ele ainda enfrentou problemas com a Receita Federal por não ter declarado seus impostos.

Isso tudo fez ele chegar ao ponto de chegar a uma etapa da sua vida de falir completamente.

Tanto que ele chegou ao fundo do poço de ficar com a corda no pescoço, que foi durante as festividades do Réveillon de 1997, Tim recebeu da justiça uma ordem de confisco do seu imóvel e dos seus bens, em consequência do tanto de dívida que já tinha acumulado até aquele momento.

Sua saúde que já se encontrava fragilizada, em consequência do seu estilo desregrado de sujeito vida louca. Com 55 anos e pesando 142Kg, Tim estava sentindo os efeitos da cobrança que os excessos alimentares, misturado com as bebidas e com drogas nas noitadas que costumava promover em sua casa, representaram para ele naquele momento um fim melancólico da sua potente voz que ocorreu quando ele passou mal na apresentação televisionada ocorrida em 8 de março de 1998 no Teatro Municipal de Niterói(RJ).

Já visivelmente debilitado e com a saúde comprometida por uma crise de hipertensão. O cantor entrou no palco com atraso, tentou iniciar o repertorio cantando as primeiras estrofes da canção Não Quero Dinheiro(Só Quero Amar), não conseguiu dá continuidade  e precisou ser retirado. Ele foi hospitalizado e faleceu dias depois, em 15 de março de 1998.

Bom, mas, voltando ao foco relacionado ao Bussunda, como ele entra aqui na história? Simples, Fausto Silva estrategicamente contornou a situação comentando que Tim Maia se apresentaria no Domingão  na semana seguinte, ele então convidou a trupe do Casseta & Planeta para se apresentarem cantando o single do repertorio do  LP Preto com um Buraco no Meio, que eles gravaram pelo selo da gravadora WEA em 1989 cuja faixa principal  Mãe é Mãe, que trazia uma mensagem humorística de cunho depreciativo machista, também trazia  Bussunda fazendo  imitação do Tim Maia e isso foi propicio para no dia específico  que eles se vingassem de Tim Maia trazendo uma pessoa fazendo a imitação dele não só vocal mas, também todo caracterizado de Tim Maia.

O cantor ficou possesso de raiva ao ver aquilo que chegou a ligar “para o local dizendo que apareceria para atirar em Bussunda, irritado principalmente com os enchimentos - "o cara já é gordo para caralho e tá dizendo que é menos gordo que eu?"”

(Trecho da Wikipédia retirado do livro biográfico Bussunda-A Vida do Casseta do jornalista Guilherme Fiuza publicado em 2010 pela editora Objetiva).

Digamos que Bussunda, indiretamente se tornou uma das pessoas que virou um desafeto do cantor por conta da sua imitação dele e como consequência disso ele passou muitos sem ser convidado para se apresentar na Globo.

Já quanto ao Bussunda, usufruiu bem do sucesso nos anos seguintes, depois que em 1992 o Casseta & Planeta ganhou um programa próprio na emissora.




Chegou a trabalhar em outras produções fora do Casseta & Planeta, como quando fez uma participação na novelinha infantil Caça Talentos (1996-1998) e no filme Zoando na TV(1998) e chegou a trabalhar em dublagem fazendo a voz do ogro verde Shrek nos filmes:  Shrek(2001) e em Shrek 2(2004), que logo após seu falecimento em consequência de um ataque cardíaco sofrido   quando ele estava na Alemanha com parte do grupo para fazer a cobertura da Copa do Mundo de 2006, quem passou a dublar o ogro foi Mauro Ramos.

Grande Bussunda, como o seu humor faz falta para o Brasil de hoje.

 

 

*O cartunista Glauco era sobrinho de Orlando(1914-2002), Claudio(1916-1998) e Leonardo Villas-Boas(1918-1961), o famoso trio de irmãos exploradores que descobriram o Parque Nacional do Xingu. Cuja história foi contada no filme Xingu(2011).  Glauco foi brutalmente assassinado em 12 de Março de 2010, dois dias após completar 53 anos. Pelo frequentador da Seita do Santo Daime que ele comandava que assassinou seu filho Raoni. Um rapaz com longo histórico de transtorno mental. O assassino foi assassinado em 2016 quando estava cumprindo pena em um presidio em Goiás por outros crimes sem relação ao assassinato de Glauco.