domingo, 12 de julho de 2026

ODISSEU E HÉRCULES JUNTOS NUM FILME PEPLUM

 

Nesse ano de 2026, existe uma imensa expectativa para a estreia da produção épica de A Odisseia de Homero, dirigido por Christopher Nolan.



Não é de hoje que Hollywood costuma explorar a jornada heroica dos mitos da antiguidade grega.

E se tem um filme interessante que soube trabalhar bem a interação do protagonista da Odisseia com o herói semideus Hércules esse filme em questão que vou comentar aqui trata-se de Hércules e a Rainha da Lídia (Ercole e la regina di Lidia, França, Espanha, Itália, 1959).




O filme trata-se de uma produção italiana pertencente ao subgênero peplum, nome derivado de peplo, que era referente aquela vestimenta das túnicas usadas na Grécia Antiga. Também referido como filme de espada e sandália.

O subgênero peplum de filmes épicos históricos surgiu na Itália ali por volta da década de 1950, naquele momento pegando carona na fase em que Hollywood estava investindo em produções épicas históricas monumentais com temáticas de heróis mitológicos, bíblicos ou mesmo da Antiguidade Clássica.  


 
Cartaz original do filme com o titulo 
diferente do internacional em inglês. 


Ainda mais porque muitas das grandes produções épicas de Hollywood tiveram suas locações filmadas na Itália, nos estúdios da Cinecittà.

Essas produções peplum de baixo orçamento refletiam um pouco aquele momento em que a indústria do cinema italiano estava querendo investir nesse toque mais escapista, ainda mais depois que o pais já estava começando a se recuperar economicamente uma década após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, que deixou o país destruído após dar fim ao autoritário e opressor  governo fascista de Benito Mussolini(1883-1945), esse que ironicamente foi o fundador da Cinecittá que foi inaugurada em 1937.



 

O desolador cenário que a Itália viveu Pós-Segunda Guerra Mundial foi bastante representado e retratado no movimento do cinema Neorealista Italiano, em obras de cineastas como: Roberto Rosselini(1906-1977), Vittorio de Sica(1901-1974), Luchino Visconti(1906-1976) e Federico Fellini(1920-1993).




Digamos que naquele momento do final dos anos 1950, com a Itália conseguindo voltar a ter sua economia em crescimento e vendo que Hollywood fazia locação gravando suas produções monumentais. Ela decidiu então tirar uma casquinha disso, produzindo com orçamento baixo essas produções do subgênero peplum.

E a produção de Hércules e a Rainha da Lídia, ou como internacionalmente é mais conhecido pelo título de Hércules Unchained, onde inclusive quando eu tive um DVD do filme lançado pela distribuidora brasileira ClassicLine era assim que o título era conhecido, bem reflete esse contexto.


 
Cartaz do DVD da distribuidora brasileira ClassicLine 
lançada nos anos 2000 com o titulo internacional 
de Hercules Unchained. 



Nessa produção estrelada pelo fisiculturista americano Steve Reeves(1926-2000), vencedor de concursos de Mr. Universo e Mr. América como o mítico semideus Hércules, esse foi o segundo filme a contar com ele no papel, no ano anterior ele estrelou As Façanhas de Hércules(Le Fatiche de Ercole, Itália, Espanha, 1958).

Nos apresenta Hércules chegando no barco da Argonauta até Tebas.




Ao chegar em Tebas, ele acompanhado de sua amada Iole(Sylva Koscina) e do jovem Odisseu(Gabrielle Antonini) se dirigem até o Palácio do Rei Édipo(Cesare Fantoni) dirigindo numa carruagem.

Ao chegar lá descobre que o Rei Édipo cego resolve descer até o Hades com desgosto dos seus filhos Eteocles(Sergio Fantoni) e Polinices(Mimmo Palmara) vivendo em pé de guerra para ver quem vai ficar com o trono.




Hércules resolve intervir, levando acompanhado de Odisseu um papel com um acordo de paz, ocorre que Hércules acaba caindo numa ilha da rainha Onfale(Sylvia Lopez), a ilha da Lídia, onde ela usa de todo o feitiço possível para mantê-lo fazendo com que ele se mantivesse apaixonado por ela. E o pobre do Odisseu terá de fazer de tudo para tentar tira-lo desse feitiço para ele não ser o próximo a cair numa poça de gesso e virar estátua como já ocorreu com outros amantes de Onfale, e enfrentar a batalha contra os irmãos Eteocles e Polinices pelo trono de Tebas.  




Essa produção italiana do subgênero peplum contou com a direção de Pietro Francisci(1906-1977) que também assina o roteiro junto de Ennio de Concini(1923-2008) inspirado na obra de dois autores gregos da Antiguidade Clássica que foram:  Sófocles(496-405 A.C) com Édipo em Colono e Ésquilo(524-455 A.C) com Sete contra Tebas. Cuja produção é assinada por Bruno Vailati(1919-1990) e também contou com o envolvimento de Mario Bava(1914-1980), outro importante nome do cinema italiano.






Além de ser estrelado por Reeves, que apesar do seu desempenho mediano de ator beirando ao canastrão, ainda mais pelo fato de não saber dominar o idioma italiano, onde foi preciso que sua voz fosse dublada. Ainda assim, ele consegue transmitir uma ótima imponência na pele do mítico herói da antiguidade clássica, graças ao porte físico atlético de tanto treinamento no fisiculturismo que o ajudou nas cenas que exigiam mais fisicalidade por assim dizer.

Antes de se aventurar por essas produções na Itália, Reeves chegou a tentar estabelecer uma carreira de ator em Hollywood, participando de uns papeis menores, antes de ficar eternizado como o Hércules nessa produção peplum.

     Ele ficou tão assimilado ao Hércules, que no fim da vida comentava melancolicamente:

"As pessoas pensam que eu fiz dez filmes como Hércules, quando na verdade só fiz dois."

(Fonte: Memórias Cinematográficas).




Isso pode ser explicado pela confusão ocasionada de que ele chegou a ser convidado para repetir o papel de Hércules em outras produções peplum, mas após se recusar chamaram outros fisiculturistas, entre esses estava o britânico  Reg Park(1928-2007), que representou Hércules em Hércules na Conquista de Atlântida (Ecolle ala Conquista di Altantida, Itália, 1961) dirigido e roteirizado por Vittorio Cottafavi(1914-1998)  e em seguida, Reeves foi fazendo outros heróis épicos também em produções peplum como em As Aventuras do Ladrão de Bagdá(Il Ladro in Bagdá, Itália, 1961) que teve a codireção do americano Arthur Lubin(1898-1995) e de Bruno Vailati que assina como um dos roteiristas.


 
O fisiculturista britânico Reg Park em cartaz no filme Hércules na Conquista de Atlântida(1961).
 
Cartaz do filme As Aventuras do Ladrão de Bagdá(1961), 
outra produção italiana épica peplum estrelada 
por Reeves. 



O que acabou criando um Efeito Mandela em torno de muita gente achar que o ator estrelou dez filmes de Hércules, quando, na verdade só estrelou dois filmes.






O desempenho mediano de Reeves como ator em cena, é compensado pelo bom desempenho de grandes talentos do cinema italiano presentes no filme como: Gabrielle Antonini(1938-2018) que no filme faz um bom desempenho cômico como Odisseu, um ajudante de Hércules. Ele se destaca por tentar fazê-lo acordar do feitiço de Onfale sem saber do plano diabólico dela sobre ele. Daniele Vargas(1922-1992) que no filme representou o Anfiaros, o General de Eteocles, que nutre uma queda pela Iole, a amada de Hércules ao mantê-la refém.





A croata-italiana Sylva Koscina(1933-1994) representando a Iole, a amada de Hércules, ela empresta bem em cena uma docilidade junto a sua atraente beleza   para a personagem seguir o modelo do tropo narrativo da donzela indefesa a ser salva e mostra um brilhante talento musical na cena onde está cavalgando numa carruagem dirigida por Odisseu a canção acompanhada de uma lira que toca Con ter per l´eternitá, composta por Enzo Maseti(1893-1961) especialmente para o filme que é tocada instrumentalmente ao longo da história.

Algo que em conjunto a atraente beleza da atriz acaba dando além daquele toque de sexy appeal deu também um certo borogodó a personagem.

Outra atriz de beleza atraente presente no filme é Sylvia López(1933-1959), nome artístico de Tatjana Bent, uma francesa nascida na Áustria, que começou como modelo desfilando para o designer de moda Jacques Fath(1912-1954) com o pseudônimo de Sylvia Sinclair.

Estava se consolidando na carreira de atriz desde 1956 ao participar de produções francesas já assinando como Sylvia López, cujo sobrenome é de quando foi casada com o compositor francês Francis López(1916-1995). 

Sua representação como a Onfale no filme é incrível, o seu rosto e olhar magnético conseguiam bem captar a essência ardilosa dessa víbora do que ela era capaz de se utilizar para conseguir manipular um monte de homens para transforma-los em seus escravos sexuais e manda-los caírem numa poça de liquido de gesso que os transformam em estátuas.

Diagnosticada com leucemia, Sylvia López morreu precocemente ao 26 anos, em 20 de Novembro de 1959. Consta que a sua última participação no cinema foi em O Moralista (Il Moralista, Itália, 1959) do diretor Giorgio Bianchi(1904-1967) lançada postumamente.

O elenco de feras também conta com: Primo Carnera(1906-1967), um ex-lutador de boxe que no filme faz um brilhante desempenho do gigante Anteo que ousa desafiar Hércules na sua chegada a Tebas, Cesare Fantoni(1905-1963) faz uma participação especial na pele do Rei Édipo de Tebas, o filho de Cesare Fantoni, Sergio Fantoni(1930-2020) faz um brilhante desempenho na pele do Eteocles e sua disputa com o irmão Polinices, ele mostra um nível de insanidade, de loucura  no papel com suas risadas sinistras que mostra o nível de sua entrega ao personagem de perfil sociopático. Assim como Mimmo Palmara(1928-2016) faz uma brilhante defesa do Polinices com seu jeito mais calmo e estratégico.




Também mencionar as participações de Carlo D´Angelo(1919-1973) representando o Creonte, Patrizia Della Rovere como a Penélope, Andrea Fantasia(19??-1985) como o Rei de Itaca Laerte, pai do Odisseu, Gianpaolo Rosmino(1888-1982) na pele do Esculápio dentre outros.

Posso concluir que essa produção do subgênero peplum, pode até não chegar aos pés das grandes produções de Hollywood, no quesito qualidade de produção, mas no entanto carregava lá seu charme no conceito estético e simbolizou bem o contexto de sua época.

Esse subgênero peplum acabou servindo de inspiração para que o jovem austríaco Arnold Schwarzenegger ao se mudar para os Estados Unidos para competir no fisiculturismo ele tinha tanto em  Reeves e Park como seus ídolos, cujo primeiro trabalho dele no cinema foi justamente representando o mítico Hércules em Hércules em Nova York(Hercules in New York, EUA, 1970) onde ele assinava como Arnold Strong e como carregava um forte sotaque austríaco teve suas falas dubladas, uma produção obscura de sua filmografia bem antes de se tornar o famoso ícone do cinema de ação nos anos 1980.


 
O jovem  fisiculturista Arnold Schwarzzengger em começo de 
carreira como ator representando o mítico semideus 
em Hércules em Nova York(1970). 


Essas épicas produções peplum do cinema italiano ainda foram produzidas a rodo até a segunda metade da década de 1960, quando uma saturação ocasionada principalmente quando  as grandes produções épicas monumentais de Hollywood também estavam gastas e após o fracasso com Cleópatra(1963) estrelado por Elizabeth Taylor(1932-2011) cujo  gasto de produção geraram prejuízos para a Fox, os filmes monumentais foram deixando de serem produzidos e o cinema italiano  estava investindo em outro subgênero: o faroeste spaghetti.

Quanto ao astro Reeves após decidir se aposentar da carreira artística, viveu uma vida comum criando cavalos ao comprar um rancho em Valley Center, Califórnia. Onde lá também promovia o fisiculturismo sem o uso de drogas, a qual sempre se posicionava contrário publicamente. Foi nesse rancho que ele viveu ao lado de sua segunda esposa Aline Czartjarwicz até a morte dela em 1989, eles não tiveram filhos.  

Após ter ficado viúvo, Reeves ainda viveu nos anos seguintes frequentando algumas convenções e feiras de fãs de filmes épicos peplum.

Até falecer no dia 1º de Maio de 2000, depois de enfrentar uma batalha com um linfoma aos 74 anos, nesse ano de 2026, se ainda estivesse vivo o ator teria completado 100 anos.

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

EM MEMÓRIA DE JASPION

 

Na manhã de quinta-feira, 2 de Julho de 2026, acordei pegando o meu smartfone me deparando com a triste notícia do falecimento do ator japonês Hikaru Kurosaki nome artístico de Seiki Kurosaki, o protagonista do Jaspion.






O ator tinha 64 anos, a causa de sua morte não foi revelada, quem anunciou sua morte foi Masaki Sekiguchi, um amigo próximo que passou a trabalhar para ele após o ex-ator se mudar para Okinawa onde passou a fazer carreira como instrutor de mergulho e administrando uma empresa chamada de Mother Earth. Isso muito tempo após ele ter deixado o meio artístico depois que a série chegou ao fim no Japão.

 

 

Nas palavras de Sekiguchi:

Mesmo sem precisar expressar isso em palavras, havia uma relação de apoio mútuo, em que a simples presença de cada um servia de sustentação para o outro. Por isso, sua partida é profundamente lamentável. Que ele descanse em paz…”

(Trecho tirado do site UOL).

Antes de protagonizar a série do Jaspion, o ator já tinha participado de outras produções do gênero tokusatsu como um suit actor, um dublê por trás das fantasias em produções não-creditadas, já tinha participado de uns filmes de ação e tinha também participado de dois episódios de Choudenshi Bioman(1984-1985) onde representou o Shouta Ishimori que é usado por Gear para virar um guerreiro malvado acreditando que iria virar um sexto Bioman.   Foi lá que ele conheceu a atriz Yûko Asuka(1957-2011) que na série representou a Farrah, uma androide que era membra do Big Three do malvado Império Gear com quem casou e viveu junto com a atriz até ela falecer em 2011, mas não tiveram filhos.




Para mim que tenho uma forte memória afetiva com Jaspion, cresci assistindo a série quando passou na extinta Rede Manchete no final dos anos 1980, é um pouco difícil digerir essa notícia, fica meio que a sensação de vazio, já que foi com Jaspion que eu aprendi a nunca desistir mesmo enfrentando os obstáculos da vida real, ainda mais vindo de um rapaz órfão que não ficava na postura de coitadismo, ele lutava por um mundo melhor, coisa que nossos benfeitores da vida real normalmente decepcionam.




A maneira como ele encarava os monstros gigantes, tinha muito da essência de Davi versus Golias, é bem nessa estrutura campbeliana da jornada heroica.  


 Kurosaki em Bioman como Shota




Aliás, muita coisa de referência bíblica a série carrega, investigava uma profecia da Bíblia Galáctica. Que comentava do grande mal no universo. Representado por um ser demoníaco, fruto das energias negativas do Universo chamado de Satan Goss. 

 
 Tadashi Kamitani o dublê do Jaspion no Circo Show em entrevista com Jô Soares. 

Esse fator   acredito eu seja o mais obvio para explicar o porquê do herói ser tão querido pelos brasileiros, seja o fato da série apresentar muitas referências ligadas ao cristianismo. Visto que maior parte da população brasileira é católica. Um contraste em relação com a população japonesa cujos praticantes do catolicismo são menor, maior parte deles são xintoístas.

 Isto pode ser sentido pelo próprio Jaspion simbolizar bastante o arquétipo do salvador vindo do céu, destinado a proteger a Terra do mal.

A figura messiânica do profeta Edin também carrega esta simbologia cristã ocidental. Do mesmo modo quando ele fala da profecia da Bíblia Galáctica, se referindo ao Velho e o Novo Testamento Cristão. O Pássaro Dourado ser despertado pelas cinco crianças irradiadas pela luz de Nosso Senhor e Jaspion ser o escolhido para acabar com o Satan Goss e seu exército de asseclas comandado pelo seu filho MacGaren também tem essa referência cristã ao capiroto e seu exército da religião cristã ocidental.

Do mesmo jeito que a trama trabalhou bem as camadas de evolução do personagem. Que na primeira metade da série agia muito abobalhado e imaturamente, sendo até grosseiro com a androide Anri.  A partir da segunda metade, passa a ter um perfil mais sério e mais focado na sua missão. Na sua jornada de defender a Terra de ser dominada pelo império demoníaco de Satan Goss para criar aqui o seu Império dos Monstros. 

Visto que entre os japoneses mesmo, eles não carregam tão forte memória afetiva por Jaspion como nós brasileiros, um pouco disso consequência do fato da série foi se apresentando muito Frankestein ao longo dos seus 46 episódios. Cuja direção foi revezada com três diretores: Yoshiaki Kobayashi, Akihira Tojo e Takeshi Ogasawara(1941-2011).

 Nos três primeiros episódios nós acompanhávamos a jornada aventuresca do herói numa estética de space ópera onde mostrava ele enfrentando o monstro da vez enviado por Satan Giss num planeta diferente.

 A partir do episódio 4 quando passam a estabelecer na Terra a gente vai se deparando com outros Frankestein como as mudanças no corte de cabelo do Jaspion que foi modificando a personalidade dele. O Satan Goss que antes não verbalizava, passa a verbalizar quando entra a Kilza para ressuscitar o MacGaren para deixa-lo mais forte, ainda mais quando ele muda o visual usando uma túnica de imperador romano com um capacete brega.

Tudo isso em alguns momentos criou furos de roteiro, como o fato de por exemplo, no começo do episódio 18 quando mostra Jaspion acompanhado de Kanoko e Kenta sem a presença do pai Nambara.

Ele nota e pergunta pela primeira vez sobre a ausência da mãe deles, que faleceu quando Kenta era bebê, sendo que quatro episódios antes que eles os conheceu já devia ter percebido isso.

E o Guila, o assassino contratado por MacGaren para eliminar Jaspion no episódio 21 será que ele morreu na caverna quando a base de MacGaren foi destruída pelo Daileon?

 E como não só a audiência, mas a venda de brinquedos não foi satisfatória, visto que é bom a gente ter um pouco desse discernimento ao criticar essas produções como infantilizadas demais, e ter um afastamento afetivo em pensar que elas são pensadas para vender brinquedos.

Algo que aqui no Brasil, foi diferente graças a contribuição do Governo Brasileiro com as importações e as gambiarras da extinta fabricante Glasslite que produziu muitos dos bonecos reaproveitando moldes de Robocop, e não eram os moldes originais importados do Japão.

Fora outros produtos licenciados que foram produzidos pela primeira distribuidora a Everest Video. Atualmente Jaspion está na propriedade da distribuição da Sato Company.

       Jaspion foi muito marcante para mim, digamos entender que pior do que os monstros gigantes que ele enfrentava são os monstros da vida real.

Segundo o famoso escritor irlandês Oscar Wilde(1854-1900):

 "Somos cada um o nosso próprio demônio, e fazemos deste mundo nosso próprio inferno”.

Ele soube bem como transmitir ao Jaspion o tom da resiliência, algo que talvez criou uma forte aproximação como nós brasileiros.

É tanto que eu cheguei a comprar uns lotes de DVDs lançados pela Focus Filmes em 2009, que veio com o boneco e o mangá da JBC lançado em 2020.

Kurosaki também fez carreira de cantor, tanto que na série ele chegou a mostrar o seu talento musical no episódio 8, cantando a canção:  Hanpo Yuzutte GO IN Ni!., essa canção compõe o repertório do LP que Kurosaki gravou no ano anterior.  

Jaspion é  tão parte da nossa cultura, que existe um sujeito do Pará que aparece postando andando rotineiramente nas ruas como Jaspion.

O nível de popularidade entre nós brasileiros é tamanha que já houve um tempo em que muita gente acreditou  que o Jaspion fosse brasileiro.

Isso ocorreu quando por volta de 1997, o saudoso humorista brasileiro Jô Soares(1938-2022) quando ainda estava no SBT, comandando o talk show Jô Soares Onze e Meia(1988-1999) ele convidou para entrevistar Tadashi Kamitani, o dublê do Jaspion no Circo Show que era produzido pela distribuidora Everest Vídeo.

Na entrevista não foi esclarecido que ele representava o Jaspion apenas no circo. A confusão se deveu ao fato de quando Jô apresentou em seu telão uma cena da série de Jaspion dentro do Daileon enfrentando uma batalha contra o monstro do episódio 17, o que se criou em cima disso uma falsa memória de que ele fosse o protagonista da série.

A verdade é que Tadashi Kamitani não é o ator que fazia o Jaspion na série de tv, mas sim apenas no Circo Show, onde ele inclusive se dividia entre Adriel de Almeida que vestia a armadura nas apresentações.

Quem protagonizou o Jaspion na série foi Hikaku Kurosaki, que só o representou na forma civil, transformado foram outras pessoas.

A razão que ocasionou isso se deve ao fato de que como na época, segunda metade da década de 1990 ainda não existia Google para fazer uma checagem de informação e provavelmente a escassa informação que a produção do Jô tinha acesso era por meio da antiga assessoria do Circo e os únicos acessos de informação que a camada otaku conseguia era por meio das nichadas revistas Herói.

Nisso resultou essa lenda do Jaspion ser brasileiro que foi difundida nos fóruns dos primórdios da internet brasileira.

Além de Kurosaki, outros atores que participaram de Jaspion que também já faleceram são: Noburu Nakaya(1929-2006) que fazia o Edin em Jaspion, Shôzo Îzuka(1933-2023) que fez a voz  original do Sata Goss, Massanari Nihei(1940-2021), o Oficial Ide da série Ultraman que em Jaspion participou do episódio 23 como o apresentador que filma o espetáculo do Monstro Sion.

Fora também que já são falecidos: o maestro Chumei Watanabe(1925-2022), o compositor das trilhas incidentais de Jaspion, o cantor Ai Takano(1951-2006) que canta na abertura de encerramento de Jaspion e Shozo Uehara(1937-2020) que foi o roteirista.

O ator Hiroshi Watari, que participou de Jaspion como Bommerman manifestou seu pesar pela perda de Kurosaki:

"Estou chocado com a notícia da morte do Kurosaki Hikaru. Este ano, muitos colegas da JAC [Japan Action Club, o clube de ação de Sonny Chiba] partiram. Nunca esquecerei o que aprendi no palco do Shinjuku Koma Theater e no set de Jaspion. Obrigado", escreveu Watari.

Com certeza, entre esses nomes que ele se refere está o de Kenji Ohba, o protagonista da série Policial Espacial Gavan(1982-1983).

Que descanse em Paz,

Eterno Jaspion.

(1962-2026).

sábado, 27 de junho de 2026

O DOCUMENTÁRIO DO TETRACAMPEONATO DA SELEÇÃO BRASILEIRA EM 1994

 

Para mim, que carrego uma grande memória afetiva que tenho da seleção brasileira de futebol que conquistou o Tetra, principalmente com relação a Copa do Mundo foi na Copa de 1994, sediado nos Estados Unidos, que não por acaso é o mesmo que sedia essa de 2026 junto com o México e o Canadá.





Eu era moleque de nove anos, quando testemunhei na televisão a seleção brasileira conquistar o título do Tetra sem ter muita ideia do que era isso, e não tinha muita consciência disso, principalmente para compreender como naquele contexto a conquista do título do Tetracampeonato da seleção brasileira veio depois de um longo jejum de 24 anos sem conquistar nenhuma Copa, a última vez que a seleção venceu foi em 1970 onde conquistou o Tricampeonato.




E de como aquilo marcou uma aura escapista de alegria para a população brasileira já um tanto sofrida pela desigualdade social, e que naquele momento especifico foi muito importante, principalmente no complicado cenário socioeconômico que vivíamos no começo dos anos 1990 Pós-Fim da Ditadura Militar e Pós-Redemocratização com a inflação em alta que com essa conquista nos fez por um bom momento esquecer aquele drama.

Isso é o que nos mostra o documentário Tetra: Acreditar de Novo(Brasil, 2026) da Netflix abordando justamente esse momento especifico que marcou a alegria dos brasileiros.




Com produção executiva, roteiro e direção de Luis Ara, o documentário, conta a jornada da conquista do Tetra tendo como ponto de partida após a eliminação da seleção brasileira nas oitavas de final da Copa de 1990 na Itália, perdendo por um a zero da Argentina, que chegou a final, mas foi derrotada pela Alemanha conquistando o Tri.




Contando com depoimentos dos muitos heróis do Tetra: Romário, Bebeto, Branco, Zinho, Gilmar, do técnico Carlos Alberto Parreira*, dos jogadores das seleções adversárias naquela Copa, tais como: Demetrio Albertini da seleção italiana, nossos adversários na final, assim como os jogadores suecos, camaroneses, holandeses, americano Tab Ramos, que nasceu no Uruguai, mas que naquela Copa jogou pelos anfitriões EUA, por imigrado em solo americano com 10 anos dentre outros representando os adversários do Brasil naquela Copa.  

Também conta com depoimento do jornalista esportivo Tino Marcos, que sempre acompanhou a seleção nas coberturas, principalmente durante os mais de 30 anos que prestou serviço para a Globo.





Esses depoimentos são os que ajudam a construir toda a narrativa de como foi a conquista da seleção desacreditada conseguir conquistar a jornada heroica do Tetracampeonato.

Que vão se intercalando com o vasto material de arquivo das reportagens fazendo a cobertura do evento, e nesses arquivos aparecem algumas figuras saudosas como a de Mário Jorge Lobo Zagallo(1931-2024), técnico do Tri** que acompanhou a seleção como assistente técnico, o saudoso Pelé(1940-2022) dando seus pitacos em entrevista  e Fernando Vannunci(1951-2020), outro nome importante do jornalismo esportivo brasileiro também são mostrados nesses arquivos noticiando a cobertura da Copa.





Onde todos eles explicam a preocupação psicológica de trazer isso para a população brasileira, ainda mais naquele momento daquele contexto histórico específico, onde como já antecipei o cenário socioeconômico do Brasil naquela primeira metade da década de 1990, estava vivendo um caos herdado do fim da Ditadura Militar que foi  da alta taxa de inflação, quando houve a primeira eleição presidencial direta em 1989 que elegeu Fernando Collor de Mello como o primeiro presidente eleito diretamente a situação piorou com os seus planos econômicos desastrosos como o Plano Verão, Plano Collor 1 e Plano Collor 2. Isto acabou por resultar no seu Impeachment em 1992.

Até surgir o Plano Real em Julho de 1994,  do qual  acompanhei o seu surgimento que foi uma febre na época em que estávamos mais otimistas pela conquista do Tetracampeonato da Seleção Brasileira  de Futebol na Copa do Mundo nos EUA onde algumas coisas básicas dava para se comprar com 1,00 Real,  seu  crescimento e sua atividade até hoje passados mais de 30 anos,  eu não tinha a menor dimensão de como estava passando o nosso Brasil anteriormente quando o Plano Real  nasceu e nem como essa importante moeda foi concebida, como o filme Real-O Plano Por Trás da História(Brasil, 2017),  retratou  bem como foram os bastidores da criação desta importante moeda que ajudou a tirar o Brasil  do sufoco da inflação que já vinha acompanhado e atormentando os brasileiros desde a década de 1980.

Essa obra dirigida por Rodrigo Bittencourt  com roteiro escrito por  Mikael de Albuquerque, adaptado do livro 3.000 dias no bunker – Um plano na cabeça e um país na mão  de autoria do jornalista Guilherme Fiuza, faz uma excelente dramatização sobre o surgimento da moeda no mesmo momento em que o foco estava na Copa do Mundo com a seleção fazendo uma ótima campanha com o tetracampeonato. Onde mostra o envolvimento do sociólogo Fernando Henrique Cardoso***, então Ministro da Fazenda de Itamar Franco(1930-2011) entre as mentes criativas como Gustavo Franco do Plano Real que o ajudou a eleger para a Presidência da República no mesmo ano de 1994.

Também fazem menção ao momento triste de que antes da copa o Brasil perdeu dois talentos do esporte: Primeiro do jogador Denner de 23 anos que era um talento promissor do futebol estava jogando no time da Portuguesa e estava cotado para disputar aquela até que tragicamente ele morreu em um acidente automobilístico no dia 19 de Abril de 1994. Sobre Denner, Luciano Ubirajara Nassar, autor do livro “Denner-O Deus do Dribler”:

Pela etnia, história de vida, ligação com o samba e o drible, ele representava o povo brasileiro.”

       Em seguida foi a perda do ídolo brasileiro da Formula Ayrton Senna(1960-1994) aos 34 anos, em 1º de Maio de 1994 quando estava disputando o Grande Prêmio de San Marino. A quem os jogadores, dedicaram uma homenagem no dia da conquista do Tetracampeonato.

       No balanço geral, posso concluir que documentário vale a pena ser assistido para os amantes do futebol.

 

*No momento em que escrevo esse texto, o ex-técnico da seleção tetracampeã do mundo, aos 83 anos,  está hospitalizado desde do 16 de Junho no Hospital Samaritano Barra no Rio de Janeiro por conta de uma inflamação pulmonar. “O ex-treinador convive desde 2023 com um linfoma de Hodgkin, tipo de câncer que se desenvolve no sistema linfático — rede de vasos e gânglios responsável pela defesa do organismo. Parreira chegou a ser considerado em remissão em 2025, mas voltou a necessitar de tratamento oncológico após a retomada da doença, situação que exige acompanhamento rigoroso, especialmente em pacientes mais idosos.”(Fonte: Site G1).

**Também na Netflix tem uma produção que aborda sobre o Tricampeonato em 1970 no México, o mesmo que figura  os três países que estão sediando essa Copa de 2026. Trata-se da minissérie Brasil 70: A Saga do Tri(Brasil, 2026). Produção da Netflix em parceria com a produtora independente 02 Filmes, que dramatiza em cinco episódios a jornada dos bastidores da seleção brasileira pela campanha do Tri em 1970, um título que deu alegria aos brasileiros em plena época opressiva de Ditadura Militar no Brasil. Produção que conta com a direção de Paulo Morelli, do seu filho Pedro Morelli e de Quico Meirelles com roteiro assinado por seis roteiristas e dentre os destaques das feras presentes no elenco estão: Rodrigo Santoro representando João Saldanha(1917-1990), que foi escolhido para ser técnico, mas que foi substituído por Zagallo pouco antes da Copa começar. Zagallo que é representado por Bruno Mazzeo, Nelson Baskerville representa João Havelange, o polêmico dirigente esportivo brasileiro que chegou a ser um dos poderosos da FIFA que morreu já centenário em 2016 e Marcelo Adnet representando o locutor Eusébio Teixeira que é um personagem ficcional criado para fins de simbolizar um pouco da emoção de cada brasileiro e também para condensar os diferentes locutores brasileiros que narraram essa partida.

***No momento em que escrevo esse texto, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso vem enfrentando aos 95 anos, um drama de interdição judicial por conta do Alzheimer. Um de seus filhos foi nomeado curador provisório. Ele sequer nem se lembra mais que já foi Presidente da República.