Na
terça-feira, 13 de outubro de 2026, a música brasileira perdeu o talento de
Ernesto de Souza Andrade Júnior vulgo Netinho, ele estava com 60 anos. Faleceu
no Hospital Aliança Star, em Salvador, onde estava internado para tratar da
recidiva de um linfoma não Hodgkin.
Fazia
uns bons anos que sua saúde andava comprometida, principalmente depois que em
2013 ele sofreu 3 AVCs que o deixaram afastado dos palcos para tratamento
médico. Agravado pelo diagnóstico de adenomas hepáticos e complicações
infecciosas. Supostamente ocasionado pelo uso de anabolizantes que o cantor
usava para tratamento.
Que só
foi piorando com o passar do tempo, principalmente, depois que em 2025, ele
recebeu um diagnóstico de linfoma.
Quem
foi da geração como a minha que alcançou o auge do axé music, com certeza vai
carrega uma boa recordação das suas canções que animaram e embalaram muita gente
fosse tocando nas rádios, nos programas de televisão ou mesmo das festividades
das micaretas.
Ele
começou sua carreira surgindo na década de 1980 na Banda Beijo do qual foi vocalista, até que ali por volta de 1993
partiu para se consolidar em carreira solo.
Ele
foi um importante nome desse movimento que contribuiu principalmente para que
os artistas desse gênero se aceitasse como sendo de axé mesmo. Como assim?
É
meio confuso, mas vou tentar explicar, quando esse gênero musical tipicamente
baiano se deu com o lançamento do álbum Magia
de Luiz Caldas em 1985, onde das 10 músicas que compõe o repertório desse
álbum, foi a sexta canção Fricote,
do polêmico trecho racista da “Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear”,
fez muito sucesso comercialmente a nível nacional, muito disso graças a
figura de Abelardo Barbosa vulgo Chacrinha(1917-1988), importante nome pioneiro
da tv brasileira que ao tomar conhecimento dessa empolgante canção, convidou
Luiz Caldas para se apresentar em seu programa o Cassino do Chacrinha, e
foi uma presença recorrente, assim como aconteceu com Sarajane, Cid Guerreiro e o Chiclete com Banana.
Esse
é considerado o ponto de partida que explica o surgimento desse ritmo musical
que é muito conectado ao carnaval baiano.
Se
bem que na verdade, a festividade do carnaval baiano não surgiu a partir desse
movimento, e não foi Luiz Caldas o responsável por nomear isso comercialmente
de Axé Music como nós conhecemos.
Para
explicar melhor de forma resumida, a festividade micareta já era algo que vinha
acompanhando a festividade do carnaval da Bahia há décadas, e quando na década
de 1950 que uma dupla de músicos formado
por Adolfo Antônio “Dodô” Nascimento (1920-1978) e Osmar Álvares
Macedo(1923-1997) resolvem se apresentarem dentro de um carro Ford Modelo T
fabricado em 1929 e apelidado de Fobica Elétrica.
Elétrica
porque eles adaptaram por meio de amplificadores usando de guitarras,
inspiradas na sonoridade do frevo pernambucano adaptando para algo mais
tipicamente baiano, o que ficou chamado de guitarra baiana que eram para serem
ouvidas e reproduzidas em todo o lugar.
Foi
um precursor do modelo que conhecemos da caminhonete que circula com a multidão
entre os camarotes com os cantores em cima se apresentando e puxando o bloco,
denominados de puxadores de blocos.
Em
seguida, quando ele trocaram de carro por uma
pick-up Chrysler Fargo e adicionaram um triolim (guitarra
tenor) tocado pelo amigo Temístocles Aragão formando, assim, o "trio
elétrico"; em 1952 mais inovações foram introduzidas formando um total de
oito alto-falantes, geradores adicionais, e receberam o apoio da fábrica baiana
de refrigerantes Fratelli Vita; em 1953 a invenção foi copiada por outros
grupos ("5 Irmãos", "Ipiranga" e "Conjunto
Atlas") e o conceito do "Trio Elétrico" se consagrou.
Mesmo
Temístocles* tendo permanecido pouco tempo, o termo trio elétrico pegou,
principalmente quando por volta dos anos 1970, o filho de Osmar, o guitarrista
Armando da Costa Macedo, o “Armandinho”, passou a tocar junto no trio que
passou a ser referido como trio elétrico Armandinho, Dodô & Osmar.
“Atrás do Trio Elétrico só não vai quem já
morreu”.
E o finado Moraes Moreira(1947-2020) após sair dos
Novos Baianos, em carreira solo passou a tocar em trio elétrico nas
festividades do carnaval baiano.
O
responsável por batizar aquilo como Axé Music, foi o jornalista Hagamenon
Brito, um crítico musical que cravou essa denominação especifica como tal ao
publicar em 1987 o artigo em sua coluna
no importante jornal de grande circulação no estado da Bahia que é o Correio da Bahia.
Que
foi dado com o cunho pejorativo segundo pelo que ele mesmo explicou
recentemente numa entrevista ao site do Jornal Correio da Bahia de 1º de
Fevereiro de 2025:
“Quando
eu criei o termo Axé Music tinha uma ironia, era uma brincadeira. Axé era como
a minha geração - roqueira influenciada pelo punk e pós-punk - se referia àquela
estética e não àquela música. Hoje em dia falam que se referia à música e aos
músicos. Mentira! A gente se referia à estética, que a gente considerava brega.
Até hoje eu considero. Quando eu via os vídeos antigos de Luiz Caldas de pés
descalços, com as roupas parecendo um hippie e com penas de pavão no brinco,
achava brega. Eu achava Sarajane dançando, daquele jeito exótico, brega. Já
falei isso pra ela, a gente dá risada.”
O
termo que Hagamenom batizou para aquele novo estilo de música surgida na Bahia
nos anos 1980, vem justamente de origem africana, um termo iorubá, que
significa energia, poder e força.
O
que faz sentido para a influência da musicalidade africana herdada do povo
escravo. Principalmente de conjuntos
musicais como: Ollodum, Timbalada, Ara Ketu, cujas letras,
expressavam aquele tom que exaltavam sem que você percebesse um pouco dessa
riqueza cultural, um tanto marginalizada.
Por
causa do tom pejorativo inicial, muitos
dos artistas desse movimento não se reconheciam pertencendo ao rótulo de
axé music, principalmente quando a grande mídia de massa achando esse nome soar
forte, o transformou em rótulo comercial, principalmente quando ali por volta
do final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, com a expansão da festividade
das micaretas com sua estrutura trazendo os camarotes, os abadás, os cantores cada
um representando cada um os blocos e
suas pipocas** se apresentando em trio elétricos foi integrando o calendário
das festividades de cada estado brasileiro.
Esse gênero musical do Axé Music fez a Bahia figurar como o grande polo da indústria fonográfica brasileira, graças ao incentivo do empresário Wesley Rangel (1950-2016) ao criar um estúdio no próprio estado o Estúdio WR, onde os artistas gravavam seus discos lá mesmo, ainda que estivesse longe de se equiparar aos recursos de níveis de produção das grandes gravadoras comerciais do Eixo Rio-São Paulo.
Netinho
em seu último período integrando a Banda
Beijo lançou em 1992, o LP pelo selo da Polygram com o nome proposital de Axé Music Aconteceu, isso ocorreu porque
no ano anterior ele gravou o LP Bandmeira,
onde procurou trabalhar de uma forma mais experimental fugindo um pouco do
axé, algo que ele sempre que possível procurava fazer, mas como o disco foi um
fracasso de vendas, ele ao fazer isso acabou contribuindo para que outros
companheiros seus de micaretas se reconhecessem como sendo de axé music, ainda
mais depois do estouro que naquele mesmo
ano de 1992, Daniela Mercury com o fenômeno de O Canto da Cidade, ela que digamos também se lançou artisticamente contemporânea
a Netinho nos anos 1980 cantando numa banda chamada Companhia Chic, foi o que sacramentou o Axé Music comercialmente.
A
partir de 1993, quando ele se lançou em carreira solo foi conseguindo se
ascender e se firmar nessa nova etapa, graças ao fato de suas canções comporem o
repertorio de trilhas sonoras das novelas da Globo como: A vida é Festa tocada em Mulheres
de Areia(1993), Menina, uma regravação
de Paulinho Nogueira(1927-2003) que foi tocada na novela Tropicaliente(1994), Como? Foi tocada na novela História de Amor(1995-1996), Pra
te ter aqui que tocou em Corpo
Dourado(1998) e foi convidado para gravar em italiano para a trilha sonora Terra Nostra(1999-2000).
Foi
nessa sua fase solo, que ele fez sucesso com a canção Milla, uma composição de Manno Góes e Tuca Fernandes, que
integravam a banda de axé Jammil e uma
Noites para compor o repertório do álbum Netinho Ao Vivo!(1996), gravado pelo antigo selo da Polygram, atual Universal Music, cuja gravação ocorreu em Aracaju/SE na famosa Casa
de Espetáculos Augusto´s.
Um
fato curioso sobre esse CD ao vivo de Netinho marcado pelo sucesso de Milla que estourou nas rádios de todo o
Brasil e ninguém botava muita fé no sucesso é que sua produção contou com o
envolvimento do recém-falecido Guto Graça Mello(1948-2026), importante produtor
musical responsável por contribuir com as trilhas sonoras de novelas e cinema.
A
BRIGA DE NETINHO COM O AUTOR DE MILLA.
Foi
por causa do sucesso Milla, que
Netinho já enfrentou umas duas brigas jurídicas com Manno Góes, um dos autores
da canção Milla, que se inspirou numa
antiga paixão sua da adolescência nos anos 1980 em Mar Grande, na Ilha de
Itaparica/BA.
O
negócio é meio complexo e cheio de nuances, mas para dar uma simplificada
resumida vou começar do ponto de partida de onde justamente Netinho se lançou
em carreira solo após sua passagem pela Banda
Beijo, onde inclusive o projetou internacionalmente quando em 1990, eles
foram convidados para tocarem na Itália em plena época de Copa do Mundo.
Então,
ao mesmo tempo que sua carreira solo estava crescendo graças aos sucessos
acumulados com suas canções compondo o repertório de novelas da Globo. Ele
também se enveredava para o lado empresarial.
Com
base na informação tirada do canal do Youtube, Cara do Axé, apresentado por Cassiano Queiroz, num vídeo postado em
fevereiro de 2025 focado na banda, Netinho fundou uma empesa chamada de ME Editora, onde ele passou a agenciar
artistas que estavam começando na carreira.
E
dentre esses artistas estava um trio formado pelos já citados Manno Góes, Tuca
Fernandes autores de Milla, e Beto
Spinola, que formaram o Jammil e Uma
Noites, quer dizer, não o bem Jammil como
conhecemos. Na verdade eles tinham outro nome que era Jheremias Não Bate Corner que tocavam o estilo de axé, usando uma
roupagem e rock e samba-reggae.
Que
segundo uma breve informação do site Carnaxé
sobre a trajetória da banda, ele explica que a escolha do nome inicial: “JHEREMMIAS NÃO BATE CORNER surgiu de uma
brincadeira no futebol. Brincadeira que traduziu a alegria e espontaneidade da
banda, que tinha o sonho de trazer a alegria do gol para os palcos.”
Foi
dessa fase deles como Jheremias que a
banda lançou primeiramente Milla, o
que explica a razão do porquê Netinho gravou essa canção mais para frente no
seu CD ao vivo que foi um sucesso estrondoso, havia ali uma forte conexão
empresarial dele com essa banda.
A
razão para mais frente o Jheremias mudar
para Jammil e Uma Noites, se deu por
causa do rompimento contratual da banda por conta de divergências gerenciais
com Netinho.
Como
a empresa de Netinho detinha a propriedade do nome Jheremias, eles ao começarem do zero mudaram com outro nome e outro
empresário para Jammil e Uma Noites, fazendo
um trocadilho com o famoso título literário das Mil e Uma Noites, onde Góes não por acaso faz menção no famoso
trecho de Milla:
Oh Milla,
Mil e Uma noites de amor com
você.
Esse
livro que reúne todas as histórias fantásticas do povo do Oriente Médio que já
foi muito explorado em outras manifestações culturais, levando em conta que
essa obra ela é de domínio público.
No
entanto, retornando ao foco sobre Netinho, pior mesmo foi quando anos depois em
2021, ele enfrentou um embate jurídico envolvendo Milla que foi de lascar mesmo para ambos.
Netinho
por sua polêmica postura política com o bolsonarismo, tocou a canção Milla em pleno comício bolsonarista.
Algo que deixou Manno Góes, o autor da canção super irritado e deu início a uma
batalha jurídica onde Manno chegou a declarar em redes socais, seu repudio o
chamando de débil mental e solicitou a proibição da execução da música.
Esse
atrito jurídico foi o que azedou de vez a relação deles, a ponto de não mais se
falarem. No entanto, Góes em respeito a notícia da morte do cantor chegou a
postar uma nota de pesar em seu instagram em nome do Jammil pela perda de Netinho:
“A
banda JAMMIL se solidariza com os fãs e amigos do cantor Netinho, que deixa um
legado inegável na história da música baiana”, diz o storie feito pela banda e
republicado por Manno Góes, que não acrescentou nenhuma mensagem própria.”
Essa controversa postura política ao bolsonarismo de
Netinho o torna bem contraditório, visto que ele era uma pessoa pública que
procurava manter uma discrição na vida pessoal. Ele deixa uma filha de 28 anos, Bruna Trindade
que é médica ortopedista, fruto de seu casamento com a jornalista Mariana
Trindade com quem ele foi casado entre 1997 a 2003.
Por volta de 2008, revelou publicamente sua
bissuxualidade e durante esse período de desgoverno bolsonarista chegou a
opinar contrário ao público LGBTQIAPN+.
O AXÉ MORREU SEGUNDO NETINHO.
A notícia da morte de Netinho também fez repercutir
uma frase dita por ele numa entrevista à Rádio Metrópole de Salvador, colocando
que “O Axé Morreu”, de modo parecido
ele também comentou de forma mais contida no documentário Axé: Canto do Povo de um Lugar(Brasil,2017), dirigido e roteirizado
por Chico Kertész.
Onde argumentou mencionando que o Axé só sobrevivia
com ele, Bell Marques, Luiz Caldas, Durvall Lellis dentre outros.
Esse tipo de postura sua tem muita relação não só na
visão artística dele, mas também de empresário. Revisando tudo o que eu já
expliquei de que em paralelo a sua crescente carreira solo após sair da Banda Beijo, ele também virou um
empresário, montou uma empresa e investiu num ramo que ele bem conhecia que era
a música, onde descrevendo num português simples, ele apadrinhou a carreira do Jammil quando era Jheremias.
Pois bem, por essa linha de raciocínio Netinho colocou
muito da sua visão empresarial em consequência da falta de renovação de
artistas do gênero, como consequência da perda de espaço no mercado
e ao fim de uma era de ouro na produção desse estilo musical.
Para ele, o axé deixou de existir como uma engrenagem ativa de novos
lançamentos e novas bandas massivas.
Muito
disso, consequência do fato de que a partir dos anos 2010, ele menciona que a
onda do sertanejo da vertente de Luan Santana, artistas que por atrair o público
cantando nas universidades foram denominados de sertanejo universitários. E com
o piseiro, uma variante do pagode baiano e não sentido nenhum artista formado
para tocar axé mesmo de raiz e vendo que só as micaretas sobreviviam com os
nomes consagrados, ele de fato tinha motivos para defender essa sua opinião.
Ainda
mais que o negócio foi agravado pelo fato da mudança de consumir música com o
fim do modelo tradicional da mídia física para o modelo de digital de streaming
de spotify que dependente de um algoritmo, ele não repassa direitos autorais
aos artistas e dentre outros problemas gerenciais.
Enfim,
posso concluir que de todo jeito, o legado de Netinho ficará marcado para
sempre na história da música baiana, mesmo com as polêmicas, nada disso irá
apagar seu legado.
Im
Memoriam,
Netinho.
(1966-2026).
*Das poucas informações que se sabe sobre
Temístocles Aragão, o músico baiano, conhecido historicamente por ser o
terceiro integrante que transformou a dupla Dodô e Osmar no definitivo "trio
elétrico" em 1951, ainda que por pouco
tempo, faleceu tragicamente acompanhado de sua esposa Edna Bouças de Aragão num
acidente automobilístico em 23 de maio de 1976.
**A palavra pipoca aqui no jargão das
micaretas serve para designar o espaço público e gratuito na avenida (rua),
onde os foliões acompanham os trios elétricos fora dos blocos fechados e
cordões de isolamento.














































