No
dia 27 de Julho de 1996, ocorreu um atentado terrorista durante os Jogos
Olímpicos de Atlanta, cujos equívocos sobre de quem foi seu autor, ocasionaram
num dos episódios mais atrapalhados e equivocados da investigação da história
dos Estados Unidos, um episódio que ficou conhecido como o Atentado ao Parque Olímpico Centenário.
A
explosão ocorreu horas depois do alerta do segurança Richard Jewell(1962-2007),
que havia suspeitado de uma mochila verde do exército americano abandonada no
local escrita com o nome ALICE, que continha “três bombas caseiras cheias de pólvora sem
fumaça, cercadas por pregos de alvenaria de 7,6 cm (três polegadas)” e
mandou todos evacuarem ao redor do local onde estava ocorrendo a apresentação
musical da banda Jack Mack and The Heart
Attack, o seu alerta conseguiu salvar a vida de muitas pessoas, no entanto,
essa explosão vitimou 111 pessoas feridas e
deixou dois mortos que foram: Alice Hawthorne, uma senhora americana natural
da Geórgia que morreu na explosão e o cinegrafista turco Melih Uzunyol cuja
consequência da morte foi indiretamente
pois havia sofrido uma parada cardíaca quando estava se dirigindo ao local.
“Jewell foi celebrado pelo
ato e rapidamente ganhou os holofotes. Entretanto, uma reportagem da jornalista
Kathy Scruggs para o The Atlanta Journal-Constitution colocou em cheque a real
intenção de Richard. Informada por uma fonte do FBI que ele era o principal suspeito
por ter plantado a bomba, Kathy publicou uma matéria relatando o fato, o que
mudou a vida de Jewell e de sua mãe, Bobi, completamente.”
(Retirado
da matéria do site Aventuras na História,
publicada em 6 de Janeiro de 2020).
Por
conta de todos os equívocos, a vida de Richard Jewell virou do avesso, com o
FBI e a imprensa na sua cola e muita coisa do seu passado foi exposta,
principalmente a respeito de sua personalidade de homem fracassado que usou
daquilo como artificio para se destacar como herói, e muita gente chegava a
fazer piadas gordofobicas sobre seu peso, só muito tempo depois que foram
averiguados que ele não poderia ter planejado o atentado é que ele deixou de
ser suspeito.
Somente
em 1998, foi que se descobriu de quem foi autoria do atentado, principalmente
depois de investigarem a similaridade de três séries de explosões que ocorreram
seguidas ao atentado no Parque Centenário: Em 16 de Janeiro de 1997, houve uma
explosão numa clínica de aborto no subúrbio de Sandy Springs, em Atlanta, um
mês depois, em 21 de Fevereiro de 1997, houve a explosão também em Atlanta de
um bar de lésbicas, ferindo cinco pessoas e em 29 de Janeiro de 1998, houve
uma explosão em uma Clínica de Abortos em Birmigham, no
Alabama. “Matando o policial de
Birmingham e guarda de segurança da clínica Robert Sanderson, e ferindo
gravemente a enfermeira Emily Lyons. As bombas de Rudolph continham pregos que
agiam como estilhaços.”
(Wikipédia).
Foi
nesse último que através do retrato falado, se descobriu que o verdadeiro autor
da explosão era Eric Rudolph, um terrorista doméstico e fanático religioso ligado
a movimentos extremistas cristãos da supremacia branca que em 5 de Maio de 1998
entrou na lista dos procurados do FBI, só sendo preso apenas em 31 de Maio de 2003, depois de passar cinco anos
recluso nas Florestas da Carolina do Norte. Em
2005, Rudolph se declarou culpado de várias acusações de homicídio federais e
estaduais e aceitou cinco penas de prisão perpétua consecutivas em troca de evitar
um julgamento e uma sentença de morte em potencial.
Rudolph
cumpre prisão no Presidio Federal Adx Florence.
As
motivações que ocasionaram Rudolph a promover esse atentado tem um pouco de relação
com a sua pregressa formação religiosa, Eric Robert Rudolph nasceu na Flórida
em 1966, perdeu o pai em 1981, na época era um adolescente com 15 anos.
Mudou-se junto com sua mãe e seus irmãos para Nantahala na Carolina do Norte.
Chegou
a frequentar a Escola em Nantahala, fazendo a Nona Série, mas decidiu abandonar
os estudos e trabalhou como carpinteiro ao lado de seu irmão Daniel.
Quando
estava com 18 anos, Rudolph chegou a frequentar com sua mãe uma seita religiosa
conhecida como Igreja de Israel.
Chegou
a se alistar no Exército onde prestou serviço até sua dispensa em Janeiro de
1989, após ser flagrado fumando maconha.
Até
o episódio do atentado no Parque Centenário durante os Jogos Olímpicos de
Atlanta em 1996, Rudolph mantinha uma forte conexão com grupos supremacistas
brancos e havia integrado ao Exército de Deus.
Segundo
Rudolph declarou em 13 de Abril de 2005, durante sua condenação sobre a
motivação do atentado:
“No verão de 1996, o mundo
convergiu para Atlanta para os Jogos Olímpicos. Sob a proteção e os auspícios
do regime em Washington, milhões de pessoas vieram celebrar os ideais do
socialismo global. Corporações multinacionais gastaram bilhões de dólares, e
Washington organizou um exército de segurança para proteger esses jogos,
considerados os melhores de todos. Embora a concepção e o propósito do chamado
movimento olímpico seja promover os valores do socialismo global, perfeitamente
expressos na canção "Imagine ", de John Lennon, que foi o tema dos
Jogos de 1996, o objetivo do ataque de 27 de julho foi confundir, irritar e
envergonhar o governo de Washington perante o mundo por sua abominável
aprovação do aborto a pedido. O plano era forçar o cancelamento dos jogos, ou
pelo menos criar um estado de insegurança para esvaziar as ruas ao redor dos
locais de competição e, assim, consumir as vastas quantias de dinheiro que
haviam sido investidas neles.”
Um
fato que chama aqui a atenção sobre esse perfil de atentado promovido por
Rudolph, é que ele reflete justamente como os Estados Unidos estava lidando durante
a década de 1990 com um cenário violento relacionado aos aspectos do terrorismo doméstico junto ao
movimento do extremismo religioso
cristão que marcaram episódios trágicos na história social americana como o
Cerco de Waco em 1993, onde a polícia tentava libertar os reféns da seita religiosa
Davidiana de David Koresh(1959-1993) e a
Explosão do Prédio de Oklahoma ocorrido em 1995, onde seu respectivo autor
Timonty McVeigh(1968-2001), um veterano da Guerra do Golfo, quis vingar pelo
Cerco de Waco.
Junte
também ao fato que fazia bem uns vinte anos que as agências americanas estavam à
procura de outro temido terrorista doméstico chamado de Ted Kaczynski
(1942-2023), mais conhecido como Unambomber, um ecoterrorista que por volta de
1978 a 1995, foi responsável por enviar bombas nas universidades americanas,
cujas explosões ocasionaram em mortes e foi somente na última vez que ele
enviou uma carta aos jornais, que seu texto foi reconhecido por seu irmão David
que fez contato com o FBI, informou o seu paradeiro que morava numa cabana,
dentro da floresta, vivendo uma vida rústica, sem água encanada, que do jeito
que o lugar era um verdadeiro chiqueiro e do jeito que o cara era um sujismundo ele devia cheirar mal à beça, principalmente
quando foi preso em 1996, ele cumpriu prisão em Adx Florence até o seu
falecimento em 2023.
DRAMATIZAÇÃO
NO CINEMA
Em
2019, esse episódio foi retratado no filme O
Caso Richard Jewell(Richard Jewell, EUA, 2019), esse drama biográfico que
contou com a direção e produção de Clint Eastwood, com roteiro assinado por Billy
Ray, que baseou a estrutura do roteiro no artigo da jornalista Marie Brenner
publicado em 1997 na importante revista Vanity
Fair e no livro investigativo O
Suspeito: Um Atentado nas Olimpíadas, o FBI, a Mídia e Richard Jewell, o Homem
Preso no Meio de autoria de Kevin
Salwen e Kent Alexander, publicado em 2019, ainda sem tradução para o português.
A maneira como a história é narrada, mesmo se
baseando nos fatos verídicos de conhecimento público, ainda assim foram impressas
umas doses de licenças poéticas.
A trama é narrada pela ótica do Jewell(Paul Walter
Hause), tendo como ponto de partida o dia anterior da trágica explosão, com ele
no Parque Centenário prestando o seu serviço de segurança observando a multidão
prestigiando a apresentação musical de Kenny Rogers(1938-2020), o famoso ícone da
música country.
E temos
então a reconstituição do trágico dia da explosão, onde mostra a ligação de Rudolph
a um telefone público próximo ao Parque Centenário falando da bomba, enquanto
que acompanhamos Jewell alertando para o povo se afastar.
Em paralelo, somos apresentados a jornalista Kathy
Scruggs(Olivia Wilde) na redação do jornal The Atlanta Journal, querendo
investigar o caso e ao se informar com um agente do FBI, que lhe passa a
informação equivocada que Jewell era o suspeito e ela passa essa informação, começou o
calvário na vida de Jewell, com o FBI confiscando seus bens cuidando de sua
pobre mãe doente Barbara “Bobi” Jewell(Kathy Bates) e a única pessoa que vai
ser possível lhe defender é o advogado Watson Bryant(Sam Rockwell) que vai responsável
pelo desfecho da reviravolta no seu caso e provar sua inocência.
Essa produção que consumiu cinco anos para ser
concretizada, desde que foi anunciado em Fevereiro de 2014, onde as primeiras
pessoas envolvidas nesse projeto foram: os atores Jonah Hill que seria o
protagonista Jewell cujo papel acabou ficando com Paul Walter Hauser e Leonardo
DiCaprio que foi cotado para ser Bryant o advogado de defesa de Jewell que
ficou com Sam Rockwell.
Antes de Eastwood assumir a direção e produção, os
primeiros diretores cotados foram: Paul Greengrass e Ezra Edelman e todas essas
passadas de mãos e o único nome que se manteve desde o início foi do roteirista
Billy Ray e sem nenhuma novidade sobre o desenvolvimento do projeto até
começarem as filmagens em Atlanta em Junho de 2019.
Do elenco vale mencionar o brilhante desempenho de
Paul Walter Hauser como o protagonista, ele consegue bem transmitir a essência do
Jewell como um sujeito com ares excêntricos, ainda mais quando lida com a
loucura do circo midiático que sua virou após virar o suspeito da explosão,
cujas únicas pessoas que lhe dão apoio nesse momento é sua mãe de quem ele já cuidava
e seu advogado.
Além dele, merece também menção o bom desempenho de
Sam Rockell, na pele do Bryant, o seu advogado de defesa que na verdade “ele nunca representou um suposto
assassino, muito menos alguém acusado de um ataque terrorista doméstico que
matou duas pessoas e feriu outras 111”.(Retirada do site Oxygen, de
26 de Dezembro de 2019).
Era
um advogado imobiliário com quem Jewell já conhecia e é mostrado no filme que
Bryant foi seu empregador no escritório que ele prestou serviço antes de virar
o segurança dos Jogos Olímpicos, ele vai assumir uma importante função numa
cena em que quando ele vai direção aos telefones públicos de onde foram feita a
ligação antes da explosão, ele vai notando uma verdadeira inconsistência que
prova que não podia ser Jewell o autor da bomba ao verificar o distanciamento
do lugar dos telefones públicos para o Parque Centenário e o tempo entre a
ligação e a explosão, e isso vai ser o ponto de virada para provar sua inocência.
Ainda que de fato, isso não tenha ocorrido, pelo menos serviu para condensar
uma importante figura heroica de porto seguro para ele naquele momento
complicado da sua vida, o que fortaleceu uma forte relação de amizade entre os
dois, ao ponto de quando Bryant se casou com Nadya Ligth, sua assistente que aparece no
filme representada por Nina Arianda, e tiveram filhos, eles contrataram a mãe
de Jewell, Bobi para ser uma babá deles semanalmente.
A
mãe de Jewell, Bobi Jewell* que foi muito bem representada no filme por Katty
Bates, que transmiti bem em cena a sensação dolorosa de ver seu filho ser injustamente
incriminado por esse crime que não cometeu e que devido a uma série de equívocos
o tornou suspeito. A cena dela numa coletiva de imprensa, implorando as lágrimas
pela inocência é de cortar o coração. Por esse desempenho, ela chegou a receber uma
indicação no Oscar 2020 na categoria de melhor atriz coadjuvante.
Na
ocasião do lançamento do filme, ela que ainda estava viva declarou publicamente
seus elogios a maneira como o filme veio para preservar a memória de seu filho
que havia falecido 12 anos antes, e mostrar como equívocos podem mudar a vida
de uma pessoa. Bobi Jewell faleceu em 2024, aos 88 anos, em Atlanta.
E
outra menção ao elenco vai para Olivia Wilde no papel da jornalista Katthy
Scrugs(1958-2001), a responsável pela informação equivocada da suspeita do FBI
em torno de Jewell que fez sua vida virar do avesso.
A
maneira como ela foi retratada na obra gerou uma polêmica na época do
lançamento, principalmente pelo momento onde mostra ela dialogando com um
agente do FBI num bar oferecendo sexo em troca de informação, isso levou ao
editor do Atlanta Journal Kevin Riley manifestar-se em defesa dela:
“Não consigo acreditar que os cineastas escolheriam
retrata-la dessa forma, especialmente porque não há nenhuma evidência de que
ela tenha feito essas coisa que eles a retratam fazendo”.
Riley
não chegou a trabalhar com Scruggs, mas ouvindo depoimentos de ex-colegas dela
no jornal para manifestar essa postura em defesa dela, sobre o seu perfil obstinada,
que trabalhava duro para conseguir umas informações.
Isso
ocorreu pelo fato de que Katthy Scruggs já era finada na ocasião do lançamento
do filme, a jornalista faleceu em 2001, aos 42 anos, vítima de uma overdose de
medicamentos.
No
entanto, apesar dessa representação equivocada escolhida ao abordar a personagem
para o filme, pelo menos a sua interprete soube bem como desempenhar o perfil
um tanto arrogante ao qual ela foi desenhada com ares vilanescos para a gente
sentir mesmo uma repulsa dela, principalmente da forma como ela acabou
transformando a vida de Jewell do avesso.
O
filme se conclui mostrando uma cena que se passa sete anos após todos os
acontecimentos após a explosão, onde Jewell numa delegacia prestando serviço de
policial recebe a visita de Bryant e ele o informa da captura de Rudolph.
Nos
anos que se seguiram, Jewell foi
exigindo reparação da parte da imprensa pelas difamações que o equívoco da mídia
causou em sua vida.
Dois
anos após o episódio do Atentado durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, Jewell
conheceu Dana com quem se casou em 2001, com ela viveu numa fazenda na Geórgia
criando animais de estimação até Jewell falecer em 2007, aos 44 anos, vitimado
pela diabetes. Eles não tiveram filhos.
*Esse
sobrenome é do segundo marido de Barbara Bobi Jewell, John Jewell, um executivo
de seguros que a conheceu quando ela estava com Richard pequeno que ao nascer
foi registrado como Richard White, sendo filho de Robert Earl White e quando o
seu padrasto John o adotou passou a assinar com o sobrenome dele.



















































