No
dia 04 de Março de 1996, estreava em cartaz na Globo no horário das seis, a
novela Quem é Você(1996).
Essa
novela foi concebida com argumento de Ivani Ribeiro(1922-1995), que começou a
desenvolver sua escrita em 1993. Mas que
foi engavetada, “O título original era Caminho dos Ventos.
Passados oito meses da morte de Ivani (em 17/07/1995), a trama foi retomada e
ganhou novo título: Quem é Você. No lançamento da novela, foi feita
uma homenagem à autora.”
(Nilson
Xavier no site teledramaturgia)
A
escolha do título “alude a uma série de segredo, as verdadeira faces das personagens da história”.
(Fábio
Costa no canal Observatório da TV com o título O TBT da TV relembra a novela
Quem É Você, que completa 25 anos, publicado em 16 de Abril de 2021).
A
autora já era um nome veterano da televisão desde seus primórdios nos anos
1950, foi daquela primeira geração de roteiristas que estavam começando a
escrever naquele formato experimental que era a televisão, e boa parte era
oriunda do rádio. Ela foi contemporânea de Janete Clair(1925-1983), Dias
Gomes(1922-1999), Cassiano Gabus Mendes(1929-1993), Manoel Carlos(1933-2026)
dentre outros.
Ela
já teve passagens por outras emissoras e havia ingressado na Rede Globo no começo da década de 1980.
A
primeira novela que ela escreveu ao ingressar
na Globo foi Final Feliz(1982-1983),que
foi a única trama original que ela escreveu na emissora, já que as que vieram
em seguidas foram remakes de sucessos que ela já havia escrito em outras
emissoras como: Amor com Amor se Paga(1984), um remake de Camomila e
Bem-Me-Quer(1972-1973) da Tupi, A Gata Comeu(1985) um remake de A
Barba Azul(1974) também da Tupi, Hipertensão(1986) um remake de Nossa
Filha Gabriela(1971) também da Tupi, O Sexo dos Anjos(1989-1990) um
remake de O Terceiro Pecado(1968) da Excelsior, Mulheres de Areia(1993),
um remake da novela de mesmo nome exibido na Tupi em 1973 onde ela inseriu um
entrecho de outra novela sua O Espantalho(1977) pela Rede Record e A
Viagem(1994), remake da novela de mesmo nome exibido pela Tupi em
1975.
E
o argumento que ela desenvolveu para essa novela foi original, não foi baseado
em nenhum remake, ela começou a escrever em 1993, chegou a apresentar para a
direção da Globo que não aprovou, ficou engavetado.
Depois
que foi aprovado, Ivani Ribeiro antes de falecer no dia 17 de Junho de 1995,
por insuficiência renal, ela era diabética. Ela deixou pronto alguns capítulos
e deixou para Solange Castro Neves que foi sua colaboradora em Mulheres de
Areia e A Viagem para escrever os capítulos da novela, que marcou o
seu trabalho póstumo.
O
enredo dessa novela girava em torno do conflito das irmãs Maria Luísa(Elizabeth
Savalla) e Beatriz(Cassia Kiss), que nutrem uma relação complicada com o pai
Nelson(Francisco Cuoco) que as abandonou na infância para viver com outra
mulher. O que causou indiretamente a morte prematura da mãe delas.
“Maria
Luísa passou a refugiar-se em um mundo de fantasia e a venerar o pai. Já
Beatriz reprimiu seus sentimentos e defende-se para que não aconteça com ela o
mesmo que ocorrera à mãe. A primeira tem o afeto do marido Afonso(Alexandre
Borges) e a superproteção do pai. E a
segunda vive às voltas com a solidão.
Na
década de 1970, durante um baile de máscaras em Veneza, Maria Luísa anuncia que
está grávida. Porém, Afonso pensa que o
filho é fruto de uma traição e se vinga, tendo relações sexuais com uma mulher
mascarada. Nove meses depois, Beatriz tem um filho, mas esconde a identidade do
pai, que pode ser o marido da irmã.
No
tempo presente, Beatriz declara à irmã que seu filho, Cadu(Pedro Brício), é
filho de Afonso. Traumatizada com a revelação, Maria Luísa tem um surto de
ausência. O problema se agrava com o aparecimento de Cíntia(Luiza Thomé), uma
corredora de Fórmula 1 por quem Afonso fora apaixonado na adolescência e que
está de volta para lutar por ele.
Todavia,
o perigo maior ainda é Beatriz, que se aproveita da crise no casamento da irmã
e de sua doença para convencer Afonso a interná-la em uma clínica, deixando o
caminho livre para os dois. Maria Luísa não perdoa a traição do marido. Apesar
de amá-lo, foge ajudada por Gabriel(Paulo Gorgulho), um homem misterioso
apaixonado por ela.”
(Teledramaturgia).
Essa
novela que foi concebida por Ivani Ribeiro antes de falecer, coube a Solange
Castro Neves a dura tarefa de escrever os capítulos da novela durante os sete
meses de duração dessa novela que chegou ao fim no dia 7 de Setembro.
Ela
contou com o auxílio de Lauro César Muniz, outro veterano autor de novelas da
velha guarda desde os primórdios da televisão brasileira, que foi o supervisor do texto da novela. Quem
assinou a direção foi o saudoso Herval Rossano(1935-2007), ator de longa
carreira no cinema e na televisão, e foi na televisão dirigindo novelas que ele
consolidou uma brilhante carreira.
Solange
Castro Neves escreveu “apenas os 24 primeiros capítulos (um mês de novela).
Diante da pouca repercussão da trama e, ao desentender-se com Lauro César
Muniz, então supervisor de texto, foi afastada para que ele prosseguisse com os
trabalhos. (“O Globo”, 24/03/1996, pesquisa: Sebastião Uellington Pereira)”
(Teledramaturgia).
Pelo
que a Solange Castro Neves declarou anos
depois aos jornalistas Flávio Ricco e
José Armando Vanucci para o livro Biografia da Televisão Brasileira(Editora
Matrix, 2017):
“Eu
estava acostumada a trabalhar com pessoas que conheciam o meu estilo e o
respeitavam, além da grande confiança mútua. Quando comecei a escrever,
senti-me de certa forma órfã de pai e mãe. A Globo estava passando por uma
enorme mudança com a saída do Boni, e Ivani, Cassiano [Gabus Mendes] e Paulo
Ubiratan haviam falecido”.
Por
conta de todo esse problema envolvendo o fator audiência fez com que essa
novela acabasse não conseguindo fazer sucesso e virou um fracasso.
Um
dos pontos que foi bastante criticado pela imprensa na época foi quanto a
escalação de Alexandre Borges para protagonizar o Afonso, ainda mais pelo fato
de sua pouca idade na época com apenas 29 anos ao ser escalado para representar
um homem de meia-idade que na história central era disputado por duas irmãs que
eram representados por atrizes mais velhas que ele.
Por
exemplo: Elizabeth Savalla que fazia Maria Luísa era doze anos mais velha que
Alexandre Borges e Cassia Kis que vivia a Beatriz era só seis anos mais velha que Alexandre Borges.
Fora o fato dele já ser pai de um filho rapagão, o Mauricio vivido pelo estreante Thiago Picchi,
que era filho na vida real de Elizabeth Savalla que viveu sua mãe na novela que
na ocasião estava com apenas 19 anos e era o suposto pai do jovem Cadu, filho
da Beatriz, vivido pelo também estreante
Pedro Brício que estava com 24 anos.
Ainda
mais levando em conta que naquele momento ele era um ator que havia ingressado
na TV fazia pouco tempo. Seu primeiro trabalho foi em Guerra Sem Fim(1993-1994)
exibida na extinta Rede Manchete.
Só
ingressou na Globo a partir da minissérie Incidente em Antares(1994)
onde representou o Padre Pedro Paulo nessa adaptação de Nelson Nadotti e
Charles Peixoto do romance homônimo de Érico Verissimo(1905-1975).
Durante
o ano de 1995, ele emendou participações em Engraçadinha(1995),
minissérie adaptada do romance do controverso Nelson Rodrigues(1912-1980) onde
ele representou Luís Claudio que fez a memorável cena picante com a
protagonista na chuva. Também participou de um episódio de A Comédia da Vida
Privada*(1995-1997) e do Você Decide(1992-2000) e em A Próxima Vítima(1995) vivendo o
gigolô Bruno, um amante que não valia nada da Romana Ferreto(Rosa Maria
Murtinho).
Realmente
gera uma estranheza vê-lo em cena nessa novela com apenas 29 anos representando
um personagem central que era um homem de meia-idade sendo disputado por duas
irmãs que eram representadas por atrizes
mais velhas que ele, e pude constatar isso quando recentemente eu revisitei o
primeiro capitulo completo disponível no Youtube, eu conferi na época que
passou, era bem moleque e não havia percebido nada de tão estranho.
Ao
contrário dessa revisitada três décadas depois onde a estranheza fica perceptível quando a gente
observa o aplique que a produção usou para grisalhar os fios de cabelos do ator
para fazê-lo parecer um cara de meia-idade, o que terminou não convencendo a ponto da coisa ficar falsa,
nem mesmo ele naturalmente barbudo consegue convencer representando um cara de
meia-idade nessa novela.
Aliás,
sobre o elenco que essa novela contou, há de mencionar as participações de
Júlia Lemmertz, com quem Alexandre Borges já era casado e haviam se conhecido
quando participaram de Guerra Sem Fim na Manchete, que apesar de estar na mesma novela, mas não
faziam parte do mesmo núcleo.
Na
novela, ela representou Débora, uma produtora de vídeo, cujo sócio é seu marido
Túlio que foi vivido pelo saudoso Cecil Thiré(1943-2020), um sujeito que tinha
um estilo peculiar de comédia que envolvia a sua vaidade em esconder a careca
usando uma peruca.
Aliás,
um fato curioso envolvia a coincidência de ambos, apesar da diferença de idades
de vinte anos, sendo Cecil mais velho vinte anos do que sua colega de cena Júlia, mas os dois carregavam o talento no
DNA. Sendo Júlia dos seus pais, os atores Linneu Dias(1927-2002) e Lillian
Lemmertz(1937-1986) e Cecil de sua mãe, a atriz Tônia Carrero(1922-2018).
A
novela também contou com um núcleo de personagens cômicos que viviam na Casa de Repouso comandada por
Beatriz, gente idosa representada por veteranos da atuação como: Castro Gonzaga(1918-2007), que
representou o Arquimedes que era tio das protagonistas, Eva Todor(1919-2017)
como Augusta que no primeiro capitulo aproveita o incêndio para fugir a procura
de sua filha, Eloisa Mafalda(1924-2018)
como Kitti que chega a dirigir seu irreverente carro rosa acompanhada do
jardineiro Bartô(André Valli) para irem atrás de Augusta no primeiro capítulo.
Também
contou com Alberto Pérez(1924-2002) como Vô Samuca com seu amigo imaginário
Simão, Vanda Lacerda(1923-2001) como Anita, Norma Geraldy(1907-2003) como
Carlota, Lafayete Galvão(1935-2019) como Hamilton e Ênio Santos(1922-2002) como
Ladislau dois músicos que são amigos inseparáveis, Ruth de Souza(1921-2019)
como Isolina uma pianista que já teve fama mundial.
Grande
parte destes já são todos falecidos no
passar dessas três décadas após o lançamento dessa obra até o momento em que
escrevo esse texto, do mesmo modo que já são falecidos o já citado Cecil Thiré
que fez o Túlio, Francisco Cuoco(1933-2025) que vivia o Nelson, pai das
protagonistas, Dirce Migliaccio(1933-2009), o irmão de Dirce, Flávio
Migliaccio(1934-2020) que na novela representou o motorista de Maria Luísa
Jacinto, André Valli(1945-2008) como o Bartô, o
jardineiro da Casa de Repouso e Lídia Matos(1924-2013) como Dona Mimi.
A
novela também tinha o núcleo da família do imigrante russo Sacha(Jonas Bloch)
que era dono de um restaurante de culinária russa. Nesse seu núcleo familiar
era formado pela sua ex-mulher Valentina(Sílvia
Bandeira), está disposta a reconquistá-lo, os filhos Iuri(Marcelo Serrado),
amigo de Maurício que vive um amor platônico pela mãe dele, Maria Luísa,
e Irina(Rita Guedes), que se envolve com Maurício mas se apaixona por Cadu
a irmã Tânia(Sandra Barsotti), sócia de Beatriz num herbário, envolve-se
com Nelson e
a prima Nádia(Helena Fernandes), apaixonada por ele.
Essa
novela deu o azar de estrear em uma semana muito complicada onde boa parte da
população brasileira estava muito
comovida e de luto com a cobertura da
imprensa com a trágica morte do
irreverente conjunto musical Mamonas Assassinas ocorrido na noite de sábado, 02
de Março em consequência do acidente aéreo na Serra da Cantareira em Santos-SP,
quando eles estavam retornando da última apresentação em Brasília-DF e se
preparando para a turnê internacional em Portugal.
Um
fato curioso diz respeito a sua abertura, que mostrava um baile de máscaras
venezianas ao som da famosa canção de
carnaval Noite dos Mascarados de autoria de Chico Buarque lançada em 1975 que para a novela a canção foi interpretada por
Emilio Santiago(1946-2013), ela foi bem escolhida, já que seu primeiro refrão
traz a frase título da novela:
-
Quem é você?
-
Adivinha se gosta de mim
Hoje
os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:
-
Quem é você, diga logo...
-
...que eu quero saber o seu jogo
-
...que eu quero morrer no seu bloco...
-
...que eu quero me arder no seu fogo.
“Sobre
a abertura, o designer gráfico Hans Donner narrou em seu
livro “Hans Donner e seu Universo” que Boni (José Bonifácio de
Oliveira Sobrinho) ficou encantado com as imagens e perguntou qual software havia
sido usado para reproduzi-las. Donner então explicou como foi feita:
“Não é computação gráfica. Mandei construir uma piscina rasa, formando um
espelho de água, e gravei as pessoas usando as máscaras, refletidas na
superfície, com a câmera de cabeça para baixo, para desfazer a inversão das
imagens. As distorções foram produzidas por pequenas ondas que provocamos na
água.””
(Teledramaturgia).
Fora
que também simbolizou está muito bem ligado a trama central, já que no primeiro
capítulo mostra Maria Luísa organizando em sua mansão uma festa de mascarados
venezianos lembrando do Carnaval em Veneza de quando participou há vinte anos, para celebrar o aniversário do seu filho e é lá
que ela ouve de sua irmã Beatriz a confissão de que seu filho Cadu era filho de
Afonso.
A
logo da novela trazia uma mascara de carnaval.
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