quinta-feira, 6 de agosto de 2026

25 ANOS SEM JORGE AMADO

 

No dia 6 de Agosto de 2001, a literatura brasileira perdia o talento de Jorge Amado(1912-2001).

Nascido em Itabuna-BA, em 1912, Jorge Amado costumava trabalhar em suas obras um caráter sócio-político, panfletário, de denúncia que tinha começado a escrever na década de 1930 inspirado no  revolucionário movimento artístico-modernista da década anterior. Especialmente por ter sido durante muito tempo militante esquerdista, já foi inclusive filiado ao PCdoB.




Equivocadamente há gente que o  rótula como autor pornográfico, principalmente quando ele deixou de lado o caráter mais panfletário em suas obras  e passou   passar a escrever sobre o cotidiano com aqueles toques apimentados   de erotismo, principalmente pelas mais diversas adaptações audiovisuais que já foram feitas de seus livros, onde os mais famosos são das protagonistas femininas que criaram aquele estereótipo da objetificação  sexualizada da baiana. 

Quem pensa a respeito disso da obra de Jorge Amado comete muitos equívocos, só o conhece superficialmente.

 




Dentre os romances que ele escreveu da qual eu tive a oportunidade de ler dessa fase mais panfletária do autor é Terras do Sem-Fim, publicada em 1943, que abordava bem o cenário bucólico do sertão baiano do auge da economia cacaueira na década de 1920, abordando a opressão do autoritarismo coronelista e a pobreza da seca. Uma realidade que ele bem conhecia por ter nascido e crescido dentro dessa realidade.




Já da fase que o autor passou a escrever mais sobre o cotidiano das quais já tive a oportunidade de ler, faço menção a Gabriela-Cravo e Canela, publicada em 1958. Foi a partir desse romance ambientado no cenário bucólico do sertão baiano da Ilhéus da década de 1920 em pleno auge do ciclo econômico cacaueiro que representou um importante marco de sua transição literária, onde o autor deixava de lado o caráter sócio-político panfletário, de denúncia e passou a escrever sobre as crônicas dos costumes com tipos populares, mas ainda mantendo os tons de crítica social sobre o cotidiano do povo baiano.




É com essa protagonista feminina da Gabriela que ele passa a trabalhar a figura de mulheres sensuais, usando das pitadas de erotismo, mas ainda assim, mantendo um pouco do caráter crítico ao explorar a trajetória de uma pobre retirante saída da seca e se torna cozinheira do comerciante turco Nacib com quem vive um tórrido romance em paralelo ao cenário da região viver em conflito dos poderosos coronéis como Ramiro Bastos e Mundinho Falcão, e a hipocrisia da moralidade da população.

Assim como tive a oportunidade de ler Dona Flor e Seus Dois Maridos, publicado em 1966, que se ambienta no cenário urbano da capital baiana, a Salvador dos anos 1940 e suas vidas boemias, com os malandro e abordando a forte influência da religiosidade de matriz africana dos orixás.




Eu já tive a oportunidade de turistar por Salvador, algumas vezes foi quando eu era moleque que me hospedei junto com minha família na casa de um tio que reside por lá há mais de 30 anos, prestando serviço no oficio de pastor evangélico para uma Igreja Batista.

Além de conhecer muito da visão de cartão postal turístico do lugar, como o Elevador Lacerda, o Pelourinho, as Construções Antigas das Igrejas e tudo mais. Também pude observar que a parte urbana da capital deixa muito a desejar.

Também pude apreciar muito dessa riqueza da musicalidade das micaretas que surgiram de lá e foram espalhadas para todo Brasil.

Inclusive, falando em música, o cantor Cid Guerreiro tem uma canção intitulada de Amado Jorge, que fez bem uma ode a importância dele como autor que exaltou sua Bahia, como o trecho abaixo pode ser mostrado:

Jorge, amado Jorge Amado
Sua poesia engrandece a Bahia
Me dá vontade de cantar
Jorge, meu mensageiro Jorge
Seu cabelo branco, seu sorriso franco
Seu jeito de encantar
Dona Flor cozinhou os quitutes
Do meu coração
E Tieta jogou o seu charme
Pra todo o país...

Diz um hino num livro aberto
De imaginação
Gabriela provou que o baiano
É um povo feliz...

Eta, eta, eta Bahia porreta!
Eta, eta país do carnaval!

(Autor: Cid Guerreiro).

O que quero colocar com isso, é que a Bahia que já tive a oportunidade de conhecer difere dessa mesma Bahia que Jorge Amado descrevia em suas obras, onde ele dava voz aos tipos das camadas marginais, criticando a opressão dos poderosos, exaltando sua culinária, exaltando figuras femininas com toques de erotismo, criando uma mística quase fantasiosa dessa Bahia de todos os santos que ele tanto imaginava em seus livros.  E é esse o legado que ele deixou foi  único.

 

ADAPTAÇÕES PARA CINEMA E TELEVISÃO:

O autor Jorge Amado foi bastante adaptado para cinema e televisão, algumas dessas obras já foram adaptadas mais de uma vez. É o caso, por exemplo, que posso começar explorando aqui dentre as que mencionei já ter lido foi:  Dona Flor e Seus Dois Maridos, principalmente por exaltar o teor erótico que já foi adaptado três vezes: Em 1976 foi adaptado para cinema numa produção assinada pelo recém-falecido Luiz Carlos Barreto(1928-2026), que teve a direção de seu filho Bruno Barreto, na época um jovem de 21 anos que começando a conquistar sua carreira no cinema.  Ele que também assinou o roteiro ao lado de Eduardo Coutinho(1933-2014) e de Leopoldo Serran(1942-2008). Que contou com Sonia Braga como protagonista Dona Flor, José Wilker(1944-2014) como Vadinho e Mauro Mendonça como como o Doutor Teodoro.




Em 1998, Dona Flor e Seus Dois Maridos foi adaptado como minissérie na Rede Globo, cujo roteiro foi adaptado pelo renomado novelista Dias Gomes(1922-1999), com colaboração de Ferreira Gullar(1930-2016) e de Marcílio Moraes, com direção de Rogério Gomes, Carlos Araújo, direção geral de Mauro Mendonça Filho e direção de núcleo de Guel Arraes.

Onde Flor foi representada por Giulia Gam, Vadinho por Edson Celulari e Teodoro por Marco Nanini.




E a última vez até o momento em que escrevo esse texto que Dona Flor* ganhou uma adaptação audiovisual foi em 2017 para cinema, nessa versão que contou com a direção de Pedro Vasconcellos, que assina também o roteiro e a produção nesta versão que coube a Juliana Paes(Flor), Marcelo Faria(Vadinho) e Leandro Hassum(Teodoro), a difícil tarefa de representarem o trio principal da obra amadiana.



Que representou bem este caráter mais sobre o cotidiano dos vários tipos da população baiana, em especial da boêmia capital Salvador-BA da década de 1940.

Onde a história girava em torno de Florípedes, que é chamada pelo apelido de Flor, uma cozinheira de mão cheia, casada com Vadinho um sujeito malandro, viciado em jogo, boêmio, mulherengo, que vive torrando a sua grana. Chegando ao ponto disso azedar a relação deles.

Vadinho morre durante o carnaval e Flor viúva e inconsolada, cai de amores pelo farmacêutico Teodoro, um homem muito culto, mas que não é muito bom de cama. É nesse momento que o espirito de Vadinho aparece para lhe atormentar o juízo e ela precisará do apoio de todos os santos e muitas benzedeiras para que Vadinho deixe de lhe atormentar.

Não só Dona Flor foi bastante adaptada para o audiovisual, como a Gabriela-Cravo e Canela, a primeira pouco conhecida e não muito lembrada foi em 1961 como uma telenovela da extinta Tupi, que contou com a direção de Mauricio Sherman(1931-2019), e com roteiro adaptado por Antônio Fernando de Bulhões Carvalho(19?-2009), cuja primeira atriz protagonista foi Janete Vollu, cuja carreira foi abreviada depois que casou e faleceu aos 34 anos. Que contou com Renato Consorte(1924-2009) como o Nacib.

 
Rara imagem da atriz Janete Vollu, a primeira 
atriz que representou Gabriela. 

 As informações sobre essa primeira adaptação audiovisual de Gabriela são um tanto escassas, ainda mais pelo fato dela ser uma lost media e depois do fechamento da Tupi em 1980, pouco foi o que sobrou de material preservado dessa época.

Diferente da versão da novela de 1975, produzida pela Globo, cujo roteiro foi adaptado por Walter George Dust(1922-1997), direção de Walter Avancini(1935-2001) e de Gonzaga Blota(1928-2017).




Essa que é a que mais ficou famosa, contando com Sônia Braga estrelando a retirante com a antológica cena dela subindo o telhado, a tornando símbolo sexual, e que com Armando Bogus(1930-1993) no papel de Nacib e marcada pela canção de abertura gravada por Gal Costa(1945-2022) chamada de Modinha para Gabriela. Essa mesma Sônia Braga foi quem protagonizou a Dona Flor no cinema e repetiria o papel da Gabriela, anos depois, em 1983 para o cinema, num filme dirigido por Bruno Barreto e que contou com a participação internacional do astro italiano Marcello Mastroianni(1924-1996) no papel do Nacib.


 
Cartaz do filme Gabriela(1983). 


Em 2012, foi lançada outra versão audiovisual da Gabriela, novamente pela Rede Globo, adaptada por Walcyr  Carrasco, na época, um já consagrado novelista na emissora que tinha um estilo “marcado por narrativas ágeis, forte apelo popular, bordões marcantes, bem como um contraste direto entre o melodrama clássico e o humor escrachado. Suas obras misturam vingança, mocinhas sofredoras, vilãs caricatas e críticas sociais leves.”





Ele assinou o roteiro em conjunto com Daniel Belinsky e André Ryoki, com direção de Mauro Menonça Filho e Roberto Talma(1949-2015).

Onde a Gabriela foi protagonizada por Juliana Paes e o Nacib por Humberto Martins.

Do mesmo jeito que Terras do Sem-Fim, foi adaptada como novela pela Globo em 1981, cujo roteiro foi escrito por Walter George Fost, e com direção de Herval Rossano(1935-2007), que é pouco lembrada.



Mais lembrada mesmo é a adaptação da Tieta do Agreste**, publicada em 1977, que virou a famosa novela da Globo em 1989, estrelada por Betty Faria, cujo texto foi adaptado por Agnaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, e teve entre seus diretores: Reynaldo Boury(1932-2022) e Paulo Ubiratan(1947-1998).



Essa mesma obra também ganhou uma pouco lembrada adaptação para cinema lançada em 1996, num filme estrelado por quem? Sônia Braga numa produção da Sky Light Serene, cuja direção foi de Cacá Diegues(1940-2025) que assinou o roteiro junto com Antônio Calmon e o escritor João Ubaldo Ribeiro(1941-2014).




Assim como há os menos lembrados Capitães da Areia, publicada em 1937, a mais marcante de sua fase panfletária onde abordou o abandono dos menores de idade. Foi adaptada como minissérie pela Bandeirantes em 1989, com roteiro de José Louzeiro(1932-2017) e direção de Walter Lima Júnior. E em 2011, foi adaptado para cinema num filme dirigido por Cecilia Amado, neta do próprio Jorge Amado.




Tenda dos Milagres, obra publicada em 1969, que ganhou uma adaptação para cinema em 1977, num filme dirigido, produzido e roteirizado por Nelson Pereira dos Santos(1928-2018). Em 1985, essa obra foi adaptada para uma minissérie da Globo, roteirizada por Agnaldo Silva e Regina Braga(1941-1999) e com direção de Paulo Afonso Grisolli(1934-2004).



 
Cartazes do filme e da minissérie  Tenda dos Milagres. 


Também pouco conhecida é Tereza Batista Cansada de Guerra, romance publicado em 1972, que em 1992 foi adaptado como uma minissérie da Globo cujo roteiro foi adaptado pelo veterano novelista Vicente Sesso, e cuja direção é assinada por Paulo Afonso Grisolli e que marcou a estreia de Patrícia França como protagonista.




Também existe o romance Pastores da Noite, publicado em 1964, que em 2002 foi adaptado para uma minissérie da Globo dentro do programa Brava Gente(2000-2003), com roteiro adaptado por Sérgio Machado e direção de Guel Arraes.




Há também Tocaia Grande: A Face Obscura, publicado em 1984, que em 1995 foi adaptado como novela pela extinta Rede Manchete, cujo roteiro foi adaptado por Duca Rachid, Mário Teixeira e Marcos Lazarini e com direção geral de Walter Avancini.




Mais curioso mesmo foi a junção dos romances Mar Morto, publicado em 1936 e A Descoberta da América pelos Turcos  publicado em 1992 que resultou na novela da Globo Porto dos Milagres (2001) que teve seu roteiro adaptado pela dupla Agnaldo Silva e Ricardo Linhares e com direção geral de Marcos Paulo(1951-2012).






E para terminar, há também de mencionar o romance A Morte e A Morte de Quincas Berro D´Água, publicado em 1959, que em 2010 virou o filme Quincas Berro D´Água(2010), com roteiro adaptado por Sérgio Machado que também assina a direção e teve a produção-executiva de Walter Salles, o diretor ganhador do Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional  do filme  Ainda Estou Aqui(Brasil, 2024).


 

 

 

 

*Em 2019, o romance ganhou uma adaptação no México em forma de novela, produzido pelo canal Las Estrellas, onde a Flor foi representada por Ana Serradilla.

**Em 2025, foi anunciado que Tieta do Agreste ganhará uma nova adaptação para cinema, quem vai ficar encarregado de produzir essa adaptação é a produtora Muiraquitã Filmes, que vai ter a produção de Eliana Ferreira, vai ser dirigido por Joana Mariani e cujo roteiro contará com a assinatura da atriz Suzana Pires, que também vai protagonizar o papel principal. Até o momento dessa publicação, não saiu nenhuma notícia nova a respeito dessa produção.


domingo, 2 de agosto de 2026

O DOCUMENTÁRIO DOS JOGOS OLIMPICOS DE BERLIM







 

Nesse ano de 2026, vai ser celebrado os 90 anos que era realizado a edição dos Jogos Olímpicos de Verão de 1936 em Berlim, na Alemanha. Realizados entre os dias 1º a 16 de Agosto de 1936.

Uma edição que ficou marcada pelo cenário até hoje polêmico de ter ocorrido no contexto histórico onde a Alemanha estava sob Regime Nazista de Adolf Hitler(1889-1945).

Essa edição foi registrada no documentário Olympia(Alemanha, 1938) filme dirigido pela cineasta Leni Riesfental(1902-2003) que documenta em mais de três horas de duração como foi o grande evento esportivo polêmico.

Trata-se de um interessante registro de um evento esportivo ocorrido num pais que vivia sobre a sombra da ideologia da intolerância racial como o nazismo, dirigido por uma polêmica cineasta cujas obras sempre foram vistas como uma peça de propaganda do regime nazista.

Prova disso é que ela dirigiu Triunfo da Vontade(Triumph des Willens, Alemanha, 1935) que documenta bem o registro histórico da Ascenção do nazismo na Alemanha e do Terceiro Reich.

Apesar disso, o filme não deixa de ser um bom registro e uma boa aula de cinema, principalmente pela qualidade técnica como a cineasta conseguia captar os movimentos dos atletas na competição e principalmente pelos planos abertos de cada modalidade.

Mesmo tendo como ressalva, o fato de que o filme de todo jeito ainda é uma peça de propaganda do nazismo, e é preciso ter uma cautela, um pouco de discernimento ao assistir a essa obra e entende-la dentro do seu contexto.

Ele também serve como um bom exemplo para estudo historiográfico sobre a Alemanha Nazista.

“Um povo que não conhece a sua história, está condenado a repeti-la”.

(Edmund Burke).

quinta-feira, 30 de julho de 2026

40 ANOS SEM CÂMARA CASCUDO

 

No dia 30 de Julho de 1986, partia o importante intelectual potiguar Luís da Câmara Cascudo(1898-1986).  Historiador, folclorista, antropólogo, cronista e entre muitas outras facetas.

Câmara Cascudo é uma importante referência nos estudos de folclores no Brasil todo.




Publicou centenas de livros a respeito do estudo cultural das manifestações folclóricas brasileiras, um desses que tive o prazer foi Superstição no Brasil.




Um ótimo livro sobre que é um verdadeiro almanaque para compreender a formação cultural brasileira, suas crendices, seus costumes dentre outros.

Um outro livro interessante que já tive a oportunidade de ler foi Crônicas de Origem-A Cidade de Natal nas crônicas cascudianas dos anos 20.




Publicado pela Editora da UFRN-EDUFRN em 2005 com organização e estudo introdutório de Raimundo Arrais. Neste livro somos apresentados aos melhores textos escritos pelo ilustre Cascudo em sua coluna   no jornal A República na década de 1920.

O livro nos transporta a uma verdadeira viagem no tempo, onde nos proporciona conhecer um pouco mais de como era o modo de vida de uma Natal desconhecida pela maioria de nós potiguares, principalmente ao exaltar a vida artística dos antigos bairros da Ribeira, Cidade Alta e Alecrim lugares ignorados pelos órgãos públicos com seus antigos monumentos em ruínas.

Uma boa maneira de conhecer a nossa história e dá mais valor à nossa cultura. Interessante observar  pelo tipo de escrita e pela forma de narrativa a maneira como era retratado, pincelado, moldado ou mesmo desenhado o cenário cultural da  boêmia Natal provinciana  de um século atrás com o povo vivendo uma vida pacata de cidade bucólica onde a urbanização era bem diferente, não existia shoppings centers, e sem aquela visão de peça publicitária que estamos acostumados a ouvir de algum turista como um  lugar  paradisíaco, edênico e tropical  a  descrevendo aqui   como a cidade do sol, exaltando o litoral e suas peculiaridades, as dunas, o cajueiro entre outras infinidades  em comparação  a atual Natal moderna com um modelo urbanização desenfreada, desorganizada, transito engarrafado e caótico, violência urbana atormentando a cidade enfim. 

Ele também escreveu uma obra de conto intitulada de A Princesa de Bambuluá, que inspirou o nome de um programa infantil da Globo, chamado de Bambuluá(Brasil, 2000-2001).





Recentemente, um projeto organizado pela neta de Câmara Cascudo, Daliana Cascudo de publicar os manuscritos inéditos de suas poesias, vai ganhar uma publicação.  Que também preside o Instituto Câmara Cascudo, que cuida de preservar o acervo e a memória do escritor, segundo pelo que declarou na matéria do AgoraRN:

É um material que mostra também um novo Cascudo. A gente tem obras muito interessantes, como um livro de poemas”, afirma.




 

Segundo a matéria do AgoraRN sobre o novo lançamento:

O manuscrito chama-se “Caveira em Campo de Trigo” e ajuda a preencher uma lacuna na trajetória literária do intelectual. Embora tenha escrito versos e compartilhado alguns deles com nomes como Mário de Andrade e Manuel Bandeira, Cascudo jamais publicou um livro de poesia.

A decisão foi registrada pelo próprio autor em uma carta enviada a Mário de Andrade, em 1925. Nela, escreveu que havia concluído o livro, mas desistiria da publicação. “Ele diz: ‘Mário, eu terminei esse livro de poema, se chama Caveira em Campo de Trigo, mas eu não vou publicar. Eu não sou poeta. Vou enterrar esse livro no inferno da biblioteca’. E enterrou tão bem enterrado que a gente passou quase cem anos para descobrir.”

Isso prova como Cascudo, continua relevante mesmo tendo passado quatro décadas de sua partida.




segunda-feira, 27 de julho de 2026

30 ANOS DO ATENTADO DO PARQUE OLIMPICO CENTENÁRIO EM ATLANTA

 

No dia 27 de Julho de 1996, ocorreu um atentado terrorista durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, cujos equívocos sobre de quem foi seu autor, ocasionaram num dos episódios mais atrapalhados e equivocados da investigação da história dos Estados Unidos, um episódio que ficou conhecido como o Atentado ao Parque Olímpico Centenário.  




A explosão ocorreu horas depois do alerta do segurança Richard Jewell(1962-2007), que havia suspeitado de uma mochila verde do exército americano abandonada no local  escrita com o nome ALICE, que continha “três bombas caseiras cheias de pólvora sem fumaça, cercadas por pregos de alvenaria de 7,6 cm (três polegadas)” e mandou todos evacuarem ao redor do local onde estava ocorrendo a apresentação musical da banda Jack Mack and The Heart Attack, o seu alerta conseguiu salvar a vida de muitas pessoas, no entanto, essa explosão vitimou 111 pessoas feridas e  deixou dois mortos que foram:  Alice Hawthorne, uma senhora americana natural da Geórgia que morreu na explosão e o cinegrafista turco Melih Uzunyol cuja consequência da morte  foi indiretamente pois havia sofrido uma parada cardíaca quando estava  se dirigindo ao local.




“Jewell foi celebrado pelo ato e rapidamente ganhou os holofotes. Entretanto, uma reportagem da jornalista Kathy Scruggs para o The Atlanta Journal-Constitution colocou em cheque a real intenção de Richard. Informada por uma fonte do FBI que ele era o principal suspeito por ter plantado a bomba, Kathy publicou uma matéria relatando o fato, o que mudou a vida de Jewell e de sua mãe, Bobi, completamente.”

(Retirado da matéria do site Aventuras na História, publicada em 6 de Janeiro de 2020).

Por conta de todos os equívocos, a vida de Richard Jewell virou do avesso, com o FBI e a imprensa na sua cola e muita coisa do seu passado foi exposta, principalmente a respeito de sua personalidade de homem fracassado que usou daquilo como artificio para se destacar como herói, e muita gente chegava a fazer piadas gordofobicas sobre seu peso, só muito tempo depois que foram averiguados que ele não poderia ter planejado o atentado é que ele deixou de ser suspeito.




Somente em 1998, foi que se descobriu de quem foi autoria do atentado, principalmente depois de investigarem a similaridade de três séries de explosões que ocorreram seguidas ao atentado no Parque Centenário: Em 16 de Janeiro de 1997, houve uma explosão numa clínica de aborto no subúrbio de Sandy Springs, em Atlanta, um mês depois, em 21 de Fevereiro de 1997, houve a explosão também em Atlanta de um bar de lésbicas, ferindo cinco pessoas e em 29 de Janeiro de 1998, houve uma  explosão em  uma Clínica de Abortos em Birmigham, no Alabama. “Matando o policial de Birmingham e guarda de segurança da clínica Robert Sanderson, e ferindo gravemente a enfermeira Emily Lyons. As bombas de Rudolph continham pregos que agiam como estilhaços.

(Wikipédia).

Foi nesse último que através do retrato falado, se descobriu que o verdadeiro autor da explosão era Eric Rudolph, um terrorista doméstico e fanático religioso ligado a movimentos extremistas cristãos da supremacia branca que em 5 de Maio de 1998 entrou na lista dos procurados do FBI, só sendo preso apenas em 31 de   Maio de 2003, depois de passar cinco anos recluso nas Florestas da Carolina do Norte. Em 2005, Rudolph se declarou culpado de várias acusações de homicídio federais e estaduais e aceitou cinco penas de prisão perpétua consecutivas em troca de evitar um julgamento e uma sentença de morte em potencial.




Rudolph cumpre prisão no Presidio Federal Adx Florence.

As motivações que ocasionaram Rudolph a promover esse atentado tem um pouco de relação com a sua pregressa formação religiosa, Eric Robert Rudolph nasceu na Flórida em 1966, perdeu o pai em 1981, na época era um adolescente com 15 anos. Mudou-se junto com sua mãe e seus irmãos para Nantahala na Carolina do Norte.

Chegou a frequentar a Escola em Nantahala, fazendo a Nona Série, mas decidiu abandonar os estudos e trabalhou como carpinteiro ao lado de seu irmão Daniel.

Quando estava com 18 anos, Rudolph chegou a frequentar com sua mãe uma seita religiosa conhecida como Igreja de Israel.

Chegou a se alistar no Exército onde prestou serviço até sua dispensa em Janeiro de 1989, após ser flagrado fumando maconha.

Até o episódio do atentado no Parque Centenário durante os Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, Rudolph mantinha uma forte conexão com grupos supremacistas brancos e havia integrado ao Exército de Deus.

Segundo Rudolph declarou em 13 de Abril de 2005, durante sua condenação sobre a motivação do atentado:

“No verão de 1996, o mundo convergiu para Atlanta para os Jogos Olímpicos. Sob a proteção e os auspícios do regime em Washington, milhões de pessoas vieram celebrar os ideais do socialismo global. Corporações multinacionais gastaram bilhões de dólares, e Washington organizou um exército de segurança para proteger esses jogos, considerados os melhores de todos. Embora a concepção e o propósito do chamado movimento olímpico seja promover os valores do socialismo global, perfeitamente expressos na canção "Imagine ", de John Lennon, que foi o tema dos Jogos de 1996, o objetivo do ataque de 27 de julho foi confundir, irritar e envergonhar o governo de Washington perante o mundo por sua abominável aprovação do aborto a pedido. O plano era forçar o cancelamento dos jogos, ou pelo menos criar um estado de insegurança para esvaziar as ruas ao redor dos locais de competição e, assim, consumir as vastas quantias de dinheiro que haviam sido investidas neles.”

Um fato que chama aqui a atenção sobre esse perfil de atentado promovido por Rudolph, é que ele reflete justamente como os Estados Unidos estava lidando durante a década de 1990 com um cenário violento  relacionado aos  aspectos do terrorismo doméstico junto ao movimento do  extremismo religioso cristão que marcaram episódios trágicos na história social americana como o Cerco de Waco em 1993, onde a polícia tentava  libertar os reféns da seita religiosa Davidiana  de David Koresh(1959-1993) e a Explosão do Prédio de Oklahoma ocorrido em 1995, onde seu respectivo autor Timonty McVeigh(1968-2001), um veterano da Guerra do Golfo, quis vingar pelo Cerco de Waco.





Junte também ao fato que fazia bem uns vinte anos que as agências americanas estavam à procura de outro temido terrorista doméstico chamado de Ted Kaczynski (1942-2023), mais conhecido como Unambomber, um ecoterrorista que por volta de 1978 a 1995, foi responsável por enviar bombas nas universidades americanas, cujas explosões ocasionaram em mortes e foi somente na última vez que ele enviou uma carta aos jornais, que seu texto foi reconhecido por seu irmão David que fez contato com o FBI, informou o seu paradeiro que morava numa cabana, dentro da floresta, vivendo uma vida rústica, sem água encanada, que do jeito que o lugar era um verdadeiro chiqueiro e do jeito que o cara era um  sujismundo  ele devia cheirar mal à beça, principalmente quando foi preso em 1996, ele cumpriu prisão em Adx Florence até o seu falecimento em 2023.

 


 

 

 

 

DRAMATIZAÇÃO NO CINEMA




Em 2019, esse episódio foi retratado no filme O Caso Richard Jewell(Richard Jewell, EUA, 2019), esse drama biográfico que contou com a direção e produção de Clint Eastwood, com roteiro assinado por Billy Ray, que baseou a estrutura do roteiro no artigo da jornalista Marie Brenner publicado em 1997 na importante revista Vanity Fair e no livro investigativo O Suspeito: Um Atentado nas Olimpíadas, o FBI, a Mídia e Richard Jewell, o Homem Preso no Meio de autoria de Kevin Salwen e Kent Alexander, publicado em 2019,  ainda sem tradução para o português.



A maneira como a história é narrada, mesmo se baseando nos fatos verídicos de conhecimento público, ainda assim foram impressas umas doses de licenças poéticas.

A trama é narrada pela ótica do Jewell(Paul Walter Hause), tendo como ponto de partida o dia anterior da trágica explosão, com ele no Parque Centenário prestando o seu serviço de segurança observando a multidão prestigiando a apresentação musical de Kenny Rogers(1938-2020), o famoso ícone da música country.





 E temos então a reconstituição do trágico dia da explosão, onde mostra a ligação de Rudolph a um telefone público próximo ao Parque Centenário falando da bomba, enquanto que acompanhamos Jewell alertando para o povo se afastar.

Em paralelo, somos apresentados a jornalista Kathy Scruggs(Olivia Wilde) na redação do jornal The Atlanta Journal, querendo investigar o caso e ao se informar com um agente do FBI, que lhe passa a informação equivocada que Jewell era o suspeito  e ela passa essa informação, começou o calvário na vida de Jewell, com o FBI confiscando seus bens cuidando de sua pobre mãe doente Barbara “Bobi” Jewell(Kathy Bates) e a única pessoa que vai ser possível lhe defender é o advogado Watson Bryant(Sam Rockwell) que vai responsável pelo desfecho da reviravolta no seu caso e provar sua inocência.

Essa produção que consumiu cinco anos para ser concretizada, desde que foi anunciado em Fevereiro de 2014, onde as primeiras pessoas envolvidas nesse projeto foram: os atores Jonah Hill que seria o protagonista Jewell cujo papel acabou ficando com Paul Walter Hauser e Leonardo DiCaprio que foi cotado para ser Bryant o advogado de defesa de Jewell que ficou com Sam Rockwell.

Antes de Eastwood assumir a direção e produção, os primeiros diretores cotados foram: Paul Greengrass e Ezra Edelman e todas essas passadas de mãos e o único nome que se manteve desde o início foi do roteirista Billy Ray e sem nenhuma novidade sobre o desenvolvimento do projeto até começarem as filmagens em Atlanta em Junho de 2019.  

Do elenco vale mencionar o brilhante desempenho de Paul Walter Hauser como o protagonista, ele consegue bem transmitir a essência do Jewell como um sujeito com ares excêntricos, ainda mais quando lida com a loucura do circo midiático que sua virou após virar o suspeito da explosão, cujas únicas pessoas que lhe dão apoio nesse momento é sua mãe de quem ele já cuidava e seu advogado.

Além dele, merece também menção o bom desempenho de Sam Rockell, na pele do Bryant, o seu advogado de defesa que na verdade “ele nunca representou um suposto assassino, muito menos alguém acusado de um ataque terrorista doméstico que matou duas pessoas e feriu outras 111”.(Retirada do site Oxygen, de 26 de Dezembro de 2019).

Era um advogado imobiliário com quem Jewell já conhecia e é mostrado no filme que Bryant foi seu empregador no escritório que ele prestou serviço antes de virar o segurança dos Jogos Olímpicos, ele vai assumir uma importante função numa cena em que quando ele vai direção aos telefones públicos de onde foram feita a ligação antes da explosão, ele vai notando uma verdadeira inconsistência que prova que não podia ser Jewell o autor da bomba ao verificar o distanciamento do lugar dos telefones públicos para o Parque Centenário e o tempo entre a ligação e a explosão, e isso vai ser o ponto de virada para provar sua inocência. Ainda que de fato, isso não tenha ocorrido, pelo menos serviu para condensar uma importante figura heroica de porto seguro para ele naquele momento complicado da sua vida, o que fortaleceu uma forte relação de amizade entre os dois, ao ponto de quando Bryant se casou com  Nadya Ligth, sua assistente que aparece no filme representada por Nina Arianda, e tiveram filhos, eles contrataram a mãe de Jewell, Bobi para ser uma babá deles semanalmente.

A mãe de Jewell, Bobi Jewell* que foi muito bem representada no filme por Katty Bates, que transmiti bem em cena a sensação dolorosa de ver seu filho ser injustamente incriminado por esse crime que não cometeu e que devido a uma série de equívocos o tornou suspeito. A cena dela numa coletiva de imprensa, implorando as lágrimas pela inocência é de cortar o coração.  Por esse desempenho, ela chegou a receber uma indicação no Oscar 2020 na categoria de melhor atriz coadjuvante.

Na ocasião do lançamento do filme, ela que ainda estava viva declarou publicamente seus elogios a maneira como o filme veio para preservar a memória de seu filho que havia falecido 12 anos antes, e mostrar como equívocos podem mudar a vida de uma pessoa. Bobi Jewell faleceu em 2024, aos 88 anos, em Atlanta.

E outra menção ao elenco vai para Olivia Wilde no papel da jornalista Katthy Scrugs(1958-2001), a responsável pela informação equivocada da suspeita do FBI em torno de Jewell que fez sua vida virar do avesso.




A maneira como ela foi retratada na obra gerou uma polêmica na época do lançamento, principalmente pelo momento onde mostra ela dialogando com um agente do FBI num bar oferecendo sexo em troca de informação, isso levou ao editor do Atlanta Journal  Kevin Riley manifestar-se  em defesa dela:

Não consigo acreditar que os cineastas escolheriam retrata-la dessa forma, especialmente porque não há nenhuma evidência de que ela tenha feito essas coisa que eles a retratam fazendo”.

Riley não chegou a trabalhar com Scruggs, mas ouvindo depoimentos de ex-colegas dela no jornal para manifestar essa postura em defesa dela, sobre o seu perfil obstinada, que trabalhava duro para conseguir umas informações.

Isso ocorreu pelo fato de que Katthy Scruggs já era finada na ocasião do lançamento do filme, a jornalista faleceu em 2001, aos 42 anos, vítima de uma overdose de medicamentos.

No entanto, apesar dessa representação equivocada escolhida ao abordar a personagem para o filme, pelo menos a sua interprete soube bem como desempenhar o perfil um tanto arrogante ao qual ela foi desenhada com ares vilanescos para a gente sentir mesmo uma repulsa dela, principalmente da forma como ela acabou transformando a vida de Jewell do avesso.

O filme se conclui mostrando uma cena que se passa sete anos após todos os acontecimentos após a explosão, onde Jewell numa delegacia prestando serviço de policial recebe a visita de Bryant e ele o informa da captura de Rudolph.

Nos anos que se seguiram,  Jewell foi exigindo reparação da parte da imprensa pelas difamações que o equívoco da mídia causou em sua vida.

Dois anos após o episódio do Atentado durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, Jewell conheceu Dana com quem se casou em 2001, com ela viveu numa fazenda na Geórgia criando animais de estimação até Jewell falecer em 2007, aos 44 anos, vitimado pela diabetes. Eles não tiveram filhos.

*Esse sobrenome é do segundo marido de Barbara Bobi Jewell, John Jewell, um executivo de seguros que a conheceu quando ela estava com Richard pequeno que ao nascer foi registrado como Richard White, sendo filho de Robert Earl White e quando o seu padrasto John o adotou passou a assinar com o sobrenome dele.