segunda-feira, 2 de março de 2026

30 ANOS SEM OS MAMONAS ASSASSINAS

 

Em 02 de Março de 1996, o Brasil acompanhou a triste notícia do acidente aéreo que tirou a vida de todos os integrantes do irreverente  conjunto musical Mamonas Assassinas, e para lembrar essa data vou aqui comentar sobre duas obras que abordam sobre a importância cultural desse conjunto que surgiu bem fora da curva.




As duas obras em questão tratam-se de Mamonas Pra Sempre(Brasil,2009) e Mamonas Assassinas-O Filme(Brasil, 2023).





No documentário Mamonas Pra Sempre, obra que tem a direção e produção de Claudio Kahns e com roteiro assinado por Diana Zatz Muss com produção da Tatu Filmes, aborda a trajetória  do conjunto musical daquela forma bem descontraída com os depoimentos dos familiares, o depoimento de Rick Bonadio, o depoimento da noiva de Dinho, as imagens de arquivos pessoais mostrando as primeiras apresentações do conjunto com o nome de Utopia, ocorrido no programa de Savério Zacaninni, algo que torna bastante enriquecedor para a obra, servindo bem para explicar como se deu o contexto do surgimento do grupo cuja curta carreira marcou gerações que vale a pena assistir, principalmente para as gerações mais novas entenderem o que eles simbolizaram para a minha geração daquela segunda metade dos anos 1990 que era visto como improvável.



Já quanto a cinebiografia Mamonas Assassinas-O Filme, já não posso dizer a mesma coisa. Com roteiro de Carlos Lombardi e direção de Edson Spinello, ambos nomes que construíram suas carreiras na televisão dirigindo e escrevendo  novelas. Com produção da Total Entermainemnt em coprodução com a Mamonas Produções que é a detentora da marca e com a Claro.

A produção dessa cinebiografia levou anos para sair do papel, a começar pelo fato de que inicialmente o cérebro por trás  do projeto, Carlos Lombardi havia apresentado para ser uma minissérie para a Rede Record  prevista para ser lançada em 2016, ano que lembrou os vinte anos  da trágica morte do quinteto.

Acontece que, no percurso houveram muitos empecilhos que resultou no cancelamento do projeto como bem descreve esse trecho sobre o filme tirado da Wikipédia:

Em março de 2016, a Record anunciou que estava produzindo uma minissérie   televisiva sobre a banda de rock Mamonas Assassinas   intitulada Mamonas Assassinas - A Série, com produção da empresa "OSS Produções", e que sua estreia estava prevista para julho do mesmo ano. O ano de 2016 foi escolhido por marcar os 20 anos do trágico acidente que vitimou a banda. Meses depois de anunciar a série, contudo, a emissora cancelou as gravações, alegando não ter verba para dar continuidade ao projeto, uma vez que a produção não foi aprovada pela Ancine e, com isso, não conseguiu captar os recursos necessários para realizar a minissérie. 

Porém, conforme relatou o jornal O Globo, o motivo teria sido outro. A reportagem diz que, por pressão das famílias dos músicos, várias cenas que não aconteceram na vida real e incomodaram muito as famílias tiveram que ser cortadas do roteiro.

Uma delas mostraria os integrantes da banda assaltando um posto de gasolina para conseguir dinheiro para lançar um CD. Em outra, o pai do vocalista Dinho trairia a esposa com a mulher do prefeito de São Paulo.

 Por conta disso, a Fox, que planejava exibir a série de cinco capítulos tão logo a Record concluísse a veiculação, abandonou o projeto. Elenco e equipe técnica também acabaram dispensados.

Até 2018, nada mais se falou a respeito da minissérie, quando finalmente a Record  se pronunciou informando que o projeto havia sido retomado. Por conta do imbróglio com as famílias, passagens da vida pessoal dos músicos, sem comprovação ou irrelevantes para o enredo, acabaram suprimidas. Em maio, segundo a coluna do Flávio Ricco no UOL, o novo enredo do autor Carlos Lombardi  foi aprovado pela emissora paulista e pela Total Filmes (a nova produtora e parceira do projeto).

Inicialmente, será uma série em cinco capítulos que, depois, compactada, dará origem a um filme. Um novo elenco terá que ser escolhido, uma vez que parte dos autores anteriormente escalados já assumiu novos compromissos. Em 30 de janeiro de 2023 a Record   iniciou as gravações em Guarulhos, município na Região Metropolitana de São Paulo.”

O que isso terminou resultando em algumas mudanças na formação do elenco principal, que quando foram  anunciados em abril de 2016 para compor a minissérie.  Três atores que já os representavam no teatro na peça Mamonas Assassinas-O Musical como Ruy Brissac para virar o Dinho(1971-1996), Elcion Bozanni para ser Samuel Reoli(1973-1996) e Adriano Tunes para ser Júlio Rasec(1968-1996), fora que também eles chegaram a escalar Vinicius de Oliveira para o papel de Sérgio Reoli(1969-1996) e Beto Hinoto para viver Bento Hinoto(1970-1996).

Dessa escalação inicial para a minissérie foram mantidos os nomes de Ruy Brissac que foi mantido no papel de Dinho, Beto Hinoto foi mantido para viver Bento Hinoto, Adriano Tunes que primeiramente era para ser Júlio Rasec ficou com o papel de Samuel  Reoli e quem assumiu os papeis de Julio Rasec foi Robson Lima e Sérgio Reoli foi de Rhener Freitas.

O fato curioso é que Beto Hinoto é sobrinho  do guitarrista Bento Hinoto que o representa no filme.

Ele não chegou a conviver com o tio famoso, já que Beto nasceu dois anos após a trágica morte do tio no acidente aéreo na Serra da Cantareira-SP que também tirou a vida dos seus colegas de banda.

“— Sinto uma energia muito forte do meu tio. Sempre antes de entrar no palco, tento canalizar isso. Peço proteção, rezo e agradeço pelas oportunidades. Até porque, se não fosse ele, eu não estaria fazendo esse papel — destaca Beto.”

(Retirado da postagem É Extraordinário do Facebook de 30 de Outubro de 2025).

Diversos fatores fazem com que na época quando  foi lançado tenha recebido uma  recepção negativa da crítica e pelo que pude constatar com meus próprios olhos ao conferir no ano passado chegando na Netflix.




Um deles é o fato do roteiro se mostrar um tanto corrido, apressado, sem dar tempo de desenvolver a narrativa.

Junte isso ao fato da qualidade da produção se mostrar minimamente questionável, ainda mais  com o roteiro escrito por Lombardi que na sua longa carreira de roteirista na televisão quando escreveu novelas na Rede Globo ao longo dos 30 anos em que foi contratado tais como: Vereda Tropical(1984-1985), Bebê a Bordo(1988-1989), Perigosas Peruas(1992), Quatro por Quatro(1994-1995), Vira-Lata(1996), Uga Uga(2000-2001), a minissérie O Quinto dos Infernos(2002), Kubanacan(2003) e Pé na Jaca(2006-2007). 

Ele também roteirizou alguns trabalhos para cinema entre estes segundo consta em seu currículo no IMDB são: Um Trem para as Estrelas(Brasil, 1987) do diretor Cacá Diegues(1940-2025) e também consta que ele foi o colaborador nos roteiros dos filmes Zoando na TV(Brasil, 1999) uma produção de comédia paródica a tv,  estrelada pela popular apresentadora infanto-juvenil Angélica Ksyvickis e contou com a direção de José Alvarenga Júnior e a comédia romântica Mais uma vez Amor(Brasil, 2005) que contou com a direção da americana naturalizada brasileira Rosane Svartman que posteriormente faria carreira na televisão escrevendo novelas na Globo.

Quem assim como eu cresceu assistindo algumas novelas mencionadas de Carlos Lombardi, deve bem saber que o seu estilo de estética é um tanto quanto peculiar que fugia ao modelo folhetinesco tradicional de escrever novela por assim dizer, que dividiu muito as opiniões, agradava a uns e desagradava a outros.

O seu humor era caracterizado pelo estilo caótico e anárquico, que na descrição do seu perfil no site Teledramaturgia do jornalista Nilson Xavier, o  seu estilo peculiar de escrita se caracterizava “em uma linguagem cheia de ação, humor e diálogos sarcásticos.”

Ele costumava trabalhar em seus enredos  num ritmo  acelerado  e frenético principalmente ao trabalhar com cenas que envolviam pancadaria, tiroteio e correria.

Esse tipo de adrenalina em suas novelas as  que faziam  se aproximarem de uma linguagem cinematográfica dos filmes de ação mesclado a linguagem das histórias em quadrinhos de super-heróis.

Do mesmo modo, o seu texto se caracterizava pelo estilo irreverente e porquê não dizer excêntrico  dos diálogos sarcásticos dos personagens quando se envolviam  situações corriqueiras pelo tom do deboche  cínico  do moralismo hipócrita da sociedade brasileira bem escancarado. Ainda mais  quando apelava para erotismo masculino com seus protagonistas sem camisa mostrando os corpos sarados e peitorais.

Por toda essa descrição sobre o roteirista do filme, dá para se compreender o que levou em muitos aspectos o filme a desagradar tanto a crítica, fora que não ajuda o fato de que como a direção de Edson Spinello que sempre acumulou mais trabalhos na televisão dirigindo, a coisa só piora, ainda mais por sua inexperiência em dirigir cinema.

Além do que, o filme também apresenta os mesmos vícios que eu destaquei que é bem característico do estilo lombardiano, principalmente nos diálogos sarcásticos, nos momentos que mostram os protagonistas sem camisa, e fora que tentando seguir algumas convenções narrativas, a obra explora um conflito dos irmãos Sérgio e Samuel quando este se envolve com uma interesseira dentre outros problemas.

Posso concluir que entre a cinebiografia e o documentário, vale mais  a pena assistir ao documentário. Se quem não assistiu a cinebiografia, mas mesmo depois de tudo o que descrevi de defeitos que ele apresenta, mesmo assim por curiosidade você vai querer conferir, posso recomendar que assista e tire você mesmo suas próprias conclusões.

No passar desses 30 anos após a trágica morte do conjunto musical, seus familiares pais e irmãos passaram a cuidarem da memória e da marca Mamonas Assassinas, para manter preservado a memória deles.

Alguns deles partiram recentemente como a mãe do baterista Sérgio Reoli e do guitarrista Samuel Reoli, Dirice Reis de Oliveira(Dona Nena) que faleceu em fevereiro de 2024 após  conferir ao lançamento do filme. E no ano  passado partiu Toshiko Hinoto, mãe do baixista Bento Hinoto, ela já tinha 100 anos.

COMO COMPLEMENTO:

Além desses também citar outras obras audiovisuais interessantes sobre o conjunto que valem dar uma conferida. 





Um desses é  no episódio da série da Globo Por Toda Minha Vida(2006-2011), que começou como um especial de final de ano em 2006 se dedicando a Elis Regina(1945-1982) e em 2007 passou a ser um programa fixo na emissora que de mês em mês dedicava um programa focado num artista musical, sempre com apresentação e narração de Fernanda Lima, que trazia uma estética de docudrama onde os depoimentos das pessoas que ela entrevistava  eram intercalados  com as dramatizações que são creditados a diferentes diretores importantes da casa  encarregados de dirigir cada episódio como: João Jardim, Rogério Gomes, Ricardo Waddington, Paulo Silvestrini, Pedro Vasconcelos, Alexandre Ishikawa, José Luiz Villamarim, Fabricio Mamberti, Luiz Henrique Rios dentre outros, do mesmo modo como os roteiros de cada episódio conta com crédito de diferentes roteiristas  e no episódio especifico dedicado aos Mamonas Assassinas que foi originalmente exibido no dia 10 de Julho de 2008, o roteiro do episódio é creditado a Maria Camargo e a direção é de José Luiz Villamarim. Aqui pelo menos o trabalho de dramatização em comparação a cinebiografia  foi bem melhor trabalhado e com uma qualidade técnica  melhor apurada.

Outro complemento a ser citado é o documentário da extinta MTV Brasil(1990-2013) MTV na Estrada: Mamonas Assassinas(Brasil, 1996) registrando e  acompanhando a jornada irreverente conjunto musical do deboche Mamonas Assassinas cujas “gravações acompanhariam os Mamonas em alguns shows realizados no Rio Grande do Sul. O programa mostrou trechos dos shows, além de mostrar os Mamonas fora dos palcos e também entrevistou cada integrante(dessa vez com eles falando sério rs).”

(Trecho retirado da fanpage do Mamonas Assassinas do Facebook).

É nesse documentário o curioso  momento do vocalista Dinho se dirigindo ao cinegrafista debochando do   jato particular: “O avião quase caiu na Floresta Amazônica devido a um radar quebrado e que o dia a seguir seria “uma aventura.” .

Em seguida, ele diz ao cinegrafista em forma de deboche que é típico dele:

“Eu tenho uma boa e uma má noticia pra você que vai voar com a gente cameraman qual que você quer primeiro?”

A fala é interrompida repentinamente  pela aparição surpresa do  tecladista Júlio Rasec perguntando: “Você não é o Dinho dos Mamonas” e Dinho responde: “Eu era”. E Júlio olha para a câmera e diz: “Oi”.

Então Dinho volta a se dirigir para a câmera respondendo sobre o estado do jato:

“A boa é que eles consertaram o radar”. E dando uma risada diz assim: “Quebrou de novo”.

E Dinho ainda acrescenta que o combustível não estava passando do reservatório para o tanque com aquele ar todo debochado. E Júlio entra na situação dizendo: “Quebrou de novo?”

 

Esse registro e a exibição desse documentário  ocorreu em Fevereiro de 1996,  pouco antes do fatídico acidente aéreo na Serra da Cantareira em Santos-SP que tirou a vida dos cinco componentes do conjunto musical no dia 2 de Março de 1996 depois que eles estavam retornando  da última apresentação em Brasília e se  preparando para a turnê internacional em Portugal.

No fatídico dia do acidente, esse momento pitoresco de Dinho  foi bastante replicado pelas outras emissoras, principalmente durante a cobertura da tragédia onde houve muita comoção nacional e  foi quando se criou até alguma teoria conspiratória ligada a premonição, principalmente quando entrevistaram a famosa vidente Mãe Dináh(1930-2014) que dizia pressentir sobre a tragédia, ainda mais quando foi divulgado o vídeo caseiro do  tecladista Júlio Rasec, filmado horas antes dele ir se preparar para a última apresentação da turnê brasileira em Brasília.

 
A famosa vidente brasileira Mãe Dináh foi bastante entrevistada
na ocasião da cobertura do acidente dos Mamonas Assassinas 
comentando que já havia previsto isso. 


Júlio estava saindo do salão do qual era um cliente assíduo onde lá revelou para a câmera do cabelereiro dono do salão  em um tom sério de preocupação do seu sonho premonitório: "parecia que o avião caía". A trágica coincidência ocorreu na volta de Brasília para São Paulo. Cerca de 12 horas após o relato, o avião Learjet 25D colidiu na Serra da Cantareira, vitimando todos os integrantes da banda, incluindo Júlio.


 
O tecladista Júlio Rasec desabafando para a 
câmera do seu cabeleiro particular sobre o sonho que teve do avião 
caindo. Esse registro ocorreu horas antes 
dele ir se apresentar com o conjunto. 


Jamais houve um conjunto musical brasileiro igual aos Mamonas Assassinas, nem antes, nem depois.

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

A TRAJETÓRIA DO BICHEIRO CASTOR DE ANDRADE

 

O BICHEIRO DO FUTEBOL E DO CARNAVAL.

 

 


É difícil imaginar que duas das maiores paixões do brasileiro que é o futebol e o carnaval tiveram contribuições escusas da máfia do jogo do bicho para ganhar o nível da popularidade simbólica da identidade nacional. Ainda mais se a gente for  analisar que a  poderosa figura do jogo do bicho chamado Castor de Andrade(1926-1997) comandou a presidência  de um time de futebol e de uma escola de samba.

 
Castor de Andrade ao lado de Jô Soares(1938-2022) sendo entrevistado 
no Jô Soares Onze e Meia do SBT em 1991

Nesse aspecto é o que podemos constatar com  a série documental do Globoplay, Doutor Castor(Brasil, 2021) dividida em 4 episódios. 




Contando a trajetória do folclórico bicheiro. Um sujeito que conseguia se infiltrar na alta sociedade carioca financiando o futebol e o carnaval.

Contando  toda a sua  trajetória de  ascensão e queda com um vasto e riquíssimo  conteúdo apresentando imagens de arquivos das muitas reportagens que deu tanto como técnico do time do Bangu ou mesmo Presidente da Escola de Samba Mocidade Independente de Padre Miguel e das investigações da justiça e com muitos depoimentos de gente com ele já foi próximo tanto no meio esportivo como os ex-jogadores do Bangu, time do bairro periférico carioca que carregava no nome do qual Castor fazia dali seu QG com a Toca do Castor.




 Onde podemos notar um ar um tanto tendencioso e ingênuo  da parte deles em glorificar demais ele como um homem generoso e gentil, a mesma coisa com relação aos depoimentos de  ex-membros da Mocidade Independente de Padre Miguel, o que chega a ser pitoresco, por mostrar que eles não  faziam muita ideia do quão cruel ele era capaz de ser com quem se intrometesse em seu caminho e  o tom pesado  pode ser sentido nos depoimentos de gente do judiciário, dentre esses   posso destacar  a da  jurista e ex-deputada federal pelo Rio  Denise Frossard que foi  responsável por julgar os bicheiros e das constantes ameaças  de morte que eles eram capazes de fazer. Ela também aparece nas imagens de arquivos de reportagens investigativas com relação  as prisões de Castor.



 Do mesmo modo pode ser sentido  em relação ao depoimento do jornalista Aloy Jupiara que demonstrou ter profundo conhecimento sobre o mundo do jogo do bicho,  ele é autor junto com Chico Otávio que também aparece no documentário dando depoimento,  do livro Os Porões da Contravenção, enfatizando o nível da periculosidade que  aquele sujeito era capaz de ser. Jupiara faleceu dois meses depois do documentário ser lançado  no serviço do Globoplay no dia 13 de Abril de 2021, aos 56 anos vitimado pela Covid-19.




Também destaco os depoimento de nomes importantes  do   jornalismo  esportivo como Tino Marcos, ex-reporter da Globo comentando algumas situações pitorescas das  oportunidades que teve de entrevistar Castor quando ele comandou o time do Bangu  e Juca Kfouri comentando de quando o entrevistou para a revista Playboy em 1984.



 Também há depoimentos de intelectuais, como um historiador comentando o contexto histórico  do surgimento do jogo do bicho antes do surgimento de Castor de Andrade e de um economista explicando de uma forma mais didática como funcionava a execução do esquema.

Também mencionar a participação  do cantor Agnaldo Timóteo(1936-2021), ícone brasileiro do bolero, dando seu depoimento de como se relacionou com Castor, na época que assumia o cargo de deputado federal e recebia financiamento dele e  também de uma forma pitoresca a ponto dele cantar a Ave Maria no seu enterro como são mostradas nas imagens de arquivos. Castor de Andrade faleceu em 1997, aos 71 anos,  vitimado por um ataque cardíaco fulminante.





  A presença dele no documentário marca o seu  último registro público, já  que Agnaldo Timóteo   faleceria logo  em seguida  ao lançamento do documentário do mesmo modo que o jornalista Aloy Jupiara, vitimado pela Covid-19 no dia 03 de Abril aos 84 anos. 

 
O cantor Agnaldo Timóteo(1936-2021) dando seu depoimento no documentário 
Doutor Castor. Meses depois do lançamento desse documentário Agnaldo Timóteo falecia vitimado pela Covid-19. 

O documentário é dirigido por Marco Antônio Araújo que também é encarregado de escrever o roteiro que divide a função com Rodrigo Araújo.

O que posso destacar de interessante do seu trabalho de direção está na forma como o diretor soube bem como conduzir a narrativa ao intercalar entre os depoimentos as cenas de planos abertos mostrando a panorâmica do bairro periférico do Bangu, mostrando o sambódromo, que também vão se intercalando com os recortes de jornais, os arquivos das reportagens com o vasto acervo da Globo.

Nos arquivos há umas  presenças saudosas, dentre as que  posso mencionar está a de Fernando Vanucci(1951-2020), nome importante do jornalismo esportivo que por anos foi apresentador  do Globo Esporte e do  Esporte Espetacular na Rede Globo, marcado pelo bordão do Alô Você.



Outro nome saudoso que também aparece nos arquivos e também faço menção é a do sociólogo Herbert de Sousa(1935-1997), popularmente conhecido como “Betinho”, celebre ativista dos direitos humanos e de campanhas contra a fome,  que aparece concebendo uma entrevista esclarecendo sobre a polêmica doação recebida pelo Castor de Andrade.

Também vale mencionar outra presença saudosa no documentário  que aparece nas imagens de arquivo é   do humorista Jô Soares(1938-2022) recebendo Castor de Andrade  para sentar no sofá  de seu antigo talk show do SBT, o  Jô Soares Onze e Meia(1988-1999) e lhe conceder uma pitoresca entrevista  ocorrida em 1991.

Algo que seria impensável para os dias de hoje, cuja maneira calma e descontraída como ele conseguia entrar nas graças da plateia e como Jô conseguia extrair alguma tentativa de provocação, nem parecia se tratar do  mesmo ameaçador bicheiro,  capaz de tamanha crueldade com quem ousasse ameaçar  o seu reinado.

Recomendo conferir esse documentário para conhecer um pouco mais  da situação sociocultural e econômica do nosso Brasil.

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

FRASE DE JACQUES LEGOFF.

 "O homem não vive somente de pão; a História não tinha mesmo pão; ela não se alimentava se não de esqueletos agitados, por uma dança macabra de autômatos. Era necessário descobrir na História uma outra parte. Essa outra coisa, essa outra parte, eram as mentalidades" 

 Jacques Le Goff 

 (1924-2014).




quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

RUBEM ALVES E O PENSADOR

“Minha filha me fez uma pergunta: “O que é pensar?” Disse-me que esta era uma pergunta que o professor de filosofia havia proposto à classe. Pelo que lhe dou os parabéns.



Primeiro por ter ido diretamente à questão essencial. Segundo, por ter tido a sabedoria de fazer a pergunta, sem dar a resposta.

Porque, se tivesse dado a resposta, teria com ela cortado as asas do pensamento.

 O pensamento é como a águia que só alça voo nos espaços vazios do desconhecido.

Pensar é voar sobre o que não se sabe. Não existe nada mais fatal para o pensamento que o ensino das respostas certas. Para isso existem as escolas: não para ensinar as respostas, mas para ensinar as perguntas.

As respostas nos permitem andar sobre a terra firme. Mas somente as perguntas nos permitem entrar pelo mar desconhecido.”

Rubem Alves(1933-2014), em A Alegria de Ensinar. Escultura O Pensador(1904) do francês  Auguste Rodin(1840-1917).


quarta-feira, 28 de janeiro de 2026

30 ANOS SEM O CRIADOR DO SUPERMAN

 

No dia 28 de Janeiro de 1996, partia para o  andar  de cima, o  criador do Superman Jerry Siegel(1914-1996).




Nascido em Cleveland, Ohio, em 17 de Outubro de 1914. Era o caçula dos seis filhos de imigrantes judeus da Lituânia.

Seu pai era um pintor de placas e dono de uma loja de materiais, sempre procurava encorajar as inclinações artísticas do filho, isso até ocorrer o trágico episódio do assalto a loja do seu pai  e com esse susto ele acabou sofrendo um ataque cardíaco que o levou a morte.





Foi quando ingressou na Greenville High School que ele conheceu seu futuro parceiro na cocriação do Superman Joe Shuster(1914-1992).

Nas palavras de Siegel sobre Shuster:

Quando Joe e eu nos conhecemos, foi como dois elementos se juntassem em uma perfeita reação química.”

Shuster que era canadense, mas assim como Siegel o fato de além de terem nascidos no mesmo ano, também carregavam descendência judaica o que gerou uma forte conexão, sendo Shuster filho de pai holandês que era alfaiate e sua mãe era ucraniana. Joe Shuster era primo do comediante Frank Shuster(1916-2002), que junto a Johnny* Wayne(1918-1990) a dupla humorística Wayne&Shuster.





       Com quem ele dividiu a autoria da criação do Superman para a revista Action Comics em 1938.

      Pode-se dizer que o Superman reflete um pouco de seus criadores, o fato de simbolizar um ser alienígena, que veio se refugiar na Terra ainda bebê depois que sua terra natal Kripton foi destruída.  E defende a humanidade que o acolheu, mesmo essa humanidade sendo preconceituosa com os diferentes.




        Traz uma metáfora interessante sobre ele simbolizando um pouco de cada  imigrante vivendo na América, na Terra das Oportunidades.  Sendo Shuster canadense e Siegel que carregava sangue de imigrantes lituanos e ambos carregavam sangue judaicos, isso tudo torna a obra muito fascinante.




A história da relação deles tanto profissional quanto pessoal é muito explorado na obra biográfica A História de Joe Shuster: O Artista por trás do Superman.

         Trata-se de uma HQ(História em Quadrinhos) biográfica sobre o cocriador do Superman de autoria da dupla Julian Voloj(Roteiro) e Thomas Campi(Arte).




 A obra originalmente publicada em 2018, ano dedicado ao  80ª aniversário do Superman.

      Contada pela ótica do próprio Shuster em primeira pessoa, a obra nos apresenta uma outra faceta interessante a respeito do cocriador do Superman e de como ele se relacionava com Jerry Siegel, seu parceiro na criação do Superman, de como foram os bastidores da criação do Superman e de como sua vida não foi nada glamourosa ao contrário do que muitos fãs imaginam.

Ainda mais  depois que sua famosa criação foi um sucesso,  ele passou anos sem receber um centavo de royalties, por conta de um acordo que precisou assinar com uma empresa de quem ele cedeu  e não recebeu crédito nenhum por isso e de como isso gerou a indignação do seu parceiro Jerry Siegel foi o que mais lutou na justiça para obter de volta a propriedade intelectual do Superman.

Também vai nos mostrando ao longo das páginas diferentes momentos da vida de cada um,  onde Shuster como fio condutor da narrativa nos apresenta como se deu sua trajetória de criar o Superman,  quando as primeiras páginas iniciam com ele idoso em 1975, jogado na rua e encontrado por um guarda que o leva a uma cafeteria, lá ele começa contando de sua família judia vinda da Holanda que imigrou para o Canadá de onde ele nasceu em 1914 e de como conheceu seu parceiro Jerry que colaborou com ele na criação do Superman e de como ele inconformado com isso, mas fez de tudo para exigir seu reconhecimento.

É uma leitura que super recomendo para conhecer mais outras camadas que envolvem seus criadores.

Trata-se de uma leitura envolvente com ilustrações incríveis de Thomas Campi, que se utiliza de uma técnica fotorealista em cada ângulo de quadro de cena, com uma expressividade sensacional e uma qualidade perfeita em especial nas paletas de cores solares.

A estética textual e ilustrativa do quadrinho traz muito um toque vintage que te faz imergir na história, conhecendo e se aprofundando um pouco sobre os criadores do Superman e vendo que nem sempre a relação dele era perfeita e de como no fim da vida, Siegel foi quem mais batalhou contra o sistema industrial sem receber nenhum royalties pela sua criação que o levou a vive na amargura da pobreza.

Um soco no estomago em retratar o lado pobre das industrias de entretenimento e seus esquemas predatórios. Recomendo.

Im Memoriam,

Jerry Siegel.

*Não confundir esse Johnny Wayne com John Wayne(1907-1979), o astro dos westerns. Já que apesar deles serem homônimos as grafias dos seus nomes  nos créditos são muito diferentes. 

quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

BRIGITTE BARDOT INSPIROU BARBARELLA.

 

Quem já teve a oportunidade de assistir ao filme BARBARELLA (Itália, França, 1968) deve bem saber se tratar de um clássico cult idolatrado pelos amantes de ficção científica, estrelado por Jane Fonda que virou uma símbolo sexual.







Pois bem, esse filme foi inspirado numa HQ do francês Jean-Claude Forest(1930-1998) que a publicou em 1962, e cuja inspiração para  desenha-la foi na atriz Brigitte Bardot (1934-2025) na época já uma consagrada musa do cinema.

Ironicamente quem dirigiu esse filme foi o renomado cineasta francês Roger Vadim(1928-2000) que dirigiu o célebre E Deus Criou a Mulher (1956) estrelado pela BB. Curioso não.




       Essa HQ com a temática space opera com pegada de erotismo foi concebida no momento em que o mundo estava de olho com a corrida espacial e estava a Revolução Sexual.

       Publicado no formato de tirinhas  para a Revista V-Magazine que aqui no Brasil teve algumas de suas edições traduzidas em português pelo famoso comediante Jô Soares(1938-2022).

        Forest a criou bem com uma pegada de heroína cósmica futurista  e com grande  sexy appeal para os leitores, trazendo muito do reflexo das transformações e revoluções que o mundo estava passando nos anos 1960. Era a época da Corrida Espacial, que simbolizou  bem a disputa  hegemônica política da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética.

        

           Junto a isso estávamos vivendo  o movimento da contracultura em várias manifestações artísticas, foi nessa época  que estava tendo também   a luta pelos direitos civis e pela liberdade sexual.

     Foi unindo todas estas características do momento que o mundo vivia, fora também as outras fórmulas de sucesso, principalmente da ficção científica que era o gênero favorito do autor, que adorava ler quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rogers, e de tramas bem aventurescas. 

         Além do mote do quadrinho da protagonista  ter característica de ficção cientifica,  outro ponto característico era o seu apelo erótico com perfil até de  ninfomaníaca, onde encarava o perigo se oferecendo para transar, característica está  bem influenciada pelo momento da revolução sexual que o mundo passava.

 

        E pelo traço caracteristicamente erótico com o estereótipo de loira fatal  com lábio carnudo, que o autor se inspirou para desenhar  na bela musa francesa do cinema dos anos 1950/60 Brigite Bardot como já foi descrito no começo do texto. 

 

          Todas estas características foi o que serviu de base para este filme em questão que literalmente foi uma produção multinacional franco-italiana.




         Além de contar com a direção do renomado cineasta francês  Roger Vadim como mencionado no começo do texto, o  filme teve a produção-executiva  do italiano Dino de Lauretiis(1919-2010) um respeitado empresário do ramo, foi ele  quem comprou os direitos de adaptação da obra, e filmou todas as locações do  filme em seus estúdios em Roma.

         O seu roteiro contou com a assinatura do americano Terry Southern(1924-1995) que dividiu essa função com Vadim.

        Foi distribuído mundialmente pela Paramount Pictures, uma das maiores produtoras de Hollywood. Além de contar com um impecável trabalho de design visto  a frente do seu tempo para representar uma grande inovação na história do cinema, cuja direção de fotografia contou com a assinatura de Claude Renoir*(1913-1993), mas da maneira muito caótica como o  roteiro foi construído,  resultou num grande fracasso de bilheteria.

        Dos 9 milhões de dólares gastos na época, só conseguiu arrecadar apenas 2,5 milhões de dólares,  mesmo investindo num marketing pesado com a protagonista posando nua para a Penthouse, uma equivalente a Playboy no Reino Unido caracterizada como a personagem.

            Ainda assim não foi o suficiente para atrair a bilheteria. Somente com o passar dos anos, quando o filme foi sendo revisitado e  redescoberto é que ele ganhou um grande notoriedade e  reconhecimento a ponto  de ser considerado um clássico   cult movie.

      Uma das principais razões para  explicar  isso pode estar talvez no fato da estética do filme carregar muitas características referentes  as formulas bem clichês de como eram concebidos os filmes do gênero da ficção cientifica da época.

 

         Que eram tanto na parte técnica visual cheia das extravagâncias, com uma fotografia que usava e abusava do tom das cores bem aberrantes para criar um ar bem cartunesco, somados também aos outros designs toscos  de produção como a criação do disco voador, os efeitos especiais das pistolas a laser, as caracterizações das criaturas e principalmente os chamativos figurinos espalhafatosos dos personagens, principalmente dos decotes femininos com toques bem provocantes,  beirando ao ridículo de tão cafonas, a ponto de mais parecerem umas encenações circenses.   

 

      Muito disso pode ter haver com o fato de que como o gênero da ficção cientifica sempre foi visto como uma maneira fantástica  de diversão escapista, como refúgio da cruel realidade. Uma imersão da descrença.

         O que de certa forma dá para poder relevar o nível da qualidade  brega explorado neste tipo de produção com os  cenários e os figurinos bem carnavalescos.   

 

         O que neste aspecto, o filme  Barbarella cumpre bem esta função, já que a protagonista em diferentes momentos vive trocando constantemente os figurinos com um tom mais decotado e provocante que o outro, isto pode ser sentido desde a cena de abertura dela fazendo strip-tease dentro da sua nave em gravidade zero.

         Não só com os figurinos da protagonista, mas também com os figurinos de outros personagens que vão aparecendo no decorrer do filme, como do caçador Mark Hand trajando uma espécie de macacão cheio de penas, que já cria um tom bem extravagante, deixando ele ficar parecendo um urso gigante, ou mesmo do próprio design de produção de Sogo que é capenga.

         Ao mesmo tempo que ele trabalhou bem, mesmo com recursos limitados de edição os  elementos de psicodelismo como um bom refúgio da realidade.

 

           Como na cena onde ela invade o local de sono da Rainha Negra e entra por diferentes mundos, onde podemos apreciar uns espetáculos visuais de formações geométricas.

        Não só o design de produção representa a maior prova de que o filme seguiu bem esta formula estética  comum dos filmes de ficção cientifica da época.

 

          Como também o  próprio formato do enredo com um ar bem aventuresco e também  com uma pegada detetivesca influenciada pelos filmes de James Bond  onde a nossa heroína é incumbida de uma missão de investigar o sumiço de um astronauta chamado Duran Duran, que da metade da história  temos uma grande reviravolta dele ser o grande vilão dessa história.

      Mesmo apresentando entre seus maiores  problemas:

1)Um texto sofrível cheio de diálogos bobos e facilmente risíveis, que acaba causando muitas quebras  de ritmos narrativos e de tons.

2) Algumas interpretações sofríveis de atores em  personagens muito bobos ou mesmo bastante deslocados do contexto num filme de ficção cientifica com ar mais de comédia erótica.

 3)A construção do cenário capenga e um tanto tosco  de Sogo.

 4) O ato final terminar de uma forma muito decepcionante, onde o vilão é derrotado sofrendo  pelo seu próprio feitiço, com o plano mirabolante de conquistar Sogo, ele acaba sendo morto pelo raio positrônico, graças a aliança da heroína com a Rainha Negra de Sogo que sendo destruída pela catástrofe onde termina com ela e a Rainha sendo salva por Pygar em um final aberto. 5) O momento bizarro e até vergonhoso de ver a protagonista fazendo uma espécie de sexo transcendental através de uma pílula de transferência de exaltação que ela dá para  Dildano  onde eles transam só encostando  as mãos. E nas mãos de Dildano sai um vapor e ele se descabela completamente para simbolizar a sua excitação.

        Enfim, mesmo com todos estes problemas aqui mencionados,  boa parte ocasionados pela construção caótica do roteiro que foram sendo  escritos e reescritos passando por outras mãos, ainda assim não pode negar que Barbarella representou sim uma forte contribuição e um grande legado, especialmente para a cultura pop musical.

 

     A prova disso está que em 1969, o cantor brasileiro Jorge Ben Jor, quando assinava apenas como Jorge Ben lançou uma canção intitulada de Barbarella em referência justamente a essa personagem como nesse trecho:

Na dimensão azul e rosa
Do infinito celestial da quinta galáxia
Quem me dera eu ser intergaláctico
Para estar dormino nas estrelas
Só falando de amor com você

Pois eu sonhei com você, Barbarella
Pois eu sonhei com você, Barbarella

      Cuja sonoridade entra no clima psicodélico cósmico  do filme.  

      Na década de 1980, o nome do vilão do filme  Duran Duran  interpretado pelo irlandês  Milo O´Shea(1926-2013)  inspirou o  nome   da banda inglesa de pop rock e new wave Duran Duran que posteriormente  faria uma canção referente a heroína intitulada de Eletric Barbarella que compõe o repertório do nono álbum de estúdio da banda Medazzaland, lançado em 1997.    

          Em 1994, a cantora australiana Kylie Minogue lançou o videoclipe da canção Put yourself in my place inspirada na cena de abertura do filme se despindo completamente em gravidade zero num foguete vagando no espaço.

         E como se não bastasse isso, em 2014, o videoclipe de  Break Free da cantora Ariana Grande foi completamente inspirado no filme, com tudo que se pode imaginar, especialmente na atmosfera aventuresca e com  ela e os figurantes usando  os figurinos extravagantes e a cantora  encenando a memorável cena  da protagonista se despindo em gravidade zero dentro da nave.

         Mesmo que a letra da canção não tivesse nada a ver com o enredo do videoclipe com toda uma atmosfera cósmica.

        Inclusive a parte musical no filme é fantástica. Contou com  a produção de Bob Crewe(1930-2014), Charles Fox, Michel Magne(1930-1984) e James Campbell(1931-2010).

         Bob Crewe é quem  ficou  responsável por  tocar na abertura onde no primeiro trecho a compara  com a Mulher-Maravilha e a definido como uma mulher psicodélica. Também ficou responsável por cantar Love,Love,Love, Drags me Downs e a canção de encerramento An Angel is Love acompanhado da banda The Glitterhouse. Já os outros se encarregaram bem de produções as músicas incidentais de cada cena, que ficaram incríveis.

         Principalmente a cena onde a coitada da heroína está mantida prisioneira por um bando de pivetes gêmeos bem endiabrados que a acorrentam num pilar e ligam uns bonecos com dentaduras de aço para morde-la. E ela vai sendo salva pelo caçador Mark Hand.  Entre alguns fatos curiosos sobre a produção estão:

1) Os figurinos extravagantes de todos os personagens contaram com dedo de dois nomes importantes da moda, como o espanhol Paco Rabanne(1934-2023) e do francês Jacques Fonteray(1918-2013).

2)O nome de SoGo, trata-se de uma referência  a cidade bíblica  de Sodoma e Gomorra.

3) O filme apresentou algumas cenas que precisaram serem cortadas. Dentre essas uma foi a tórrida cena de beijo da protagonista com a Rainha Negra de SoGo, o que é compreensivo, aquilo poderia  chocar bastante.

 

        Pois  o filme por si só já era bem sensualmente provocante. Já a outra, tipo se a cena dela com Dildano já era muito bizarra, imagine o quão tosco teria ficado se a mesma com outro ator no papel com a protagonista completamente pelada. Ai a apelação já ultrapassaria todos os limites mesmo do aceitável.

         De todo jeito, pode-se concluir que o filme mesmo com todos os problemas que o tornem visto mais como um bom exemplo de filmes trash, ainda assim não se pode negar a sua grande contribuição para o cinema.

       Talvez não teríamos Star Wars na década de 1970. 

 

     O seu  elenco ele é  muito multinacional, como a presença da   americana Jane Fonda, filha do grande ator Henry Fonda(1905-1982) e irmã de Peter Fonda(1940-2019)  que na época já figurava como uma sex symbol  de Hollywood estando no auge da beleza foi a responsável por protagonizar o filme.

         Ela não foi a primeira escolha ao papel, antes   foram sondados  por outras belas atrizes que também figuravam como  grandes  musas que foram as italianas  Sofia Loren e Virna Lisi(1936-2014), que simplesmente recusaram.

          Jane Fonda conseguiu bem transmitir em cena ao desempenhar a personagem todo o ar de sexy appeal, apesar de sofrer um pouco com o texto bastante fraco, com diálogos muito facilmente risíveis por apresentar um  teor bastante patético de tanto beirar ao ridículo. Resultado do roteiro caótico, especialmente pela ideia doida do produtor Dino de Laurentiis  de gravar o filme em duas diferentes línguas sendo que  a Torre de Babel já estava feita pela quantidade de atores de diferentes países que participaram dessa produção, além da já mencionada Jane Fonda, atriz americana como protagonista.

          Dentre as outras participações de atores multinacionais no filme estavam  do célebre mimico francês Marcel Maceau(1923-2007) como o Professor Ping, o britânico David Hemmings(1941-2003) no papel do abobalhado revolucionário Dildano, o italiano Ugo Tognazzi(1922-1990) como o caçador Mark Hand, a italiana Anita Pallenberg(1942-2017) na pele da Rainha Negra de Sogo, o americano John Phillp Law(1937-2008) como o anjo Pygar dentre outros e o francês Claude Dauphin(1903-1978)  no papel do Presidente da Terra.

 

Por essa e outras, posso concluir que Barbarella tem seu charme e o seu grau de importância para a cultura pop.

*Esse Claude Renoir que foi o diretor de fotografia de Barbarella  nasceu no berço de uma importante família muito ligada a arte na França. Ele era filho dos atores Pierre Renoir(1885-1952) e Véra Sergine(1884-1946). Era sobrinho do cineasta Jean Renoir(1894-1979) e era neto do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir(1841-1919).