sábado, 18 de julho de 2026

A JORNADA DE JASÃO E OS ARGONAUTAS

 

Para entrar no clima do lançamento do novo épico A Odisséia, com direção de Christopher Nolan, uma nova adaptação cinematográfica do clássico literário de Homero.

Trago aqui um comentário do clássico épico de fantasia inspirado na jornada heroica de outro mítico herói da Grécia Antiga, o Jasão em Jasão e os Argonautas (Jason and the Argonauts,EUA,Reino Unido, 1963).




 Uma produção britânico-estadunidense que contou com a direção do britânico Don Chaffey(1917-1990). Cujo roteiro escrito por Jan Head(1917-2012) e Berveley Cross(1931-1998) foi inspirado no poema grego de As Argonáuticas de Apolónio de Rodes (295 a.C-215 a.C) e cuja produção-executiva foi assinada por John Dark(1927-2015).






Produção essa marcada pelos efeitos de animações em stop motion das criaturas que contou com a colaboração de um mestre nessa arte que foi o americano Ray Harryhause(1920-2013) e com colaboração de Charles H. Schnner(1920-2009) e cuja trilha sonora foi assinada pelo também americano Bernard Herman(1911-1975).

       A movimentação desses bonecos dão um tom realismo, que dificilmente os atuais recursos mais modernos de CGI conseguiriam replicar.

       Junto a estrutura narrativa de toda a jornada heroica de Jasão enfrentando todos os maiores desafios, contando claro com a colaboração da Deusa Hera e seus companheiros argonautas enfrentando criaturas e feiticeiras.

Cuja menção ao brilhante elenco vai para o americano Todd Armstrong(1937-1992) na pele do protagonista Jasão, que mostra um excelente desempenho na sua essência heroica e destemida.  

 O seu elenco também conta com a participação da britânica Honor Blackman(1925-2020), que no filme fez um bom desempenho como a Deusa Hera que assume a função de ajudar Jasão.

Essa mesma que no ano seguinte faria a famosa bond girl Pussy Galore no filme 007 Contra Goldfinger(Goldfinger, Reino 1964) o terceiro estrelado por Sean Connery(1930-2020).

Outras menções ao elenco representando importantes da mitologia grega são: a Nancy Kovac na pele da Medeia, Gary Raymond como Acasto, Laurence Naismith(1908-1992) na pele do Argos, Niall MacGinnis(1913-1977) na pele do Zeus, Michael Gwynn(1916-1976) na pele do Hermes, Douglas Wilmer(1920-2016) na pele do Pélias, Nigel Green(1924-1972) na pele do Hércules, Patrick Trougton(1920-1987) na pele do Fineu, Jack Gwillim(1909-2001) na pele do Rei Eetes, John Cairney(1930-2023) na pele do Hilas e Andrew Faulds(1923-2000) na pele do Phalerus.

Apesar dos efeitos especiais se mostrar um tanto datado, pelo menos é uma produção que mostrava bem ter seu charme e sua qualidade de produção, ainda mais levando em conta que ele foi lançado no período em que as produções épicas monumentais históricas e de fantasia estavam entrando em declínio em Hollywood.

Principalmente depois do fracasso do filme Cleópatra(1963), estrelado pela estrela Elizabeth Taylor(1932-2011).

Portanto, essa produção reflete o começo da decadência do subgênero escapista dos filmes monumentais de fantasia em Hollywood e épicos históricos.

quarta-feira, 15 de julho de 2026

QUANDO AS FALSAS TCHECAS ENGANARAM O PÃNICO

 

 Imagine uma dupla feminina de modelos que estrelou um quadro de um popular programa de televisão humorística se dizendo que são da República Tcheca*, mas que na verdade era tudo zoeira. Vindo da marca de cerveja concorrente da sua patrocinadora oficial. Isso ocorreu sim, de fato, para entender o contexto aqui vai a explicação.




Em 2011, a dupla gringa formada pela eslovaca Michaela Matejkova e pela inglesa Alicia Seffras(Dominika), ou seja, não eram naturais da República Tcheca. Eram duas modelos que estrelavam o famoso quadro Tchecas do Brasil do programa brasileiro Pânico na TV! (2011) na ocasião que o programa ainda estava na RedeTV, que fingiam serem tchecas apaixonadas pelo Brasil. Elas eram na verdade garotas-propaganda da cerveja Proibida, uma ação de marketing viral que enganou o programa e gerou polêmica.




 Ocorre que o Pânico tinha patrocínio da Skol, concorrente da Proibida. A produção do programa alegou não saber que elas eram garotas-propaganda e entrou com ações judiciais contra a cervejaria, que investiu R$ 60 milhões na campanha. A ação foi um sucesso de marketing viral, mas gerou muitas discussões sobre ética e publicidade na época e com um processo movido pelo órgão da CBBP-Companhia Brasileira de Bebidas Premium, mas que a justiça deu ganho a RedeTV.




Essa publicidade toda resultou das duas perderem e estrelarem a capa de Julho de 2011, da extinta revista Playboy Brasil, pouco tempo depois o Pânico se transferiu para a Band em 2012 e ficou até 2017.







Sobre o atual paradeiro dessas duas modelos, o pouco que se sabe é que a eslovaca Micaela trabalha como personal trainer e com  estética na Europa, mantendo suas redes sociais reservadas e a britânica Alicia Seffras que era conhecida como Dominika vive atualmente reclusa e longe dos holofotes.

*País localizado na Europa Central, sem saída para o mar. É exprimido nas fronteiras da Polônia, Alemanha, Áustria e Eslováquia. Séculos atrás esse país quando foi chamado de Boémia compunha o reino do Império Austro-húngaro. Durante o período da temida ditadura comunista soviética onde esse território a Cortina de Ferro, essa nação foi chamada de Checoslováquia. Até que após o fim da Cortina de Ferro o pais se dividiu em República Tcheca e Eslováquia, que é de onde nasceu uma das modelos e atualmente está sendo referida dentro da geopolítica como Tchéquia.

domingo, 12 de julho de 2026

ODISSEU E HÉRCULES JUNTOS NUM FILME PEPLUM

 

Nesse ano de 2026, existe uma imensa expectativa para a estreia da produção épica de A Odisseia de Homero, dirigido por Christopher Nolan.



Não é de hoje que Hollywood costuma explorar a jornada heroica dos mitos da antiguidade grega.

E se tem um filme interessante que soube trabalhar bem a interação do protagonista da Odisseia com o herói semideus Hércules esse filme em questão que vou comentar aqui trata-se de Hércules e a Rainha da Lídia (Ercole e la regina di Lidia, França, Espanha, Itália, 1959).




O filme trata-se de uma produção italiana pertencente ao subgênero peplum, nome derivado de peplo, que era referente aquela vestimenta das túnicas usadas na Grécia Antiga. Também referido como filme de espada e sandália.

O subgênero peplum de filmes épicos históricos surgiu na Itália ali por volta da década de 1950, naquele momento pegando carona na fase em que Hollywood estava investindo em produções épicas históricas monumentais com temáticas de heróis mitológicos, bíblicos ou mesmo da Antiguidade Clássica.  


 
Cartaz original do filme com o titulo 
diferente do internacional em inglês. 


Ainda mais porque muitas das grandes produções épicas de Hollywood tiveram suas locações filmadas na Itália, nos estúdios da Cinecittà.

Essas produções peplum de baixo orçamento refletiam um pouco aquele momento em que a indústria do cinema italiano estava querendo investir nesse toque mais escapista, ainda mais depois que o pais já estava começando a se recuperar economicamente uma década após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, que deixou o país destruído após dar fim ao autoritário e opressor  governo fascista de Benito Mussolini(1883-1945), esse que ironicamente foi o fundador da Cinecittá que foi inaugurada em 1937.



 

O desolador cenário que a Itália viveu Pós-Segunda Guerra Mundial foi bastante representado e retratado no movimento do cinema Neorealista Italiano, em obras de cineastas como: Roberto Rosselini(1906-1977), Vittorio de Sica(1901-1974), Luchino Visconti(1906-1976) e Federico Fellini(1920-1993).




Digamos que naquele momento do final dos anos 1950, com a Itália conseguindo voltar a ter sua economia em crescimento e vendo que Hollywood fazia locação gravando suas produções monumentais. Ela decidiu então tirar uma casquinha disso, produzindo com orçamento baixo essas produções do subgênero peplum.

E a produção de Hércules e a Rainha da Lídia, ou como internacionalmente é mais conhecido pelo título de Hércules Unchained, onde inclusive quando eu tive um DVD do filme lançado pela distribuidora brasileira ClassicLine era assim que o título era conhecido, bem reflete esse contexto.


 
Cartaz do DVD da distribuidora brasileira ClassicLine 
lançada nos anos 2000 com o titulo internacional 
de Hercules Unchained. 



Nessa produção estrelada pelo fisiculturista americano Steve Reeves(1926-2000), vencedor de concursos de Mr. Universo e Mr. América como o mítico semideus Hércules, esse foi o segundo filme a contar com ele no papel, no ano anterior ele estrelou As Façanhas de Hércules(Le Fatiche de Ercole, Itália, Espanha, 1958).

Nos apresenta Hércules chegando no barco da Argonauta até Tebas.




Ao chegar em Tebas, ele acompanhado de sua amada Iole(Sylva Koscina) e do jovem Odisseu(Gabrielle Antonini) se dirigem até o Palácio do Rei Édipo(Cesare Fantoni) dirigindo numa carruagem.

Ao chegar lá descobre que o Rei Édipo cego resolve descer até o Hades com desgosto dos seus filhos Eteocles(Sergio Fantoni) e Polinices(Mimmo Palmara) vivendo em pé de guerra para ver quem vai ficar com o trono.




Hércules resolve intervir, levando acompanhado de Odisseu um papel com um acordo de paz, ocorre que Hércules acaba caindo numa ilha da rainha Onfale(Sylvia Lopez), a ilha da Lídia, onde ela usa de todo o feitiço possível para mantê-lo fazendo com que ele se mantivesse apaixonado por ela. E o pobre do Odisseu terá de fazer de tudo para tentar tira-lo desse feitiço para ele não ser o próximo a cair numa poça de gesso e virar estátua como já ocorreu com outros amantes de Onfale, e enfrentar a batalha contra os irmãos Eteocles e Polinices pelo trono de Tebas.  




Essa produção italiana do subgênero peplum contou com a direção de Pietro Francisci(1906-1977) que também assina o roteiro junto de Ennio de Concini(1923-2008) inspirado na obra de dois autores gregos da Antiguidade Clássica que foram:  Sófocles(496-405 A.C) com Édipo em Colono e Ésquilo(524-455 A.C) com Sete contra Tebas. Cuja produção é assinada por Bruno Vailati(1919-1990) e também contou com o envolvimento de Mario Bava(1914-1980), outro importante nome do cinema italiano.






Além de ser estrelado por Reeves, que apesar do seu desempenho mediano de ator beirando ao canastrão, ainda mais pelo fato de não saber dominar o idioma italiano, onde foi preciso que sua voz fosse dublada. Ainda assim, ele consegue transmitir uma ótima imponência na pele do mítico herói da antiguidade clássica, graças ao porte físico atlético de tanto treinamento no fisiculturismo que o ajudou nas cenas que exigiam mais fisicalidade por assim dizer.

Antes de se aventurar por essas produções na Itália, Reeves chegou a tentar estabelecer uma carreira de ator em Hollywood, participando de uns papeis menores, antes de ficar eternizado como o Hércules nessa produção peplum.

     Ele ficou tão assimilado ao Hércules, que no fim da vida comentava melancolicamente:

"As pessoas pensam que eu fiz dez filmes como Hércules, quando na verdade só fiz dois."

(Fonte: Memórias Cinematográficas).




Isso pode ser explicado pela confusão ocasionada de que ele chegou a ser convidado para repetir o papel de Hércules em outras produções peplum, mas após se recusar chamaram outros fisiculturistas, entre esses estava o britânico  Reg Park(1928-2007), que representou Hércules em Hércules na Conquista de Atlântida (Ecolle ala Conquista di Altantida, Itália, 1961) dirigido e roteirizado por Vittorio Cottafavi(1914-1998)  e em seguida, Reeves foi fazendo outros heróis épicos também em produções peplum como em As Aventuras do Ladrão de Bagdá(Il Ladro in Bagdá, Itália, 1961) que teve a codireção do americano Arthur Lubin(1898-1995) e de Bruno Vailati que assina como um dos roteiristas.


 
O fisiculturista britânico Reg Park em cartaz no filme Hércules na Conquista de Atlântida(1961).
 
Cartaz do filme As Aventuras do Ladrão de Bagdá(1961), 
outra produção italiana épica peplum estrelada 
por Reeves. 



O que acabou criando um Efeito Mandela em torno de muita gente achar que o ator estrelou dez filmes de Hércules, quando, na verdade só estrelou dois filmes.






O desempenho mediano de Reeves como ator em cena, é compensado pelo bom desempenho de grandes talentos do cinema italiano presentes no filme como: Gabrielle Antonini(1938-2018) que no filme faz um bom desempenho cômico como Odisseu, um ajudante de Hércules. Ele se destaca por tentar fazê-lo acordar do feitiço de Onfale sem saber do plano diabólico dela sobre ele. Daniele Vargas(1922-1992) que no filme representou o Anfiaros, o General de Eteocles, que nutre uma queda pela Iole, a amada de Hércules ao mantê-la refém.





A croata-italiana Sylva Koscina(1933-1994) representando a Iole, a amada de Hércules, ela empresta bem em cena uma docilidade junto a sua atraente beleza   para a personagem seguir o modelo do tropo narrativo da donzela indefesa a ser salva e mostra um brilhante talento musical na cena onde está cavalgando numa carruagem dirigida por Odisseu a canção acompanhada de uma lira que toca Con ter per l´eternitá, composta por Enzo Maseti(1893-1961) especialmente para o filme que é tocada instrumentalmente ao longo da história.

Algo que em conjunto a atraente beleza da atriz acaba dando além daquele toque de sexy appeal deu também um certo borogodó a personagem.

Outra atriz de beleza atraente presente no filme é Sylvia López(1933-1959), nome artístico de Tatjana Bent, uma francesa nascida na Áustria, que começou como modelo desfilando para o designer de moda Jacques Fath(1912-1954) com o pseudônimo de Sylvia Sinclair.

Estava se consolidando na carreira de atriz desde 1956 ao participar de produções francesas já assinando como Sylvia López, cujo sobrenome é de quando foi casada com o compositor francês Francis López(1916-1995). 

Sua representação como a Onfale no filme é incrível, o seu rosto e olhar magnético conseguiam bem captar a essência ardilosa dessa víbora do que ela era capaz de se utilizar para conseguir manipular um monte de homens para transforma-los em seus escravos sexuais e manda-los caírem numa poça de liquido de gesso que os transformam em estátuas.

Diagnosticada com leucemia, Sylvia López morreu precocemente ao 26 anos, em 20 de Novembro de 1959. Consta que a sua última participação no cinema foi em O Moralista (Il Moralista, Itália, 1959) do diretor Giorgio Bianchi(1904-1967) lançada postumamente.

O elenco de feras também conta com: Primo Carnera(1906-1967), um ex-lutador de boxe que no filme faz um brilhante desempenho do gigante Anteo que ousa desafiar Hércules na sua chegada a Tebas, Cesare Fantoni(1905-1963) faz uma participação especial na pele do Rei Édipo de Tebas, o filho de Cesare Fantoni, Sergio Fantoni(1930-2020) faz um brilhante desempenho na pele do Eteocles e sua disputa com o irmão Polinices, ele mostra um nível de insanidade, de loucura  no papel com suas risadas sinistras que mostra o nível de sua entrega ao personagem de perfil sociopático. Assim como Mimmo Palmara(1928-2016) faz uma brilhante defesa do Polinices com seu jeito mais calmo e estratégico.




Também mencionar as participações de Carlo D´Angelo(1919-1973) representando o Creonte, Patrizia Della Rovere como a Penélope, Andrea Fantasia(19??-1985) como o Rei de Itaca Laerte, pai do Odisseu, Gianpaolo Rosmino(1888-1982) na pele do Esculápio dentre outros.

Posso concluir que essa produção do subgênero peplum, pode até não chegar aos pés das grandes produções de Hollywood, no quesito qualidade de produção, mas no entanto carregava lá seu charme no conceito estético e simbolizou bem o contexto de sua época.

Esse subgênero peplum acabou servindo de inspiração para que o jovem austríaco Arnold Schwarzenegger ao se mudar para os Estados Unidos para competir no fisiculturismo ele tinha tanto em  Reeves e Park como seus ídolos, cujo primeiro trabalho dele no cinema foi justamente representando o mítico Hércules em Hércules em Nova York(Hercules in New York, EUA, 1970) onde ele assinava como Arnold Strong e como carregava um forte sotaque austríaco teve suas falas dubladas, uma produção obscura de sua filmografia bem antes de se tornar o famoso ícone do cinema de ação nos anos 1980.


 
O jovem  fisiculturista Arnold Schwarzzengger em começo de 
carreira como ator representando o mítico semideus 
em Hércules em Nova York(1970). 


Essas épicas produções peplum do cinema italiano ainda foram produzidas a rodo até a segunda metade da década de 1960, quando uma saturação ocasionada principalmente quando  as grandes produções épicas monumentais de Hollywood também estavam gastas e após o fracasso com Cleópatra(1963) estrelado por Elizabeth Taylor(1932-2011) cujo  gasto de produção geraram prejuízos para a Fox, os filmes monumentais foram deixando de serem produzidos e o cinema italiano  estava investindo em outro subgênero: o faroeste spaghetti.

Quanto ao astro Reeves após decidir se aposentar da carreira artística, viveu uma vida comum criando cavalos ao comprar um rancho em Valley Center, Califórnia. Onde lá também promovia o fisiculturismo sem o uso de drogas, a qual sempre se posicionava contrário publicamente. Foi nesse rancho que ele viveu ao lado de sua segunda esposa Aline Czartjarwicz até a morte dela em 1989, eles não tiveram filhos.  

Após ter ficado viúvo, Reeves ainda viveu nos anos seguintes frequentando algumas convenções e feiras de fãs de filmes épicos peplum.

Até falecer no dia 1º de Maio de 2000, depois de enfrentar uma batalha com um linfoma aos 74 anos, nesse ano de 2026, se ainda estivesse vivo o ator teria completado 100 anos.

 

quinta-feira, 2 de julho de 2026

EM MEMÓRIA DE JASPION

 

Na manhã de quinta-feira, 2 de Julho de 2026, acordei pegando o meu smartfone me deparando com a triste notícia do falecimento do ator japonês Hikaru Kurosaki nome artístico de Seiki Kurosaki, o protagonista do Jaspion.






O ator tinha 64 anos, a causa de sua morte não foi revelada, quem anunciou sua morte foi Masaki Sekiguchi, um amigo próximo que passou a trabalhar para ele após o ex-ator se mudar para Okinawa onde passou a fazer carreira como instrutor de mergulho e administrando uma empresa chamada de Mother Earth. Isso muito tempo após ele ter deixado o meio artístico depois que a série chegou ao fim no Japão.

 

 

Nas palavras de Sekiguchi:

Mesmo sem precisar expressar isso em palavras, havia uma relação de apoio mútuo, em que a simples presença de cada um servia de sustentação para o outro. Por isso, sua partida é profundamente lamentável. Que ele descanse em paz…”

(Trecho tirado do site UOL).

Antes de protagonizar a série do Jaspion, o ator já tinha participado de outras produções do gênero tokusatsu como um suit actor, um dublê por trás das fantasias em produções não-creditadas, já tinha participado de uns filmes de ação e tinha também participado de dois episódios de Choudenshi Bioman(1984-1985) onde representou o Shouta Ishimori que é usado por Gear para virar um guerreiro malvado acreditando que iria virar um sexto Bioman.   Foi lá que ele conheceu a atriz Yûko Asuka(1957-2011) que na série representou a Farrah, uma androide que era membra do Big Three do malvado Império Gear com quem casou e viveu junto com a atriz até ela falecer em 2011, mas não tiveram filhos.




Para mim que tenho uma forte memória afetiva com Jaspion, cresci assistindo a série quando passou na extinta Rede Manchete no final dos anos 1980, é um pouco difícil digerir essa notícia, fica meio que a sensação de vazio, já que foi com Jaspion que eu aprendi a nunca desistir mesmo enfrentando os obstáculos da vida real, ainda mais vindo de um rapaz órfão que não ficava na postura de coitadismo, ele lutava por um mundo melhor, coisa que nossos benfeitores da vida real normalmente decepcionam.




A maneira como ele encarava os monstros gigantes, tinha muito da essência de Davi versus Golias, é bem nessa estrutura campbeliana da jornada heroica.  


 Kurosaki em Bioman como Shota




Aliás, muita coisa de referência bíblica a série carrega, investigava uma profecia da Bíblia Galáctica. Que comentava do grande mal no universo. Representado por um ser demoníaco, fruto das energias negativas do Universo chamado de Satan Goss. 

 
 Tadashi Kamitani o dublê do Jaspion no Circo Show em entrevista com Jô Soares. 

Esse fator   acredito eu seja o mais obvio para explicar o porquê do herói ser tão querido pelos brasileiros, seja o fato da série apresentar muitas referências ligadas ao cristianismo. Visto que maior parte da população brasileira é católica. Um contraste em relação com a população japonesa cujos praticantes do catolicismo são menor, maior parte deles são xintoístas.

 Isto pode ser sentido pelo próprio Jaspion simbolizar bastante o arquétipo do salvador vindo do céu, destinado a proteger a Terra do mal.

A figura messiânica do profeta Edin também carrega esta simbologia cristã ocidental. Do mesmo modo quando ele fala da profecia da Bíblia Galáctica, se referindo ao Velho e o Novo Testamento Cristão. O Pássaro Dourado ser despertado pelas cinco crianças irradiadas pela luz de Nosso Senhor e Jaspion ser o escolhido para acabar com o Satan Goss e seu exército de asseclas comandado pelo seu filho MacGaren também tem essa referência cristã ao capiroto e seu exército da religião cristã ocidental.

Do mesmo jeito que a trama trabalhou bem as camadas de evolução do personagem. Que na primeira metade da série agia muito abobalhado e imaturamente, sendo até grosseiro com a androide Anri.  A partir da segunda metade, passa a ter um perfil mais sério e mais focado na sua missão. Na sua jornada de defender a Terra de ser dominada pelo império demoníaco de Satan Goss para criar aqui o seu Império dos Monstros. 

Visto que entre os japoneses mesmo, eles não carregam tão forte memória afetiva por Jaspion como nós brasileiros, um pouco disso consequência do fato da série foi se apresentando muito Frankestein ao longo dos seus 46 episódios. Cuja direção foi revezada com três diretores: Yoshiaki Kobayashi, Akihira Tojo e Takeshi Ogasawara(1941-2011).

 Nos três primeiros episódios nós acompanhávamos a jornada aventuresca do herói numa estética de space ópera onde mostrava ele enfrentando o monstro da vez enviado por Satan Giss num planeta diferente.

 A partir do episódio 4 quando passam a estabelecer na Terra a gente vai se deparando com outros Frankestein como as mudanças no corte de cabelo do Jaspion que foi modificando a personalidade dele. O Satan Goss que antes não verbalizava, passa a verbalizar quando entra a Kilza para ressuscitar o MacGaren para deixa-lo mais forte, ainda mais quando ele muda o visual usando uma túnica de imperador romano com um capacete brega.

Tudo isso em alguns momentos criou furos de roteiro, como o fato de por exemplo, no começo do episódio 18 quando mostra Jaspion acompanhado de Kanoko e Kenta sem a presença do pai Nambara.

Ele nota e pergunta pela primeira vez sobre a ausência da mãe deles, que faleceu quando Kenta era bebê, sendo que quatro episódios antes que eles os conheceu já devia ter percebido isso.

E o Guila, o assassino contratado por MacGaren para eliminar Jaspion no episódio 21 será que ele morreu na caverna quando a base de MacGaren foi destruída pelo Daileon?

 E como não só a audiência, mas a venda de brinquedos não foi satisfatória, visto que é bom a gente ter um pouco desse discernimento ao criticar essas produções como infantilizadas demais, e ter um afastamento afetivo em pensar que elas são pensadas para vender brinquedos.

Algo que aqui no Brasil, foi diferente graças a contribuição do Governo Brasileiro com as importações e as gambiarras da extinta fabricante Glasslite que produziu muitos dos bonecos reaproveitando moldes de Robocop, e não eram os moldes originais importados do Japão.

Fora outros produtos licenciados que foram produzidos pela primeira distribuidora a Everest Video. Atualmente Jaspion está na propriedade da distribuição da Sato Company.

       Jaspion foi muito marcante para mim, digamos entender que pior do que os monstros gigantes que ele enfrentava são os monstros da vida real.

Segundo o famoso escritor irlandês Oscar Wilde(1854-1900):

 "Somos cada um o nosso próprio demônio, e fazemos deste mundo nosso próprio inferno”.

Ele soube bem como transmitir ao Jaspion o tom da resiliência, algo que talvez criou uma forte aproximação como nós brasileiros.

É tanto que eu cheguei a comprar uns lotes de DVDs lançados pela Focus Filmes em 2009, que veio com o boneco e o mangá da JBC lançado em 2020.

Kurosaki também fez carreira de cantor, tanto que na série ele chegou a mostrar o seu talento musical no episódio 8, cantando a canção:  Hanpo Yuzutte GO IN Ni!., essa canção compõe o repertório do LP que Kurosaki gravou no ano anterior.  

Jaspion é  tão parte da nossa cultura, que existe um sujeito do Pará que aparece postando andando rotineiramente nas ruas como Jaspion.

O nível de popularidade entre nós brasileiros é tamanha que já houve um tempo em que muita gente acreditou  que o Jaspion fosse brasileiro.

Isso ocorreu quando por volta de 1997, o saudoso humorista brasileiro Jô Soares(1938-2022) quando ainda estava no SBT, comandando o talk show Jô Soares Onze e Meia(1988-1999) ele convidou para entrevistar Tadashi Kamitani, o dublê do Jaspion no Circo Show que era produzido pela distribuidora Everest Vídeo.

Na entrevista não foi esclarecido que ele representava o Jaspion apenas no circo. A confusão se deveu ao fato de quando Jô apresentou em seu telão uma cena da série de Jaspion dentro do Daileon enfrentando uma batalha contra o monstro do episódio 17, o que se criou em cima disso uma falsa memória de que ele fosse o protagonista da série.

A verdade é que Tadashi Kamitani não é o ator que fazia o Jaspion na série de tv, mas sim apenas no Circo Show, onde ele inclusive se dividia entre Adriel de Almeida que vestia a armadura nas apresentações.

Quem protagonizou o Jaspion na série foi Hikaku Kurosaki, que só o representou na forma civil, transformado foram outras pessoas.

A razão que ocasionou isso se deve ao fato de que como na época, segunda metade da década de 1990 ainda não existia Google para fazer uma checagem de informação e provavelmente a escassa informação que a produção do Jô tinha acesso era por meio da antiga assessoria do Circo e os únicos acessos de informação que a camada otaku conseguia era por meio das nichadas revistas Herói.

Nisso resultou essa lenda do Jaspion ser brasileiro que foi difundida nos fóruns dos primórdios da internet brasileira.

Além de Kurosaki, outros atores que participaram de Jaspion que também já faleceram são: Noburu Nakaya(1929-2006) que fazia o Edin em Jaspion, Shôzo Îzuka(1933-2023) que fez a voz  original do Sata Goss, Massanari Nihei(1940-2021), o Oficial Ide da série Ultraman que em Jaspion participou do episódio 23 como o apresentador que filma o espetáculo do Monstro Sion.

Fora também que já são falecidos: o maestro Chumei Watanabe(1925-2022), o compositor das trilhas incidentais de Jaspion, o cantor Ai Takano(1951-2006) que canta na abertura de encerramento de Jaspion e Shozo Uehara(1937-2020) que foi o roteirista.

O ator Hiroshi Watari, que participou de Jaspion como Bommerman manifestou seu pesar pela perda de Kurosaki:

"Estou chocado com a notícia da morte do Kurosaki Hikaru. Este ano, muitos colegas da JAC [Japan Action Club, o clube de ação de Sonny Chiba] partiram. Nunca esquecerei o que aprendi no palco do Shinjuku Koma Theater e no set de Jaspion. Obrigado", escreveu Watari.

Com certeza, entre esses nomes que ele se refere está o de Kenji Ohba, o protagonista da série Policial Espacial Gavan(1982-1983).

Que descanse em Paz,

Eterno Jaspion.

(1962-2026).