segunda-feira, 18 de maio de 2026

25 ANOS DO LANÇAMENTO DE SHREK

 

Imagine um desenho representado por um   sujeito feio, deselegante, grosseiro e anárquico terminava sendo o herói que conquistava o coração da princesa, a donzela em perigo e também do público divertindo bastante.




Sim, isto aconteceu quando no dia 18 de Maio de 2001 era lançado nos cinemas americanos a animação de Shrek(EUA,2001).

Aquele Verão Americano de 2001 representou um momento muito importante para a história da DreamWorks. Porque ela conseguiu naquele momento firmar o seu nome na indústria do cinema de animação, chegando ao mesmo patamar da Disney graças ao filme cujo protagonista era um sujeito feio, mal-educado, sujo, asqueroso, irritado e individualista, que representou naquela época um marco importante para tornar a Dreamworks uma grande marca para conquistar o nicho do público infantil, que até então era uma característica exclusiva da Disney.  A mesma Disney ao ver surgir sua grande concorrente abriu os olhos para o sinal de alerta a ponto deles gerarem uma enorme dor de cabeça para eles.







É irônico pensar que há 25 anos, a DreamWorks era ainda uma criança de sete anos, tinha sido originada por causa de uma dissidência da Disney.  Fundado em 1994, por Steven Spielberg, grande diretor e produtor de cinema, em parceira com o produtor musical David Geffen e com Jeffrey Katzenberg, um egresso da Disney que se desvinculou da empresa após viver em constantes conflitos criativos e de gestão com o seu então sócio Michael Eisner. 

Bem antes de Shrek, a Dreamworks já tinha lançado outras animações razoáveis, como Formiguinhaz e O Príncipe do Egito, ambos em 1998, este inclusive eu assistir nas telonas na época que foi lançado quando eu tinha uns 13 anos na antiga sala de cinema do Natal Shopping e ao revisitar fiquei bastante impressionado ainda com a sua qualidade técnica e com a qualidade do roteiro, constatei como envelheceu bem.   Em seguida veio O Caminho para El Dourado e A Fuga das Galinhas ambos lançados em 2000.




Foi justamente no ano de 2001 que a DreamWorks daria realmente um tremenda preocupação para a Disney quando lançou Shrek, que foi a sua quinta produção, mas foi a primeira a criar mais visibilidade ao nome do estúdio, tendo tanto conquistado as bilheterias, quanto a crítica, recebendo 88% de aprovação do Rotten Tomatoes  e principalmente conseguiu ser o pioneiro em cativar o público a ponto de  despertar um  forte apelo de marketing, algo que os longas-animados antecedentes da mesma DreawWorks não tinham conseguido, principalmente por ousar trabalhar na técnica da computação gráfica que até então  inovadora computação gráfica que a Disney em parceria com a Pixar tinha utilizado antes em Toy Story( EUA, 1995), ou seja, Shrek simbolizou um grande divisor de águas para fincar o nome da  Dreamworks como uma marca.

Com roteiro baseado e livremente inspirado no livro do escritor, ilustrador e cartunista americano William Steig(1907-2003) que o publicou em 1990, um fato curioso é que ele batizou o personagem com um nome extraído das línguas alemãs e ídiche que significam literalmente   medo, terror, bem condizente com o que a essência do personagem representou na premissa do filme.   O roteiro inclusive  foi adaptado pelas mãos de quatro roteiristas: Ted Eliott, Terry Rossio, Joe Stillman e Roger S.H.Schulman

Enquanto que a Disney amargava quando lançou naquele mesmo ano Atlantis-O Reino Perdido, que veio encostado a Shrek, mas passou batido, não conseguiu conquistar crítica, foi um fiasco de bilheteria e de marketing e como consequência disso a Disney entrava no começo da primeira década do século 21 num difícil período de sua história que é conhecido como a Segunda Era Sombria.

Para aumentar ainda mais a dor de cabeça que Shrek causou para a Disney na época, a Dreamworks também conseguiu a façanha de desbancar a Disney na edição do Oscar de 2002, quando Shrek concorreu na categoria de melhor animação junto a Monstros S.A, e Shrek venceu aquela importante premiação.  Fazendo a Disney abrir os olhos a partir daquele momento. Pode-se dizer que se não fosse Shrek não existiria: A Era do Gelo, Rio, Hotel Transilvânia, Madagascar, Meu Malvado Favorito, Minions, Angry Birds entre outros longas de animações de outros estúdios como Blue Sky, que infelizmente fechou suas portas em 2021 depois que a Disney havia se apropriado da Fox, Sony Pictures e Universal Pictures com histórias tão legais para conquistar o nicho infantil quanto os da Disney, que neste ramo era imbatível.

Principalmente depois que por volta dos anos 1960, que os grandes estúdios foram começando aos poucos a fecharem seus departamentos de animação e demitir animadores. E dentre essas empresas estava a MGM, que demitiu William Hanna(1910-2001) e Joseph Barbera(1911-2006) do estúdio.

Após serem demitidos, a dupla que criou Tom & Jerry se juntariam para formar uma sociedade criando o estúdio Hanna-Barbera Productions, onde eles passaram a investir na animação para TV.

Passando a produzir produções mais barateadas, porque o custo para se produzir uma animação é muito caro.

O barateamento da Hanna-Barbera em produzir séries animadas como: Zé Colmeia, Dom Pixote, Flintstones, Jetsons dentre outros ganhou o rótulo de animação limitada. Que se trata de uma técnica que usa movimentos e quadros simplificados e repetidos para reduzir o tempo e o custo de produção de animações, usando um número menor de quadros por segundo, o que resulta em um desenho menos detalhado. 

A principal característica que os personagens que Hanna e Barbera criaram para a televisão era o acessório da gravata que servia como uma forma de orientar os animadores a só movimentarem a cabeça.

E muitas foram seguindo por esse caminho, como por exemplo, a Filmation  foi fundada em 1962, já no período que  os grandes estúdios de cinema  haviam fechados seus departamentos de animação e alguns animadores resolveram seguir o exemplo  de Hanna e Barbera em se concentrar no mercado  da televisão e fundaram seus próprios estúdios. Isso ocorreu com Friz Freleng(1906-1995) que já trabalhou para a Disney em seus primórdios e trabalhou por um bom tempo na Warner, que após fechar o departamento de animação. Ele se juntou a David Hudson  DePartie(1929-2021) para fundar a DePartie-Freleng Enterprises, responsáveis pela produção das animações de Pantera Cor-de-Rosa.

Outros que também seguiram esse segmento foram Arthur Rankin Junior(1924-2014) que se juntou a Jules Bass(1935-2022) para fundar a RankinBass e já no caso especifico da Filmation, essa empresa que surgiu para concorrer com a HB Productions surgiu um pouco como consequência de uma dissidência da HB.

Digo isso porque os três fundadores da Filmation eram recém-egressos da HB, formados por: Lou Scheimer(1928-2013), Norm Prescott(1927-2005), A Filmation era a grande rival da Hanna-Barbera no mercado de animação para televisão, depois que os setores de animação dos grandes estúdios foram fechados.

 O único a se manter operando foi a Disney, que viveu uma turbulenta fase depois da morte de seu fundador Walt Disney em 1966, onde para diminuir custos de produção a Disney produzia suas animações nessa fase com a técnica de xerografia. Muitas das que foram lançadas durante essa época figuram entre mais esquecidas da Disney.

Enquanto que na televisão esse setor estava em alta com produções de baixo orçamento criando com a técnica de animação limitada, como é o caso da Filmation que produziu muitas animações que eram adaptadas de outras propriedades intelectuais, como a versão animada da Liga da Justiça, inspirada nos heróis da DC Comics, por exemplo. Ou mesmo fazendo uma série animada inspirada na série Jornada nas Estrelas.

Durante os anos 1980, as animações para TV ficaram marcadas como vitrines para vender brinquedos com as animações de He-Man, Transformers e Comandos em Ação. A Disney ainda viveu sua fase turbulenta até o lançamento de A Pequena Sereia em 1989, cujo sucesso a representou um ponto de partida para a Era da Renascença da Disney que durante os anos 1990.

E foi durante a década de 1990, que Jeffrey Katzenberg ao ser demitido da empresa se junta com Spielberg e fundam a DreamWorks.

A trama de Shrek já surpreende pela premissa já começar bem introduzindo ao público qual é a essência dele.  Somos então apresentado a ele vivendo uma vida solitária no pântano, com suas características bem típicas de ogro que amedronta o povoado local. Com a sua horrível aparência verde, gigante, gorducho, careca e com orelhas pontudas cujos formatos lembram alienígena.

Era ali que ele vivia sua vida confortável, de sujeito bem sujismundo até o momento que ocorre uma reviravolta quando aparece a guarda real mandando prender alguns seres fantásticos. Entre os prisioneiros estava o Burro.  É a partir dali que ele começa a sua aventura seguindo o esquema teórico formulaico da Jornada do Herói, elaborado pelo mitólogo americano Joseph Campbell(1904-1987). 

O Burro passa a assumir a importante função neste filme de ser o inseparável companheiro de Shrek, sendo o tipo boa praça, mas muito insuportável a ponto de ser irritante.  Simbolizando o típico alivio cômico da obra. Principalmente depois que Shrek aceitar participar da missão de salvar a Princesa Fiona de um castelo onde está sendo mantida refém por um dragão, melhor dizendo uma dragoa, que bizarramente irá despertar o amor pelo Burro. 

A partir do momento que ele salva Fiona que vemos o escopo dele sendo todo moldado no começo do relacionamento amoroso dos opostos se atraírem, um ser feio como ogro despertar o coração de uma bela mulher como uma princesa.

Até aparecer o Lord Faarquard para estragar tudo e virar o obstáculo para os dois. Mesmo tendo este elemento clichê, o filme cuja direção é de Andrew Adamson e Vicky Jenson  ainda conseguiu bem carregar  um brilho de uma cativante história, em um cenário bem escapista, com vários elementos fabulares, que o tornam um bom filme de fantasia mas que transgredi tudo o que havia sido estabelecido pela concorrente por décadas numa estética cômica em forma de sátira com piadas adultas cheias de duplo sentido, mas bastante sutis, ao mesmo  tempo que trabalhou a parte mais dramática, principalmente na essência anárquica do ogro com direitos a piadas escatológicas. Além do mais conseguiu de forma sutil transmitir mensagens muito adultas, que as crianças não percebiam.

Usando do lado reverso das histórias dos contos de fadas como uma provocação muito clara a Disney que sempre explorou as histórias clássicas dos Contos de Fadas para seu universo fantasioso. Principalmente nas interações do Shrek com Pinóquio, Lobo Mau, Três Porquinhos e até mesmo o Gato de Botas que ainda não aparece nesse primeiro filme.

       Aqui a Fiona mostra-se ser uma princesa que ao contrário da frágil e desprotegida donzelas a ser salvas das animações Disney, sabe se defender e é muito boa de briga. Ou mesmo o Shrek um ser visto como amedrontador, e que todo mundo evita, mostra que pode ser  amável e carinhoso, provando que não é a feiura e nem a beleza  que define o nosso bom ou mau caráter e ele exemplifica os conceitos de camadas ao explicar para o Burro quando descasca uma cebola.

      No Balanço Geral, o primeiro Shrek resultou num ótimo filme, tanto no aspecto da história, quanto na apurada qualidade técnica que o fez tornar um marco para a Dreamworks. Eu não cheguei a ver o filme nas telonas na época que foi lançado, porque como naquele momento eu já era um adolescente com 16 anos e tava em outra vibe, numa época em que havia o preconceito de que animação era coisa feita só para crianças, então, eu acabei demorando um pouco para me abrir a ver, mas depois que assistir quando passou na TV, passei então a gostar muito. 

        Ao dar umas   revisitadas, onde tanto no áudio original legendado quanto na versão dublada em português do Brasil, os caros leitores vão me desculpar os que reclamam da dublagem brasileira e não assistem de jeito nenhum, por acharem que elas estragam a interpretação dos atores em cena,  mas  a  interpretação do  saudoso Bussunda(1962-2006) do Casseta & Planeta fazendo a voz do Shrek,  conseguiu se mostrar   um bom encaixe e dar mais personalidade  na essência anárquica que o personagem bem apresentou no filme do que em relação a representação do Mike Myers fazendo a voz original, cuja representação com toques refinados  do seu sotaque canadense terminando criando um tom que se não encaixou direito a essência anárquica do personagem.

    Do mesmo jeito que o Mário Jorge de Andrade dublando o Burro consegue bem captar a essência patética e hiperativa do personagem cuja voz original é do Eddie Murphy que não por acaso costuma ser bastante dublado por Mário Jorge de Andrade, talvez por já dublar o ator em suas produções ele por já conhecer os trejeitos de sua representação hiperativa verborrágica e cheia de caras e bocas manter o mesmo ritmo aqui com o Burro.

     E Fernanda Crispim dublando a Fiona cuja voz original é da atriz Cameron Diaz consegue captar bem a doçura que ela transmiti ao seu jeito mais manso de falar.

        Alguns fatos curiosos sobre a produção que envolve a adaptação do livro para o cinema, ele já despertava, o interesse de Steven Spielberg  de produzir  o filme bem antes  da existência da DreamWorks.   Spielberg comprou os direitos de adaptação da obra em 1991, e logo depois que se juntou a Geffey e Katzenberg para fundarem a DreamWorks e estes lhe deram carta branca para poder concretizar a realização do projeto, foi então que deu início a longa jornada do desenvolvimento do enredo que começou em 1995.

      Foram muitas etapas, com diversos esboços, até chegar ao acabamento final, antes eles tinham a ideia  em fazerem na forma tradicional de animação em 2D, mais depois que viram a Pixar revolucionar com Toy Story com o 3D, decidiram apostar nesse formato.

     Na elaboração do roteiro, foram adicionados elementos que não tinham no livro de Steig, como a presença de clássicos personagens de contos de fadas virando amigos e também inimigos de Shrek para servirem como um bom tom de sátira ao universo dos contos de fadas, uma provocação direta a Disney.

        O próprio Shrek no livro carregava uma essência e uma aparência física   diferente nos livros em relação aos filmes.   No livro de Steig ele carregava uma essência mais tresloucada do que como é mostrado no filme, ainda mais quando ele foi abandonado sem motivo pelos pais que o expulsaram do pântano e costumava soltar raios vermelhos nos olhos, principalmente quando se deparava com qualquer pessoa a sua frente. Algo que no filme ficou de fora, tanto que desde o começo fica estabelecido ele ser o único da sua espécie. O seu aspecto físico   era bastante horrendo e quase medonho, já nos filmes teve a sua aparência mais amenizada quando se inspiraram numa pessoa real, nesse caso, a inspiração para suas feições mais humanizadas foram no francês Maurice Tilet(1903-1954), um célebre lutador de Boxe. Onde inclusive há nos primeiros esboços do material animado trazia uma versão mais feiosa dele com a voz original que foi feita por Chris Farley(1964-1997), depois que esse faleceu prematuramente aos 33 anos no dia 18 de Dezembro de 1997, foi preciso recomeçar do zero e escalaram em seu lugar Mike Myers, onde ficou do jeito como a conhecemos.

      Já o   Lord Faquaard simbolizando a típica figura do vilão maquiavélico cujo interesse principal ao querer casar com a Princesa Fiona do Reino de Tão, Tão Distante é apenas com o intuito ambicioso de tomar o trono, também foi um elemento adicional no filme, dizem que muita característica dele foi inspirado no então presidente CEO da Disney Michael Eisner, um antigo desafeto de Katzenberg na época em que ele trabalhava na Disney entre os anos 1980 e começos dos anos 1990. Ou seja, ele foi fruto da licença criativa da produção.

       No livro, aparece a Fiona, mas nunca tinha sido humana, sempre foi ogra. No filme eles deram muita importância para o Burro se tornar a figura do inseparável companheiro chato do Shrek nas suas aventuras. Coisa que no livro mesmo isto não acontece. Além das influencias modernas da cultura pop americana terem sido incluídas no filme, a mais evidente é a cena de Fiona na forma humana após ser libertada por Shrek fazendo uma impressionante coreografia de luta na floresta contra o bando de Robin Hood inspirada em Matrix(EUA,1999).

      Ou mesmo o Espelho Mágico mostrar um informativo da vida rotineira de Tão, Tão Distante em formas de tele jornais como se fosse um moderno aparelho de televisão num filme cujo cenário é uma típica fantasia escapista com muitos toques fabulares, carregado de liberdades poéticas.

        A Dreamworks investiu muito pesado no marketing do filme, principalmente nos star talents como Mike Myers, Cameron Diaz e Eddie Murphy para compor o elenco das vozes dos personagens principais escalando o elenco para dublar os personagens principais. 

        Que ainda contaria depois que este primeiro foi um sucesso e a Dreamworks fez uma franquia com três filmes posteriores formados por: Shrek 2(2004), Shrek Terceiro(2007) e Shrek Para Sempre(2010) que formam uma quadrilogia tivemos então Antônio Banderas que com sua característica sensualidade  hispânica fez a voz do Gato de Botas a partir de Shrek 2(EUA, 2004), também em Shrek 2 contou com a presença  de Julie Andrews,  uma veterana estrela dos musicais fazendo a voz  da Rainha Lilian, mãe de Fiona e do ex-N´Sync   Justin Timberlake que fez a voz do Rei Arthur garotinho  em Shrek Terceiro (2007).

A maneira como o Gato de Botas roubava a cena três filmes seguintes da trilogia de Shrek, onde o famoso personagem dos contos de fadas criado pelo francês Charles Perrault(1628-1703), cuja primeira publicação data de 1697.  Representado no filme de uma forma que em nada lembra o clássico personagem dos contos de fadas, como um mercenário que usava do sedutor charme de olhar para enganar o inimigo e carregado com um sotaque hispânico, muito por causa dele ter sido dublado por Antonio Banderas, ator espanhol famoso mundialmente e que já estrelou muitas produções em Hollywood na versão original americana. Aliás, aproveito e dou meus sincero parabéns ao brilhante trabalho desenvolvido na versão brasileira pelo Alexandre Moreno, (responsável por fazer a voz do Jason, primeiro Ranger Vermelho em Power Rangers dos anos 1990). Cujo timbre de voz que ele usou para representar este personagem conseguiu transmitir bem a essência do Gato de Botas como um sujeito bem canastrão, e bem malandrão no estilo espadachim Zorro e com toques bastante galanteadores de um Don Juan. A maneira como o Gato de Botas foi apresentado no arco da história se utilizando do olhar de coitado para dar o bote fez ele cativar tanto o público que se tornou presença frequente nos filmes seguintes e em 2011 ganharia um filme próprio que se passa antes dos eventos de Shrek. Representou mais um acerto da Dreamworks.

sexta-feira, 15 de maio de 2026

30 ANOS DA MINOVELA O FIM DO MUNDO

 

No dia 6 de Maio de 1996, a Globo vivenciou uma situação um tanto inusitada ao estrear no seu horário das oito a novela O Fim do Mundo(Brasil, 1996), que na verdade foi estruturada para ser uma minissérie com 35 capítulos.




A explicação está no fato de que a novela O Rei do Gado(1996-1997) de Benedito Ruy Barbosa que seria a substituta de Explode Coração(1995-1996) de Glória Perez  enfrentou uns atrasos na produção, o que impossibilitou de estrear na data de estreia desejada.




Normalmente, a Globo costuma pedir aos seus autores para aumentar um pouco mais de capítulos, darem uma esticada para a trama seguinte estrear em tempo hábil.

A emissora chegou a cogitar essa ideia, mas descartou depois que percebeu que já  tinha assumido o compromisso  de liberar a novelista Glória Perez no início de maio de 1996, para que ela pudesse acompanhar o julgamento dos assassinos de sua filha Daniela Perez, Guilherme de Pádua(1969-2022) e Paula Thomaz ocorrido em Dezembro de 1992.

A solução foi então pegar essa minissérie escrita por Dias Gomes(1922-1999) e colocar como tapa buraco na grade até a estreia de O  Rei do Gado ocorrer em 17 de Junho de 1996.




       A trama de O Fim do Mundo girava em torno do “vidente Joãozinho de Dagmar (Paulo Betti)previu o fim do mundo para breve, o que fez a cidadezinha de Tabacópolis virar de pernas para o ar. Acontecimentos inexplicáveis se sucedem ratificando as profecias e causando pânico. Os moradores entram em polvorosa deixando a prefeita Florisbela Mendonça (Vera Holtz) revoltada diante de tanta confusão.

         Como o tempo é curto, o empresário Tião Socó(José Wilker), dono de uma fazenda de fumo e de uma empresa de cigarros, resolveu investir na bela cunhada, Gardênia(Bruna Lombardi), vislumbrando o fim do seu probleminha de impotência sexual. Porém, ela não está nem aí para os problemas dele e precisa lidar com o ciúme do marido Tonico Laranjeira(Otávio Augusto).

          Josias(Guilherme Fontes), neto do poderoso Coronel Hildázio Junqueira(Lima Duarte), não aguenta mais a resistência da noiva Letícia(Paloma Duarte), filha de Tião Socó, que insiste em manter-se virgem até o casamento.

         Porém, a jovem desperta para um novo amor, o peão Rosalvo(Mauricio Mattar), e não resiste a essa paixão, entregando-se a ele. Descoberto, Rosalvo acaba castrado pelo noivo traído.

         A jovem Lucilene(Patricia França) luta para firmar-se como cantora ao mesmo tempo em que tenta livrar da polícia o namorado Nado(Guilherme Winter), filho da prefeita Florisbela, rapaz problemático acusado de ter matado Maninho(Marcelo Faria), outro dos netos do Coronel Hildázio. Em meio ao caos, muita coisa ainda está para acontecer na cidade que enlouquece quando descobre que o mundo vai acabar.”

(Teledramaturgia).




        

       Essa obra foi escrita por Dias Gomes, com colaboração do renomado escritor Ferreira Gullar(1930-2016). Dias Gomes  que àquela altura já era um renomado novelista veterano que surgiu nos primórdios da televisão brasileira, ele testemunhou o surgimento da televisão ao lado de sua primeira esposa Janete Clair(1925-1983), essa oriunda do rádio, foi da primeira geração de novelistas da televisão brasileira ao lado de Ivani Ribeiro(1922-1995) e Cassiano Gabus Mendes(1929-1993), fora sua extensa carreira literária e teatral seu ingresso na televisão escrevendo novelas na Rede Globo foi com A Ponte dos Suspiros(1969).





      Sua direção contou com Paulo Ubiratan(1947-1998) que àquela altura já carregava um longo currículo de diretor na emissora desde que ingressou ali no final dos anos 1970 onde carregava trabalhos em novelas, em minisséries e nos mais variados formatos.




           Essa obra carrega muito da estética que Dias Gomes costumava trabalhar no realismo fantástico, que é um gênero que costuma misturar elementos sobrenaturais, místicos ou mesmo oníricos ao cotidiano, diferenciando-se pelo humor e crítica social a regimes autoritários, ao contrário do sentimentalismo de outros países latino-americanos.

         Pode se dizer que ele bebeu muito da fonte do subgênero literário do realismo mágico de autores sul-americanos, dentre esses o grande expoente que é referencial é o colombiano Gabriel García Márquez(1927-2014), autor de Cem Anos de Solidão e também de dois autores brasileiros que escreviam nesse estilo que são Murilo Rubião(1916-1991) e José J.Veiga(1915-1999).

         E Dias Gomes trabalhou muito isso, com suas obras marcadas pela mistura de realismo fantástico, crítica social e humor irônico, retratando o Brasil profundo, suas mazelas, coronelismo e tipos populares. Mestre na dramaturgia e teledramaturgia, utilizou alegorias para burlar a censura da Ditadura Militar, construindo narrativas regionais com linguagem coloquial e personagens inesquecíveis.

   O ponto de partida para ele começar a trabalhar nessa estética ocorreu com O Bem Amado(1973), que marcou a primeira a ser produzida colorida e foi ele que começou a estruturar a trama regionalista com esse toque de realismo fantástico inspirado nos próprios livros que ele escreveu.

         Por sua importância literária, que em 1991, Dias Gomes ocupou a Cadeira 21 da Academia Brasileira de Letras.

          Ele também voltou a trabalhar depois nesse mesmo estilo em Saramandaia(1976) e em Roque Santeiro(1985-1986), ao mesmo tempo que escrevia muitas histórias urbanas em telenovelas como Sinal de Alerta(1978) ou mesmo Mandala(1987-1988) dentre outros exemplos em seu vasto currículo na televisão e também minisséries.

          E essa produção trazia muito disso, ela que foi pensada como minissérie mas que por conta do horário foi chamada de mininovela o que “se justifica não só pela quantidade de capítulos (35), mas também pela faixa em que a atração foi ao ar: o tradicional horário das oito da noite, de novelas. Se tivesse sido exibida mais tarde, certamente seria chamada de minissérie.”

    (Teledramaturgia).

      Principalmente ao explorar o tom místico apocalítico da região de Tabacopolis com o vidente Joãozinho de Dagmar, ou mesmo a visão de Emiliano (Ricardo Blat) um louco esquizofrênico que acredita nos homens verdes ou mesmo o mistério da Gruta do Amor e seus milagres, enfim dentre outros elementos de realismo fantástico que foram usados efeitos especiais e construções de locações: “Para cuidar dos efeitos especiais, montou-se uma produção paralela. Pela primeira vez em uma telenovela, criaram-se objetos e animais virtuais em três plataformas de computadores. Para as gravações do cataclismo, foi feita uma maquete dez vezes menor que a cidade cenográfica.

Entre os trabalhos da equipe de efeitos especiais – comandada pelo chefe da Coordenação de Efeitos Visuais, Paulo Badaró – estavam: postes caindo, carros tragados pela terra, raios, trovões, a torre da igreja que foi construída torta e que um raio a colocou no lugar, o OVNI que caiu, a segunda cabeça de um bezerro, furacões, o céu incandescente, as cenas que pareciam ter sido feitas à luz da lua, etc.”

(Teledramaturgia).

 

          Cujas locações foram gravadas em “Vassouras (RJ), Gruta de Maquiné e Carrancas (MG) e o interior da Bahia, em uma fábrica de charutos. Também foi construída no Projac (RJ) uma cidade cenográfica que ocupou uma área de 35 mil metros quadrados.”

(Teledramaturgia).

       Essa minissérie contou em seu elenco com grandes nomes de feras   da teledramaturgia da emissora, dentre estes alguns nomes veteranos como Lima Duarte na pele do Coronel Hildázio Junqueira, o fundador da cidade, um sujeito com a saúde frágil e andando de cadeira de rodas que vive se aproveitando que a enfermeira que o cuida dá uma esfregada de mão na sua perna, um velho bem safado.




       Um sujeito que vive em pé de guerra com a atual prefeita de Tabacopolis Florisbela Mendonça muito bem vivida por Vera Holtz, uma mulher autoritária de pulso firme, com quem Hildázio nutre uma mágoa pessoal ainda mais que no passado o seu filho cometeu suicídio por ter se apaixonado por ela e não foi correspondido e deixou viúva sua nora Clotilde, representada por Tamara Taxman, e órfãos seus três netos: Josias brilhantemente vivido por Guilherme Fontes, Maninho e Dalva (Renata Lima).




     Guilherme Fontes representou perfeitamente na pele do Josias, principalmente ao mostrar o seu perfil vingativo quando descobre que foi traído pelo peão Rosalvo, vivido por Mauricio Mattar ao se envolver amorosamente com Leticia vivida por Paloma Duarte, neta de Lima Duarte.

       A mesma Paloma Duarte* que na ocasião era ainda uma jovem atriz com 19 anos em início de carreira que já vinha despontando na televisão desde sua participação no seriado Grande Pai(1991-1993) do SBT e mostrando o talento herdado de sua mãe Débora Duarte e de seu avô Lima Duarte que apesar de estarem na mesma obra não contracenam juntos como parentes, já que Lima representa o avô do noivo dela.

    Nessa obra ela representou a filha de Tião Socó, o rico fabricante de tabaco, muito bem representado pelo saudoso José Wilker(1944-2014) que vivia pegando no pé de sua cunhada Gardênia vivida por Bruna Lombardi para satisfazer a sua impotência sexual.

    Onde Leticia tinha uma irmã que vivia falando com pássaros no telhado chamada Maria do Socorro, representada por Tatiana Issa, que também na época era uma jovem atriz que estava despontando na televisão.

     Na ocasião, Paloma Duarte chegou a ser capa da extinta revista masculina Playboy.   


 
Capa da Playboy com Paloma Duarte 
publicada em Abril de 1996. 


      Já Tatiana Issa, que representou sua irmã na obra faz um brilhante desempenho na pele da Socorro, ainda mais em sua subtrama envolvendo a sua paixão proibida pelo Frei Eusébio vivido pelo saudoso Norton Nascimento(1962-2007).




    Sobre ela é curioso comentar que ela também posou para a capa da Playboy em 1998 e após isso deixou o oficio de atriz e foi se dedicar ao de cineasta, um trabalho interessante dirigido que tive o privilégio de conferir foi na série documental Pacto Brutal-O Assassinato de Daniela Perez (Brasil, 2022) do HBO Max.




     Assim como mencionar as participações de Mário Borges que faz uma brilhante representação do Joca, o marido submisso e um tanto frouxo da prefeita Florisbela, a quem ele se refere a ela como Belinha. Paulo Betti na pele do famoso vidente Joãozinho dá um show de interpretação  ainda mais ao mostrar que por trás daquela fachada de ser imponentemente místico e um tanto santificado, mas que no fundo, não tinha nada de santinho, ainda mais por viver uma vida mundana dividindo com três mulheres: Marialva, papel de Isabel Filardis, papel de Valdete(Aleixa Dechamps)  e Jaciara papel de Luciana Coutinho, que para quem acompanhava o Zorra Total ali pelo final dos anos 1990 e começo dos anos 2000 deve se lembrar dela como a Dona Candinha na esquete do Nerso da Capetinga, ela também chegou a posar para a Playboy em 2000.




     Dentre outros que compuseram o elenco dessa produção, como a saudosa Marilu Bueno(1940-2022) que representou bem o papel da Dagmar, mãe do vidente Joãzinho que vive uma relação amorosa com Vadeco, vivido por Tato Gabus Mendes, um sujeito que não vale nada da vida, um pilantra aproveitador que só está casado com Dagmar para explorar a fama de Joãozinho para vender terrenos no céu.

      Outros nomes que merecem serem mencionados são:  Cininha de Paula** e a saudosa Lúcia Alves(1940-2025) que na obra representaram o papel das irmãs Zizi e Fafá Badaró, duas solteironas fofoqueiras, recatadas e recalcadas que cuidam do primo Emiliano, um sujeito que vive em manicômio com problemas de esquizofrenias vivido brilhantemente pelo ator Ricardo Blat. 

      Essas duas por trás das fachadas de mulheres religiosas devotadas, escondem que vivem uma repressão sexual a ponto de se aproveitarem da situação caótica que Tabacopolis vive com o cenário apocalíptico para tentarem se aproveitar da vulnerabilidade do primo para seduzi-lo, mostrando que não são nada santinhas.

      Também vale mencionar a presença de Bernadete Lys, a atriz com quem Dias Gomes se casou após ficar viúvo de Janete Clair que na obra representou a Eliza, irmã da prefeita Florisbela, uma mulher que tinha uma mania obsessiva por sujeira.

       Dentre outras feras que fazem brilhantes representações respectivamente na obra.

      Um fato curioso que chama a atenção a respeito de O Fim do Mundo, é que como o formato dessa obra foi concebida originalmente como minissérie não só pelo número de capítulos que é característico do seu formato ser mais fechado diferente de uma novela que por ser aberta costuma ter um ritmo de produção mais industrial, principalmente de quando depende do fator audiência ou mesmo dos anunciantes. Fora que são totalmente gravadas antes da exibição, o que impede que a repercussão do público altere o rumo da história.

       Assim como o fato de por ter sido pensado para ser exibido no horário após a novela das nove, ali por volta das 10 ou mesmo 11 horas da noite, ocupando um espaço de prestígio na grade.

     Por ser nesse horário ela tende a carregar um valor de produção diferenciado das novelas costumam ter produção mais cinematográfica, com maior investimento em cenografia, figurino e fotografia em comparação com o formato diário de novelas.

     Assim como tende a ser um espaço para experimentação de linguagem, narrativas mais ágeis e costuma também explorar uns toques bem mais safadinhos se é que vocês me entendem, principalmente com  cenas de amor bem picantes dos personagens se banhando nos rios como Josias e Leticia ou mesmo entre Socorro e Eusébio.

      Ou mesmo, o momento de Joãozinho fazendo amor com suas três concubinas se é que posso assim descrever numa banheira, das longas horas de Gardênia tomando uma chuveirada, enfim.

    Posso concluir que a maneira com que O Fim do Mundo, uma obra originalmente concebida como minissérie acabou sendo encaixado no horário de novelas, foi de fato um dos momentos mais inusitados e porque não dizer pitorescos ao longo da história da teledramaturgia da Rede Globo.




      Chegou a ser divulgada com a forte publicidade de ““uma supernovela em 35 capítulos”. Manteve a audiência do horário, mas de “super” não trouxe nada, a não ser o característico universo de Dias Gomes. Ainda assim, conseguiu despertar no público o interesse pelo apocalipse – como a própria letra da música da abertura sugeria: “O que você faria se só te restasse esse dia?””

    (Teledramaturgia).

   No capítulo final da minissérie, eles dedicaram uma homenagem ao câmera-man Custódio Ferreira, que já trabalhava na emissora fazia mais de 20 anos, mas que teve um fim trágico, já que ele havia falecido num acidente automobilístico logo após terminar de filmar o último capítulo da minissérie, quando retornava da locação em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro.



    Na mensagem de homenagem   apresentada por Tony Ramos se referiu assim a Negão como costumava ser carinhosamente chamado Custódio:

    A câmera foi mais que seu instrumento de trabalho, foi a forma que ele encontrou de fazer poesia”.

    Pode-se concluir que O Fim do Mundo marcou a última obra da carreira de Custódio Ferreira, do mesmo modo pode-se dizer que ironicamente marcou uma das últimas obras dirigidas por Paulo Ubiratan na função de diretor geral que é o cargo principal, quando ele morreu em 28 de Março de 1998, aos 51 anos, vítima de um infarto fulminante. “Na época estava trabalhando na direção-geral de Por Amor(1997-1998), novela das oito de autoria de Manoel Carlos(1933-2026). No dia em que morreu foi exibido o capítulo 144. Foi substituído por Ricardo Waddington, que já integrava a equipe de diretores da novela. Antes de falecer, Paulo Ubiratan estava trabalhando na pré-produção da telenovela Meu Bem Querer(1998-1999), de autoria de Ricardo Linhares e supervisão de texto de Agnaldo Silva.”

(Wikipédia)

   Assim como marcou a penúltima escrita por Dias Gomes, que antes de tragicamente morrer “aos 76 anos em um acidente de trânsito ocorrido na madrugada de 18 de maio de 1999 na região dos Jardins, na cidade de São Paulo. O dramaturgo voltava de táxi de um jantar com sua mulher Bernadeth depois de assistirem à encenação de Madame Butterfly, ópera dirigida pela atriz Carla Camurati. O taxista fez uma conversão proibida na Avenida 9 de Julho, e o carro foi atingido por um ônibus que seguia na mesma direção. Com o impacto e sem estar usando o cinto de segurança, Dias Gomes foi arremessado para fora do carro e bateu a cabeça na mureta que separa a via exclusiva dos coletivos na avenida, o que causou sua morte instantânea. Bernadeth sofreu ferimentos e foi internada. O motorista do táxi, que também sofreu ferimentos, estava na profissão havia dois meses e alegou que só fez a manobra proibida "por insistência de Dias Gomes”. (Wikipédia)

    Um ano antes do seu trágico falecimento Dias Gomes havia escrito a minissérie Dona Flor e Seus Dois Marido(1998), uma adaptação do romance do seu conterrâneo Jorge Amado(1912-2001) e publicou sua autobiografia Apenas Um Subversivo.

REPETECOS:

  Apesar dessa obra não ser tão lembrada assim, ela pelo menos ganhou uns repetecos. Em 2000, O Fim do Mundo foi reprisado de forma compacta após o Jornal Nacional, com exibição restrita ao Distrito Federal durante o período de 15 de Agosto a 29 de Setembro de 2000. Isso ocorreu porque, como era ano eleitoral municipal, ou seja, para eleger prefeitos e vereadores dos municípios e como a capital do Distrito Federal é a capital do Brasil. Por conta disso, Brasília que não é  administrada  por prefeito é a única capital brasileira a não ter uma campanha eleitoral para prefeitura. Essa reprise ocorreu justo no momento em que boa parte dos estados brasileiros estavam acompanhando o Horário Eleitoral Gratuito assistindo as campanhas dos seus candidatos.

    Depois disso, O Fim do Mundo só ganharia um outro repeteco quase vinte anos depois pelo antigo canal por assinatura Viva, onde novamente “serviu como um tapa-buraco: foi reprisada no Viva (canal de TV por assinatura pertencente ao Grupo Globo), entre 18/12/2017 e 29/01/2018 (às 23h30, com repeteco às 13h30 do dia seguinte), para cobrir o período de final de ano, evitando assim a estreia de uma novela longa durante as festas de Natal e Ano Novo.”

(Teledramaturgia)

   E desde 2023 que O Fim do Mundo se encontra disponível na plataforma de streaming do Globoplay.

ESTREIA NO MESMO DIA DE TRÊS NOVELAS DO SBT:

    O mais curioso é que O Fim do Mundo estreou no mesmo dia que o SBT, emissora fundada pelo apresentador pioneiro da televisão brasileira Silvio Santos(1930-2024) e grande concorrente da Globo lançava sua aposta em três produções teledramatúrgicas que foram exibidas cada um em horários diferentes logicamente.

     Essas três novelas em questão eram pela ordem de exibição dos horários: Colégio Brasil ás 18h30, Antônio Alves, Taxista ás 20h00 e Razão de Viver ás 21h00.

      Colégio Brasil foi uma produção destinada ao público jovem com uma trama ambientada num cenário de colégio, daí o porquê do título ser Colégio Brasil que é o nome da instituição fictícia.




        Sua produção foi fruto da parceria do SBT com a produtora JPO Produções do diretor José Paulo Vallone que assina a direção da novela, com roteiro assinado por Yoya Wursch, fazendo sua estreia como autora titular de novela após ter escrito duas produções na Globo. Baseado no argumento do saudoso Roberto Talma(1949-2015) que dividiu a direção com José Paulo Vallone.




     Já quanto a Antônio Alves, Taxista, novela estrelada pelo cantor Fábio Jr. no papel título, foi uma produção do SBT em parceria da produtora argentina Ronda Studios que foi gravada em Buenos Aires. Sua produção foi escrita por Ronaldo Ciambroni, baseado no texto original do argentino Alberto Migré(1931-2006) com direção do luso-brasileio Jorge Monteiro.

     Do pacote das três novelas que o SBT lançou no mesmo dia, Antônio Alves, Taxista foi a que “teve a menor repercussão, tendo inclusive seu fim precipitado.A novela já causou polêmica antes de estrear: Sônia Braga (escalada para viver a personagem Odile) desentendeu-se com a produção argentina, acusando-a de falta de profissionalismo e de problemas no texto. O papel que seria dela mudou de nome (passou a ser Claudine) e acabou nas mãos da atriz Branca de Camargo.A baixa qualidade do texto e da produção (inclusive erros de continuidade) ajudaram a piorar a audiência.

Folha de São Paulo publicou em dezembro de 1996:


“A novela mais parecia um dramalhão mexicano produzido por Ed Wood ou Zé do Caixão, com cenários escuros e diálogos constrangedores.”

(Teledramaturgia).

    E por fim, Razão de Viver, foi uma novela que se tratava de um remake de uma trama que o SBT lançou nos anos 1980 que foi Meus Filhos, Minha Vida(1984-1985), escrita por Ismael Fernandes(1945-1997), Henrique Lobo e Crayton Sarzi, que carrega o mesmo título de outra novela do SBT também lançada nos anos 1980 que é Razão de Viver(1983), mas que não tem nada a ver com essa trama de 1996.




      Nessa novela homônima de 1983, foi escrita por Waldir Wei baseada no texto original da mexicana Marissa Garrido(1926-2021).

     Essa versão específica de Razão de Viver, que foi lançada no mesmo dia de Colégio Brasil, Antônio Alves, Taxista e O Fim do Mundo da Globo.

      Sua trama foi escrita por Analy Pinto e Zeno Wilde(1947-1998), “Esta, por sua vez, ao que tudo indica, foi uma adaptação não assumida da novela mexicana Corona de Lágrimas, de Manuel Canseco Noriega, de 1965 – que ganhou um remake pela Televisa, já exibido no Brasil, pelo SBT, em 2012: Lágrimas de Amor. O ator Lu Martan viveu o mesmo personagem na novela original e no remake: o mordomo Alípio.”

     (Teledramaturgia).

     O roteiro também contou com o envolvimento de Chico de Assis(1932-2015) que assinou como supervisor de texto e contou com a direção de Nilton Travesso que àquela altura foi um nome muito importante para o setor de teledramaturgia da emissora, já que ele ocupava um importante cargo no setor de teledramaturgia na emissora desde 1993, onde foi  dessa época que foram produzidas as novelas mais marcantes do SBT ao longo da década de 1990: Éramos Seis(1994), As Pupilas do Senhor Reitor(1994-1995) e Sangue do Meu Sangue(1995-1996).

    Dessas três novelas lançadas no mesmo dia pelo SBT, foi a que não conseguiu ter um bom desempenho no IBOPE, capengando entre 7 a 13 pontos.

     Isso resultou na reclamação de Analy Pinto que na sua entrevista à Folha de São Paulo desabafou:

“A baixa audiência é resultado de uma série de fatores. Primeiro, o SBT a lançou muito mal. Na época das Olimpíadas [de Atlanta], ainda deixou de exibir a novela e, quando exibia, editava tudo e mutilava a história, desrespeitando o gancho de cada capítulo.”

  (Teledramaturgia).

Obs: Os Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, mencionado pela autora só teriam início apenas em 19 de Julho de 1996, portanto, ainda faltava dois meses para o início da cobertura da competição desse evento esportivo quando a trama de Razão de Viver estreou junto a Colégio Brasil, Antônio Alves, Taxista  no SBT e O Fim do Mundo na Globo.




 

   Posso conclui que foi há 30 anos, que a televisão brasileira testemunhou o lançamento de quatro novelas: sendo três no SBT e uma na Globo. Marcando um dos momentos mais inusitados e porque não dizer pitorescos da história da teledramaturgia brasileira.

 

  *Paloma Duarte também é filha do cantor Antônio Marcos(1945-1992) com quem sua mãe Débora Duarte já foi casada. O que gera uma certa extensão familiar artística. Principalmente quando incluímos o fato dela também ser meia-irmã da cantora e atriz Aretha Marcos, que é fruto do casamento de seu pai com a falecida cantora Vanusa(1947-2020).  

**Essa Cininha de Paula também trabalhou como diretora, carrega um extenso das quais entre essas, os humorísticos por seu tio Chico Anysio(1931-2012). Ou seja, ela nasceu num ambiente cheio de artistas. Além de sobrinha de Chico Anysio, é também sobrinha do cineasta Zelito Vianna, é filha da atriz Lupe Giglioti(1926-2010). Fora o fato de ser prima dos atores: Nizo Neto, Bruno Mazzeo, Lug de Paula e Marcos Palmeira e é mãe da atriz Maria Maya, fruto de seu casamento com o ator e diretor Wolf Maya.