quinta-feira, 18 de junho de 2026

20 ANOS SEM BUSSUNDA

 

            No dia 17 de Junho de 2006, o Brasil perdia o talento do humor de Claudio Besserman Viana vulgo Bussunda(1962-2006) cujo apelido Bussunda surgiu em referência ao personagem cartunesco chamado Sujismundo, criação do brasileiro Ruy Perotti(1937-2005) que nos anos 1970 costumava aparecer em comerciais de TV numa série de quatro filmetes, que variavam entre 60 e 90 segundos de duração, e eram exibidos na TV e no cinema.









             Com o intuito de conscientizar a higienização na população brasileira nessa campanha do regime militar com o lema: Povo desenvolvido, é povo limpo.

             O Sujismundo era representado justamente como uma pessoa sem higiene, um porcalhão cujo nome que foi batizado simbolizando bem isso.


Bussunda entrevistando o ícone brasileiro da Formula 1
Ayrton Senna(1960-1994) no primeiro ano do Casseta & Planeta, Urgente 
em 1992. 

          Juntando as palavras sujo com imundo. E se tornou popular em nós para definir esse tipo de pessoa sem higiene.


Sujismundo, personagem cartunesco que inspirou 
o nome artístico de Bussunda.


           E foi precisamente quando ele agia sem muita higiene quando estava num acampamento de férias na infância que ele ganhou o apelido de Bussunda, primeiro era Besserman Sujismundo que foi se alterando para Bessermundo, depois ficar Bessundo, Bussundo e até chegar a Bussunda que o tornou famoso nacionalmente no Casseta & Planeta.  

            Nascido numa família de classe média alta, filho caçula dos três filhos do cirurgião Luís Guilherme Vianna e da renomada psicanalista Helena Besserman Vianna(1932-2002) que carregava uma descendência judaico-polonesa e por conta disso Bussunda tinha uma formação religiosa judaica, esse casal inclusive esteve envolvido na luta comunista contra a Ditadura Militar no Brasil.

           Bussunda era irmão do economista Sergio Besserman Vianna que chegou a presidir o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) e do médico Marcos Besserman Vianna que desenvolve pesquisas para a Fundação Oswaldo Cruz. 

         A história de como ele conheceu e fundou a trupe do Casseta & Planeta aconteceu quando no final dos anos 1970, três amigos que se conheceram na UFRJ formado por: Beto Silva, Marcelo Madureira e Hélio de La Peña, juntos criaram uma fanzine humorística chamada de Casseta Popular que logo depois viraria uma revista que trazia uma estética anárquica de humor ácido provocativo paródico, posteriormente ingressaram nesse grupo Claudio Manoel e Bussunda.


 
Bussunda na capa da revista Casseta Popular 
publicada em 1991 que trazia o 
estilo de humor que o grupo levaria para a 
televisão.


E o grupo aumentaria quando três amigos que trabalhavam para outra mídia impressa humorística O Planeta Diário, uma sátira ao famoso jornal do Superman, formado por três ex-redatores de O Pasquim: Reinaldo Figueiredo, Hubert Aranha e Claudio Paiva ao se juntarem a eles formaram o Casseta & Planeta.

O fato deles terem começado a fazer humor no jornalismo explica o famoso lema deles do “humorismo verdade, jornalismo mentira”.


 
Reinaldo, Hubert e Claudio Paiva com um exemplar de
O Planeta Diário. 


O ousado estilo ácido de humor provocativo que o grupo fazia nesse modelo tradicional de mídia impressa foi colocado na TV quando eles primeiramente ingressaram compondo a equipe de redatores da TV Pirata(Brasil, 1988-1992) que foi um embrião do que seria depois o Casseta e Planeta, onde juntos de outros nomes importantes do humor brasileiro: como o escritor Luís Fernando Verissimo(1936-2025), o  cartunista Glauco Villas-Boas*(1957-2010), o dramaturgo Mauro Rasi(1949-2003) dentre outros.

Cujo elenco era formado por atores surgido do teatro de variedades, que abordavam sobre a comédia de costumes, também popularmente chamado pejorativamente de besteirol e do revolucionário Asdrúbal Trouxe o Trombone, que já eram estrelas popularmente conhecidas das novelas da Globo com nomes como:  Diogo Villela, Débora Bloch, Guilherme Karan(1958-2016), Cristina Pereira, Luiz Fernando Guimarães, Regina Casé, Ney Latorraca(1944-2024) dentre outros exemplos.

Cuja estética humorística também se conectava um pouco com o que a trupe fazia em satirizar e provocar o cotidiano social brasileiro. 

Em seguida, eles fizeram carreira na música lançando um LP de humor.

 

Posteriormente, mostrariam a cara e a coragem apresentando o programa Doris Para Maiores(Brasil, 1991), acompanhado da jornalista Doris Giesse e  somente  em 1992, passariam a comandar o programa Casseta & Planeta, Urgente, que durou 18 anos no ar.

 

Foi lá que eles ganharam a característica logomarca da cobrinha verde saindo do globo terrestre que foi idealizado pelo designer austríaco-brasileiro Hans Donner, que há mais de vinte anos prestava serviço a emissora desenhando logomarcas marcantes de novelas e produzindo aberturas.  Que simbolizava a união da Casseta Popular e do Planeta Diário, a escolha da cobra foi bem apropriado para simbolizar a identidade visual deles com o seu humor ácido.




Inicialmente nesse programa, ele não contava com a presença de Maria Paula, a primeira mulher a participar foi a jornalista Kátia Maranhão que não participava tanto das esquetes, apenas comandava o programa dentro do estúdio assumindo a função séria do jornalismo.




 Só depois é que colocaram a Maria Paula, egressa da extinta MTV Brasil para assumir a função de ser como ela ficou popularmente conhecida de “A Oitava Casseta”.

Isso porque o grupo era composto de sete homens formado por: Claudio Manoel, Beto Silva, Bussunda, Marcelo Madureira, Hélio de La Peña, Hubert e Reinaldo.

Já Claudio Paiva, ex-companheiro de Hubert e Reinaldo no O Planeta Diário não os acompanhou nessa nova empreitada.

E no que eles foram se consolidando na TV, foram se expandindo escrevendo muitos livros de piadas, eu cheguei a ter um desses que foi o Seu Creysson: Vidia e Obra(2002), sobre o tipo popular representado por Claudio Manoel.

Bussunda mostrava um ótimo talento artístico para representar de forma caricata celebridades, representou muitas personagens femininas quando parodiava novelas da Globo dentre outros.

 

 

QUANDO BUSSUNDA DESAGRADOU TIM MAIA.

Se teve uma celebridade que Bussunda tirou sarro que não ficou nada satisfeito com sua imitação foi o cantor Tim Maia(1942-1998), o ícone do funk e da soul music brasileira e junto a Roberto Carlos formou uma banda chamada The Sputniks no final dos anos 1950, o ameaçou publicamente de dar porrada ao vê-lo o imitando no Domingão do Faustão em 1989.








Isso ocorreu como consequência do fato de Tim Maia que já estava agendado para se apresentar no programa, resolveu de última hora não querer se apresentar.

Ele apesar de carregar um brilhante talento para compor e tinha um timbre de voz agudo inigualável que o tornava idolatrado, ao mesmo tempo era uma pessoa de personalidade explosiva, encrenqueira que vivia reclamando da qualidade do som, da falta de retorno, enfim, todos esses fatores o tornavam uma pessoa difícil de lidar a ponto dele ficar com sua reputação manchada por já  ter brigado c
om Deus e o mundo por assim dizer, principalmente ao  se recusar a cumprir o compromisso das agendas de shows.

Isso já resultou dele criar  desafetos com as gravadoras, com os empresários que já o agenciaram para agendar seus shows e esses se sentido lesados  pelo não cumprimento do compromisso moveram uma onda de processos na justiça contra ele, também criou desafetos com músicos que perderam a paciência com ele sempre pedindo para parar de executar   uma canção  por viver reclamando do som  ou mesmo  da falta de retorno no áudio ao acompanhá-lo nos seus shows e ensaios, para piorar sua situação ele ainda enfrentou problemas com a Receita Federal por não ter declarado seus impostos.

Isso tudo fez ele chegar ao ponto de chegar a uma etapa da sua vida de falir completamente.

Tanto que ele chegou ao fundo do poço de ficar com a corda no pescoço, que foi durante as festividades do Réveillon de 1997, Tim recebeu da justiça uma ordem de confisco do seu imóvel e dos seus bens, em consequência do tanto de dívida que já tinha acumulado até aquele momento.

Sua saúde que já se encontrava fragilizada, em consequência do seu estilo desregrado de sujeito vida louca. Com 55 anos e pesando 142Kg, Tim estava sentindo os efeitos da cobrança que os excessos alimentares, misturado com as bebidas e com drogas nas noitadas que costumava promover em sua casa, representaram para ele naquele momento um fim melancólico da sua potente voz que ocorreu quando ele passou mal na apresentação televisionada ocorrida em 8 de março de 1998 no Teatro Municipal de Niterói(RJ).

Já visivelmente debilitado e com a saúde comprometida por uma crise de hipertensão. O cantor entrou no palco com atraso, tentou iniciar o repertorio cantando as primeiras estrofes da canção Não Quero Dinheiro(Só Quero Amar), não conseguiu dá continuidade  e precisou ser retirado. Ele foi hospitalizado e faleceu dias depois, em 15 de março de 1998.

Bom, mas, voltando ao foco relacionado ao Bussunda, como ele entra aqui na história? Simples, Fausto Silva estrategicamente contornou a situação comentando que Tim Maia se apresentaria no Domingão  na semana seguinte, ele então convidou a trupe do Casseta & Planeta para se apresentarem cantando o single do repertorio do  LP Preto com um Buraco no Meio, que eles gravaram pelo selo da gravadora WEA em 1989 cuja faixa principal  Mãe é Mãe, que trazia uma mensagem humorística de cunho depreciativo machista, também trazia  Bussunda fazendo  imitação do Tim Maia e isso foi propicio para no dia específico  que eles se vingassem de Tim Maia trazendo uma pessoa fazendo a imitação dele não só vocal mas, também todo caracterizado de Tim Maia.

O cantor ficou possesso de raiva ao ver aquilo que chegou a ligar “para o local dizendo que apareceria para atirar em Bussunda, irritado principalmente com os enchimentos - "o cara já é gordo para caralho e tá dizendo que é menos gordo que eu?"”

(Trecho da Wikipédia retirado do livro biográfico Bussunda-A Vida do Casseta do jornalista Guilherme Fiuza publicado em 2010 pela editora Objetiva).

Digamos que Bussunda, indiretamente se tornou uma das pessoas que virou um desafeto do cantor por conta da sua imitação dele e como consequência disso ele passou muitos sem ser convidado para se apresentar na Globo.

Já quanto ao Bussunda, usufruiu bem do sucesso nos anos seguintes, depois que em 1992 o Casseta & Planeta ganhou um programa próprio na emissora.




Chegou a trabalhar em outras produções fora do Casseta & Planeta, como quando fez uma participação na novelinha infantil Caça Talentos (1996-1998) e no filme Zoando na TV(1998) e chegou a trabalhar em dublagem fazendo a voz do ogro verde Shrek nos filmes:  Shrek(2001) e em Shrek 2(2004), que logo após seu falecimento em consequência de um ataque cardíaco sofrido   quando ele estava na Alemanha com parte do grupo para fazer a cobertura da Copa do Mundo de 2006, quem passou a dublar o ogro foi Mauro Ramos.

Grande Bussunda, como o seu humor faz falta para o Brasil de hoje.

 

 

*O cartunista Glauco era sobrinho de Orlando(1914-2002), Claudio(1916-1998) e Leonardo Villas-Boas(1918-1961), o famoso trio de irmãos exploradores que descobriram o Parque Nacional do Xingu. Cuja história foi contada no filme Xingu(2011).  Glauco foi brutalmente assassinado em 12 de Março de 2010, dois dias após completar 53 anos. Pelo frequentador da Seita do Santo Daime que ele comandava que assassinou seu filho Raoni. Um rapaz com longo histórico de transtorno mental. O assassino foi assassinado em 2016 quando estava cumprindo pena em um presidio em Goiás por outros crimes sem relação ao assassinato de Glauco.

segunda-feira, 8 de junho de 2026

FILME DE CHAPLIN NA ABERTURA DE UMA TELENOVELA BRASILEIRA

 

Há 35 anos, no dia 20 de Maio de 1991, estreava na Globo a novela O Dono do Mundo(Brasil, 1991-1992).




Essa novela das oito escrita por Gilberto Braga(1945-2021) e com direção de Dennis Carvalho(1947-2026), enfrentou um baita problema para conquistar o público.



 Essa novela compunha a sua trilogia de corrupção que deu início com Vale Tudo(1988-1989) e que foi concluída com Pátria Minha (1994-1995). Uma trama pesada que estreou no mesmo dia que o SBT lançou a trama mexicana de Carrossel (Carrussel, México, 1989-1990).




Se tem uma coisa de interessante a se comentar sobre essa novela está na sua curiosa abertura que usava um famoso trecho de uma obra de Charles Chaplin(1889-1977).


 
Cena da abertura da novela O Dono do Mundo. 


Essa obra em questão trata-se de O Grande Ditador(The Great Dictator, EUA, 1940).

Superficialmente a gente tende a achar que esse é só mais um título da extensa filmografia do genial Chaplin, a ponto de não achar nada de diferencial.





Mas, ai é que está, essa obra marca o ponto de partida na carreira de Chaplin por marcar pela primeira vez  ele aparecer sem representar o seu famoso tipo O Vagabundo, que é a  tradução fiel de como no original ele é chamado de The Tramp visto que não tem nome, que dependendo da localidade há quem se referia a ele como Carlitos aqui no Brasil e no continente europeu de Charlot, um tipo maltrapilho com bengala e chapéu de coco  que simbolizava o retrato da figura do típico mendigo da realidade americana, simbolizando a representação da classe branca inferior chamada de White Trash*, que numa tradução seria de Lixo Branco.

A razão para isso é muito simples, Chaplin vendo a tendência inovadora que a indústria de Hollywood estava adotando com a inovação do cinema falado após o lançamento do filme O Cantor de Jazz(The Jazz Singer, EUA, 1927), e como o cinema mudo estava sendo visto como  ultrapassado.

 
Cena do filme O Cantor de Jazz(1927), o 
primeiro falado da história do cinema. 


Ele era contra a ideia do Vagabundo estrelar um filme falado, porque ele via que sua essência estava mais carregada para o humor físico silencioso, mimico, pantomímico, pastelão com toques teatrais e circenses. 

Se fizesse ele falar, faria o personagem perder o sentido, então ele que começou a representar o seu famoso personagem no curta-metragem Corrida de Automóveis para Meninos(Kid Auto Races at Venices, EUA, 1914) para os Estúdios Keystone, que contou com a direção e roteiro de Henry Lehman(1886-1946) e teve a produção assinada por Mack Sennet(1880-1960) que foi o responsável por lançar sua carreira no cinema, resolveu aposentá-lo no filme Tempos Modernos(Modern Times, EUA, 1936).




O filme que veio em seguida a Tempos Modernos foi O Grande Ditador, obra que marcou de mostrar além dele não apresentar mais como O Vagabundo, mas marcou também o ponto de partida dele estrelando um filme falado e que trouxe uma ousada abordagem de satirizar o modelo das ditaduras nazifascistas na Itália e na Alemanha naquele momento em que a Segunda Guerra Mundial entrava no seu segundo ano de conflito.

Através do humor, nós vemos, no que parece racional, o irracional. No que parece importante, o que não é. O humor eleva nosso senso de sobrevivência e nossa sanidade. Por conta do humor, somos menos afetados pelas vicissitudes da vida. Ele ativa nosso senso de proporção e nos revela que num exagero de seriedade se esconde o absurdo”.

(Chaplin).

Nessa produção onde Chaplin assumiu diversas funções: Foi diretor, roteirista, produtor e narrador, ele também protagoniza nesse filme dois papeis de homens muito fisicamente semelhantes, mas que não eram irmãos gêmeos, eram apenas sósias, com personalidades bem distintas uma da outra.




Um é o Adenoid Hynkel, o Ditador da fictícia Tomânia, uma alusão a Alemanha nazista governada por Adolf Hitler(1889-1945), o famoso e mitificado Fürher pelos alemães, palavra que na língua germânica significa líder, condutor.




Já o outro é um Babeiro Judeu, que começa a história lutando na Primeira Guerra Mundial como “um cadete do exército da nação fictícia da Tomânia e tenta salvar um soldado chamado Schultz (Reginald Gardiner). O personagem de Chaplin perde a memória assim que o avião dos dois colide com uma árvore.

Schultz escapa das ferragens, e Chaplin passa seus próximos vinte anos no hospital, enquanto muitas mudanças acontecem em Tomânia: Adenoide Hynkel(também interpretado por Chaplin), agora o grande ditador  da Tomânia, perseguia judeus com a ajuda dos ministros Garbitsch (Henry Daniell) e Herring (Billy Gilbert).

Curado, mas ainda com amnésia. Chaplin retorna à sua barbearia do gueto judeu, ainda sem saber da situação política da Tomânia. O barbeiro fica chocado quando tropas de choque quebram a janela de sua loja. Encontra, depois, um amor, Hannah, uma linda moradora do gueto.”

(Wikipédia).

Ao longo do filme, acompanhamos a jornada do Barbeiro Judeu, ao ser capturado pelos nazista, mas é impedido quando aparece seu velho companheiro Schultz, até o momento em que ocorre uma troca entre ele e Hynkel e ele assume o cargo de Hynkel numa estrutura que lembra o clássico literário de O Príncipe e o Mendigo do americano Mark Twain(1835-1910).




Hynkel tem como forte aliado, o líder da fictícia Bactéria, uma sátira a Itália Fascista, que é Benzino Napaloni(Jack Oak) em alusão a Benito Mussolini(1883-1945), referenciado pelos italianos como Duce, que significa líder.



Foi desse filme de comédia dramática sobre sátira política e social ao contexto histórico da Segunda Guerra Mundial que saiu um trecho que foi usado na abertura da novela O Dono do Mundo, o trecho especificamente tratava-se da cena mostrando Hynkel fazendo uma coreografia com a bola representando o globo terrestre com aquele desejo mirabolante de querer dominar o mundo. Algo que foi bem encaixado a proposto do título que remetia ao crápula do protagonista Felipe Barreto(Antônio  Fagundes), um rico e brilhante  médico  mau-caráter com seu perfil egocêntrico de se achar o dono do mundo.

Para a abertura da novela que contou com um dedo do designer Hans Donner, um germânico-austríaco naturalizado brasileiro que àquela altura já desenvolvia seus trabalhos artísticos para a emissora fazia vinte anos, ele junto com sua equipe criaram a sobreposição de imagens de mulheres sensuais sobre um globo na famosa sequência do filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, em que seu personagem emulava Hitler brincando com um globo.”

(TELEDRAMATURGIA)

 

“Ao som da canção 'Querida', de Tom Jobim(1927-1994), a abertura mostrava a cena do filme O Grande Ditador em que Charles Chaplin, no papel do personagem Hynkel, dança com um globo terrestre, numa sátira a Adolf Hitler. A cena foi modificada eletronicamente com a inserção de belas mulheres no globo.”   

(MEMÓRIA GLOBO)

Essas belas mulheres que apareciam no globo terrestre eram colorizadas, enquanto que o filme mesmo era mantido em preto e branco.





Uma tarefa complicada e complexa de ser executada, principalmente ao se tratar das demoradas negociações envolvendo os direitos autorais da obra e fora o trabalhão que foi inserir diferentes mulheres fazendo poses sensuais em diferentes quadros dentro do globo, mesmo contando com os recursos tecnológicos mais avançados para a época que se tinham para isso ser realizado.

“Os direitos sobre o filme demoraram para sair. Hans Donner chegou inclusive a gravar uma abertura alternativa em que o modelo Beto Simas fazia as mesmas ações de Chaplin no filme. Porém, ao final, a versão original foi liberada com os direitos sobre as imagens cedidos diretamente a Hans Donner.
“Para usar o filme, descobri quem era o chefão da distribuidora. Por sorte, ele viu uma exposição minha em Londres e gostava do meu trabalho”, revelou Hans a Flávio Ricco e José Armando Vannucci para o livro “Biografia da Televisão Brasileira”.
Os direitos de reprodução do filme foram cedidos por sua detentora exclusiva na época, a distribuidora Filmverhuurkantoor “De Dam” B. V. (de acordo com os créditos do encerramento da novela).

Para a versão de exportação da novela, foi exibida uma terceira abertura, em que o globo, no qual apareciam as mulheres, passeava pela galáxia – sem a participação de Chaplin ou referência ao filme.”

(TELEDRAMATURGIA).

Pelo que Hans Donner comentou na matéria do jornal O Globo, escrita por Pedro Só em 22 de Maio de 1991 sobre as inserções das imagens no globo para a abertura da novela:

“Só podíamos inserir as imagens no espaço ocupado pela bola colocando-as nas 50 posições de sua trajetória em um segundo e meio. Mais do que isto seria um número muito alto de informações para a máquina. “

(Trecho extraído do blog TV Baú postado em Setembro de 2014).


Sobre essa produção, ela além de ser estrelada pelo próprio Chaplin, é também estrelada por Paulette Goddard(1910-1990), uma das atrizes com quem Chaplin foi casado representando a Hannah, o grande amor do Barbeiro Judeu, Jack Oakie(1903-1978) na pele do ditador Napaloni da Bactéria, cujo sobrenome traz uma referência histórica a Napoleão Bonaparte(1769-1821), o temido Imperador da França no século 19, Carter DeHaven(1886-1977) como o Embaixador da Bactéria, Henry Daniel(1894-1963) como Garbitsch e Billy Gilbert(1894-1971) como Herring,  que são os ministros de Hynkel que com certeza deve fazer uma sátira aos ministros nazistas de Hitler que foram os figurões do alto escalão do Governo Nazista na Alemanha que tiveram entre seus nomes: Joseph Goebbels, Hermman Göring, Heinrich Himmler, Wilhelm Frick, Albert Sper e Joseph Von Ribbentrop. 

Também mencionar a participação de Reginald Gardner(1903-1980) como o Schultz e de Maurice Moscovich(1871-1940), esse ator russo-americano, nascido em Odessa na Ucrânia quando a região pertencia ao Império Czarista da Rússia no berço de família judia asquenazes. Ele que já tinha residência fixa nos Estados Unidos desde 1897, foi em solo americano que ele construiu uma sólida carreira teatral estrelando para sua comunidade falando em iídiche, fez pouco cinema e essa produção onde ele representou o Senhor Jaeckel, um senhor judeu que era inquilino da barbearia marcou a última de sua carreira, ele faleceu aos 68 anos.

Um fato curioso, é que na obra é mencionado outro pais fictício que é Osterlich que faz referência a Áustria.

Na abertura do filme eles esclarecem com um texto que diz assim:

Qualquer semelhança entre Hynkel, o ditador, e o barbeiro judeu é mera coincidência.

Esta é a história de um período entre duas Guerras Mundiais – um interlúdio em que a insanidade se alastrou. A liberdade entrou em colapso e a humanidade foi duramente atingida.”

Essa obra de mensagem crítica foi lançada antes dos Estados Unidos mandarem suas tropas para combaterem contra os nazistas na Europa, isso só aconteceu depois do ataque a Pearl Harbor em 7 de Dezembro de 1941.

Na época em que foi lançada chegou a receber acusações de apologia ao comunismo por sua mensagem crítica ao nazismo já que os Estados Unidos até então carregavam uma postura aliada de Hitler, chegou a receber 5 indicações no Oscar de 1941, mas não ganhou nenhuma.

É curioso imaginar que na obra, o Barbeiro Judeu mais parece agir muito como O Vagabundo, a ponto de muita gente equivocadamente pensar que essa obra foi a última com o personagem.

A cena final do Barbeiro Judeu agindo como Hynkel indo em direção ao púlpito para falar ao povo com seu discurso de mensagem pacifista é o que torna a obra indispensável e sempre atualizada, ainda mais pela forma como ele quebra a quarta parede ao se dirigir ao público que esteja assistindo:

Sinto muito, mas não pretendo ser imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar ninguém. Gostaria de ajudar judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós desejamos ajudar-nos uns aos outros. Seres humanos são assim. Queremos viver para a felicidade do próximo e não para seu infortúnio. Não desejamos odiar ou desprezar. Neste mundo há espaço para todos. A Terra é rica e pode prover a necessidade de todos. O caminho da vida pode ser livre e lindíssimo, porém perdemos o rumo. A ganância envenenou nossas almas, levantou muralhas de ódio, fez-nos chegar a miséria e ao derramamento de sangue. Desenvolvemos velocidade, mas isolamos uns dos outros. A maquinaria que nos poderia dar abundância deixou-nos na penúria. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos e cruéis. Pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de compaixão. Sem estas virtudes, a vida será violenta. A aviação e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza dessas coisas apela a bondade, apela a fraternidade universal para sermos todos um. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões em todo mundo, milhões de homens, mulheres e crianças desesperadas, vítimas de um sistema que põe homens a torturar e encarcera inocentes. Aos que me ouvem, eu digo: Não desespereis. A nossa desgraça é simplesmente o último suspiro da ganância. A amargura de homens que temem o progresso humano. O ódio dos homens desaparecerá, e os ditadores sucumbirão, e o poder que arrebentaram ao povo regressará ao povo. Enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá. Soldados! Não vos entregueis a esses desalmados. Homens que vós desprezam e escravizam, que controlam as vossas vidas! Que vos ditam o que fazer, pensar e sentir! Que vos condicionam, que vos tratam como gado e se servem de vós como carne para canhão! Não vos entregueis a esses desumanos, homens-máquinas com mentes de aço e corações de pedra! Não sois máquinas! Não sois gados! Homens é sois! E levam o amor a humanidade nas vossas almas!  Não odieis! Só odeiam os que nunca foram amados. Os mal-amados e os desumanos. Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! São Lucas escreveu: “O Reino de Deus está dentro do homem. Não de um só homem, mas de todos os homens! Em vós! Vós, o povo, tendes o poder! De criar máquinas, de criar felicidade! Tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazer uma aventura maravilhosa! Então em nome da democracia, usemos esse poder! Unamo-nos! Lutemos por um mundo novo. Um mundo que assegure a todos a oportunidade de trabalho, que dê futuro a juventude e segurança a velhice. Com tais promessas, os desalmados subiram ao poder.  Mas eles mentem. Esses não cumprem as suas promessas! Os ditadores libertam-se mas escravizam o povo! Lutemos agora para cumprir essas promessas! Lutemos para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, pôr termo a ganância, ao ódio e a intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo no qual a ciência e o progresso conduzam a felicidade de todos nós. Soldados! Em nome da democracia, unamo-nos! 

A última frase é dele se dirigindo a Hanna:

“Hannah, está me ouvindo? Onde quer que esteja, olhe para cima! Olhe para cima, Hannah! As nuvens estão subindo, o Sol está abrindo caminho! Estamos fora das trevas, indo em direção à luz! Estamos indo para um novo mundo; um mundo mais feliz, onde os homens vencerão a ganância, o ódio e a brutalidade. Olhe, Hannah!”

A cena final é de Hanna olhando para cima com um sorriso no rosto.

Pode-se concluir diante disso tudo que essa obra ela é muito relevante para entender principalmente o mundo atual e seu medo do novo modelo de fascismo propagando com as novas tecnologias.


*Termo pejorativo de cunho socioeconômico usado nos Estados Unidos para definir pessoas brancas de baixa renda que vivem na pobreza. Que são vista pela abastada elite supremacista branca como gente inferior. Esse termo surgiu “na década de 1830 e era usado por aristocratas brancos e escravos negros para se referir aos trabalhadores brancos das plantações do Sul ou aos pequenos agricultores brancos.”(Wikipédia). São frequentemente representados de forma estereotipada beirando ao caricato como gente rude, grosseira, rústica, sem modos vivendo em moradias precárias como trailers, por exemplo. Alguns exemplos de personagens que simbolizam o tropo narrativo do lixo branco no cinema hollywoodiano são: Rocky Balboa da franquia Rocky(1976-2006), já que no primeiro filme mostra a vida pobre dele num xexelento apartamento periférico e devendo aluguel, Travis do filme Táxi Driver(1976) mostra também simbolizar esse exemplo de lixo branco já que ele  é um taxista e é o fio condutor da narrativa em ser nosso guia em  mostrar por meio de sua corrida diária de táxi uma Nova York consumida pelo caos urbano e mora num muquifo, Tony Montana do filme Scarface(1983) também simboliza essa representação ainda mais ele sendo um imigrante cubano que se enriquece com o tráfico de drogas e mesmo ostentando luxo, ainda assim carrega um mal gosto, sendo visto como brega. Principalmente pela ótica da Elvira, sua classuda amada que mostra carregar bem uma herança aristocrática.   Outros exemplos são:  Vivian Ward protagonista do filme Uma Linda Mulher(1990) também simboliza esse tropo narrativo do white trash simbolizando aqui essa figura feminina de beleza atraente de cunho sexual, ainda mais sendo ela uma prostituta. Em contraponto, outro exemplo feminino de representação do tropo narrativo do White Trash é Andrea Zuckerman uma das protagonistas da clássica série dramática juvenil dos anos 1990 Barrados no Baile (Bervely Hills, 902010, EUA, 1990-2000) onde ela com seus óculos de intelectual estudando num colégio de elite onde comandava um jornalzinho que contava com Brandon como seu colaborador, escondia que morava num bairro pobre suburbano. Por fim, outro exemplo desse tropo narrativo do White trash explorado tanto no cinema quanto na televisão é o personagem do Mark Shultz, protagonista do filme Foxcatcher(2014) ainda mais sendo inspirado na história real do lutador de luta livre, medalhista olímpico que no primeiro momento do filme mostra ele vivendo num muquifo até receber um telefonema do dono da equipe Foxcatcher, o excêntrico milionário John Du Pont(1938-2010) para treinar e morar numa das hospedagens de sua fazenda onde ele leva consigo seu irmão Dave Shultz(1959-1996). Mark sentindo a estranheza e as esquisitices de DuPont resolve deixar a equipe e seu irmão Dave permanece até o momento de sua trágica morte precoce aos 36 anos, onde foi covardemente assassinado a tiros por DuPont na gélida manhã invernal de 26 de Janeiro de 1996. DuPont foi preso logo em seguida e foi sentenciado a prisão perpetua a qual cumpriu até o seu falecimento em 2010.


terça-feira, 26 de maio de 2026

40 ANOS SEM FLÁVIO CAVALCANTI

 

No dia 26 de Maio de 1986, o Brasil se despedia de um importante apresentador chamado Flávio Cavalcanti(1923-1986), apresentador que surgiu nos primórdios da televisão contemporâneo a Silvio Santos(1930-2024), J.Silvestre(1922-2000), Hebe Camargo(1929-2012), Chacrinha(1917-1988) e Carlos Imperial(1935-1992).




Um dos mais famosos e polêmicos comunicadores brasileiros, principalmente por sua controversa postura conservadora de ser o apoiador dos militares no Golpe de 1964, era contra o casamente de pessoas do mesmo sexo o que poderia render um cancelamento nos dias de hoje.




Flávio Cavalcanti fez sucesso no comando de alguns programas de rádio e televisão nas décadas de 1960 e 1970, como o Programa Flávio Cavalcanti, Um Instante, Maestro! e A Grande Chance.

Flávio Cavalcanti ao longo de sua carreira de comunicador, começou no rádio com o programa Discos Impossíveis da Rádio Tupi.

Teve passagens por diferentes emissoras: Excelsior, Tupi e Bandeirantes.

 


Foi no Sistema Brasileiro de Televisão(SBT) fundado em 1981 pelo também pioneiro apresentador da TV Silvio Santos que Flávio Cavalcanti ficou contratado até o fim da vida. 

No dia 22 de maio de 1986, Flávio Cavalcanti fez uma rápida entrevista em seu programa e jogou o dedo indicador para o alto com seu bordão "Nossos comerciais, por favor!". Após o intervalo, Wagner Montes(1954-2019) substituiu Flávio, anunciando que ele voltaria no próximo programa, o que não ocorreu.



Flávio havia sofrido uma isquemia miocárdica. Levado para o Hospital Unicor, em São Paulo, faleceu quatro dias depois, em 26 de maio de 1986. O enterro de Flávio Cavalcanti foi acompanhado por cerca de duas mil pessoas, no Cemitério Municipal de Petrópolis, na região serrana do estado do Rio de Janeiro.

No dia seguinte à sua morte, o SBT ficou fora do ar até o sepultamento do apresentador. Em sinal de luto a tela apresentou apenas um slide dizendo: "Estamos tristes com a morte do nosso colega Flávio Cavalcanti, que será sepultado hoje, em Petrópolis, às 16 horas, quando então voltaremos com a programação normal.