domingo, 9 de agosto de 2026

25 ANOS DA MINISSÉRIE PRESENÇA DE ANITA

No dia 7 de Agosto de 2001, a Globo colocava no ar uma ousada minissérie que abordava sobre uma jovem destruidora de lares.  Essa tal minissérie era Presença de Anita(Brasil, 2001).


















A minissérie foi uma adaptação de um romance homônimo de Mário Donato(1915-1992) com roteiro de Manoel Carlos(1933-2026) e direção de Ricardo Waddington, Edgard Miranda e Alexandre Avancini*.

O romance foi publicado em 1948, e a minissérie não foi a primeira vez que a obra de Mário Donato ganhava uma adaptação para o audiovisual.

A primeira vez foi numa versão para cinema, que foi dirigida pelo ítalo-brasileiro Ruggero Jacobbi(1920-1981) produção que inaugurou a atividade da extinta produtora paulista da Cinematográfica Maristela que fechou suas portas em 1958, cujo papel principal de Anita foi de Antonieta Morienau(1932-2005) que foi lançado em 1951. Fora que em 1964, o romance serviu de inspiração para a novela A Outra Face de Anita da extinta Tv Excelsior, escrita por Ivani Ribeiro(1922-1995).

Manoel Carlos ou Maneco como também era popularmente referido já vinha tendo o desejo de adaptar o livro de Donato como minissérie desde o começo dos anos 1990, época em que havia retornado a emissora após uma breve passagem pela extinta Rede Manchete e o marco desse seu retorno foi ter escrito a novela das seis Felicidade(Brasil, 1991-1992).

Já que o autor havia lido o livro de Donato, quando estava com 17 para 18 anos, escondido dos pais, já que o livro era muito alvo de polêmica que chegou a provocar a ira da Igreja Católica por conta da temática de devassidão envolvendo adultério dentre outros fatores.

Maneco se correspondeu por cartas com o autor, até o seu falecimento em 1992, onde ele autorizou fazer as adaptações e deu toda a liberdade artística do autor poder fazer algumas alterações do texto original para o roteiro televisivo.

Ali por volta de 1993, ele mostrou o roteiro para a direção, mas que acabou não sendo aprovado. Maneco levou quase uns dez anos para conseguir finalmente concretizar esse projeto, nesse intervalo de tempo ele escreveu as tramas de: História de Amor(1995-1996), Por Amor(1997-1998) e Laços de Família(2000-2001).

A trama da minissérie girava em torno de “Nando(José Mayer) quer aproveitar o final de ano para dar o ponta-pé inicial em um antigo sonho: escrever um romance. Lúcia Helena(Helena Ranaldi) só pensa em retomar a paixão em seu casamento. Zezinho(Leonardo Miggiorin) quer viver seu primeiro amor. E Anita só quer seguir o seu destino, com a certeza de que nada é por acaso, tudo já está escrito.

Para escapar da rotina louca de São Paulo, Lúcia resolve passar as festas de fim de ano na casa da família, em Florença, no interior do estado. Pensa em aproveitar o clima familiar para reacender a paixão em seu casamento. Nando vê nas férias a oportunidade de escrever seu romance. Em busca de inspiração, encontra Anita(Mel Lisboa), a personagem ideal.

Anita se mudou para um sobrado onde, no passado, aconteceu um crime de amor. Se ela não pode mudar o destino, vive da forma mais intensa. Seduz Nando e desperta a primeira paixão de Zezinho. Com os dois, forma um triângulo que muda para sempre a vida de todos.”

(Teledramaturgia).

A minissérie marcou a estreia de Mel Lisboa em seu papel de protagonista, que enfrentou uma disputa concorrida entre as 100 jovens escolhidas a dedo pelo próprio autor Manoel Carlos e pelo diretor Ricardo Waddington, que queriam uma atriz desconhecida. Houve quem brincasse de chamar de Ausência de Anita, devido as indefinições sobre a escolha da protagonista de Anita. Mel Lisboa com a pouca idade que tinha na época, com apenas 19 anos e fazendo sua estreia na televisão depois de sua formação teatral, na minissérie “Viveu uma adolescente, mas tinha quase 20 anos quando gravou a minissérie. A atriz mostrou segurança ao interpretar uma Anita sensual e ao mesmo tempo terna. Acabou para sempre marcada pela personagem.”

(Teledramaturgia).

Outro nome estreante na minissérie a ser mencionado é o de Leonardo Miggiorin, representando o jovem Zezinho, o adolescente apaixonado por Anita e envolvido no seu jogo de sedução e por quem ele tem sua primeira transa. Ele tinha as espinhas no rosto que o ajudaram na caracterização, Miggiorin tinha a mesma idade de Mel e esse não foi seu primeiro papel na televisão, antes disso ele havia participado da novelinha infantil Flora Encantada(1999-2000), no papel de um excêntrico biólogo chamado Gafa.

Além desses, a minissérie também contou com a revelação de outros novos talentos como de Taiguara Nazareth na pele do André, o novo empregado da fazenda da família de Lúcia Helena. Na época, com apenas 25 anos, apesar de mostrar uma inexperiência de ator, ainda mais pelo rosto muito sério e inexpressivo, mostrando uma evidente insegurança, pelo menos ele consegue bem captar a essência passiva dele como um sujeito submisso e obediente  a opressão de uma patroa branca autoritária e racista como a Marta(Vera Holtz), onde na primeira cena que ele é apresentado como novo empregado a ela que manda olhar suas mãos, num comparativo ao desempenho dele com o desempenho  da  atriz Vera Holtz já com longa bagagem que  dá um show de interpretação nesse papel.

Graças ao seu porte físico atlético, ajudou a compensar a maneira como ele transmitiu em cena a visão do racismo estrutural ao mostrar além da submissão de escravidão moderna a uma patroa branca racista como a Marta, como ele abordou essa subtrama da hiperssexualização ao despertar o desejo sexual reprimido justamente de sua autoritária patroa branca.  

Em 2025, ocasião em que a minissérie entrou no catálogo do Globoplay, ele aproveitou para compartilhar em sua rede social comentando sobre isso, nas palavras dele:

A minissérie foi incrível. E falando do meu personagem, da minha participação, trata muito com a Vera Holtz, a Marta, a personagem que ela deu vida, sobre questões raciais, assédio e hiperssexualização. As taras reprimidas, vontades, os desejos, coisas muito atuais”.

Esse André vivia um tórrido romance  escondido com a Neusa que já era empregada da Fazenda de Marta, e foi representada pela também estreante Joanna Tristão, que na ocasião com apenas 18 anos,  em que participou dessa minissérie havia integrado a primeira formação do elenco de assistentes de palco do apresentador Luciano Huck, quando este um recém-egresso da Band onde apresentou o Programa H (1996-1999), estreava na Globo em 2000 para apresentar o Caldeirão do Huck (2000-2021) que durou longos 21 anos até ele  passar  a comandar o Domingão com Huck atualmente.

Na minissérie ela até que mostra um desempenho mediano, visto o fato dela se mostrar um tanto rasinha na história, não chega a explorar com profundidade o fato que é mencionado pelas irmãs quando Marta a despede que ela trabalhava na família desde menina, deixando evidentemente claro a exploração abusiva de trabalho de menor de idade, no entanto, ela serviu bem como uma personagem que faz uma  ponte entre o André e a Marta e com aquele toque de sexy appeal trouxe  um ar de sensualidade a Neusa  numa cena picante dela com André.

Após esse trabalho, a atriz ainda participou da minissérie O Quinto dos Inferno(2002), fez alguns trabalhos de ensaio como modelo em campanhas e clipes musicais e estrelou para a revista VIP até resolver largar a carreira artística depois que casou e virou mãe de dois filhos e mudou de carreira trabalhando atualmente como psicóloga. 

Do mesmo modo que o elenco formado por grandes atores feras de primeira categoria da Globo dão cada um show de interpretação.

Como José Mayer na pele do Nando se mostrou crível, ele que na ocasião integrava o elenco fixo  da Globo desde os anos 1980, figurando como o galã da preferência sexual feminina mesmo com um expressão sisuda,  desempenha bem em cena o nível da complexidade que esse personagem exige, principalmente na sua crise existencial, vive num casamento de fachada, mas não quer se separar, vive um tórrido romance com uma jovenzinha que acabou de conhecer numa cidade de interior, quer viver com ela, mas não quer  separar da esposa. Ele vive nesse dilema.

Um sujeito que quando tem rompantes de fúria, fica violento, vive com a cabeça fora desse mundo, esquecendo da família, principalmente quando vive com o romance na cabeça. Nos últimos anos, o ator se encontra afastado da televisão desde sua saída da Globo em 2017, e atualmente longe dos holofotes, passou a viver uma vida tranquila no campo, residindo em Itaipaiva, Região Serrana do Rio de Janeiro.

Também mencionar a participação de Helena Ranaldi na pele da Lúcia Helena, a esposa de Nando, uma mulher de perfil um tanto ingênua com seu comportamento certinho, sereno, que procura ao máximo possível salvar o casamento com Nando, por conta disso ela arruma o pretexto da viagem ao interior para passarem o Natal com a família dela para ver se consegue recuperar a relação.

Ela que na ocasião que participou da minissérie, já integrava o elenco fixo da Globo desde que foi lançada na novela Despedida de Solteiro(Brasil, 1992-1993), após uma breve passagem pela extinta Rede Manchete, onde participou das novelas: A História de Ana Raio e Zé Trovão(Brasil, 1990-1991) e Amazônia(1991-1992), e atualmente desde que foi dispensada pela emissora em 2014, passou a fazer menos novela e dedicou mais  ao teatro e a alguns trabalhos esporádicos em cinema e em séries de televisão.

Do núcleo da família de Lúcia Helena e Nando, fazer menção ao bom desempenho de Júlia Almeida na pele da Luísa, a filha rebelde de Nando, fruto de outro casamento. A atriz que é filha de Maneco**, que já havia participado antes de outras produções escritas pelo pai na Globo cuja primeira foi em Felicidade, na minissérie desempenha brilhantemente o papel dessa jovem rebelde, que vive desafiando a autoridade do pai. Que se destaca pela amizade que faz com Anita sem suspeitar que ela era amante do pai, a fachada do perfil de ovelha negra, pelo menos fazia ela mostrar ser mais verdadeira em comparação a fachada moralista conservadora da família de Lúcia Helena.

Como exemplo além do seu pai Nando, o patriarca Venâncio, pai de Lúcia Helena, vivido por Linneu Dias(1927-2002) que faz um ótimo desempenho em cena na pele  de um autoritário fazendeiro rico, muito respeitado na região de Florença, que já foi prefeito duas vezes. Um sujeito que não esconde detestar Nando, que carrega um perfil as vezes involuntariamente cômico com suas posições antiquadas de conservadorismo patriarcal tradicionalista meio torpe e pinga. Essa minissérie foi o último trabalho da carreira de Linneu Dias que faleceu no ano seguinte. Do mesmo modo como a sua irmã mais velha Marta, muito bem defendida por Vera Holtz ela já era um nome fixo da emissora desde dos anos 1980.

Na minissérie, o desempenho dela como Marta, uma viúva sem filhos, que foi a única das três filhas de Venâncio que ficou ali cuidando da fazenda, já que o velho pai viúvo caquético, ranzinza, meio bitolado do juízo se encontrava com a saúde fragilizada.  Já que as outras duas se mudaram para a capital depois que casaram.   

O desempenho da maneira como ela incorpora o caráter autoritário herdado do pai, e sua postura racista também herdada do pai faz com que ela em cena incorpore e desenhe bem o perfil um tanto rústico da personagem, como a atriz nascida em Tatuí, no interior paulista e com uma voz bem caracteristicamente anasalada, ajudou bem a compor essa essência de uma poderosa madame do campo. Que por trás da hipócrita fachada autoritária moralista, nutre esconder da família um desejo sexual justamente por quem? Pelo André, o seu empregado negro, e olhe que ela não escondia sua postura racista.

Também nesse núcleo há de  mencionar a participação de Carolina Kasting como a Julieta, irmã caçula de Lúcia, que após casar com o pediatra Heitor(Alexandre Barros) com quem teve uma menina chamada de Amélia, foi morar no Rio de Janeiro-RJ.

Ela que na ocasião era uma jovem de 26 anos, mas que já vinha despontando na televisão desde a segunda metade dos anos 1990, teve uma passagem conturbada pela extinta Rede Manchete, que prestes a entrar em falência protagonizou a novela Brida(1998), que precisou ser encurtada sem um final.

Na minissérie ela mostrou um ótimo desempenho como a Julieta com sua língua afiada para gozar da cara de seu cunhado Nando.

Também mencionar a participação do ator Alexandre Barros***, que faz uma representação até que razoável na pele do Heitor, esposo da Julieta, esse foi seu primeiro papel na televisão, apesar de já despontar na carreira de ator desde os 11 anos quando estrelou comerciais.  Fez carreira no cinema se lançando no filme For All-O Trampolim da Vitoria(Brasil, 1997).

Na minissérie, o seu papel se mostra bem raso, só tendo alguma importância mais lá para frente quando ele procura dá alguma assistência a Nando depois do choque do episódio do assassinato de Anita e Zezinho no sobrado onde ele começa a ficar perturbado pelo fantasma da Anita.

Fora também outras participações especiais como: Tony Mastalter na pele do Roberto, um amigo de Nando meio bobalhão que tem muitas tiradas cômicas relacionadas a desejo por um bom rabo de saia.  Renata Briani na pele da Celeste, a babá do Luisinho(Pedro Rossa), o filho de Nando e Lúcia, um moleque bem chatinho  e um tanto irritante é o mais rasinho na história.  O seu desempenho na pele dela com suas tiradas cômicas a dá um destaque  a mais. Vanessa Nunes que aparece só no primeiro capítulo na pele da Silvia, a secretária do escritório de arquitetura de Nando mostra um bom desempenho com as tiradas afiadas da personagem com seu toque provocativo.  Também participam no primeiro capítulo Marcos Caruso na pele do Gonzaga, o sócio de Nando no escritório que ao olhar o desenho dele de uma mulher nua comparando a uma menininha de quinze anos, já deixava evidente que o cara tinha perfil de pedófilo e Débora Olivieri que representa a esposa de Gonzaga também brilha em cena com suas tiradas de diálogo afiado. 

Fora também aqui as menções de Walter Breda, que muitos devem conhecer o seu trabalho de dublador, dentre os mais marcantes é o do Senhor Kaioh no anime de Dragon Ball Z, que na minissérie faz um brilhante desempenho como Antônio, o comerciante dono de um mercado localizado em frente ao sobrado onde Anita se muda. É nesse lugar onde trabalha o jovem Zezinho, por quem ele nutre uma preocupação quase paternal pelo rapaz, que cresceu sem conhecer o pai e aceitou emprega-lo por consideração da sua mãe que não aparece, é só mencionada.

Também mencionar a participação de Erom Cordeiro, que faz um pipoqueiro da Praça da Cidade de Florença, com quem Lúcia costuma interagir, foi sua estreia na televisão e de Clarisse Abujamra como a mãe de Anita que aparece pontualmente na história.

Um fato curioso a se comentar sobre o livro que inspirou essa minissérie, é que já houve críticos literários que acusaram o livro de ser plágio da Lolita, famoso romance do russo Vladimir Nabokov(1899-1977), por conta das semelhanças. Ocorre que o famoso romance de Nabokov  só foi publicado em 1955, portanto, sete anos após Mário Donato publicar o livro Presença de Anita.

As locações para a fictícia Florença foram no município de Vassoura/RJ, lugar que preserva uma antiga arquitetura colonial que remete aos tempos áureos dos barões do café.  O que ajudou bem a compor a atmosfera rústica.

“O destaque da produção de arte foi a boneca Conchita, reprodução de uma bailarina espanhola de cerca de 20 centímetros, feita em gesso e criada nas oficinas de artesanato do Projac. A boneca funcionava como um símbolo na história, pois, segundo Anita, ela guardava a alma da ex-moradora do sobrado (onde a personagem foi morar), Cíntia, que morrera assassinada pelo amante.”

(Teledramaturgia).

 

Um dos pontos mais polêmicos que essa minissérie causou, além das cenas tórridas de sexo e nudez entre um homem de meia idade e casado com uma novinha, foram a presença do cigarro que foi muito criticado pelo então diretor do Instituto Nacional do Câncer, Doutor Jacob Kligerman. O que para Maneco, serviu bem para compor o perfil destrutivo dos personagens.  Fora que eles em cena tinham muitos diálogos chulos.

   Chama a atenção que sua trilha sonora contou com o repertório de clássicas canções francesas da era de ouro da chanson, a começar pela abertura que é tocada Ne me quitte pas, gravada na voz de Maysa(1936-1977) que é de autoria do franco-belga Jacques Brel(1929-1978), fora tocarem Pigalle na voz do dinamarquês-francês George Ulmer(1919-1989) que faz uma referência a uma famosa avenida boêmia de Paris que há uns três anos quando visitei a capital francesa conheci esse lugar fascinante e essa canção faz uma ode exaltando o bairro.  E Que c´est triste Venise gravada por Charles Aznavour(1924-2018).

Também chama a atenção o fato curioso de que Maneco, que recentemente partiu no começo de 2026, normalmente para quem costumava acompanhar as novelas do autor como as que mencionei nesse texto, tende a perceber que a principal característica em suas novelas era quando ele costumava explorar muito o bairro carioca do Lebron, coisa que essa minissérie foge um pouco disso, a começar pelo fato do primeiro capitulo se passar em São Paulo-SP, onde a família de Nando reside, e ironicamente o autor nasceu em São Paulo-SP e vai sendo todo centralizado no interior da fictícia Florença. Ele pelo menos não deixou de fora uma característica que ele costumava explorar muito em suas novelas, que é batizar uma de suas personagens de Helena, tanto que por conta disso, a esposa traída de Nando é chamada com o nome composto de Lúcia Helena. A principal razão para o autor gostar tanto do nome e batizar em suas personagens era porque simplesmente o fazia remeter a figura mítica da Helena de Tróia. Ele explorou isso até escrever sua última novela que foi Em Família(2014), depois disso o autor já aposentado, passou os seus últimos de vida enfrentando o Mal de Parkinson que afetou sua capacidade cognitiva de escrita.

Além do autor, alguns atores que fizeram parte do elenco da minissérie já partiram no passar desses anos até o momento dessa publicação os que já partiram foram: Linneu Dias como já mencionado anteriormente representou o Venâncio, ele faleceu um ano após a minissérie chegar ao fim em Agosto de 2002.

Também são falecidos: Umberto Magnani(1941-2016) representando o Dr. Eugênio, o médico particular da família de Lúcia Helena, que era muito intimo deles virando uma figura de tio por afinidade dela e das suas irmãs. Esse ator assim como a exemplo de Júlia Almeida, José Mayer e  Helena Ranaldi presentes no elenco da minissérie costumava ser muito requisito pelo autor em suas novelas.

Dois artistas da música brasileira  que participaram da minissérie também estão entre os falecidos: o sambista Nelson Sargento(1924-2021) que faz uma participação especial como o João, empregado da Fazenda da Família de Lúcia Helena e Selma Reis(1960-2015) que representou a misteriosa Cigana que costuma aparecer na Praça da Cidade que ao ver Lúcia Helena fica querendo ler o seu destino.

Assim como também são falecidos os atores Paulo César Pereio(1940-2024) que faz uma participação como o Armando, o pintor que Anita tanto menciona que foi responsável por acolhe-la em sua casa e ele  é mostrado na cena do flashback da sua infância de quando ela pousou para ele como modelo para ser desenhada em seu quadro. E ele como era falecido, deixou o casarão como herança para ela. Outros falecidos são: Noemi Gerbelli(1953-2021) que representou bem o papel da Susana, a esposa de Antônio, uma típica senhora fofoqueira com tiradas cômicas direcionadas a sua língua ferina a Anita e Wolney de Assis(1937-2015) que faz uma ótima participação na pele do Delegado que vai ao sobrado onde Anita estava morta e chega a se aproveitar para furtar uma calcinha dela. 

 

 *Esse Alexandre Avancini é filho do falecido diretor Walter Avancini(1935-2001), que construiu uma longa carreira dirigindo novelas e outros de televisão. Ele é irmão da atriz Andréa Avancini.

**Atualmente Júlia Almeida e sua irmã, a roteirista Maria Carolina passaram a cuidar do espólio dos textos do pai por meio da produtora Boa Palavra. Ainda mais, depois que o pai morreu em Janeiro de 2026, após enfrentar uma dura batalha contra o Mal de Parkinson. Além delas, Maneco também teve três filhos que haviam falecidos antes dele.  O ator e dramaturgo Ricardo Almeida faleceu em 1988 devido a complicações do HIV, o diretor Manoel Carlos Júnior faleceu em 2012 após sofrer uma parada cardíaca e Pedro Almeida faleceu em 2014, ele tinha só 22 anos quando teve um mal súbito quando estava residindo em Nova York estudando para teatro.

***Não confundir o nome desse ator com o nome do popular esportista do motociclismo que é referido como Alex Barros. Ele também é homônimo do jurista Alexandre de Moraes, que compõe a pasta do Supremo Tribunal Federal. Já que o nome completo dele é: Alexandre de Moraes Barros Anastácio. E mais coincidência que isso é que ambos nasceram em 1968, com um dia de diferença. O ator Alexandre Barros faz aniversário faz aniversário em 12 de Dezembro e o jurista Alexandre de Moraes em 13 de Dezembro.  

 


quinta-feira, 6 de agosto de 2026

25 ANOS SEM JORGE AMADO

 

No dia 6 de Agosto de 2001, a literatura brasileira perdia o talento de Jorge Amado(1912-2001).

Nascido em Itabuna-BA, em 1912, Jorge Amado costumava trabalhar em suas obras um caráter sócio-político, panfletário, de denúncia que tinha começado a escrever na década de 1930 inspirado no  revolucionário movimento artístico-modernista da década anterior. Especialmente por ter sido durante muito tempo militante esquerdista, já foi inclusive filiado ao PCdoB.




Equivocadamente há gente que o  rótula como autor pornográfico, principalmente quando ele deixou de lado o caráter mais panfletário em suas obras  e passou   passar a escrever sobre o cotidiano com aqueles toques apimentados   de erotismo, principalmente pelas mais diversas adaptações audiovisuais que já foram feitas de seus livros, onde os mais famosos são das protagonistas femininas que criaram aquele estereótipo da objetificação  sexualizada da baiana. 

Quem pensa a respeito disso da obra de Jorge Amado comete muitos equívocos, só o conhece superficialmente.

 




Dentre os romances que ele escreveu da qual eu tive a oportunidade de ler dessa fase mais panfletária do autor é Terras do Sem-Fim, publicada em 1943, que abordava bem o cenário bucólico do sertão baiano do auge da economia cacaueira na década de 1920, abordando a opressão do autoritarismo coronelista e a pobreza da seca. Uma realidade que ele bem conhecia por ter nascido e crescido dentro dessa realidade.




Já da fase que o autor passou a escrever mais sobre o cotidiano das quais já tive a oportunidade de ler, faço menção a Gabriela-Cravo e Canela, publicada em 1958. Foi a partir desse romance ambientado no cenário bucólico do sertão baiano da Ilhéus da década de 1920 em pleno auge do ciclo econômico cacaueiro que representou um importante marco de sua transição literária, onde o autor deixava de lado o caráter sócio-político panfletário, de denúncia e passou a escrever sobre as crônicas dos costumes com tipos populares, mas ainda mantendo os tons de crítica social sobre o cotidiano do povo baiano.




É com essa protagonista feminina da Gabriela que ele passa a trabalhar a figura de mulheres sensuais, usando das pitadas de erotismo, mas ainda assim, mantendo um pouco do caráter crítico ao explorar a trajetória de uma pobre retirante saída da seca e se torna cozinheira do comerciante turco Nacib com quem vive um tórrido romance em paralelo ao cenário da região viver em conflito dos poderosos coronéis como Ramiro Bastos e Mundinho Falcão, e a hipocrisia da moralidade da população.

Assim como tive a oportunidade de ler Dona Flor e Seus Dois Maridos, publicado em 1966, que se ambienta no cenário urbano da capital baiana, a Salvador dos anos 1940 e suas vidas boemias, com os malandro e abordando a forte influência da religiosidade de matriz africana dos orixás.




Eu já tive a oportunidade de turistar por Salvador, algumas vezes foi quando eu era moleque que me hospedei junto com minha família na casa de um tio que reside por lá há mais de 30 anos, prestando serviço no oficio de pastor evangélico para uma Igreja Batista.

Além de conhecer muito da visão de cartão postal turístico do lugar, como o Elevador Lacerda, o Pelourinho, as Construções Antigas das Igrejas e tudo mais. Também pude observar que a parte urbana da capital deixa muito a desejar.

Também pude apreciar muito dessa riqueza da musicalidade das micaretas que surgiram de lá e foram espalhadas para todo Brasil.

Inclusive, falando em música, o cantor Cid Guerreiro tem uma canção intitulada de Amado Jorge, que fez bem uma ode a importância dele como autor que exaltou sua Bahia, como o trecho abaixo pode ser mostrado:

Jorge, amado Jorge Amado
Sua poesia engrandece a Bahia
Me dá vontade de cantar
Jorge, meu mensageiro Jorge
Seu cabelo branco, seu sorriso franco
Seu jeito de encantar
Dona Flor cozinhou os quitutes
Do meu coração
E Tieta jogou o seu charme
Pra todo o país...

Diz um hino num livro aberto
De imaginação
Gabriela provou que o baiano
É um povo feliz...

Eta, eta, eta Bahia porreta!
Eta, eta país do carnaval!

(Autor: Cid Guerreiro).

O que quero colocar com isso, é que a Bahia que já tive a oportunidade de conhecer difere dessa mesma Bahia que Jorge Amado descrevia em suas obras, onde ele dava voz aos tipos das camadas marginais, criticando a opressão dos poderosos, exaltando sua culinária, exaltando figuras femininas com toques de erotismo, criando uma mística quase fantasiosa dessa Bahia de todos os santos que ele tanto imaginava em seus livros.  E é esse o legado que ele deixou foi  único.

 

ADAPTAÇÕES PARA CINEMA E TELEVISÃO:

O autor Jorge Amado foi bastante adaptado para cinema e televisão, algumas dessas obras já foram adaptadas mais de uma vez. É o caso, por exemplo, que posso começar explorando aqui dentre as que mencionei já ter lido foi:  Dona Flor e Seus Dois Maridos, principalmente por exaltar o teor erótico que já foi adaptado três vezes: Em 1976 foi adaptado para cinema numa produção assinada pelo recém-falecido Luiz Carlos Barreto(1928-2026), que teve a direção de seu filho Bruno Barreto, na época um jovem de 21 anos que começando a conquistar sua carreira no cinema.  Ele que também assinou o roteiro ao lado de Eduardo Coutinho(1933-2014) e de Leopoldo Serran(1942-2008). Que contou com Sonia Braga como protagonista Dona Flor, José Wilker(1944-2014) como Vadinho e Mauro Mendonça como como o Doutor Teodoro.




Em 1998, Dona Flor e Seus Dois Maridos foi adaptado como minissérie na Rede Globo, cujo roteiro foi adaptado pelo renomado novelista Dias Gomes(1922-1999), com colaboração de Ferreira Gullar(1930-2016) e de Marcílio Moraes, com direção de Rogério Gomes, Carlos Araújo, direção geral de Mauro Mendonça Filho e direção de núcleo de Guel Arraes.

Onde Flor foi representada por Giulia Gam, Vadinho por Edson Celulari e Teodoro por Marco Nanini.




E a última vez até o momento em que escrevo esse texto que Dona Flor* ganhou uma adaptação audiovisual foi em 2017 para cinema, nessa versão que contou com a direção de Pedro Vasconcellos, que assina também o roteiro e a produção nesta versão que coube a Juliana Paes(Flor), Marcelo Faria(Vadinho) e Leandro Hassum(Teodoro), a difícil tarefa de representarem o trio principal da obra amadiana.



Que representou bem este caráter mais sobre o cotidiano dos vários tipos da população baiana, em especial da boêmia capital Salvador-BA da década de 1940.

Onde a história girava em torno de Florípedes, que é chamada pelo apelido de Flor, uma cozinheira de mão cheia, casada com Vadinho um sujeito malandro, viciado em jogo, boêmio, mulherengo, que vive torrando a sua grana. Chegando ao ponto disso azedar a relação deles.

Vadinho morre durante o carnaval e Flor viúva e inconsolada, cai de amores pelo farmacêutico Teodoro, um homem muito culto, mas que não é muito bom de cama. É nesse momento que o espirito de Vadinho aparece para lhe atormentar o juízo e ela precisará do apoio de todos os santos e muitas benzedeiras para que Vadinho deixe de lhe atormentar.

Não só Dona Flor foi bastante adaptada para o audiovisual, como a Gabriela-Cravo e Canela, a primeira pouco conhecida e não muito lembrada foi em 1961 como uma telenovela da extinta Tupi, que contou com a direção de Mauricio Sherman(1931-2019), e com roteiro adaptado por Antônio Fernando de Bulhões Carvalho(19?-2009), cuja primeira atriz protagonista foi Janete Vollu, cuja carreira foi abreviada depois que casou e faleceu aos 34 anos. Que contou com Renato Consorte(1924-2009) como o Nacib.

 
Rara imagem da atriz Janete Vollu, a primeira 
atriz que representou Gabriela. 

 As informações sobre essa primeira adaptação audiovisual de Gabriela são um tanto escassas, ainda mais pelo fato dela ser uma lost media e depois do fechamento da Tupi em 1980, pouco foi o que sobrou de material preservado dessa época.

Diferente da versão da novela de 1975, produzida pela Globo, cujo roteiro foi adaptado por Walter George Dust(1922-1997), direção de Walter Avancini(1935-2001) e de Gonzaga Blota(1928-2017).




Essa que é a que mais ficou famosa, contando com Sônia Braga estrelando a retirante com a antológica cena dela subindo o telhado, a tornando símbolo sexual, e que com Armando Bogus(1930-1993) no papel de Nacib e marcada pela canção de abertura gravada por Gal Costa(1945-2022) chamada de Modinha para Gabriela. Essa mesma Sônia Braga foi quem protagonizou a Dona Flor no cinema e repetiria o papel da Gabriela, anos depois, em 1983 para o cinema, num filme dirigido por Bruno Barreto e que contou com a participação internacional do astro italiano Marcello Mastroianni(1924-1996) no papel do Nacib.


 
Cartaz do filme Gabriela(1983). 


Em 2012, foi lançada outra versão audiovisual da Gabriela, novamente pela Rede Globo, adaptada por Walcyr  Carrasco, na época, um já consagrado novelista na emissora que tinha um estilo “marcado por narrativas ágeis, forte apelo popular, bordões marcantes, bem como um contraste direto entre o melodrama clássico e o humor escrachado. Suas obras misturam vingança, mocinhas sofredoras, vilãs caricatas e críticas sociais leves.”





Ele assinou o roteiro em conjunto com Daniel Belinsky e André Ryoki, com direção de Mauro Menonça Filho e Roberto Talma(1949-2015).

Onde a Gabriela foi protagonizada por Juliana Paes e o Nacib por Humberto Martins.

Do mesmo jeito que Terras do Sem-Fim, foi adaptada como novela pela Globo em 1981, cujo roteiro foi escrito por Walter George Fost, e com direção de Herval Rossano(1935-2007), que é pouco lembrada.



Mais lembrada mesmo é a adaptação da Tieta do Agreste**, publicada em 1977, que virou a famosa novela da Globo em 1989, estrelada por Betty Faria, cujo texto foi adaptado por Agnaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, e teve entre seus diretores: Reynaldo Boury(1932-2022) e Paulo Ubiratan(1947-1998).



Essa mesma obra também ganhou uma pouco lembrada adaptação para cinema lançada em 1996, num filme estrelado por quem? Sônia Braga numa produção da Sky Light Serene, cuja direção foi de Cacá Diegues(1940-2025) que assinou o roteiro junto com Antônio Calmon e o escritor João Ubaldo Ribeiro(1941-2014).




Assim como há os menos lembrados Capitães da Areia, publicada em 1937, a mais marcante de sua fase panfletária onde abordou o abandono dos menores de idade. Foi adaptada como minissérie pela Bandeirantes em 1989, com roteiro de José Louzeiro(1932-2017) e direção de Walter Lima Júnior. E em 2011, foi adaptado para cinema num filme dirigido por Cecilia Amado, neta do próprio Jorge Amado.




Tenda dos Milagres, obra publicada em 1969, que ganhou uma adaptação para cinema em 1977, num filme dirigido, produzido e roteirizado por Nelson Pereira dos Santos(1928-2018). Em 1985, essa obra foi adaptada para uma minissérie da Globo, roteirizada por Agnaldo Silva e Regina Braga(1941-1999) e com direção de Paulo Afonso Grisolli(1934-2004).



 
Cartazes do filme e da minissérie  Tenda dos Milagres. 


Também pouco conhecida é Tereza Batista Cansada de Guerra, romance publicado em 1972, que em 1992 foi adaptado como uma minissérie da Globo cujo roteiro foi adaptado pelo veterano novelista Vicente Sesso, e cuja direção é assinada por Paulo Afonso Grisolli e que marcou a estreia de Patrícia França como protagonista.




Também existe o romance Pastores da Noite, publicado em 1964, que em 2002 foi adaptado para uma minissérie da Globo dentro do programa Brava Gente(2000-2003), com roteiro adaptado por Sérgio Machado e direção de Guel Arraes.




Há também Tocaia Grande: A Face Obscura, publicado em 1984, que em 1995 foi adaptado como novela pela extinta Rede Manchete, cujo roteiro foi adaptado por Duca Rachid, Mário Teixeira e Marcos Lazarini e com direção geral de Walter Avancini.




Mais curioso mesmo foi a junção dos romances Mar Morto, publicado em 1936 e A Descoberta da América pelos Turcos  publicado em 1992 que resultou na novela da Globo Porto dos Milagres (2001) que teve seu roteiro adaptado pela dupla Agnaldo Silva e Ricardo Linhares e com direção geral de Marcos Paulo(1951-2012).






E para terminar, há também de mencionar o romance A Morte e A Morte de Quincas Berro D´Água, publicado em 1959, que em 2010 virou o filme Quincas Berro D´Água(2010), com roteiro adaptado por Sérgio Machado que também assina a direção e teve a produção-executiva de Walter Salles, o diretor ganhador do Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional  do filme  Ainda Estou Aqui(Brasil, 2024).


 

 

 

 

*Em 2019, o romance ganhou uma adaptação no México em forma de novela, produzido pelo canal Las Estrellas, onde a Flor foi representada por Ana Serradilla.

**Em 2025, foi anunciado que Tieta do Agreste ganhará uma nova adaptação para cinema, quem vai ficar encarregado de produzir essa adaptação é a produtora Muiraquitã Filmes, que vai ter a produção de Eliana Ferreira, vai ser dirigido por Joana Mariani e cujo roteiro contará com a assinatura da atriz Suzana Pires, que também vai protagonizar o papel principal. Até o momento dessa publicação, não saiu nenhuma notícia nova a respeito dessa produção.