O MATUTO QUE SONHOU EM SER REI DA ESPANHA
BRENO HISTORIADOR
sábado, 25 de abril de 2026
O MATUTO QUE SONHOU EM SER REI DA ESPANHA
terça-feira, 21 de abril de 2026
100 ANOS DE HUGH HEFNER
Quando
se fala numa revista como a Playboy, tende se muito a assimilar a imagem
de uma revista erótica. Mas ao terminar de ver
a ótima série documental
intitulada American Playboy: A História de Hugh Hefner(American Playboy:
The Hugh Hefner Story, EUA, 2017) pude constatar que ela foi muito mais do que
isso.
Uma
produção da Amazon Prime Vídeo sobre a história da revista Playboy
que foi muito mais do que uma revista erótica.
Muito
interessante de se conhecer nesse ano de 2026 em que seu fundador Hugh Hefner faria 100 anos se tivesse vivo.
Dividida
em 10 episódios, a minissérie conta com a direção de Richard Lopez.
Produzida
e desenvolvida num formato que mescla
documentário com dramatização, um docudrama praticamente.
Cada
episódio vai apresentando um pouco da
biografia da revista símbolo do comportamento masculino passo a passo muito
bem detalhado a cada etapa e também
do seu criador.
Hugh
Hefner(1926-2017) é quem figura como o
fio condutor da narrativa em off do
começo ao fim. Mostrando muitas intercalações entre alguns depoimentos de
pessoas importantes que contribuíram para a história da revista dando seus depoimentos, entrevistas do Hefner
nas imagens de arquivos para diferentes os programas de TV americanos, o que
enriquece bastante o conteúdo, que soube como trabalhar o lado mais didático que é característico da
estética de um documentário ao mostrar os diferentes contextos históricos, sócio-políticos e cultural americano em que a Playboy teve uma grande participação e grande contribuição ao
longo de suas seis décadas de existência com as dramatizações onde Hefner
interpretado por Matt Whelan conduz bem
a narrativa desenvolvendo todas as suas camadas do empresário metódico e do playboy que ostentava publicamente a
vida luxuosa em sua mansão com as festas cheias de orgias com suas coelhinhas.
No
primeiro episódio, somos apresentados a forma como Hefner concebeu a revista,
cuja primeira edição lançada em 1953, contou com a capa da então grande estrela
de Hollywood Marilyn Monroe(1926-1962) e de como ele conseguiu sem precisar
pagar um alto cachê pelo ensaio, já que
ele havia comprado de um ensaio que ela fez para um calendário antes de virar
uma grande estrela do cinema.
Ao
longo dos episódios seguintes somos apresentados a trajetória de como ele foi
consolidando a marca da Playboy,
mostrando a origem do que o inspirou a logo do coelho que não foi a sua
primeira escolha de logomarca para a revista, expandindo para a televisão, para
os bares, os cassinos com os nomes da marca onde foram concebido a ideia das garçonetes se
vestirem com o adereço de coelhinhas que se tornou a marca registrada característica dos eventos da revista,
principalmente quando era em sua mansão que ocorria grandes festas.
Também
mostra que nem sempre a medida que a marca foi se consolidando nem tudo foi um
mar de rosas na vida de Hefner, ainda mais quando ele enfrentou uma vida
pessoal difícil a medida que era consumido demais pelo trabalho, passou por
três casamentos, adorava esbanjar aquele ideal masculino com suas playmates na
mansão.
Já
chegou a enfrentar investigações judiciais por acusação de imoralidade, já foi
criticado por grupos feministas que achavam o ideal da marca uma objetificação
sexual feminina.
Ao
mesmo tempo que a marca foi importante por dar
voz a classe oprimida da cultura americana que eram os negros
segregados.
Diante
disso tudo ele ainda encarou o surgimento das concorrências da Penthouse, e
também vivenciou trágicas perdas de duas mulheres muito importantes para ele
dentro da marca da Playboy.
Primeiro
foi com a perda de Bobbie Arnstein(1940-1975), que não era nenhuma playmate,
nem foi uma de duas coelhinhas e nem entre as tantas mulheres com quem ele
namorou, mas, tratava-se de sua secretária executiva que devido a sua conexão com um traficante de drogas, a fez ficar no radar da investigação do FBI, e isso resultou na
maior desgraça da sua vida que além de perder o emprego tiraria a própria vida:
“Em
uma coletiva de imprensa após a morte dela, ele acusou o então advogado James R. Thompson(1936-2020) de
assassinato, alegando que Thompson a usou em um esforço calculado para
destruí-lo. Arnstein foi presa em março de 1974 por agentes federais de
narcóticos e acusada de conspirar para transportar cocaína de Miami para
Chicago; ela negou as acusações. A investigação foi encerrada em dezembro de
1975, depois que os dois homens presos com Arnstein recusaram acordos de
imunidade para testemunhar contra Hefner.”
(IMDB).
No
documentário é dramatizado o
envolvimento amoroso que ela teve por um bandidão, e que por conta dessa
investigação do FBI, Hefner teve de demiti-la contra sua vontade, visto que ele
sempre se preocupava com ela, que foi sempre foi uma importante ajudante nas
suas decisões executivas e colaborava nos agendamentos.
Bobbie
Arnstein não suportou toda essa situação que deixou sua saúde mental
comprometida que ela acabou tirando a própria vida em janeiro de 1975.
Pior
mesmo ocorreu anos depois quando ele sofreu outra trágica perda de uma importante mulher ligada a marca Playboy
que ocorreu no dia 14 de Agosto de 1980,
quando a jovem atriz canadense Dorothy Stratten de apenas vinte anos era
covardemente assassinada pelo seu marido
Paul Snider(1951-1980), um sujeito explorador que trabalhava como um
cafetão que era o agenciador da carreira
de Stratten desde que a conheceu em uma
Dary Queen em Vancouver no Canadá.
Foi
ele o responsável por lançar sua carreira artística enviando suas fotos nuas
para a Playboy. Que ao receberem,
fizeram contato com ela onde ela participou de ensaios virando a Playmate* do
ano de 1979.
Snider
já demonstrava um tipo de comportamento tóxico, abusivo
e violento com Stratten, mostrando o seu
lado ciumento possesivo.
Quando
Stratten foi covardemente assassinada, ela estava investindo na carreira de
atriz, gravou uma participação na série de tv Ilha da Fantasia, estrelou
uma produção de filmes B de ficção cientifica chamado de Galaxina(1980)
e quando ela morreu ao chegar em sua
mansão na California por Paul Snider que disparou de sua espingarda Mossberg
calibre 12 e depois ele tirou a própria vida.
Stratten
havia retornado naquele momento em que foi covardemente morta por Snider, de um voo de Nova York onde estava filmado o
filme Muito Riso, Muita Alegria(They All Laughed, EUA, 1981) do diretor
Peter Bogdanovich(1939-2022) com quem estava começando a se relacionar
amorosamente durante as filmagens.
Esse
triste episódio da morte trágica de outra importante figura feminina atrelada a
marca da Playboy, poucos anos após a morte de Bobbie Arnstein marcou um
começo difícil ao qual Hefner teve de enfrentar durante a década de 1980 onde são dramatizados
nos últimos episódios que foi lidar com
a crise financeira da empresa onde a marca já expandida precisou diminuir
fechando as atividades de alguns cassinos, também precisou lidar com o modelo de política conservadora
americana pregada no moralismo cristão criado por Ronald Reagan(1911-2004) durante seu
mandato na de Presidente dos Estados Unidos, um ex-astro da Hollywood clássica
e com o fato de que com a recém- descoberta
da ciência de uma doença sexualmente transmissível que
era o HIV, isso tudo ameaçou a relevância
da Playboy.
No
entanto, Hefner foi conseguindo contornar a mantendo relevante até os seus últimos
suspiros de vida. Hefner faleceu no dia
27 de Setembro de 2017, aos 91 anos. Devido a causas naturais.
Uma
pena que não mostre quando a marca expandiu para outros países mostrou os bastidores
do seu surgimento aqui no Brasil com o
nome de A Revista do Homem, por conta da imposição da repressão da censura em plena época de
Ditadura Militar.
Pelo
que Roberto Civita(1936-2013), filho do fundador da Editora Abril Victor
Civita(1907-1990) que detinha o registro da marca em território brasileiro até
2015, pelo que ele comentou numa entrevista para a revista na edição de Agosto
de 2010 ao acompanhar a negociação dos bastidores para trazer a marca ao Brasil
e trabalhou muito tempo no importante de chefia da editora disse o seguinte:
“A
revista podia, o nome não. Assim, fizemos uma revista igualzinha aquela que
havíamos deixado com o ministro, só que com outro nome: A REVISTA DO HOMEM. Mas
a censura não nos deu trégua, colocando nossa publicação na vala comum do que
se fazia de mais vulgar.”
E
mostrar os populares programas de auditório brasileiros como o Domingo Legal
do apresentador Gugu Liberato(1959-2019) divulgando os ensaios com beldades
presentes no seu programa.
A
Editora Abril trabalhou com a marca no Brasil até o final de 2015, a razão para essa decisão envolveu que a Editora Abril que
detinha a propriedade intelectual da marca para operar em solo brasileiro desde 1975 vinha enfrentando uma situação
financeira difícil desde o começo dos anos 2010, algo que foi se agravando
depois da morte de Roberto Civita em 2013, que foi o principal
diretor-administrativo da empresa.
Quando
seus três filhos: Giancarlo, Roberta e Victor Neto assumiram o comando da
empresa a coisa foi se agravando.
Principalmente quando ocorreu a crise
econômica e política que o Brasil foi
encarando depois das Manifestações de 2013, que resultou no Golpe do
Impeachment da então Presidente da República Dilma Roussef em 2016 e só foi se
agravando após a vitória do repugnante Jair Bolsonaro para a Presidência da
República em 2018 e que só após a sua derrota em 2022 por Lula é que as coisas
foram aos poucos se estabilizando.
Isso
foi o que acabou pesando na decisão da empresa de não renovar a propriedade do
uso da marca Playboy para compor o seu rico catálogo junto com a Veja e os quadrinhos da Disney,
que foram as primeiras revistas que a editora publicou quando foi fundada em
1950, mas que também decidiu não
renovar, parando as publicações.
Isso
porque estava ficando muito caro pagar os royaltes para a matriz, fator esse
que pesou nessa decisão.
No
ano seguinte, a marca ainda operou no Brasil pelas mãos da PBB Entertainment,
que passou a publicar “bimestralmente, segundo a editora, a ação faz parte
do processo de reestruturação da marca no Brasil, que trará novidades para os
leitores.
Em
2017 a revista passou a sair a cada três meses. No mês de abril, o publisher
André Sanseverino foi afastado da revista após ser denunciado, junto com seu
sócio Marcos Aurélio de Abreu Rodrigues e Silva, de assédio sexual por nove
modelos que participaram de um evento da revista, em Curitiba. Elas acusavam
ambos de propor sexo em troca de dinheiro e fama.
Em
2 de abril de 2018 foi anunciado que seria somente uma edição por ano, deixando
assim de ser vendida nas bancas e passando a ser comercializada somente por
encomenda em seu site, para colecionadores.
Em
julho de 2018, é confirmado que a Playboy foi encerrada no Brasil após rescisão
de contrato entre a PBB Entertainment e a matriz norte-americana no fim de
2017.
Em
matéria publicada pelo UOL, a diretoria da revista nos Estados Unidos confirmou
que as operações virtuais da marca Playboy no Brasil eram irregulares e que
estava sob processo de investigação.
Por
conta disso, perfis nas redes sociais foram desativados e o site Men Play foi
fechado pelo FBI. Paralelo ao encerramento das atividades da versão
brasileira, a Playboy America fez um acordo e passou a distribuir a Playboy
Portugal em São Paulo e Rio de Janeiro
.”
(Wikipédia)
Hoje
restam apenas lembranças da revista que ajudou a influenciar, popularizar, a
diversificar ou mesmo a massificar a cultura e a arte das mais
diferentes manifestações.
Uma
dessas a mais óbvia a se destacar foi na fotografia, quantos dos
exuberantes corpos femininos mais cobiçados do mundo representados tanto por
atrizes, modelos, atletas e até mesmo das subcelebridades foram clicadas pelos
olhares, das lentes brilhantes dos mais talentosos fotógrafos
mundiais.
Muito
mais do que uma simples revista de mulher pelada, a Playboy que Hefner
criou também serviu como instrumento de orientação masculina tanto na
sexualidade, quanto no modo de se vestir, no modo de agir na vida social, dicas
de vinhos para bons apreciadores, dicas saudáveis, dicas de boas leituras,
entre elas de livros e hqs que estavam para serem lançadas.
Dicas
de músicas mostrando quais são os mais novos álbuns dos artistas a serem
lançadas no mercado, quais as novas tendências e mostrava também a agenda de
shows do cantor.
Dicas
de filmes e séries que estão para serem lançadas nos Home Vídeos, um deleite
para quem é colecionador desses artigos. Muito mais do que uma
simples revista de mulher pelada, a Playboy também apresentava um
riquíssimo conteúdo trazendo textos com as mais diferentes matérias com os mais
variados temas escritos pelos mais diferentes jornalistas.
Com colunas, artigos de opinião e até
mesmo acesso a leituras dos capítulos de livros que estavam para serem
lançados, para termos um gostinho a mais. Com direito a muito texto de humor e
charges de grandes desenhistas como Alpino, Mauro A. entre outros.
Também nos deixou muito antenados as
novas tendências tecnológicas, entre outras curiosas características dessa
revista. Inclusive até mesmo na cultura nerd/geek do mundo super-heróis ele
tornou-se referência inspirando a aparição de um personagem no desenho da Liga
da Justiça e no primeiro filme do Homem de Ferro de 2008 foi vivido numa ponta
pelo Stan Lee, o criador da Marvel.
Ela também revolucionou nas causas
sociais, especialmente contra o racismo, foi a divulgadora do movimento
literário beat, ajudou também a divulgar tudo que fosse relacionado aos filmes
de James Bond, promoveu grandes entrevistas com as mais importantes
personalidades sem fazer distinção de classe social, sexismo, de
ideologias políticas, deu voz para artistas, jornalistas, esportistas,
políticos, modelos e até mesmo as mais controversas celebridades o
espaço de terem suas vozes ali abrindo toda as suas vidas intimas e os seus mais singelos segredos, como
compartilhar os momentos onde perderam as suas virgindades.
No geral tudo isto serviu muito bem
para a revista ser o que é hoje. Apesar de ter passado por muitas faces
adversas e turbulentas ao longo dos seus 65 anos de vida. E muito disso deve-se
ao seu criador, ele mais do que criou uma simples revista de mulher pelada,
também criou uma forma de pensar, uma forma de apreciar arte alternativa, uma
forma revolucionaria de leitura entre tantas outras definições que
se pode dar para a Playboy.
Um homem cujo estilo de vida, podia não
ser o melhor exemplo para alguns puritanos conservadores, adorava se envolver
com todo tipo de mulher ao qual viviam sempre em sua mansão de luxo como um
harém, as famosas coelhinhas que não eram à toa que tinham esta denominação já
que o símbolo da revista é o coelho, casou e descasou com as mais diversas que
já passaram em sua vida e destes relacionamentos constituiu uma família formada
por quatro filhos, ele podia não o estilo de vida perfeito, gostava de apreciar
o que pregava na própria revista, mas pelo menos deixou um legado importante
com esta revista.
Inclusive
foi por causa da sua revista que ele já enfrentou sérios problemas com esta
camada da sociedade americana principalmente quando a revista surgiu em 1953
numa época onde a sexualidade era visto como um tabu. Simplesmente se não fosse
pela ousadia de Hugh Hefner a Playboy não existiria como a conhecemos.
*O termo playmate no universo da marca Playboy “é o termo
dado para as modelos que ganham o pôster na página central da revista
Playboy, como parte de um ensaio nu. Ao final de cada ano as doze
"Playmate do mês" entram em uma eleição para escolher a Playmate do
Ano, antes de em 2020 se optar por suspender essa votação.”(Wikipédia)
O curioso é que esse nome não é uma exclusividade da marca
Playboy, digo isso porque o nome tem origem numa palavra que normalmente é
usada para contexto infantil que numa tradução significa companheiros de
brincadeira.
Muitos criam uma confusão imaginando que elas são a mesma
coisa das Coelhinhas, mas não são. As Coelhinha “são as funcionárias que
trabalham nos eventos patrocinados pela Playboy (originalmente nas boates da marca
Playboy, criada pelo jornalista Hugh Hefner, em 1953), autorizadas a usar a
roupa oficial de coelha (a notória Bunny Costume), aludindo ao coelho
mascote da revista, passando ainda por um treinamento de comportamento e
"manobras" para servir alguém na mesa ou em eventos específicos. Tais
treinamentos legitimam-se na medida em que há registros de ocorrências constrangedoras
promovidas por participantes que se excedem durante fotos e abordagens. “(Wikipédia).
O fato das coelhinhas se destacarem por uniforme fez com que
a cultura pop replicasse essa fantasia ao universo sexual.
quarta-feira, 1 de abril de 2026
30 ANOS DA ESTREIA DA NOVELA VIRA LATA
No
dia 1° de Abril de 1996, estreava em cartaz no horário das sete da Globo a
novela Vira Lata(1996).
Uma
trama um tanto quanto esquecida, onde o próprio autor Carlos Lombardi admiti
que foi sua pior novela, onde ele fez do possível ao impossível para tentar
consertá-la em vão.
Para
entender melhor do que se trata Vira
Lata, vamos primeiramente explanar sobre os antecedentes do seu autor.
Carlos
Lombardi começou sua carreira de roteirista de televisão no final dos anos 1970,
após ter se formado no curso de comunicação(Rádio e TV).
Seu
primeiro trabalho de roteirista foi escrevendo para o Telecurso 2ºGrau
na TV Cultura de São Paulo.
Foi
na extinta Rede Tupi escrevendo a novela Como Salvar o Meu Casamento(1979)
que ele teve sua primeira experiência escrevendo com apenas 20 e poucos anos, onde dividiu a titularidade com Edy
Lima(1924-2021) e Ney Marcondes, que contou com a direção de Atilio Riccó.
Essa
produção ficou marcada como a última da pioneira Rede Tupi, que já vivendo num
colapso financeiro teve sua produção “interrompida faltando poucos
capítulos para o seu término. Não foi somente uma frustração para todos os
profissionais envolvidos. Representou, principalmente, o prenúncio de que a
emissora, moribunda, não teria muito tempo de vida.”
Quando
ocorreu o final abrupto da novela sem
desfecho no dia 21 de Fevereiro de 1980,
a Tupi enfrentou um longo período turbulento de cinco meses de greves de funcionários e ainda operou
exibindo reprises de novelas nos seus
últimos momentos de vida até chegar ao fim em Julho de 1980.
Logo
em seguida, Lombardi chegou a ser convidado por Walter Avancini(1935-2001) para
escrever O Todo Poderoso(1979-1980) na Bandeirantes(Band), novela que já
encontrava adiantada, pois tinha começado a ser escrita por Clóvis Levy e José
Safiotti Filho.
Lombardi
ingressou na Globo no começo da década de 1980
onde o primeiro trabalho que ele escreveu na emissora não foi logo como
autor-titular, mas sim como colaborador.
Sua
primeira novela na emissora como colaborador foi em Jogo da Vida(1981-1982),
obra de autoria de Silvio de Abreu com argumento de Janete Clair(1925-1983).
No
ano seguinte, trabalhou como colaborador na novela Elas por Elas(1982),
de autoria de Cassiano Gabus Mendes(1929-1993), imagino o quanto para ele tenha
sido uma honra trabalhar num texto escrito por Cassiano Gabus Mendes, ainda
mais pelo fato de que àquela altura Cassiano já era um nome consagrado e foi da
primeira geração de roteiristas oriundos do rádio que surgiu nos primórdios da
televisão brasileira.
Ainda
mais levando em conta o fato de que ele um jovem de vinte e poucos anos cuja
carreira já foi moldada pela televisão, digo isso porque Lombardi que nasceu em
1958 representava a primeira geração de brasileiros que nasceram e cresceram
assistindo televisão.
Com
certeza ele teve uma grande aula prática em como se estrutura um roteiro de
capítulos em novelas com um roteirista já veterano.
Foi
também em 1982 que ele escreveu para a Tv Cultura Maria Stuart(1982) um
tele romance inspirado na obra de Friedrich Schiller(1759-1805).
Em
1983, ele novamente escreveria como colaborador em uma novela de Silvio de
Abreu que foi em Guerra dos Sexos(1983-1984) cujo sucesso do estilo de
estética cômica pastelão é o que marcaria para sempre o estilo de humor de
Lombardi quando no ano seguinte ele escreveu sua primeira novela como titular
que foi Vereda Tropical(1984-1985) que contou com o envolvimento de
Silvio de Abreu sendo creditado como supervisor do texto.
Foi
a partir de Bebê a Bordo(1988-1989) que Lombardi “mostrou seu estilo
próprio, em uma linguagem cheia de ação, humor e diálogos sarcásticos.”(Teledramaturgia).
Ele costumava trabalhar em seus enredos num ritmo
acelerado e frenético
principalmente ao trabalhar com cenas que envolviam pancadaria, tiroteio e
correria.
Esse
tipo de adrenalina em suas novelas as
faziam se aproximarem de uma
linguagem cinematográfica dos filmes de ação mesclado a linguagem das histórias
em quadrinhos de super-heróis.
Do
mesmo modo, o seu texto se caracterizava pelo estilo irreverente e porquê não
dizer excêntrico dos diálogos
sarcásticos dos personagens quando se envolviam
situações corriqueiras pelo tom do deboche cínico
do moralismo hipócrita da sociedade brasileira bem escancarado. Ainda
mais quando apelava para erotismo masculino
com seus protagonistas sem camisa mostrando os corpos sarados e peitorais.
E
isso foi sua “marca registrada, perpetuada em seus trabalhos posteriores”*,
como na novela Perigosas Peruas(1992)
onde convidou o autor Cassiano Gabus Mendes o papel de Dom Franco Torremolinos
o temido mafioso e em Quatro por
Quatro(1994-1995) até chegar ao foco em questão do texto que é sobre a novela Vira Lata.
A
trama de Vira Lata gira em torno da descoberta do promotor Braulio Vianna(Murilo
Benicio) um sujeito rígido que não faz a
mínima ideia de que “sua mulher
Helena(Andréa Beltrão) lhe ocultava que seu pai Moreira(Jorge Dória) é um
estelionatário procurado pela polícia, exigiu que ela fizesse uma escolha: ou o
pai ou as filhas. Helena então viaja a Florianópolis para refletir uma decisão
e conhece Lenin(Humberto Martins), por quem se apaixona. Ao saber que o pai era
traído pelo seu cunhado Ítalo(Rômulo Arantes) e que corria perigo de vida,
Helena decide ajudá-lo e some com ele.”
Lenin
o sujeito por quem Helena se apaixona ao conhecer acidentalmente é um cara de
perfil aventureiro, sujeito largado do mundo que vive arrumando encrencas.
Lenin
tem dois irmãos chamados de Fidel(Marcelo Novaes) e Mussolini(Luciano Viana)
que foram cuidados pelo pai Lupércio Wanderpetrokovitz(Claudio Marzo) depois
que a mãe dos três Stella(Gloria Menezes) os abandonaram na infância para viver
um novo amor com um cara jovem com quem se casou, o mulherengo do Ângelo Visconti(Mario
Gomes).
Lenin
também conta em sua família com Aliança Bauen(Ivone Hoffman), uma governanta
alemã que ajudou Lupércio a criar os três depois que a desmiolada da mãe os
abandonou pequenos e Aurélio Wanderpetrokovitz
(Ary Fontoura) o seu tio, irmão de seu pai Lupércio que comanda o hotel da
família em Florianópolis que é o Solar Santa Maria.
Fidel
é o que carrega uma desilusão amorosa por ter sido abandonado por
Pietra(Vanessa Lóes) que resolve reaparecer virando um fantasma em sua vida
casada com Toco(Tuca Andrada) acompanhada de seu filho Toquinho(Eduardo
Caldas), que fica numa dúvida dele ser filho de Fidel ou de Lenin, e sua
cunhada Renata(Carolina Dieckman), que vai se apaixonar por Fidel, sem saber
que ele é irmão de Mussolini com quem ela se envolveu e engravidou e fora que
na vida de Fidel vai aparecer uma menina de rua chamada Tatu(Débora Secco) que
pode ser sua suposta filha, e que nutre uma paixão platônica por Lenin.
Fidel
apesar de ser o mais certinho e tímido com relação a Lenin, ainda assim enfrenta
problemas sérios com a Lei a ponto de ficar fichado na polícia.
Ao longo da trama vai sendo colocado o drama
que um dos três irmãos Wanderpetrokovitz tinha uma doença congênita a ponto de
morrerem a qualquer momento, terminou que quem morreu foi Lenin.
No
núcleo principal da família da protagonista Helena, cuja casa vive cheia de
cachorros o que justifica o título vira lata onde convive além do marido Vianna,
as duas filhas Juliana(Kananda Maia) e Geovana(Alessandra Aguiar) e a empregada
Dolores(Talma de Freitas).
Ela
também recebe a visita frequente de sua inseparável amiga Valquíria(Betty Lago)
e fora que ela na sua família além de
ter o pai bandidão, ela também tem dois
irmãos que são cumplices de seu pai que
tratam-se de Aquiles(Roberto Battaglin) e Cassandra(Maria Zilda Bethlem), esta
que vem a ser casada com Ítalo Batalha que vai ser o responsável por
assassina-la no decorrer da trama e tentar assassinar seu sogro.
Ainda
mais que Ítalo mantém um caso extraconjungal com a
Antígone(Cinira Camargo) outra cumplice de Moreyra.
Em
paralelo temos Stella vivendo uma crise na sua relação com o cafajeste do
Ângelo, resolvendo se reaproximar dos
filhos para tratar da herança.
Essa
novela que contou com a direção de Jorge Fernando(1955-2019) que também
participa como ator na pele do Baba Ovo foi um trabalho que o autor Carlos
Lombardi mais assume publicamente que esta foi a pior novela que ele escreveu
ao longo de sua extensa carreira de novelista ao longo dos anos em que
trabalhou na Globo.
No
depoimento que prestou ao livro Autores, História da Teledramaturgia do
Projeto Memória Globo, Lombardi
declarou:
“Foi
minha pior novela. Em Vira-lata aprendi a jogar fora o que não funciona
e consertar o que está dando errado com a novela no ar. Consertei a novela
somente no capítulo 80. Do capítulo 20 em diante, fiquei tentando ajustar,
porque estreei com 20 capítulos prontos.”
Talvez
um dos fatores que tenha tornado Vira-Lata um fracasso, pode ter
relação ao fato de que o texto de Lombardi e a direção de Jorge Fernando não
conseguia se encaixar, não encontrava conexão.
Fernando
que além de ator, também tinha firmado o seu nome como diretor em novelas, o
seu estilo de direção irreverente, ágil e focado no humor, muitas vezes próximo
ao pastelão. Sua direção era conhecida por transformar cenas dramáticas em
momentos cômicos, trazendo leveza e dinamismo, especialmente nas novelas das 7
da Rede Globo, onde consolidou uma estética ágil e divertida. Algo incomum para
um diretor de novela carregar uma identidade autoral, visto que normalmente
isso é mais comum entre os autores.
E
talvez por esse motivo que em Vira Lata o resultado do seu estilo
autoral de direção não tenha conseguido se encaixar e mostrar um boa química
com a estética caótica de Carlos
Lombardi.
Segundo
palavras do próprio Lombardi sobre a direção de Jorge Fernando:
“Errei
coisas no texto, na escalação e o Jorginho errou na mão, apesar de eu admirá-lo
muito. Foi uma comunicação ruim”.
Lombardi
já havia começado a desenvolver a escrita do argumento do roteiro de Vira Lata
em 1992, quando concluiu Perigosas Peruas. Que chegou a ser aprovada e
que em 1994, seria a novela escolhida para substituir Olho no Olho (1993-1994)
escrita por Antônio Calmon, que chegou a entrar em pré-produção, que contaria
com a direção de Roberto Talma(1949-2015).
Mas
devido as dificuldades de produção, principalmente para treinar os cães, a
trama acabou sendo engavetada. O que resultou que a trama seguinte escolhida
para suceder Olho no Olho, foi o remake de A Viagem(1994) de
Ivani Ribeiro(1922-1995) que foi sucedida por outra trama escrita por Lombardi Quatro
por Quatro, que foi sucedida por Cara & Coroa (1995-1996) de Antônio
Calmon que foi a antecessora de Vira Lata.
“Andrea
Beltrão e Humberto Martins, já naquela época, estavam cotados para os papéis de
Helena e Lênin, mas se comprometeram com as gravações da minissérie A Madona
de Cedro (exibida em 1994), o que contribuiu para a suspensão de Vira-lata.
Quando enfim liberada, Andrea Beltrão foi deslocada para A Viagem, de
Ivani Ribeiro, novela escolhida para a vaga de Olho no Olho. Já Humberto
Martins voltou à cena em Quatro por Quatro (1994), do próprio Lombardi,
a produção sucessora de A Viagem.”
(Teledramaturgia).
Somente
após o sucesso com Quatro por Quatro, foi que a Globo resolveu aprovar o
roteiro engavetado de Vira Lata que foi escolhida para suceder a novela Cara
& Coroa. Lombardi aceitou encurta suas férias, caso Jorge Fernando
topasse dirigir, como ele declarou para o jornal Folha de São Paulo de
31 de Março de 1996:
“Até
achei que ele não ia querer, porque tinha acabado de sair de uma novela [A
Próxima Vítima], mas ele topou. Acho que ficou a fim porque era um projeto
diferente do anterior”.
Dentre
os principais pontos que o autor admitiu que mais errou a mão foi na escalação
de Andreia Beltrão para viver a protagonista Helena, como ele desabafou no
depoimento ao livro A Seguir, Cenas dos Próximos Capítulos de autoria de
André Bernardo e Cíntia Lopes:
“A
Andréa Beltrão foi chata pra caramba! Nunca mais pretendo escrever ou trabalhar
com ela na vida. E olha que acho a Andréa uma atriz brilhante. Mas ela não é
uma estrela no sentido de empatia popular. É uma brilhante atriz, de mau humor.
E põe mau humor nisso… Ela não gostava do que estava fazendo. E parecia também
não gostar com quem estava contracenando.”
A
atriz que àquela altura já tinha consolidado sua carreira na televisão quando
ingressou na Rede Globo nos anos 1980 participando da novela Corpo a Corpo(1984-1985)
de Gilberto Braga(1945-2021) e depois ficou nacionalmente conhecida como a
Zelda Scott do seriado da Armação Limitada(1985-1988) e veio de uma
sequência de novelas, mas que nessa novela digamos assim ela não conseguiu
encontrar uma conexão com o texto de Lombardi.
Acredito
eu que ela até hoje não deve guardar muitas boas lembranças sobre essa novela
que foi a que ela menos gostou de todo o seu currículo. Ainda mais agravado
pelos problemas de saúde que ela apresentou e estando grávida de dois meses teve
de ficar longe dos estúdios por pelo menos dez capítulos.
Como
consequência desse afastamento temporário de Andreia Beltrão, Lombardi precisou
mudar os rumos do triângulo amoroso Lenin-Helena-Vianna (Humberto Martins,
Andréa Beltrão e Murilo Benício). Na história, Helena deu um susto em seus
pretendentes ao viajar sem deixar pistas, fazendo com que os dois ficassem
enlouquecidos à sua procura.
Foi
então que ele resolveu mudar o foco
concentrando o protagonismo em
Renata, papel vivido por Carolina Dieckman, que vai viver um romance com Fidel.
Como bem admitiu o próprio Lombardi: “A novela só subiu quando peguei uma
atriz coadjuvante e falei: esta é mocinha da história”.
Na
ocasião em que participou de Vira Lata num papel primeiramente
secundário que por conveniência do autor virou a principal, Carolina Dieckman
naquele momento era ainda uma jovem atriz
em começo de carreira com apenas 18 anos que já estava despontando na televisão desde que aos
15 anos passou no teste para ser uma das cinco protagonista da minissérie Sexy
Appeal (1993) de Antônio Calmon seguido de uma participação em Fera
Ferida(1993-1994), em seguida, co-protagonizou Tropicaliente(1994) na
pele da mocinha Açucena e integrou o elenco do primeiro ano da soap opera Malhação(1995-2020) como
a Juliana.
Aliás,
o elenco dessa novela também contou com a presença de muitos dos atores a quem
Lombardi recorrentemente costumava escalar figurando entre os seus queridinhos
dentre esses começo mencionando Humberto Martins, que àquela altura já figurava
como um galã cuja carreira na televisão vinha ascendendo desde quando no final
anos 1980 participou de duas novelas na Manchete que foram Carmem(1987) que
foi uma novela escrita por Glória Perez, inspirada no conto homônimo do francês
Prosper Merimée(1803-1870) e Olho por Olho(1988) escrita por José
Loureiro(1932-2017).
Mas
foi a partir de sua participação na novela Vale Tudo(1988-1989) que ele
passou a fazer muitas novelas dentro da emissora que conseguiu firma-lo e onde
foi aos poucos virando um grande galã.
Participou
em seguida das novelas Barriga de Aluguel(1990-1991), Pedra Sobre
Pedra(1992), Mulheres de Areia (1993) e em Quatro por Quatro (1994-1995)
escrita pelo Lombardi onde protagonizou Bruno. Foi a partir dessa novela que
Humberto Martins passou a ser com frequência escalado para as novelas escritas
por Lombardi formando uma parceria.
A
provável explicação do porquê de Humberto Martins figurar na preferência de
Lombardi, a ponto de tê-lo como seu muso pode estar no fato de que o autor via que ele
em cena conseguia melhor captar a essência sarcástica do seu estilo de texto
cômico ácido e anárquico e que aliado ao seu porte físico atlético para encarar as frenéticas e perigosas cenas de ação que exigiam muito preparo físico para
encarar a adrenalina cinematográfica que
o seu texto exigia, fosse no corpo a
corpo, no tiroteio ou mesmo em perseguição, ainda mais para explorar o toque de
apelo sexual de fantasia erótica feminina com os heróis descamisados mostrando
os peitões marombados.
Isso
era uma uma marca registrada do autor, caracterizados por galãs sarados
frequentemente sem camisa em cenas de ação, humor e romance em suas novelas. Esse
estilo marcante explorava a boa forma dos atores, equilibrando apelo visual com
tramas dinâmicas. Se tornou um tropo narrativo frequente em suas novelas.
Outro
ator também preferido por Lombardi que
compôs o elenco de Vira Lata é Marcelo Novaes, que representou o Fidel,
irmão de Lênin. Talvez uma das razões para Novaes figurar entre os preferidos
do autor, envolvia justamente o fato de
que Novaes em cena conseguia bem captar bem
a essência do humor sarcástico de Lombardi para representar uns tipos
cômicos com ares de cafajestes, sedutores, mulherengos e com seu porte físico atlético conseguia
também encarar perigosas cenas cheias de adrenalina que Lombardi explorava
muito em suas novelas.
Outro
nome presente no elenco de Vira Lata
que Lombardi frequentemente a escalava em suas novelas que no caso especifico trata-se de uma
presença feminina é da saudosa Betty Lago(1955-2015), ex-modelo que desde o
começo dos anos 1990 e que na novela representou a Valquíria, amiga inseparável
de Helena.
Segundo
o que o próprio Lombardi declarou numa entrevista concedida para o site da Revista
Caras de 13 de Setembro de 2024, a respeito de sua preferência em escala-la
com tanta frequência para suas novelas:
“Ela
tinha a facilidade de falar o meu texto sem ajuda, ela captava muito bem o que
eu queria. Quando o elenco é bom, quero repeti-lo sempre, por isso a Betty fez
tantas novelas minhas. Ela era muito boa representando, sabia o que estava
dizendo, não era um papagaio. Três pessoas liam bem o meu texto: Betty, Nair
Belo e Marcos Pasquim. Falavam com aparente facilidade. Tanto que Betty e o
Pasquim repetiram novelas, como Uga Uga”.
E
de fato desde a primeira vez que ela
trabalhou com Lombardi em Quatro Por Quatro como a Bibi, uma das quatro
protagonistas femininas, ela de fato mostrava mesmo captar a essência do seu
texto sarcástico principalmente ao explorar o tropo narrativo de mulheres finas
fúteis, dondocas e com uma língua ácida e ferina para comentar muitas
abobrinhas.
Além
desses, o elenco também contou a presença de alguns nomes veteranos que
trabalhavam há mais de 30 anos na Globo, grandes feras talentosas, cujo
desempenho é desperdiçado e subtilizado por conta da qualidade medíocre
do texto, onde nem a presença deles
consegue salvar a trama do fracasso, como Glória Menezes na pele da
Stella, mãe do Lenin, Fidel e Mussolini que ficou tão insatisfeita com a
qualidade do texto que pediu para sair da novela, o que resultou na
substituição por Laura, irmã de Stella vivida por Susana Vieira.
Como
Lombardi declarou no livro: Autores, História da Teledramaturgia:
“Demorei
a descobrir que havia errado a escalação. Eu e a Andréa Beltrão não nos
entendemos. (…) Errei também na escalação da Glória Menezes, que pediu para
sair da novela. Ela estava insatisfeita com a personagem. Quer dizer, as duas
atrizes escaladas para viver as mulheres centrais da trama estavam erradas. Com
isso, perdi a empatia do público com as protagonistas, o que é fundamental. A
partir do capítulo 80, peguei a terceira protagonista da história [vivida por
Carolina Dieckmann] e a transformei na primeira.”
Outros
atores veteranos presentes no elenco de Vira Lata foram: o saudoso Jorge Dória(1920-2013) na pele do
picareta do Moreira, pai da protagonista Helena, o também saudoso Cláudio Marzo(1940-2015)
na pele do Lupércio, pai do Lenin que aparece no começo vindo a falecer, um
senhor perturbado do juízo. Ary Fontoura na pele do Aurélio, tio do Lênin que
vive as turras com Aliança vivida pela veterana Ivone Hoffman com quem nutre um
interesse amoroso. Cinira Camargo como Antígone, cumplice de Moreira e amante
de Ítalo, Kadu Moliterno como o policial Romeu, que é amigo de Vianna.
Esse
elenco de feras também contou com Maria Zilda Bethlem como a Cassandra, irmã de
Helena, Roberto Battaglin como Aquiles,
o irmão de Helena, Tuca Andrada como Toco, Mário Gomes como Ângelo, marido de Stella, que
também costumava ser uma presença recorrente nas obras de Lombardi, talvez pelo
fato dele conseguir captar bem a
essência do seu humor sarcástico para representar homens sedutores, mulherengos
com ares de cafajestes e a saudosa Nair
Bello(1931-2007) que também era outra presença recorrente nas novelas de
Lombardi, provavelmente pelo mesmo motivo de que ela em cena conseguia captar
bem a essência sarcástica do humor lombardiano ao representar os tipos do tropo
narrativo de senhoras com ares de megera autoritária de língua afiada e um tanto escandalosas.
O
elenco de Vira Lata também contou com a presença de jovens atores em
inicio de carreira mas que já vinham despontando em outras produções na
emissora como: Murilo Benicio na pele do Bráulio Vianna, Vanessa Lóes como
Pietra, Luciano Vianna como Mussolini, o irmão caçula de Lênin, Luana Piovani
como Wânia, Georgiana Góes que havia se lançado na série juvenil Confissões
de Adolescentes (1994-1995) e participado da novela A Próxima Vítima(1995)
que em Vira Lata representou a
Celina, Deborah Secco, na época com
apenas 16 anos na pele da menina de rua Tatu, suposta filha de Fidel, que já
vinha despontando na televisão desde sua participação na novela Mico Preto
(1990) quando estava com 11 anos, a medida que foi crescendo participou do
elenco da série Confissões de Adolescente (1994-1995) e da A Próxima
Vitima (1995).
Fora
que também revelou o talento de Talma de
Freitas como a Dolores, empregada de Vianna e Helena, e Talita Castro, filha do
ator Ewerton de Castro como Branca,
estagiária do escritório de advocacia de Vianna.
Também
mencionar a participação do trio de crianças, como as duas meninas filhas de Vianna e Helena,
representadas por: Alessandra Aguiar como Geovana, na época com 8 anos de
idade, mas que já vinha despontando desde que foi lançada na novela Barriga de
Aluguel(1990-1991), com apenas 3 anos e integrou o elenco do humorístico
dos Trapalhões em sua fase final quando a trupe havia reduzido a trio
depois da morte do Zacarias em 1990 e de Kananda Raia como Juliana, na época
com apenas 10 anos e se esse sobrenome
lhe soa familiar, essa menina ela é sobrinha da atriz e bailarina Claudia Raia.
E
completando o trio infantil, Eduardo Caldas na pele do Toquinho, na época com
11 anos, ela já despontava na emissora desde que foi lançado na novela Felicidade(1991-1992),
quando tinha só sete anos. Ao longo dos anos 1990, ele foi crescendo despontando em muitas
novelas, até que a partir dos anos 2000, resolve deixar o oficio de ator e
mudou de carreira, hoje em dia trabalha
por trás das câmeras como roteirista e diretor.
Outro
também jovem talento presente em Vira
Lata é de João Rebello(1979-2024), sobrinho do ator e diretor Jorge
Fernando que na novela representou o jovem rebelde Nilo, filho da Valquíria, na
época com 16 anos. Ele já vinha despontando na emissora desde que foi lançado
na novela Cambalacho(1986) de Silvio de Abreu quando tinha apenas sete
anos representando um dos filhos adotivos da cambalacheira Leonarda(Fernanda
Monternegro) e ao longo do final da segunda metade dos anos 1980 até o começo
da segunda metade dos anos 1990, João Rebello foi crescendo despontando nas
novelas Bebê a Bordo(1988-1989), O Sexo dos Anjos(1989-1990), Vamp(1991-1992),
Deus nos Acuda(1992-1993), participou do primeiro ano da soap opera Malhação
em 1995 como o Caco e após Vira Lata ainda participou da novela Zazá(1997-1998),
onde depois disso decidiu deixar o oficio de ator e passou a se dedicar a atividade
musical de DJ, e passou a ser diretor de videoclipes dos mais famosos cantores
brasileiros. João Rebello teve a sua vida tragicamente interrompida aos 45 anos, quando
foi covardemente assassinado “a tiros enquanto estava em seu carro na Praça
da Independência, em Trancoso, destino turístico popular no extremo sul da
Bahia, tudo indica é que ele tenha sido confundido com algum criminoso. As
testemunhas disseram que dois homens em uma motocicleta se aproximaram do
carro, atiraram à queima-roupa e fugiram. Dois dias depois, a Policia Civil da
Bahia declarou que não havia indícios de que João Rebello, estivesse envolvido
em qualquer atividade criminosa. Segundo a polícia, a investigação sobre o
assassinato do ex-ator mirim da Globo leva à "impossibilidade de qualquer
envolvimento da vítima em atividade criminosa". Em 28 de outubro, a
Polícia Civil da Bahia identificou os dois suspeitos do assassinato de João
Rebello. As investigações indicaram que a vítima foi morta por engano. Em 30 de
outubro, a Justiça da Bahia determinou a prisão preventiva de três homens
suspeitos de matar João Rebello. Em 31 de outubro, um dos suspeitos de matar
João Rebello, Wallace Santos Oliveira, se entregou à polícia em Trancoso,
distrito turístico de Porto Seguro, no extremo sul da Bahia, acompanhado de um
advogado. Em 20 de dezembro, dois suspeitos de envolvimento na morte de João
Rebello foram mortos em trocas de tiros com a Polícia Militar em Arraial
d'Ajuda, distrito turístico de Porto Seguro, na Bahia.”
(Fonte:
Wikipédia).
Aliás,
não só João Rebello, mas outros dois atores que integraram o elenco de Vira Lata também tiveram um
final de vida trágico são: Rômulo Arantes(1957-2000) e Gerson Brenner(1959-2026).
No
caso de Rômulo Arantes que na novela representou o Ítalo, genro que passa a
perna em Moreira, ele que antes de virar ator, foi nadador e competiu em três
edições de Jogos Olímpicos: Munique(1972), Montreal(1976) e Moscou(1980). E a
partir dos anos dos anos 1980, ao encerrar a carreira na natação passou a
investir na carreira de ator.
E seu
o vasto currículo de novelas que estreou o fez figurar o galã da preferência do
público feminino. Ele também estava investindo na carreira musical como cantor
de country até que tragicamente sua vida foi interrompida no acidente aéreo de ultraleve ocorrido no dia 10 de Junho de 2000,
dois dias antes de completar 43 anos, na cidade de Maripá de Minas, em Minas
Gerais.
“No acidente morreu também o co-piloto,
Fábio Amorim Ribeiro Ruivo, de 24 anos. O ex-nadador possuía uma fazendo na região, onde também morava sua
esposa, a empresária Valéria Braga. Ele viajava em um ultraleve monomotor ,
modelo Pelicano (prefixo 2347) que, por volta das 10h30, teria sofrido uma pane
antes de cair. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Municipal de Bicas, cidade vizinha de Maripá de Minas.”
(Fonte: Wikipédia).
Quanto a Gerson Brenner que na novela representou
o Amadeu e partiu faz poucos dias, em 23 de Março de 2026, vitima de falência múltipla
dos órgãos aos 66 anos.
Consequência do trágico episódio ocorrido
em 17 de Agosto de 1998, “durante uma viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro,
o ator foi vítima de uma armadilha criminosa ao parar seu carro perto do acesso
60 da Rodovia Ayrton Senna, para trocar
o pneu, tendo sido baleado na cabeça ao ser atacado por bandidos que queriam
subtrair o veículo. Em razão do ato, passou meses em coma e sofreu diversas sequelas, tais como
distúrbios na fala, na motricidade e na capacidade cognitiva, sendo obrigado a
abandonar a carreira artística. Durante o período em que esteve em coma por
conta do assalto, Gerson estava esperando uma filha com Denize Taccto, sua
então esposa, sendo batizada de Vitória Brenner. A relação chegaria ao fim em
1999, após os conflitos entre a sua família e Denize. Brenner também foi casado
com a modelo Ana Cristina Haas entre
1990 e 1994, sendo pai de Anna Luisa Haas.
Recebeu
cuidados da última esposa, a psicóloga Marta Mendonça, até o falecimento.”
A sequela que ele adquiriu como consequência
desse episódio onde perdeu as mobilidades físicas e de comunicação ficando dependente
encarando tratamentos médicos, gerou um fim trágico de sua carreira que estava
se ascendendo na televisão desde que foi lançado na novela Kananga do Japão
(1989) na extinta Rede Manchete de Wilson Aguiar Filho(1951-1991), a partir de
1990 ingressou na Globo na novela Rainha da Sucata(1990) de Silvio de
Abreu representando o Gerson, um dos três filhos de Dona Armênia, vivido por
Aracy Balabanian(1940-2023), como podemos conferir recentemente na reprise do Vale
a Pena Ver de Novo, onde entre os atores que representou o seu irmão estava
Marcello Novaes como o Geraldo(Gera), o mesmo que em Vira Lata fez o
Fidel.
E um aspecto curioso sobre o elenco de Vira
Lata, é que o nome do ator Eduardo Moscovis que chega a aparecer nos créditos
da abertura, foi escalado para viver Frederico, mas acabou não podendo participar,
acontece que o ator foi realocado para
participar da novela das seis Anjo de
Mim(1996-1997), sucessora de Quem é Você(1996).
Nisso resultou que quem ficou com o papel
foi Mateus Carrieri, que também representou na novela, o papel dos gêmeos Cacetada e
Cratera, mas que não tinham conexão alguma com Frederico.
Vira Lata foi bastante criticada pela
“superexposição de corpos e um grande troca-troca de casais em um horário
tradicionalmente familiar. Muitos telespectadores sentiram-se chocados com as
cenas apelativas, como as da infidelidade de Bráulio Vianna (Murilo Benício)
com a empregada diante das próprias filhas, com um certo erotismo vulgar.”
(Teledramaturgia).
Um dos maiores desafios da produção foi
lidar com a quantidade de cachorros que foram escolhidos para serem os bichos de
estimação da protagonista Helena, para o cachorro Zé(da raça sheep dog) “foi
escolhido o cão Funk, mistura de duas raças puras, collie e sheep dog.
Carlos Lombardi e Jorge Fernando, de acordo com o Jornal do Brasil de
17/02/1996, relutaram em aceitar o eleito por não ser ele propriamente um
vira-lata, como pedia o título. A criadora e treinadora In-coelum Perdigão,
habituada às gravações com animais, argumentou: “Um SRD (sem raça definida)
vem de muitas misturas de temperamento. São imprevisíveis e podem tumultuar um
set de gravação.””
(Teledramaturgia).
“Para conferir o aspecto “animal de rua”
a Funk, os pelos dele foram aparados de forma irregular. O cão – à época com um
ano e dois meses, 40 quilos e 1,5m quando de pé – contava com regalias, como
motorista e dublês – seus irmãos, Rap e Rumba.
Ao total, 18 cães participaram da novela,
número reduzido para 6 no decorrer dos trabalhos, resultado das dificuldades
enfrentadas nas gravações. “Sempre adorei cachorro. Mas atuar com eles é
muito desgastante. Repetimos a cena várias vezes e é aquela em que o cão ficou
melhor que vai ao ar”, brincou Murilo Benício em depoimento ao jornal O
Globo de 28/04/1996.”
(Teledramaturgia).
Quando houve o lançamento de Vira Lata “coincidiu
com a campanha do Governo Federal em prol do uso da camisinha – que nada tinha
a ver com a novela. A propaganda chamava o órgão sexual masculino de “Bráulio”.
Ao mesmo tempo, em Vira-lata,
Bráulio era o nome do personagem de Murilo Benício. O apelido pegou após as
reclamações dos Bráulios do Brasil, repercutidas, inclusive, no Fantástico
e no Jornal Nacional, o que conferiu um apelo extra ao personagem da
novela.”
(Teledramaturgia).
Posso concluir que Vira Lata é uma
novela que diversos motivos ficou tão
obscura na história da Globo que por um bom tempo nunca foi reprisada tanto no Vale
a Pena Ver de Novo quanto exibido no antigo canal pago Viva do Grupo
Globo, agora nesse momento em que escrevo essa novela vai estar disponibilizada
no catálogo do Globoplay após 30 anos a no Projeto Resgate a partir do dia 20 de
Abril de 2026.
P.S. A música escolhida para ser tocada
na abertura da novela é Cachorro Vira Lata, um clássico samba de autoria
de Alberto Ribeiro(1902-1971) que foi gravado por Carmem Miranda(1909-1955) em
1937 pela gravadora Odeon Records. “A história desta canção surgiu a partir
de uma adoção realizada por Carmen Miranda, quando ela deixou os estúdios da
Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. Contudo, algum tempo depois, o vira-lata fugiu.
Esse episódio inspirou Alberto Ribeiro, que transformou o fato em música. Benedito
Lacerda(1903-1958), líder do conjunto regional, dá início ao samba com uma
melodia nostálgica tocada em sua flauta.” (Fonte: Wikipedia).
Essa canção ganharia anos uma regravação
de Ney Matogrosso em seu quinto álbum solo, Seu Tipo, lançado em 1979
pela WEA.
Na novela, a canção foi regravada pela
ex-Novos Baianos Baby do Brasil.
A canção foi bem apropriadamente
escolhida, ainda mais pela forma como a abertura mostro um cachorro feito de
jornal salvando a menina de um sequestrador que conectava ao título, cuja
história além de mostrar Helena com seus cachorros, dentre esses estava Zé, a “estrela
canina da novela, simboliza o título da trama, que representa a maior parte dos
personagens: sozinhos em seus recomeços, à mercê do próprio destino. Zé é um
cão cheio de personalidade, que escolhe a casa de Helena para se instalar, onde
já moram outros 15 cachorros. Só ele é testemunha das escapadas de Bráulio para
o quarto da empregada, de quem tem muita bronca.”
(Memória
Globo).
*Após Vira Lata, Lombardi escreveu Uga Uga(2000-2001),
escreveu a minissérie O Quinto dos Infernos(2002), Kubanakan(2003), Pé na
Jaca(2006-2007) e a série Guerra e Paz(2008). Em 2012, Lombardi transferiu para
a Record, onde lá escreveu Pecado Mortal(2013-2014), a única na emissora. Desde
sua saída na Record, que ultimamente Lombardi não mantém mais nenhum vínculo empregatício
com nenhuma emissora.























































