segunda-feira, 8 de junho de 2026

FILME DE CHAPLIN NA ABERTURA DE UMA TELENOVELA BRASILEIRA

 

Há 35 anos, no dia 20 de Maio de 1991, estreava na Globo a novela O Dono do Mundo(Brasil, 1991-1992).




Essa novela das oito escrita por Gilberto Braga(1945-2021) e com direção de Dennis Carvalho(1947-2026), enfrentou um baita problema para conquistar o público.



 Essa novela compunha a sua trilogia de corrupção que deu início com Vale Tudo(1988-1989) e que foi concluída com Pátria Minha (1994-1995). Uma trama pesada que estreou no mesmo dia que o SBT lançou a trama mexicana de Carrossel (Carrussel, México, 1989-1990).




Se tem uma coisa de interessante a se comentar sobre essa novela está na sua curiosa abertura que usava um famoso trecho de uma obra de Charles Chaplin(1889-1977).


 
Cena da abertura da novela O Dono do Mundo. 


Essa obra em questão trata-se de O Grande Ditador(The Great Dictator, EUA, 1940).

Superficialmente a gente tende a achar que esse é só mais um título da extensa filmografia do genial Chaplin, a ponto de não achar nada de diferencial.





Mas, ai é que está, essa obra marca o ponto de partida na carreira de Chaplin por marcar pela primeira vez  ele aparecer sem representar o seu famoso tipo O Vagabundo, que é a  tradução fiel de como no original ele é chamado de The Tramp visto que não tem nome, que dependendo da localidade há quem se referia a ele como Carlitos aqui no Brasil e no continente europeu de Charlot, um tipo maltrapilho com bengala e chapéu de coco  que simbolizava o retrato da figura do típico mendigo da realidade americana, simbolizando a representação da classe branca inferior chamada de White Trash*, que numa tradução seria de Lixo Branco.

A razão para isso é muito simples, Chaplin vendo a tendência inovadora que a indústria de Hollywood estava adotando com a inovação do cinema falado após o lançamento do filme O Cantor de Jazz(The Jazz Singer, EUA, 1927), e como o cinema mudo estava sendo visto como  ultrapassado.

 
Cena do filme O Cantor de Jazz(1927), o 
primeiro falado da história do cinema. 


Ele era contra a ideia do Vagabundo estrelar um filme falado, porque ele via que sua essência estava mais carregada para o humor físico silencioso, mimico, pantomímico, pastelão com toques teatrais e circenses. 

Se fizesse ele falar, faria o personagem perder o sentido, então ele que começou a representar o seu famoso personagem no curta-metragem Corrida de Automóveis para Meninos(Kid Auto Races at Venices, EUA, 1914) para os Estúdios Keystone, que contou com a direção e roteiro de Henry Lehman(1886-1946) e teve a produção assinada por Mack Sennet(1880-1960) que foi o responsável por lançar sua carreira no cinema, resolveu aposentá-lo no filme Tempos Modernos(Modern Times, EUA, 1936).




O filme que veio em seguida a Tempos Modernos foi O Grande Ditador, obra que marcou de mostrar além dele não apresentar mais como O Vagabundo, mas marcou também o ponto de partida dele estrelando um filme falado e que trouxe uma ousada abordagem de satirizar o modelo das ditaduras nazifascistas na Itália e na Alemanha naquele momento em que a Segunda Guerra Mundial entrava no seu segundo ano de conflito.

Através do humor, nós vemos, no que parece racional, o irracional. No que parece importante, o que não é. O humor eleva nosso senso de sobrevivência e nossa sanidade. Por conta do humor, somos menos afetados pelas vicissitudes da vida. Ele ativa nosso senso de proporção e nos revela que num exagero de seriedade se esconde o absurdo”.

(Chaplin).

Nessa produção onde Chaplin assumiu diversas funções: Foi diretor, roteirista, produtor e narrador, ele também protagoniza nesse filme dois papeis de homens muito fisicamente semelhantes, mas que não eram irmãos gêmeos, eram apenas sósias, com personalidades bem distintas uma da outra.




Um é o Adenoid Hynkel, o Ditador da fictícia Tomânia, uma alusão a Alemanha nazista governada por Adolf Hitler(1889-1945), o famoso e mitificado Fürher pelos alemães, palavra que na língua germânica significa líder, condutor.




Já o outro é um Babeiro Judeu, que começa a história lutando na Primeira Guerra Mundial como “um cadete do exército da nação fictícia da Tomânia e tenta salvar um soldado chamado Schultz (Reginald Gardiner). O personagem de Chaplin perde a memória assim que o avião dos dois colide com uma árvore.

Schultz escapa das ferragens, e Chaplin passa seus próximos vinte anos no hospital, enquanto muitas mudanças acontecem em Tomânia: Adenoide Hynkel(também interpretado por Chaplin), agora o grande ditador  da Tomânia, perseguia judeus com a ajuda dos ministros Garbitsch (Henry Daniell) e Herring (Billy Gilbert).

Curado, mas ainda com amnésia. Chaplin retorna à sua barbearia do gueto judeu, ainda sem saber da situação política da Tomânia. O barbeiro fica chocado quando tropas de choque quebram a janela de sua loja. Encontra, depois, um amor, Hannah, uma linda moradora do gueto.”

(Wikipédia).

Ao longo do filme, acompanhamos a jornada do Barbeiro Judeu, ao ser capturado pelos nazista, mas é impedido quando aparece seu velho companheiro Schultz, até o momento em que ocorre uma troca entre ele e Hynkel e ele assume o cargo de Hynkel numa estrutura que lembra o clássico literário de O Príncipe e o Mendigo do americano Mark Twain(1835-1910).




Hynkel tem como forte aliado, o líder da fictícia Bactéria, uma sátira a Itália Fascista, que é Benzino Napaloni(Jack Oak) em alusão a Benito Mussolini(1883-1945), referenciado pelos italianos como Duce, que significa líder.



Foi desse filme de comédia dramática sobre sátira política e social ao contexto histórico da Segunda Guerra Mundial que saiu um trecho que foi usado na abertura da novela O Dono do Mundo, o trecho especificamente tratava-se da cena mostrando Hynkel fazendo uma coreografia com a bola representando o globo terrestre com aquele desejo mirabolante de querer dominar o mundo. Algo que foi bem encaixado a proposto do título que remetia ao crápula do protagonista Felipe Barreto(Antônio  Fagundes), um rico e brilhante  médico  mau-caráter com seu perfil egocêntrico de se achar o dono do mundo.

Para a abertura da novela que contou com um dedo do designer Hans Donner, um germânico-austríaco naturalizado brasileiro que àquela altura já desenvolvia seus trabalhos artísticos para a emissora fazia vinte anos, ele junto com sua equipe criaram a sobreposição de imagens de mulheres sensuais sobre um globo na famosa sequência do filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin, em que seu personagem emulava Hitler brincando com um globo.”

(TELEDRAMATURGIA)

 

“Ao som da canção 'Querida', de Tom Jobim(1927-1994), a abertura mostrava a cena do filme O Grande Ditador em que Charles Chaplin, no papel do personagem Hynkel, dança com um globo terrestre, numa sátira a Adolf Hitler. A cena foi modificada eletronicamente com a inserção de belas mulheres no globo.”   

(MEMÓRIA GLOBO)

Essas belas mulheres que apareciam no globo terrestre eram colorizadas, enquanto que o filme mesmo era mantido em preto e branco.





Uma tarefa complicada e complexa de ser executada, principalmente ao se tratar das demoradas negociações envolvendo os direitos autorais da obra e fora o trabalhão que foi inserir diferentes mulheres fazendo poses sensuais em diferentes quadros dentro do globo, mesmo contando com os recursos tecnológicos mais avançados para a época que se tinham para isso ser realizado.

“Os direitos sobre o filme demoraram para sair. Hans Donner chegou inclusive a gravar uma abertura alternativa em que o modelo Beto Simas fazia as mesmas ações de Chaplin no filme. Porém, ao final, a versão original foi liberada com os direitos sobre as imagens cedidos diretamente a Hans Donner.
“Para usar o filme, descobri quem era o chefão da distribuidora. Por sorte, ele viu uma exposição minha em Londres e gostava do meu trabalho”, revelou Hans a Flávio Ricco e José Armando Vannucci para o livro “Biografia da Televisão Brasileira”.
Os direitos de reprodução do filme foram cedidos por sua detentora exclusiva na época, a distribuidora Filmverhuurkantoor “De Dam” B. V. (de acordo com os créditos do encerramento da novela).

Para a versão de exportação da novela, foi exibida uma terceira abertura, em que o globo, no qual apareciam as mulheres, passeava pela galáxia – sem a participação de Chaplin ou referência ao filme.”

(TELEDRAMATURGIA).

Pelo que Hans Donner comentou na matéria do jornal O Globo, escrita por Pedro Só em 22 de Maio de 1991 sobre as inserções das imagens no globo para a abertura da novela:

“Só podíamos inserir as imagens no espaço ocupado pela bola colocando-as nas 50 posições de sua trajetória em um segundo e meio. Mais do que isto seria um número muito alto de informações para a máquina. “

(Trecho extraído do blog TV Baú postado em Setembro de 2014).


Sobre essa produção, ela além de ser estrelada pelo próprio Chaplin, é também estrelada por Paulette Goddard(1910-1990), uma das atrizes com quem Chaplin foi casado representando a Hannah, o grande amor do Barbeiro Judeu, Jack Oakie(1903-1978) na pele do ditador Napaloni da Bactéria, cujo sobrenome traz uma referência histórica a Napoleão Bonaparte(1769-1821), o temido Imperador da França no século 19, Carter DeHaven(1886-1977) como o Embaixador da Bactéria, Henry Daniel(1894-1963) como Garbitsch e Billy Gilbert(1894-1971) como Herring,  que são os ministros de Hynkel que com certeza deve fazer uma sátira aos ministros nazistas de Hitler que foram os figurões do alto escalão do Governo Nazista na Alemanha que tiveram entre seus nomes: Joseph Goebbels, Hermman Göring, Heinrich Himmler, Wilhelm Frick, Albert Sper e Joseph Von Ribbentrop. 

Também mencionar a participação de Reginald Gardner(1903-1980) como o Schultz e de Maurice Moscovich(1871-1940), esse ator russo-americano, nascido em Odessa na Ucrânia quando a região pertencia ao Império Czarista da Rússia no berço de família judia asquenazes. Ele que já tinha residência fixa nos Estados Unidos desde 1897, foi em solo americano que ele construiu uma sólida carreira teatral estrelando para sua comunidade falando em iídiche, fez pouco cinema e essa produção onde ele representou o Senhor Jaeckel, um senhor judeu que era inquilino da barbearia marcou a última de sua carreira, ele faleceu aos 68 anos.

Um fato curioso, é que na obra é mencionado outro pais fictício que é Osterlich que faz referência a Áustria.

Na abertura do filme eles esclarecem com um texto que diz assim:

Qualquer semelhança entre Hynkel, o ditador, e o barbeiro judeu é mera coincidência.

Esta é a história de um período entre duas Guerras Mundiais – um interlúdio em que a insanidade se alastrou. A liberdade entrou em colapso e a humanidade foi duramente atingida.”

Essa obra de mensagem crítica foi lançada antes dos Estados Unidos mandarem suas tropas para combaterem contra os nazistas na Europa, isso só aconteceu depois do ataque a Pearl Harbor em 7 de Dezembro de 1941.

Na época em que foi lançada chegou a receber acusações de apologia ao comunismo por sua mensagem crítica ao nazismo já que os Estados Unidos até então carregavam uma postura aliada de Hitler, chegou a receber 5 indicações no Oscar de 1941, mas não ganhou nenhuma.

É curioso imaginar que na obra, o Barbeiro Judeu mais parece agir muito como O Vagabundo, a ponto de muita gente equivocadamente pensar que essa obra foi a última com o personagem.

A cena final do Barbeiro Judeu agindo como Hynkel indo em direção ao púlpito para falar ao povo com seu discurso de mensagem pacifista é o que torna a obra indispensável e sempre atualizada, ainda mais pela forma como ele quebra a quarta parede ao se dirigir ao público que esteja assistindo:

Sinto muito, mas não pretendo ser imperador. Não é esse o meu ofício. Não pretendo governar ou conquistar ninguém. Gostaria de ajudar judeus, gentios, negros, brancos. Todos nós desejamos ajudar-nos uns aos outros. Seres humanos são assim. Queremos viver para a felicidade do próximo e não para seu infortúnio. Não desejamos odiar ou desprezar. Neste mundo há espaço para todos. A Terra é rica e pode prover a necessidade de todos. O caminho da vida pode ser livre e lindíssimo, porém perdemos o rumo. A ganância envenenou nossas almas, levantou muralhas de ódio, fez-nos chegar a miséria e ao derramamento de sangue. Desenvolvemos velocidade, mas isolamos uns dos outros. A maquinaria que nos poderia dar abundância deixou-nos na penúria. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos e cruéis. Pensamos demais e sentimos de menos. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade. Mais do que inteligência, precisamos de compaixão. Sem estas virtudes, a vida será violenta. A aviação e o rádio aproximaram-nos. A própria natureza dessas coisas apela a bondade, apela a fraternidade universal para sermos todos um. Neste mesmo instante a minha voz chega a milhões em todo mundo, milhões de homens, mulheres e crianças desesperadas, vítimas de um sistema que põe homens a torturar e encarcera inocentes. Aos que me ouvem, eu digo: Não desespereis. A nossa desgraça é simplesmente o último suspiro da ganância. A amargura de homens que temem o progresso humano. O ódio dos homens desaparecerá, e os ditadores sucumbirão, e o poder que arrebentaram ao povo regressará ao povo. Enquanto morrem os homens, a liberdade nunca perecerá. Soldados! Não vos entregueis a esses desalmados. Homens que vós desprezam e escravizam, que controlam as vossas vidas! Que vos ditam o que fazer, pensar e sentir! Que vos condicionam, que vos tratam como gado e se servem de vós como carne para canhão! Não vos entregueis a esses desumanos, homens-máquinas com mentes de aço e corações de pedra! Não sois máquinas! Não sois gados! Homens é sois! E levam o amor a humanidade nas vossas almas!  Não odieis! Só odeiam os que nunca foram amados. Os mal-amados e os desumanos. Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade! São Lucas escreveu: “O Reino de Deus está dentro do homem. Não de um só homem, mas de todos os homens! Em vós! Vós, o povo, tendes o poder! De criar máquinas, de criar felicidade! Tendes o poder de tornar esta vida livre e bela, de fazer uma aventura maravilhosa! Então em nome da democracia, usemos esse poder! Unamo-nos! Lutemos por um mundo novo. Um mundo que assegure a todos a oportunidade de trabalho, que dê futuro a juventude e segurança a velhice. Com tais promessas, os desalmados subiram ao poder.  Mas eles mentem. Esses não cumprem as suas promessas! Os ditadores libertam-se mas escravizam o povo! Lutemos agora para cumprir essas promessas! Lutemos para libertar o mundo, abater as fronteiras nacionais, pôr termo a ganância, ao ódio e a intolerância. Lutemos por um mundo de razão, um mundo no qual a ciência e o progresso conduzam a felicidade de todos nós. Soldados! Em nome da democracia, unamo-nos! 

A última frase é dele se dirigindo a Hanna:

“Hannah, está me ouvindo? Onde quer que esteja, olhe para cima! Olhe para cima, Hannah! As nuvens estão subindo, o Sol está abrindo caminho! Estamos fora das trevas, indo em direção à luz! Estamos indo para um novo mundo; um mundo mais feliz, onde os homens vencerão a ganância, o ódio e a brutalidade. Olhe, Hannah!”

A cena final é de Hanna olhando para cima com um sorriso no rosto.

Pode-se concluir diante disso tudo que essa obra ela é muito relevante para entender principalmente o mundo atual e seu medo do novo modelo de fascismo propagando com as novas tecnologias.


*Termo pejorativo de cunho socioeconômico usado nos Estados Unidos para definir pessoas brancas de baixa renda que vivem na pobreza. Que são vista pela abastada elite supremacista branca como gente inferior. Esse termo surgiu “na década de 1830 e era usado por aristocratas brancos e escravos negros para se referir aos trabalhadores brancos das plantações do Sul ou aos pequenos agricultores brancos.”(Wikipédia). São frequentemente representados de forma estereotipada beirando ao caricato como gente rude, grosseira, rústica, sem modos vivendo em moradias precárias como trailers, por exemplo. Alguns exemplos de personagens que simbolizam o tropo narrativo do lixo branco no cinema hollywoodiano são: Rocky Balboa da franquia Rocky(1976-2006), já que no primeiro filme mostra a vida pobre dele num xexelento apartamento periférico e devendo aluguel, Travis do filme Táxi Driver(1976) mostra também simbolizar esse exemplo de lixo branco já que ele  é um taxista e é o fio condutor da narrativa em ser nosso guia em  mostrar por meio de sua corrida diária de táxi uma Nova York consumida pelo caos urbano e mora num muquifo, Tony Montana do filme Scarface(1983) também simboliza essa representação ainda mais ele sendo um imigrante cubano que se enriquece com o tráfico de drogas e mesmo ostentando luxo, ainda assim carrega um mal gosto, sendo visto como brega. Principalmente pela ótica da Elvira, sua classuda amada que mostra carregar bem uma herança aristocrática.   Outros exemplos são:  Vivian Ward protagonista do filme Uma Linda Mulher(1990) também simboliza esse tropo narrativo do white trash simbolizando aqui essa figura feminina de beleza atraente de cunho sexual, ainda mais sendo ela uma prostituta. Em contraponto, outro exemplo feminino de representação do tropo narrativo do White Trash é Andrea Zuckerman uma das protagonistas da clássica série dramática juvenil dos anos 1990 Barrados no Baile (Bervely Hills, 902010, EUA, 1990-2000) onde ela com seus óculos de intelectual estudando num colégio de elite onde comandava um jornalzinho que contava com Brandon como seu colaborador, escondia que morava num bairro pobre suburbano. Por fim, outro exemplo desse tropo narrativo do White trash explorado tanto no cinema quanto na televisão é o personagem do Mark Shultz, protagonista do filme Foxcatcher(2014) ainda mais sendo inspirado na história real do lutador de luta livre, medalhista olímpico que no primeiro momento do filme mostra ele vivendo num muquifo até receber um telefonema do dono da equipe Foxcatcher, o excêntrico milionário John Du Pont(1938-2010) para treinar e morar numa das hospedagens de sua fazenda onde ele leva consigo seu irmão Dave Shultz(1959-1996). Mark sentindo a estranheza e as esquisitices de DuPont resolve deixar a equipe e seu irmão Dave permanece até o momento de sua trágica morte precoce aos 36 anos, onde foi covardemente assassinado a tiros por DuPont na gélida manhã invernal de 26 de Janeiro de 1996. DuPont foi preso logo em seguida e foi sentenciado a prisão perpetua a qual cumpriu até o seu falecimento em 2010.


terça-feira, 26 de maio de 2026

40 ANOS SEM FLÁVIO CAVALCANTI

 

No dia 26 de Maio de 1986, o Brasil se despedia de um importante apresentador chamado Flávio Cavalcanti(1923-1986), apresentador que surgiu nos primórdios da televisão contemporâneo a Silvio Santos(1930-2024), J.Silvestre(1922-2000), Hebe Camargo(1929-2012), Chacrinha(1917-1988) e Carlos Imperial(1935-1992).




Um dos mais famosos e polêmicos comunicadores brasileiros, principalmente por sua controversa postura conservadora de ser o apoiador dos militares no Golpe de 1964, era contra o casamente de pessoas do mesmo sexo o que poderia render um cancelamento nos dias de hoje.




Flávio Cavalcanti fez sucesso no comando de alguns programas de rádio e televisão nas décadas de 1960 e 1970, como o Programa Flávio Cavalcanti, Um Instante, Maestro! e A Grande Chance.

Flávio Cavalcanti ao longo de sua carreira de comunicador, começou no rádio com o programa Discos Impossíveis da Rádio Tupi.

Teve passagens por diferentes emissoras: Excelsior, Tupi e Bandeirantes.

 


Foi no Sistema Brasileiro de Televisão(SBT) fundado em 1981 pelo também pioneiro apresentador da TV Silvio Santos que Flávio Cavalcanti ficou contratado até o fim da vida. 

No dia 22 de maio de 1986, Flávio Cavalcanti fez uma rápida entrevista em seu programa e jogou o dedo indicador para o alto com seu bordão "Nossos comerciais, por favor!". Após o intervalo, Wagner Montes(1954-2019) substituiu Flávio, anunciando que ele voltaria no próximo programa, o que não ocorreu.



Flávio havia sofrido uma isquemia miocárdica. Levado para o Hospital Unicor, em São Paulo, faleceu quatro dias depois, em 26 de maio de 1986. O enterro de Flávio Cavalcanti foi acompanhado por cerca de duas mil pessoas, no Cemitério Municipal de Petrópolis, na região serrana do estado do Rio de Janeiro.

No dia seguinte à sua morte, o SBT ficou fora do ar até o sepultamento do apresentador. Em sinal de luto a tela apresentou apenas um slide dizendo: "Estamos tristes com a morte do nosso colega Flávio Cavalcanti, que será sepultado hoje, em Petrópolis, às 16 horas, quando então voltaremos com a programação normal.

sexta-feira, 22 de maio de 2026

35 ANOS DA ESTREIA DE CARROSSEL MEXICANO.

 

No dia 20 de Maio de 1991, estreava no SBT a novela Carrossel, no caso a versão mexicana.




Foi a novela que marcou pela dor de cabeça causada a concorrente Rede Globo.

Verdadeira pedra no sapato da Globo em 1991, quando tirou audiência do Jornal Nacional e da novela O Dono do Mundo, Carrossel poderia ter sido comprada pela emissora da família Marinho, mas o folhetim mexicano da Televisa foi esnobado e acabou indo parar no SBT. A novela infantil fez muito sucesso na época.”

(Thell de Castro em matéria do Notícias da TV de 19 de Abril de 2020).

Nessa mesma matéria Thell de Castro cita um trecho da matéria da matéria da Folha de São Paulo de 29 de Junho de 1991 sobre a novela ter sido oferecido a Globo pela Televisa:

"Acho que Carrossel nem foi vista na Globo", disse ao jornal a então vice-presidente da Salles Vídeo Internacional, Marina Galliez, que representava a emissora mexicana no Brasil. "Carrossel foi comprada pelo SBT por US$ 300 mil".

Exibida originalmente no México entre os dias 16 de Janeiro de 1989 a 1º de Junho de 1990 no Canal de Las Estrellas com produção da Televisa.

Carrossel foi baseado no texto original argentino intitulada de Jacinta Pichimahuida, la maestra que no se olvida(1966) de autoria do dramaturgo  Abel Santa Cruz(1915-1995) que se trata de uma importante franquia literária surgida nos anos 1940 numa revista intitulada de Partoruzú, que ao superficialmente pesquisar sobre do que se tratava essa revista, descobri se tratar de um popular personagem cartunesco de História em Quadrinhos  na Argentina criado pelo cartunista Dante Quinterno(1909-2003) que nos anos 1960 ganharia compilação intitulada de Cuentos de Jacinta Pichimahuida.







        Logo em seguida, essa franquia seria adaptada para os meios de comunicação, virou radionovela e depois ganhou adaptações para telenovelas.

Essa versão mexicana foi uma dentre as diferentes versões adaptadas desse texto original argentino.

Sendo que ela foi a primeira que grande parte de nós brasileiros tiveram contato com essa adaptação do texto de Abel Santa Cruz.

Que inclusive ganharia anos mais tarde sua versão brasileira no SBT.

Nessa versão mexicana  cujo roteiro foi adaptado por Valéria Phillips, ela que já carregava em seu currículo de roteirista ter escrito a novela Os Ricos Também Choram(Los Ricos Tambíen Lloran, México, 1979-1980) de Inés Rodena(1925-1985), que não por acaso foi a primeira trama mexicana que o SBT começou a exibir na década de 1980, e posteriormente escreveu a trama de Marimar(México, 1994), a segunda da trilogia das Marias estrelada pela estrela da música Thalia, que passou aqui no Brasil e que foi inspirado numa criação Inés Rodena.





 Já sua direção contou com Albino Corrales e Pedro Damián, esse inclusive tem no currículo uma novela que passou no SBT nos anos 1980, estou falando de Chispita(México, 1982-1983), que curiosamente também teve sua história baseada numa obra de Abel Santa Cruz, que conexão curiosa essa não?




Nessa adaptação para a novela Carrossel do México, a professora Jacinta, que o autor Abel Santa Cruz se inspirou na sua professora real teve o nome alterado para Professora Helena representada por Gabriela Rivero.




Mas a estrutura seguia a mesma, com algumas alterações, que é toda ambientada no cenário escolar mostrando o cotidiano dos alunos da 2º Série do Ensino Fundamental da Escola Mundial, onde a Professora Helena leciona.

Onde a gente acompanhava a vivência de cada aluno fora da escola, em seus ambientes familiares. Onde cada um simbolizava diferentes classes sociais e mostrava seus respectivos dramas.




Essa produção foi adquirida pelo SBT que investiu um dinheirão para exibir em sua grade. Visto que a emissora já carregava um longo histórico de parcerias com as produções do México que começou justamente quando ela exibiu Os Ricos Também Choram e começou a exibir o humorístico de Chaves.




 A emissora fundada pelo apresentador pioneiro da televisão brasileira Silvio Santos(1930-2024) em Agosto de 1981, que agora em 2026 vai completar 45 anos, sempre foi vista como uma fraca referência nas produções próprias de teledramaturgias, visto que as primeiras produções de novelas eram bem amadoras, longe de chegar aos pés do profissionalismo hollywoodiano da Globo.

Tanto que naquele período de final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, a emissora vivenciou dois fracassos de novelas que foram: Cortina de Vidro(1989-1990) novela que marcou a estreia de Walcyr Carrasco como autor-titular e Brasileiros e Brasileiras(1990-1991) de autoria de Carlos Alberto Sofredini(1939-2001).



Antes de fundar o SBT, Silvio Santos já tinha passado por uma experiência desagradável nesse setor de teledramaturgia quando investiu na produção de O Espantalho(1977) escrita por Ivani Ribeiro(1922-1995) que foi exibida pela Rede Record e teve produção de sua produtora a Estúdio Silvio Santos.




O retorno não tão esperado dessa novela mostrou a Silvio Santos que o investimento nesse setor de teledramaturgia não é tão simplista quanto investir em programas de auditório.

Talvez por isso, Silvio Santos via como mais viável importar as tramas mexicanas, para exibir em sua grade de programação pagando pela dublagem e foi nesse contexto que Carrossel acabou chegando com o desafio ingrato de ser   uma aposta de salvação da emissora. Ainda mais agravado pelos efeitos da crise econômica que o Brasil vinha passando do Governo do então Presidente da República Fernando Collor de Melo que havia mandado confiscar as poupanças de nós brasileiros e o SBT sentiu um pouco desse efeito e para isso criou o título de capitalização Tele Sena.




Inclusive quando a atriz e interprete da Professora Helena Gabriela Rivero veio na época   conhecer as terras brasileiras, foi recepcionada em Brasília pelo então Presidente Collor foi ser entrevistada no programa Show de Calouros.

Embarque nesse Carrossel.  Onde o mundo faz de conta. A Terra é quase o céu”.

O sucesso de Carrossel fez o SBT lançar um LP com a trilha musical com artistas nacionais que contou com o envolvimento dos selos da SBT Music, RCA Victor e BMG Ariola.



O repertório do LP continha 12 faixas, que abre com a canção de abertura Carro-Céu interpretada pelo quarteto de palhaços Super Feliz que se apresentavam nos programas de auditório, seguida de Acorda Pai, cantado pelo famoso conjunto musical infantil do Trem da Alegria, na faixa 3 temos Ciranda que foi cantada por Marianne, que no final dos anos 1980 e começo dos anos 1990 foi uma popular apresentadora infantil do SBT, na faixa 4 temos Hino à Criança do Grupo Papillon, na faixa 5 Sonho de Amor de Patrícia Marx, na faixa 6 Varinha de Condão cantada por Maria que é só como ela é creditada, na faixa 7 O Nascer do Sol cantada por Amado Batista, na faixa 8 Amiga Professora cantada por uma cantora que é apenas creditada como Grayce, na faixa 9  temos O Passarinho que é um duo de José Augusto com o Trem da Alegria, na faixa 10 temos Nem Tudo Que Reluz é Ouro que também é cantada por Marianne, na faixa 11 temos Canção do Papai que creditada a uma cantora com o nome da Laura e a faixa 12, a última do disco temos Segredos da dupla Luan e Vanessa.




Como se pode observar, a produção desse disco da novela contou com suas faixas cantadas pelos mais famosos artistas populares brasileiros.  Isso fora o envolvimento da renomada dupla musical Michael Sullivan e Paulo Massadas que aparecem creditados como os compositores da faixa 5 cantada por Patrícia Marx, do mesmo modo  que aparece creditado como compositores Arnaldo Saccomani(1949-2020) grande produtor musical brasileiro que divide a autoria da composição da faixa 6 ao lado de  Roberto Manzoni(1949-2023), popularmente diretor da emissora  conhecido como Magrão, que foi um dos primeiros diretores do SBT e foi o responsável por dirigir os primeiros  programas de Gugu Liberato(1959-2019), este que foi uma cria da emissora.




Assim como vale menção a participação de Ed Wilson(1945-2010), um artista que surgiu no movimento da Jovem Guarda nos anos 1960, onde tocou junto de seus irmãos: Renato Barros(1943-2020) e Paulo César Barros na banda Renato e Seus Blues Caps que no disco da trilha de Carrossel divide a autoria da faixa 10 ao lado de Chico Roque e de Paulo Sérgio Valle, este que vem a ser irmão do cantor Marcos Valle.

A explicação passava pela maneira com que Carrossel contava sua história e apresentava diálogos. O caráter dos personagens era visível desde a primeira vez que entravam em cena. A novela também era considerada ágil, e as histórias continham arcos narrativos que se encerravam em pouco tempo. Nada que se arrastasse ao longo de meses.

(Texto de Thiago Forato em matéria do site NaTelinha de 2021, sobre os 30 da Estreia de Carrossel).

 

 

 

 

 

SILVIO SANTOS EXIGIU QUE AS CRIANÇAS FOSSEM DUBLADAS POR CRIANÇAS.

Um fato curioso sobre sua dublagem feita no estúdio carioca da Herbert Richers é que atendendo a uma exigência de Silvio Santos, que queria que as crianças fossem dubladas por crianças, então foi feita a seleção, dentre essas crianças que foram lançadas na novela e cresceram fazendo carreiras na dublagem há  nomes tais como: Fernanda Barone que dublou a Valéria papel de Krystel Klitbo e sua irmã  Flávia Saddy que dublou a Alicia vivida por Silvia Guzman, essas duas são filhas  de Marlene Costa,  a voz da Professora Helena que também dirigiu a dublagem da novela e não por acaso dublou a voz de Gabriela Rivero na sua entrevista ao  Show de Calouros.

Outro nome curioso presente nessa dublagem é o de Robson Richers, que dublou o Davi, vivido por Joseph Birch, ele é sobrinho do falecido Herbert Richers(1923-2009), o empresário que deu nome ao extinto estúdio de dublagem, atualmente Robson Richers está afastado da dublagem. Alguns personagens meninos foram dubladas por meninas como: Priscila Gonçalves que dublou o Kokimoto, papel de Yoshiki Takiguchi, Gabriela Bicalho dublou o Cirilo vivido por Pedro Javier Viveros e Fernanda Crispim que dublou o abusadinho do Jorge, papel de Rafael Omar Lozano.

O único personagem do núcleo principal formado pelas crianças da Escola Mundial que não foi dublado por uma criança mesmo, mas sim por um adulto foi Mário Ayala, papel de Gabriel Castañon que foi dublado pelo saudoso Cleonir dos Santos(1944-1998).

Aliás, alguns nomes da marcante dublagem da extinta Herbert Richers já partiram infelizmente, nesse passar de 35 anos que a novela estreou  do mesmo modo que alguns atores que participaram da novela dentre os falecidos dubladores estão: Sonia de Moraes(1932-2010) que na novela dublou a voz da autoritária e repugnante  diretora Olivia vivida por Beatriz Moreno, Sumára Louise(1949-2024) que dublou a Professora Susana vivida por Janet Ruiz que entrou na história para substituir a Professora Helena quando ela se acidenta num ônibus.

 Também faleceram do elenco de dublagem:  Jomeri Pozzolli(1939-2014), que dublou o Firmino, o simpático porteiro  da Escola Mundial, muito querido pelas crianças que foi alternado na pele dos falecidos atores Augusto Benedico(1909-1992) e do porto-riqueno Armando Calvo(1919-1996), existe poucas informações oficias sobre o que levou  a essa mudança, a  explicação não-oficial é de que Augusto Benedico havia falecido durante a produção da novela quando ela ainda estava em curso, ai tiveram que fazer essa substituição, algo que seria plausível se não tivesse como grande furada nessa história o fato de que  Augusto Benedico havia falecido em Janeiro de 1992, quando a novela já tinha chegado ao fim no México e ainda estava sendo exibida no Brasil só chegando ao fim no dia 21 de Abril de 1992.

Outros nomes falecidos do elenco de dublagem de Carrossel são os de Paulo Flores(1944-2003), que dublou o papel do Germano Ayala vivido por Marcial Salinas que era pai do Mário Ayala, Ana Lúcia Menezes(1975-2021) que na época estava com 16 anos quando dublou uma das crianças a Laura, papel de Hilda Chávez, ela faleceu precocemente aos 46 anos após uma série de complicações de um AVC e após ter contraído a Covid-19.

Assim como constam os nomes de Hamilton Ricardo(1956-2015) que fez a voz do Rafael Palillo, interpretado pelo saudoso Arturo García Tenorio(1954-2024), que para quem acompanhou a série Chapolin Colorado, o herói cômico de autoria de Roberto Gómez Bolaños(1929-2014), o mesmo criador do Chaves deve se lembrar dele no episódio do Bebê Jupteriano, onde ele representou o próprio. Aliás, outro ator falecido que esteve no elenco de Carrossel do México, que também tem uma conexão com Chaves é Chóforo Padilha(1940-2013), filho do ator Raúl Padilha(1918-1994) que no seriado era o carteiro Jaiminho. Em Carrossel ele representou o papel do Golpista que é como seu personagem aparece creditado dessa forma mesmo que foi dublado pelo saudoso Henrque Ogalla(1944-2020).

E até o momento em que escrevo esse texto, há registrado o nome de mais três atores da versão mexicana assim como alguns nomes da dublagem brasileira aqui mencionados que já são falecidos, dentre esses nomes estão: Ada Carrasco(1912-1994), que representou o papel da bondosa avô de Maria Joaquina, sua irmã Queta Carrasco(1913-1996) que representou o papel de Tia Rosa e Johnny Laboriel(1942-2013), um popular cantor no México que representou nessa versão de Carrossel, o papel do carpinteiro José, pai do menino Cirilo.

Posso concluir que dessa versão de Carrossel especificamente falando, Jaime e Cirilo já são órfãos de pai.

Do mesmo modo que posso concluir que a atriz Ludwika Paleta, a interprete da mimada insuportável e racista da Maria Joaquina foi a única do elenco principal dos alunos da Mundial dessa versão mexicana que deu segmento a carreira artística, ela participou posteriormente de novelas que o SBT exibiu como Vovô e Eu(El Abuelo y Yo, México, 1992), Maria do Bairro(Maria la del Barrio, México, 1995-1996) e Amigas e Rivais (Amigas y Rivales, México, 2001) e em 2023 participou de uma produção brasileira que foi na segunda temporada da série Dom(Brasil, 2021-2024) da Amazon Prime Video.