No
dia 12 de Janeiro de 1966, estreava na emissora americana ABC o seriado do Batman(1966-1968).
Uma
produção que até hoje é muito cultuada principalmente pela geração que tem a
faixa etária dos meus pais que tiveram seu primeiro contato com o simbólico herói da
DC Comics, onde até mesmo um futuro ator de Hollywood que representou o Batman
no cinema pegou essa referência da série.
Para
compreender sua importância e todo o culto de legião de fãs que existe em torno
da obra, mesmo entre as gerações posteriores vamos primeiramente analisar aqui
o contexto dos antecedentes até chegar a essa série.
Quando
o seriado foi concebido, o Batman já era
um personagem consolidado na cultura pop, surgido na revista Dectetive
Comics em Maio de 1939, criado por Bob Kane(1915-1998) e Bill
Finger(1914-1974).
Cujo
o mote da sua história girava em torno do personagem Bruce Wayne, um órfão
herdeiro de família rica que assume a persona de vigilante mascarado para
combater o crime, após testemunhar na
infância os pais serem mortos por bandidos que o assaltaram dentro de um beco
escuro.
Uma
situação que bem refletia aquele momento em que na década de 1930 nos Estados
Unidos, a bandidagem estava assombrando o pais com as máfias dominando espaços
de bares, comércios, dentre outros. Muito disso, uma consequência do alto
índice de criminalidade urbana que vinha assombrando o pais desde a Queda da
Bolsa de Valores de Nova York em 1929, que ocasionou no alto índice de
desemprego, que como consequência levou para esse problema.
Foi
nisso que a cultura pop do cinema e dos quadrinhos se inspirou em trazer um
toque de escapismo a população
americana.
Antes
de surgir esse seriado, o Batman já tinha ganhado uma adaptação audiovisual,
sendo que o primeiro registro ocorreu em 1943, num formato de cinessérie, que
foi uma produção da Columbia Pictures, estrelado por Lewis Wilson(1920-2000)
como Batman e por Douglas Croft(1926-1963) como o Robin que eram exibidos nas
telonas do cinema antes das grandes sessões matinês*.
Também
na década de 1940 foi lançada outra adaptação no formato cinessérie em 1949,
também da Columbia Pictures, onde o
Batman foi representado por Robert Lowery(1913-1971) e o Robin por John
Duncan(1923-2016).
Essas
produções haviam caído no esquecimento, na ocasião em que o seriado foi
lançado.
Um
dos principais fatores do porque quando se estuda sua influência no
audiovisual, o seriado dos anos 1960 figurar como a referência pioneira e se criar toda uma idolatria em torno dele
está relacionado ao contexto da transformação que a televisão americana estava vivenciando na segunda metade dos anos
1960.
Foi
nesse período que os aparelhos de televisão nas casas dos americanos começaram
a transmitir em cores.
Uma
década antes, quando o sistema televisivo começou a operar em solo americano,
cujo número de residências havia obtido um grande percentual de aparelhos de
televisão. Foram surgindo empresas especializadas naquele ramo especifico da
televisão, estações de tv, canais exibindo
imagens e sons em ondas hertzianas chamados popularmente de emissoras como
ficaram conhecidas, palavra derivada da palavra emissão para transmitir.
O
surgimento dos aparelhos de televisão nas residências dos americanos, afetou
diretamente o cinema. E o primeiro a sentir esse impacto por incrível que
pareça foi o jornalismo, isso porque antes de existir o telejornal informativo
havia o cinejornal que eram “curtas-metragens
documentais exibidos nos cinemas antes dos filmes principais, servindo como
principal fonte de notícias e entretenimento visual para o público antes da
popularização da TV, registrando eventos históricos, sociais e culturais com
uma perspectiva oficial ou, em casos como o Canal 100, mais informal, atuando
como importantes documentos históricos e ferramentas de propaganda ou
informação.”
(Texto
extraído de pesquisa do Google).
Como
se não bastasse isso tudo nos Estados Unidos, foi aprovada uma lei que deu fim
a venda dos ingressos por casadinha onde se assistia a um curta-metragem antes
da exibição do filme principal.
Foi
durante a década de 1950, que as grandes corporações de cinema passaram a se
aliar ao mercado de televisão passando a exibir nas emissoras os grandes
clássicos do cinema na tela pequena e caseira de um aparelho de tubo com imagem bombê e em
preto e branco, onde a pessoa assistia gratuitamente o filme sem pagar o
ingresso.
Foi
a partir desse período que começou a se denominar os grandes artistas de cinema
como celebridades, e não mais como astros e estrelas. Isso ocorria porque o
tamanho da tela grande do cinema criava uma sensação de imponência de
engrandecimento a uma estrela a tornando grande como uma mitificada divindade
do Monte Olimpo.
Ainda
mais quando Hollywood se industrializou e transformou os nomes dos atores em
grandes marcas para atrair o público. Com certeza, muita gente já pagou um
ingresso para assistir a algum filme que mesmo não sendo do seu estilo
favorito, mas de saber que no seu elenco conta com nomes como: Jack Nicholson,
Cameron Diaz, Sylvester Stalonne ou mesmo Scarlett Johansson vão justamente
pelo peso da marca dos nomes que atraem muito lucro para as grandes corporações.
Já
com a tela pequena da tv tubo, a coisa mudou um pouco, passaram a serem denominadas como celebridades
nome derivado “do latim celebritas, que significa
"grande público" em um lugar, "afluência" e,
figurativamente, "fama". A celebridade é muitas vezes retransmitida
pela mídia. O que é célebre é conhecido, falado ou comentado por
muitos, obtendo reputação e renome.”(Wikipédia).
Ou
mesmo famosos, derivado de fama, muito conhecido, especialmente pelo grande
público, por muitas pessoas; célebre, notável, popular, renomado, admirável.
Foi
também nesse contexto dos anos 1950, que começaram a surgir os primeiros formatos
dramatúrgicos feitos para a televisão ainda em preto e branco que envolvia os seriados de televisão,
minisséries, produções de cinema feitas especificamente para a televisão, soap
operas** e novelas*** que foi algo que foi bastante concentrado aqui no Brasil quando em Setembro de 1950 foi
inaugurada a TV Tupi pelo magnata da comunicação Assis
Chateaubriand(1892-1968).
Nesse
formato televisivo experimental contou
com os primeiros profissionais que escreviam os roteiros egressos do rádio, do
cinema, do tradicional teatro e também contou com atores da antiga Hollywood
que viviam no ostracismo, conseguindo renovarem nas suas carreiras graças a
televisão, ainda mais quando justamente foi a partir do acesso a tv exibindo as
obras que eles estrelaram de décadas atrás que eles se conhecidos de novas
gerações.
Foi
no contexto da década anterior da televisão nos Estados Unidos que entramos no
foco especifico do texto dedicado aos 60 anos do seriado do Batman.
Pois
bem, foi nesse período da evolução do
uso das cores da televisão nos Estados Unidos que surge o seriado do Batman.
O
seriado foi uma produção da Fox, que teve a produção executiva de William
Dozier(1908-1991) que também foi o narrador em off da série, contou entre seus
roteiristas com Lorenzo Semple Jr.(1923-2014), o próprio criador Bob Kane, o
co-criador não creditado Bill Finger, e o próprio Dozier e outros creditados
que escreveram cada um episódio do seriado.
Assim
como cada um dos 60 episódios das três temporadas produzidas entre 1966 a 1968 é
creditados a diferentes diretores.
Muito
da sua estrutura trazia um toque humorístico de estética camp, algo que para a
minha geração que já pegou como referência a representação do Morcegão
representado na série animada dos anos 1990, cuja estética bebia da fonte do
estilo gótico dos filmes de Tim Burton e da pegada violenta da saga da Graphic novel de Frank Miller com O
Cavaleiro das Trevas trazendo o toque sério, tende a abominar a estética
cômica dessa obra pelo seu toque de breguice da pop art, que confere um ar
infantilizado para se dizer o mínimo.
No
entanto, é preciso levar em conta que o seriado propositalmente trazia esse
toque infantil, pelo fato de que ela foi concebida num momento em que as
publicações das revistas do Batman também estavam seguindo por esse caminho.
Isso
ocorreu depois que em 1954, foi publicado o polêmico livro do psiquiatra
germano-americano Fredric Wertham(1895-1981) que passou a perseguir a indústria
dos quadrinhos****.
A
origem para ele escrever esta controversa obra
condenatória aos quadrinhos foi baseado nos seus estudos
investigativos que vinham analisando para tentar compreender o porquê do alto
índice de delinquência juvenil entre a população americana da década
de 1950.
A
partir da publicação deste livro, surgiu então a organização da Comics Code
Authority, que passou então a ser o regulador das Hqs, originando a figura do
inimigo real dos super-heróis.
Como
nesta época também coincidiu do cenário político americano dos anos 1950
viverem muito turbulento. A Segunda Guerra Mundial tinha acabado ainda recente,
e boa parte da geração jovem que participou do conflito tinham voltado para
casa mentalmente perturbados, e muitas crianças dessa época eram órfãs de
alguns combatentes que voltariam para casa sem vida.
Era
também o começo da Guerra Fria, o conflito de interesses político e ideológicos
entre os Estados Unidos com a União Soviética.
Dentro
do território americano foi adotado a política macarthista de caça aos
comunistas. Que ocasionou em um período apavorante para os cidadãos americanos
comuns que eram alvos de constantes vigília do governo e eram presos sem
justificativa, sofriam abusos e torturas.
E
nesta época boa parte das famílias procuravam prezar pelo conservadorismo
puritano. O mesmo Wertham que escreveu Seduction of the Innocents,
também foi autor da teoria de Batman ter um relacionamento gay com Robin.
E
como nessa época a homossexualidade era tratada como um tabu, sendo vista como
um caso clínico de desvio de comportamento psicopático.
Por
conta disso, os roteiristas para se adequarem as normas do CCA, tiveram que
apresentar uma histórias das mais suavizadas, principalmente na violência
gráfica, nos diálogos dentre outros fatores.
E
a série foi nesse segmento, especialmente quando eles criaram figura de uma
parenta de Dick Grayson/Robin que
convive na mansão Wayne chamada de Harriet Cooper, a Tia Harriet que cuida de
Bruce e Dick e vive com o mordomo Alfred Pennyworth para não gerar nenhuma
desconfiança de conotação homoafetiva entre a dupla dinâmica e para justificar
deles manterem suas identidades
secretas.
E
levando em conta como eu já havia colocado no começo do texto que a obra foi
concebida naquele momento onde a televisão americana estava vivendo o
surgimento das cores, pois bem, a obra soube bem como explorar o jogo das
paletas de cores bem berrantes principalmente na cena da dupla dinâmica lutando
com os vilões onde aparecem os efeitos
das onomatopeias referentes aos quadrinhos que deixava sua estética bem
cartunesca.
Dentre
os atores que participaram das três temporadas do seriado contou com a
participação de nomes veteranos da antiga Hollywood como: Cesar
Romero(1907-1994) que foi um grande galã do cinema na década de 1940, estrelou
em produções que contou com o protagonismo da brasileira Carmen Miranda(1909-1955) cujo
fato curioso quando encarnou o Coringa na série era o fato de que como ele era
bigodudo isso dava um trabalho para ele
ser maquiado e como ele se recusava a tirar o bigode, isso já resultou em muita
dor de cabeça para a produção.
Além
dele também contou com a participação de Burgess Meredith(1907-1997), na pele
do Pinguim, cuja risadinha característica o tornaram icônico, ainda mais pela
maneira como ele transformava o seu guarda-chuva numa arma, principalmente
gases soníferos. Meredith também já era um veterano do cinema na época que
participou da série e anos depois faria o Mickey Goldmill na franquia Rocky(1976-1983).
Assim
como Frank Gorshin(1933-2005) que representou o Charada, Vicent
Price(1911-1993) que representou o Cabeça de Ovo, Victor Buono(1938-1982) como
Rei Thut, David Wayne(1914-1995) como Chapeleiro Louco, Madge Blake(1899-1969)
como a Tia Harriet, Neal Hamilton(1899-1984) como o Comissário Gordon, Staford Repp(1918-1974) como o Chefe O´Hara e
Alan Napier(1903-1988) como Alfred.
Muitos
desses veteranos do cinema, do mesmo modo que o protagonista Adam
West(1928-2017) que antes de ficar marcado no papel, já tinha um longo
currículo em papeis medíocres.
Ele
em cena mostra um excelente desempenho do Batman canastrão, fora de forma,
fazendo dancinha, usando um bermudão numa cena da praia, encarando uma disputa
de surf com o Coringa, enfrentando um tubarão de borracha enfim, ele mostra
conseguir entrar no tom cômico pastelão da obra.
Assim
como destacar o bom desempenho de Burt Ward estreando em seu primeiro papel com
apenas 20 anos representando o Robin, o fiel parceiro do Batman, ele que no ano
passado completou 80 anos, figura até o momento em que escrevo esse texto como
um dos poucos atores vivos do seriado.
Um
dos momentos mais memoráveis do seu desempenho como Robin no seriado eram os
bordões onde ele sempre começava com santa, santo, quando demonstrava uma
reação de surpresa, ou mesmo de perigo,
que no original ele dizia Holly, mas que na versão dublada nos 1960 do
estúdio paulista da AIC***** onde o saudoso dublador Rodney Gomes(1936-2006),
captou essa essência memorável com as frases marcantes entre elas:
Santa
Barbaridade, Batman.
Que
bem simbolizava essa essência cômica do seriado.
Do
mesmo modo vale mencionar os desempenhos de Yvone Craig(1937-2015) como
a Barbara Gordon/Batgirl, o desempenha dela em cena é sensacional, principalmente na
maneira como ela distinguir a Barbara Gordon com o uniforme e sem o uniforme
também é incrível.
Também
mencionar os bons desempenhos de Julie Newmar como a Mulher-Gato, ela já tinha
uma extensa carreira na televisão e no cinema, a maneira como ela mostrou uma
boa desenvoltura para representar em cena a sensual felina com seus rosnados,
acabou ajudando de forma indireta, ela foi a responsável por trazer de volta a
personagem as publicações dos quadrinhos. Depois de um curto período de
ausência causado pelos censores do CCA( Comics Code Authority).
Julie
Newmar até o momento em que escrevo também figura como a única atriz viva do
elenco do seriado. Com 92 anos, ela tem
cuidado do único filho que tem problemas de audição e tem Síndrome de Down e
tem lidado com o drama da Doença de Charcot-Marie-Tooth. No seriado ela foi
substituída na temporada final pela cantora Eartha Kitt(1927-2008).
Do
mesmo como também brilham os atores Neal Hamilton que mostra um desempenho
sensacional do Comissário Gordon, ainda mais quando ligava para o Batman para
pedir com uma ameaça que os bandidões perigosos ligando por um telefone
particular vermelho e com interação com o Chefe O´Hara muito bem representado
por Stanford Repp que tinha um perfil cômico bonachão que equilibrava no
contraste a seriedade de Gordon e por fim, mencionar a participação do
britânico Alan Napier(1903-1988) como o mordomo Alfred trazendo um toque
refinadamente teatral a obra.
Em
um balanço geral, posso colocar que o seriado clássico do Batman dos anos 1960
tem seu brilho reconhecido e o seu legado atravesse gerações.
Foi
inclusive como eu coloquei no começo do texto que um dos atores que futuramente faria o
Batman no cinema, foi um dos telespectadores mirins que acompanhou, estou me
referindo a Val Kilmer(1959-2025), que protagonizou o Batman em Batman
Eternamente(Batman Forever, EUA,1995) como ele bem comentou sobre isso no
documentário Val(EUA,2021).
Independentemente
de quem julgue sua estética a vendo como brega, há de levar em conta de pelo menos ela conseguiu dá o seu nível
contribuição da história pop como a conhecemos.
Santo
60 anos, Batman.
P.S:O
seriado dos anos 1960, também produziu um filme que estreou nos cinemas no dia
30 de Junho de 1966. Que aqui no Brasil ganhou o título em português de Batman:
O Homem Morcego. Cuja direção foi de Leslie H. Martinson(1915-2016). Ele contou com grande parte do elenco da série
numa história a parte sem muita ligação com a série de tv. A única ausência foi
a Julie Newmar que representou a Mulher-Gato, onde quem assumiu o papel foi Lee
Meriwether, uma ex-modelo eleita Miss Estados Unidos em 1955, e que na ocasião
estava em alta na tv estrelando a série Túnel do Tempo( The Time Tunnel,
EUA, 1966-1967). No filme, ela se destaca pela maneira como consegue atrair o herói
para uma armadilha usando como disfarce se fazer passar por uma jornalista
soviética Kitka. Foi nesse filme que aparece
a situação que mencionei do Batman enfrentando um tubarão de borracha.
Nessa
obra contou com a participação do veterano da antiga Hollywood clássica Reginald Denny(1891-1967) na pele do Comodoro Schmidlapp
que foi o último da carreira que partiu no ano seguinte após o lançamento do
filme.
Na
série também contou com outros personagens criados exclusivamente além da já
citada Harriet Cooper, como o Chefe O´Hara, e alguns vilões como Rei Thut e
Cabeça de Ovo.
Além
da Mulher-Gato, outros vilões na série também foram mudando de interpretes como
o Charada por exemplo, que contou com Frank Gorshin na primeira temporada sendo
substituído por John Astin, o astro da série A Família Addams(1964-1966)
onde protagonizou o papel do patriarca Gómez Addams e até o momento em que
escrevo esse texto, o ator com 95 anos é também um dos poucos vivos que
participaram do seriado e é o único vivo de A Família Addams.
E
fora também o exemplo do Senhor Frio, que no seriado foi representado primeiro
pelo russo-britânico George Sanders(1906-1972), seguido pelo austríaco Otto
Preminger(1905-1986) e por último foi representado por Eli Wallachi(1915-2014).
Foi
justamente numa produção sobre Carmen Miranda mencionada que marcaria o ultimo
trabalho de Cesar Romero que no caso foi no documentário Carmen Miranda:
Banana is Bussiness (1995), com o seu depoimento filmado antes do seu falecimento no dia 1º de
Janeiro de 1994.