quarta-feira, 14 de janeiro de 2026

BRIGITTE BARDOT INSPIROU BARBARELLA.

 

Quem já teve a oportunidade de assistir ao filme BARBARELLA (Itália, França, 1968) deve bem saber se tratar de um clássico cult idolatrado pelos amantes de ficção científica, estrelado por Jane Fonda que virou uma símbolo sexual.







Pois bem, esse filme foi inspirado numa HQ do francês Jean-Claude Forest(1930-1998) que a publicou em 1962, e cuja inspiração para  desenha-la foi na atriz Brigitte Bardot (1934-2025) na época já uma consagrada musa do cinema.

Ironicamente quem dirigiu esse filme foi o renomado cineasta francês Roger Vadim(1928-2000) que dirigiu o célebre E Deus Criou a Mulher (1956) estrelado pela BB. Curioso não.




       Essa HQ com a temática space opera com pegada de erotismo foi concebida no momento em que o mundo estava de olho com a corrida espacial e estava a Revolução Sexual.

       Publicado no formato de tirinhas  para a Revista V-Magazine que aqui no Brasil teve algumas de suas edições traduzidas em português pelo famoso comediante Jô Soares(1938-2022).

        Forest a criou bem com uma pegada de heroína cósmica futurista  e com grande  sexy appeal para os leitores, trazendo muito do reflexo das transformações e revoluções que o mundo estava passando nos anos 1960. Era a época da Corrida Espacial, que simbolizou  bem a disputa  hegemônica política da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética.

        

           Junto a isso estávamos vivendo  o movimento da contracultura em várias manifestações artísticas, foi nessa época  que estava tendo também   a luta pelos direitos civis e pela liberdade sexual.

     Foi unindo todas estas características do momento que o mundo vivia, fora também as outras fórmulas de sucesso, principalmente da ficção científica que era o gênero favorito do autor, que adorava ler quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rogers, e de tramas bem aventurescas. 

         Além do mote do quadrinho da protagonista  ter característica de ficção cientifica,  outro ponto característico era o seu apelo erótico com perfil até de  ninfomaníaca, onde encarava o perigo se oferecendo para transar, característica está  bem influenciada pelo momento da revolução sexual que o mundo passava.

 

        E pelo traço caracteristicamente erótico com o estereótipo de loira fatal  com lábio carnudo, que o autor se inspirou para desenhar  na bela musa francesa do cinema dos anos 1950/60 Brigite Bardot como já foi descrito no começo do texto. 

 

          Todas estas características foi o que serviu de base para este filme em questão que literalmente foi uma produção multinacional franco-italiana.




         Além de contar com a direção do renomado cineasta francês  Roger Vadim como mencionado no começo do texto, o  filme teve a produção-executiva  do italiano Dino de Lauretiis(1919-2010) um respeitado empresário do ramo, foi ele  quem comprou os direitos de adaptação da obra, e filmou todas as locações do  filme em seus estúdios em Roma.

         O seu roteiro contou com a assinatura do americano Terry Southern(1924-1995) que dividiu essa função com Vadim.

        Foi distribuído mundialmente pela Paramount Pictures, uma das maiores produtoras de Hollywood. Além de contar com um impecável trabalho de design visto  a frente do seu tempo para representar uma grande inovação na história do cinema, cuja direção de fotografia contou com a assinatura de Claude Renoir*(1913-1993), mas da maneira muito caótica como o  roteiro foi construído,  resultou num grande fracasso de bilheteria.

        Dos 9 milhões de dólares gastos na época, só conseguiu arrecadar apenas 2,5 milhões de dólares,  mesmo investindo num marketing pesado com a protagonista posando nua para a Penthouse, uma equivalente a Playboy no Reino Unido caracterizada como a personagem.

            Ainda assim não foi o suficiente para atrair a bilheteria. Somente com o passar dos anos, quando o filme foi sendo revisitado e  redescoberto é que ele ganhou um grande notoriedade e  reconhecimento a ponto  de ser considerado um clássico   cult movie.

      Uma das principais razões para  explicar  isso pode estar talvez no fato da estética do filme carregar muitas características referentes  as formulas bem clichês de como eram concebidos os filmes do gênero da ficção cientifica da época.

 

         Que eram tanto na parte técnica visual cheia das extravagâncias, com uma fotografia que usava e abusava do tom das cores bem aberrantes para criar um ar bem cartunesco, somados também aos outros designs toscos  de produção como a criação do disco voador, os efeitos especiais das pistolas a laser, as caracterizações das criaturas e principalmente os chamativos figurinos espalhafatosos dos personagens, principalmente dos decotes femininos com toques bem provocantes,  beirando ao ridículo de tão cafonas, a ponto de mais parecerem umas encenações circenses.   

 

      Muito disso pode ter haver com o fato de que como o gênero da ficção cientifica sempre foi visto como uma maneira fantástica  de diversão escapista, como refúgio da cruel realidade. Uma imersão da descrença.

         O que de certa forma dá para poder relevar o nível da qualidade  brega explorado neste tipo de produção com os  cenários e os figurinos bem carnavalescos.   

 

         O que neste aspecto, o filme  Barbarella cumpre bem esta função, já que a protagonista em diferentes momentos vive trocando constantemente os figurinos com um tom mais decotado e provocante que o outro, isto pode ser sentido desde a cena de abertura dela fazendo strip-tease dentro da sua nave em gravidade zero.

         Não só com os figurinos da protagonista, mas também com os figurinos de outros personagens que vão aparecendo no decorrer do filme, como do caçador Mark Hand trajando uma espécie de macacão cheio de penas, que já cria um tom bem extravagante, deixando ele ficar parecendo um urso gigante, ou mesmo do próprio design de produção de Sogo que é capenga.

         Ao mesmo tempo que ele trabalhou bem, mesmo com recursos limitados de edição os  elementos de psicodelismo como um bom refúgio da realidade.

 

           Como na cena onde ela invade o local de sono da Rainha Negra e entra por diferentes mundos, onde podemos apreciar uns espetáculos visuais de formações geométricas.

        Não só o design de produção representa a maior prova de que o filme seguiu bem esta formula estética  comum dos filmes de ficção cientifica da época.

 

          Como também o  próprio formato do enredo com um ar bem aventuresco e também  com uma pegada detetivesca influenciada pelos filmes de James Bond  onde a nossa heroína é incumbida de uma missão de investigar o sumiço de um astronauta chamado Duran Duran, que da metade da história  temos uma grande reviravolta dele ser o grande vilão dessa história.

      Mesmo apresentando entre seus maiores  problemas:

1)Um texto sofrível cheio de diálogos bobos e facilmente risíveis, que acaba causando muitas quebras  de ritmos narrativos e de tons.

2) Algumas interpretações sofríveis de atores em  personagens muito bobos ou mesmo bastante deslocados do contexto num filme de ficção cientifica com ar mais de comédia erótica.

 3)A construção do cenário capenga e um tanto tosco  de Sogo.

 4) O ato final terminar de uma forma muito decepcionante, onde o vilão é derrotado sofrendo  pelo seu próprio feitiço, com o plano mirabolante de conquistar Sogo, ele acaba sendo morto pelo raio positrônico, graças a aliança da heroína com a Rainha Negra de Sogo que sendo destruída pela catástrofe onde termina com ela e a Rainha sendo salva por Pygar em um final aberto. 5) O momento bizarro e até vergonhoso de ver a protagonista fazendo uma espécie de sexo transcendental através de uma pílula de transferência de exaltação que ela dá para  Dildano  onde eles transam só encostando  as mãos. E nas mãos de Dildano sai um vapor e ele se descabela completamente para simbolizar a sua excitação.

        Enfim, mesmo com todos estes problemas aqui mencionados,  boa parte ocasionados pela construção caótica do roteiro que foram sendo  escritos e reescritos passando por outras mãos, ainda assim não pode negar que Barbarella representou sim uma forte contribuição e um grande legado, especialmente para a cultura pop musical.

 

     A prova disso está que em 1969, o cantor brasileiro Jorge Ben Jor, quando assinava apenas como Jorge Ben lançou uma canção intitulada de Barbarella em referência justamente a essa personagem como nesse trecho:

Na dimensão azul e rosa
Do infinito celestial da quinta galáxia
Quem me dera eu ser intergaláctico
Para estar dormino nas estrelas
Só falando de amor com você

Pois eu sonhei com você, Barbarella
Pois eu sonhei com você, Barbarella

      Cuja sonoridade entra no clima psicodélico cósmico  do filme.  

      Na década de 1980, o nome do vilão do filme  Duran Duran  interpretado pelo irlandês  Milo O´Shea(1926-2013)  inspirou o  nome   da banda inglesa de pop rock e new wave Duran Duran que posteriormente  faria uma canção referente a heroína intitulada de Eletric Barbarella que compõe o repertório do nono álbum de estúdio da banda Medazzaland, lançado em 1997.    

          Em 1994, a cantora australiana Kylie Minogue lançou o videoclipe da canção Put yourself in my place inspirada na cena de abertura do filme se despindo completamente em gravidade zero num foguete vagando no espaço.

         E como se não bastasse isso, em 2014, o videoclipe de  Break Free da cantora Ariana Grande foi completamente inspirado no filme, com tudo que se pode imaginar, especialmente na atmosfera aventuresca e com  ela e os figurantes usando  os figurinos extravagantes e a cantora  encenando a memorável cena  da protagonista se despindo em gravidade zero dentro da nave.

         Mesmo que a letra da canção não tivesse nada a ver com o enredo do videoclipe com toda uma atmosfera cósmica.

        Inclusive a parte musical no filme é fantástica. Contou com  a produção de Bob Crewe(1930-2014), Charles Fox, Michel Magne(1930-1984) e James Campbell(1931-2010).

         Bob Crewe é quem  ficou  responsável por  tocar na abertura onde no primeiro trecho a compara  com a Mulher-Maravilha e a definido como uma mulher psicodélica. Também ficou responsável por cantar Love,Love,Love, Drags me Downs e a canção de encerramento An Angel is Love acompanhado da banda The Glitterhouse. Já os outros se encarregaram bem de produções as músicas incidentais de cada cena, que ficaram incríveis.

         Principalmente a cena onde a coitada da heroína está mantida prisioneira por um bando de pivetes gêmeos bem endiabrados que a acorrentam num pilar e ligam uns bonecos com dentaduras de aço para morde-la. E ela vai sendo salva pelo caçador Mark Hand.  Entre alguns fatos curiosos sobre a produção estão:

1) Os figurinos extravagantes de todos os personagens contaram com dedo de dois nomes importantes da moda, como o espanhol Paco Rabanne(1934-2023) e do francês Jacques Fonteray(1918-2013).

2)O nome de SoGo, trata-se de uma referência  a cidade bíblica  de Sodoma e Gomorra.

3) O filme apresentou algumas cenas que precisaram serem cortadas. Dentre essas uma foi a tórrida cena de beijo da protagonista com a Rainha Negra de SoGo, o que é compreensivo, aquilo poderia  chocar bastante.

 

        Pois  o filme por si só já era bem sensualmente provocante. Já a outra, tipo se a cena dela com Dildano já era muito bizarra, imagine o quão tosco teria ficado se a mesma com outro ator no papel com a protagonista completamente pelada. Ai a apelação já ultrapassaria todos os limites mesmo do aceitável.

         De todo jeito, pode-se concluir que o filme mesmo com todos os problemas que o tornem visto mais como um bom exemplo de filmes trash, ainda assim não se pode negar a sua grande contribuição para o cinema.

       Talvez não teríamos Star Wars na década de 1970. 

 

     O seu  elenco ele é  muito multinacional, como a presença da   americana Jane Fonda, filha do grande ator Henry Fonda(1905-1982) e irmã de Peter Fonda(1940-2019)  que na época já figurava como uma sex symbol  de Hollywood estando no auge da beleza foi a responsável por protagonizar o filme.

         Ela não foi a primeira escolha ao papel, antes   foram sondados  por outras belas atrizes que também figuravam como  grandes  musas que foram as italianas  Sofia Loren e Virna Lisi(1936-2014), que simplesmente recusaram.

          Jane Fonda conseguiu bem transmitir em cena ao desempenhar a personagem todo o ar de sexy appeal, apesar de sofrer um pouco com o texto bastante fraco, com diálogos muito facilmente risíveis por apresentar um  teor bastante patético de tanto beirar ao ridículo. Resultado do roteiro caótico, especialmente pela ideia doida do produtor Dino de Laurentiis  de gravar o filme em duas diferentes línguas sendo que  a Torre de Babel já estava feita pela quantidade de atores de diferentes países que participaram dessa produção, além da já mencionada Jane Fonda, atriz americana como protagonista.

          Dentre as outras participações de atores multinacionais no filme estavam  do célebre mimico francês Marcel Maceau(1923-2007) como o Professor Ping, o britânico David Hemmings(1941-2003) no papel do abobalhado revolucionário Dildano, o italiano Ugo Tognazzi(1922-1990) como o caçador Mark Hand, a italiana Anita Pallenberg(1942-2017) na pele da Rainha Negra de Sogo, o americano John Phillp Law(1937-2008) como o anjo Pygar dentre outros e o francês Claude Dauphin(1903-1978)  no papel do Presidente da Terra.

 

Por essa e outras, posso concluir que Barbarella tem seu charme e o seu grau de importância para a cultura pop.

*Esse Claude Renoir que foi o diretor de fotografia de Barbarella  nasceu no berço de uma importante família muito ligada a arte na França. Ele era filho dos atores Pierre Renoir(1885-1952) e Véra Sergine(1884-1946). Era sobrinho do cineasta Jean Renoir(1894-1979) e era neto do pintor impressionista Pierre-Auguste Renoir(1841-1919).


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