Quem
já teve a oportunidade de assistir ao filme BARBARELLA (Itália, França, 1968)
deve bem saber se tratar de um clássico cult idolatrado pelos amantes de ficção
científica, estrelado por Jane Fonda que virou uma símbolo sexual.
Pois
bem, esse filme foi inspirado numa HQ do francês Jean-Claude Forest(1930-1998)
que a publicou em 1962, e cuja inspiração para desenha-la foi na atriz Brigitte Bardot
(1934-2025) na época já uma consagrada musa do cinema.
Ironicamente
quem dirigiu esse filme foi o renomado cineasta francês Roger Vadim(1928-2000)
que dirigiu o célebre E Deus Criou a Mulher (1956) estrelado pela BB.
Curioso não.
Essa HQ com a temática space opera com
pegada de erotismo foi concebida no momento em que o mundo estava de olho com a
corrida espacial e estava a Revolução Sexual.
Publicado
no formato de tirinhas para a Revista
V-Magazine que aqui no Brasil teve algumas de suas edições traduzidas em
português pelo famoso comediante Jô Soares(1938-2022).
Forest a criou bem com uma pegada de
heroína cósmica futurista e com
grande sexy appeal para os leitores,
trazendo muito do reflexo das transformações e revoluções que o mundo estava
passando nos anos 1960. Era a época da Corrida Espacial, que simbolizou bem a disputa
hegemônica política da Guerra Fria entre os EUA e a União Soviética.
Junto a isso estávamos vivendo o movimento da contracultura em várias
manifestações artísticas, foi nessa época
que estava tendo também a luta
pelos direitos civis e pela liberdade sexual.
Foi unindo todas estas características do
momento que o mundo vivia, fora também as outras fórmulas de sucesso,
principalmente da ficção científica que era o gênero favorito do autor, que
adorava ler quadrinhos de Flash Gordon e Buck Rogers, e de tramas bem
aventurescas.
Além
do mote do quadrinho da protagonista ter
característica de ficção cientifica,
outro ponto característico era o seu apelo erótico com perfil até de ninfomaníaca, onde encarava o perigo se
oferecendo para transar, característica está
bem influenciada pelo momento da revolução sexual que o mundo passava.
E pelo traço caracteristicamente
erótico com o estereótipo de loira fatal
com lábio carnudo, que o autor se inspirou para desenhar na bela musa francesa do cinema dos anos 1950/60
Brigite Bardot como já foi descrito no começo do texto. 
Todas estas características foi o que
serviu de base para este filme em questão que literalmente foi uma produção
multinacional franco-italiana.
Além de contar com a direção do
renomado cineasta francês Roger Vadim
como mencionado no começo do texto, o filme teve a produção-executiva do italiano Dino de Lauretiis(1919-2010) um
respeitado empresário do ramo, foi ele quem comprou os direitos de adaptação da obra,
e filmou todas as locações do filme em
seus estúdios em Roma.
O seu roteiro contou com a assinatura
do americano Terry Southern(1924-1995) que dividiu essa função com Vadim.
Foi distribuído mundialmente pela
Paramount Pictures, uma das maiores produtoras de Hollywood. Além de contar com
um impecável trabalho de design visto a
frente do seu tempo para representar uma grande inovação na história do cinema,
cuja direção de fotografia contou com a assinatura de Claude Renoir*(1913-1993),
mas da maneira muito caótica como o
roteiro foi construído, resultou
num grande fracasso de bilheteria.
Dos
9 milhões de dólares gastos na época, só conseguiu arrecadar apenas 2,5 milhões
de dólares, mesmo investindo num
marketing pesado com a protagonista posando nua para a Penthouse, uma equivalente a Playboy
no Reino Unido caracterizada como a personagem. 
Ainda assim não foi o suficiente
para atrair a bilheteria. Somente com o passar dos anos, quando o filme foi
sendo revisitado e redescoberto é que
ele ganhou um grande notoriedade e
reconhecimento a ponto de ser
considerado um clássico cult movie.
Uma
das principais razões para explicar isso pode estar talvez no fato da estética do
filme carregar muitas características referentes as formulas bem clichês de como eram
concebidos os filmes do gênero da ficção cientifica da época.
Que eram tanto na parte técnica visual
cheia das extravagâncias, com uma fotografia que usava e abusava do tom das
cores bem aberrantes para criar um ar bem cartunesco, somados também aos outros
designs toscos de produção como a
criação do disco voador, os efeitos especiais das pistolas a laser, as
caracterizações das criaturas e principalmente os chamativos figurinos
espalhafatosos dos personagens, principalmente dos decotes femininos com toques
bem provocantes, beirando ao ridículo de
tão cafonas, a ponto de mais parecerem umas encenações circenses.
Muito disso pode ter haver com o fato de
que como o gênero da ficção cientifica sempre foi visto como uma maneira
fantástica de diversão escapista, como
refúgio da cruel realidade. Uma imersão da descrença.
O que de certa forma dá para poder
relevar o nível da qualidade brega
explorado neste tipo de produção com os
cenários e os figurinos bem carnavalescos.
O que neste aspecto, o filme Barbarella cumpre bem esta função, já
que a protagonista em diferentes momentos vive trocando constantemente os
figurinos com um tom mais decotado e provocante que o outro, isto pode ser
sentido desde a cena de abertura dela fazendo strip-tease dentro da sua nave em
gravidade zero.
Não só com os figurinos da
protagonista, mas também com os figurinos de outros personagens que vão
aparecendo no decorrer do filme, como do caçador Mark Hand trajando uma espécie
de macacão cheio de penas, que já cria um tom bem extravagante, deixando ele
ficar parecendo um urso gigante, ou mesmo do próprio design de produção de Sogo
que é capenga.
Ao mesmo tempo que ele trabalhou bem,
mesmo com recursos limitados de edição os
elementos de psicodelismo como um bom refúgio da realidade.
Como na cena onde ela invade o local
de sono da Rainha Negra e entra por diferentes mundos, onde podemos apreciar
uns espetáculos visuais de formações geométricas.
Não só o design de produção representa
a maior prova de que o filme seguiu bem esta formula estética comum dos filmes de ficção cientifica da
época.
Como também o próprio formato do enredo com um ar bem
aventuresco e também com uma pegada
detetivesca influenciada pelos filmes de James Bond onde a nossa heroína é incumbida de uma
missão de investigar o sumiço de um astronauta chamado Duran Duran, que da
metade da história temos uma grande
reviravolta dele ser o grande vilão dessa história.
Mesmo apresentando entre seus
maiores problemas:
1)Um texto sofrível cheio de
diálogos bobos e facilmente risíveis, que acaba causando muitas quebras de ritmos narrativos e de tons.
2) Algumas interpretações
sofríveis de atores em personagens muito
bobos ou mesmo bastante deslocados do contexto num filme de ficção cientifica
com ar mais de comédia erótica.
3)A construção do cenário capenga e um tanto
tosco de Sogo.
4) O ato final terminar de uma forma muito
decepcionante, onde o vilão é derrotado sofrendo pelo seu próprio feitiço, com o plano
mirabolante de conquistar Sogo, ele acaba sendo morto pelo raio positrônico,
graças a aliança da heroína com a Rainha Negra de Sogo que sendo destruída pela
catástrofe onde termina com ela e a Rainha sendo salva por Pygar em um final
aberto. 5) O momento bizarro e até vergonhoso de ver a protagonista fazendo uma
espécie de sexo transcendental através de uma pílula de transferência de
exaltação que ela dá para Dildano onde eles transam só encostando as mãos. E nas mãos de Dildano sai um vapor e
ele se descabela completamente para simbolizar a sua excitação.
Enfim, mesmo com todos estes problemas
aqui mencionados, boa parte ocasionados
pela construção caótica do roteiro que foram sendo escritos e reescritos passando por outras
mãos, ainda assim não pode negar que Barbarella representou sim uma
forte contribuição e um grande legado, especialmente para a cultura pop
musical.
A
prova disso está que em 1969, o cantor brasileiro Jorge Ben Jor, quando
assinava apenas como Jorge Ben lançou uma canção intitulada de Barbarella
em referência justamente a essa personagem como nesse trecho:
Na dimensão azul e rosa
Do infinito celestial da quinta galáxia
Quem me dera eu ser intergaláctico
Para estar dormino nas estrelas
Só falando de amor com você
Pois eu sonhei com você,
Barbarella
Pois eu sonhei com você, Barbarella
Cuja sonoridade entra no clima
psicodélico cósmico do filme.
Na
década de 1980, o nome do vilão do filme
Duran Duran interpretado pelo
irlandês Milo O´Shea(1926-2013) inspirou o
nome da banda inglesa de pop
rock e new wave Duran Duran que posteriormente
faria uma canção referente a heroína intitulada de Eletric Barbarella que compõe o repertório do nono álbum de estúdio
da banda Medazzaland, lançado em 1997.
Em 1994, a cantora australiana Kylie
Minogue lançou o videoclipe da canção Put
yourself in my place inspirada na cena de abertura do filme se despindo
completamente em gravidade zero num foguete vagando no espaço.
E como se não bastasse isso, em 2014,
o videoclipe de Break Free da cantora Ariana Grande foi completamente inspirado no
filme, com tudo que se pode imaginar, especialmente na atmosfera aventuresca e
com ela e os figurantes usando os figurinos extravagantes e a cantora encenando a memorável cena da protagonista se despindo em gravidade zero
dentro da nave.
Mesmo que a letra da canção não
tivesse nada a ver com o enredo do videoclipe com toda uma atmosfera cósmica.
Inclusive a parte musical no filme é
fantástica. Contou com a produção de Bob
Crewe(1930-2014), Charles Fox, Michel Magne(1930-1984) e James
Campbell(1931-2010).
Bob Crewe é quem ficou
responsável por tocar na abertura
onde no primeiro trecho a compara com a
Mulher-Maravilha e a definido como uma mulher psicodélica. Também ficou
responsável por cantar Love,Love,Love,
Drags me Downs e a canção de encerramento An Angel is Love
acompanhado da banda The Glitterhouse. Já os outros se encarregaram bem
de produções as músicas incidentais de cada cena, que ficaram incríveis.
Principalmente a cena onde a coitada
da heroína está mantida prisioneira por um bando de pivetes gêmeos bem
endiabrados que a acorrentam num pilar e ligam uns bonecos com dentaduras de
aço para morde-la. E ela vai sendo salva pelo caçador Mark Hand. Entre alguns fatos curiosos sobre a produção
estão:
1) Os figurinos extravagantes
de todos os personagens contaram com dedo de dois nomes importantes da moda,
como o espanhol Paco Rabanne(1934-2023) e do francês Jacques
Fonteray(1918-2013).
2)O nome de SoGo, trata-se de
uma referência a cidade bíblica de Sodoma e Gomorra.
3) O filme apresentou algumas
cenas que precisaram serem cortadas. Dentre essas uma foi a tórrida cena de
beijo da protagonista com a Rainha Negra de SoGo, o que é compreensivo, aquilo
poderia chocar bastante.
Pois o filme por si só já era bem sensualmente
provocante. Já a outra, tipo se a cena dela com Dildano já era muito bizarra,
imagine o quão tosco teria ficado se a mesma com outro ator no papel com a
protagonista completamente pelada. Ai a apelação já ultrapassaria todos os
limites mesmo do aceitável.
De todo jeito, pode-se concluir que o
filme mesmo com todos os problemas que o tornem visto mais como um bom exemplo
de filmes trash, ainda assim não se pode negar a sua grande contribuição para o
cinema.
Talvez não teríamos Star Wars na
década de 1970.
O
seu elenco ele é muito multinacional, como a presença da americana Jane Fonda, filha do grande ator
Henry Fonda(1905-1982) e irmã de Peter Fonda(1940-2019) que na época já figurava como uma sex
symbol de Hollywood estando no auge da
beleza foi a responsável por protagonizar o filme.
Ela não foi a primeira escolha ao
papel, antes foram sondados por outras belas atrizes que também figuravam
como grandes musas que foram as italianas Sofia Loren e Virna Lisi(1936-2014), que
simplesmente recusaram.
Jane Fonda conseguiu bem transmitir em cena ao
desempenhar a personagem todo o ar de sexy appeal, apesar de sofrer um pouco
com o texto bastante fraco, com diálogos muito facilmente risíveis por
apresentar um teor bastante patético de
tanto beirar ao ridículo. Resultado do roteiro caótico, especialmente pela
ideia doida do produtor Dino de Laurentiis
de gravar o filme em duas diferentes línguas sendo que a Torre de Babel já estava feita pela
quantidade de atores de diferentes países que participaram dessa produção, além
da já mencionada Jane Fonda, atriz americana como protagonista.
Dentre as outras participações de
atores multinacionais no filme estavam
do célebre mimico francês Marcel Maceau(1923-2007) como o Professor
Ping, o britânico David Hemmings(1941-2003) no papel do abobalhado
revolucionário Dildano, o italiano Ugo Tognazzi(1922-1990) como o caçador Mark
Hand, a italiana Anita Pallenberg(1942-2017) na pele da Rainha Negra de Sogo, o
americano John Phillp Law(1937-2008) como o anjo Pygar dentre outros e o
francês Claude Dauphin(1903-1978) no
papel do Presidente da Terra.
Por
essa e outras, posso concluir que Barbarella tem seu charme e o seu grau
de importância para a cultura pop.









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