No
dia 31 de Março de 1996, estreava nas noites de domingo da Globo após o Fantástico, o programa
humorístico Sai de Baixo(1996-2002).
O
programa nasceu de uma ideia que o ator Luís Gustavo(1934-2021) junto de Daniel
Filho no começo dos anos 1990, na ocasião em que Daniel se encontrava fora da
Globo.
Havia
sido proposto pelo SBT, que se recusou e então foi parar na Globo.
O
formato do Sai de Baixo, uma sitcom gravada num teatro teve inspiração
no humorístico A Família Trapo (1967-1971) produzida pela RecordTV, cujo
enredo girava em torno de uma família rica formada pelo patriarca Pepino
Trapo(Otelo Zeloni) de sua esposa
Helena(Renata Fronzi), os dois filhos Verinha(Cidinha Campos) e
Sócrates(Renato Corte Real) e do Mordomo Gordon(Jô Soares) lidando com a
presença indesejada de Carlo Bronco
Dinossauro(Ronald Golias), irmão de Verinha que é um típico sujeito de perfil malandro, desagradável,
inapropriado que vive infernizando a vida dessa família.
A
estética desse programa gravado ao vivo e com plateia trazendo um toque bem
teatral foi o que inspirou
posteriormente a estética do Sai do Baixo(Brasil, 1996-2002) produzida
pela Globo nos anos 1990.
Seu elenco também contou com Otelo
Zeloni(1921-1973) no papel do patriarca Pepino Trapo, Renata Fronzi como a
matriarca Helena Trapo e no papel dos dois filhos do casal: Renato Corte Real(1924-1982) como o Sócrates
Trapo e Cidinha Campos como Verinha Trapo que até esse momento em que escrevo
esse texto ela figura como a única atriz viva que compunha o elenco fixo da
série.
Pois
bem, foi dessa forma que originou o programa humorístico do Sai de Baixo,
cujo enredo girava em torno do apartamento do Arouche, que é onde reside um
senhor chamado Vanderley Mathias ou como é mais popularmente conhecido pelo
apelido de Vavá(Luís Gustavo), é nesse apartamento que também funciona o
escritório da sua agência de turismo chamada de VaváTur.
Vavá
é um senhor solteirão que não tem filhos, convive em seu apartamento com a
empregada desbocada da Edileusa(Claudia Jimenez) e com o porteiro Ribamar(Tom Cavalcanti), namorado de Edileusa,
um sujeito bem tresloucado que parece não regular bem da cabeça.
Mas
o que vai mesmo tirar o sossego de Vavá vai ser quando repentinamente aparece
em seu apartamento de mala e cuia na mão, a sua
irmã Cassandra Mathias Salão(Aracy Balabanian), uma senhora dondoca viúva de um
brigadeiro que vem acompanhada de sua desmiolada filha Magda(Marisa Orth) e de
seu genro mau caráter Caco Antibes(Miguel Falabella).
A
razão para eles viverem de favor com Vavá foi: “Por necessidades
financeiras, Cassandra, juntamente com sua filha Magda e o marido dela, Caco
Antibes, são obrigados a pedir abrigo na casa de seu irmão Vavá. Obrigado,
moralmente, a recebê-los, Vavá, sua empregada Edileusa e o namorado dela, o
porteiro Ribamar, fazem de tudo para tornar a vida de seus hóspedes
indesejáveis um inferno.
No
entanto, quem passa a viver um inferno é Vavá, pois sua família não tem o menor
problema em se recusar a ajudar nas despesas da casa procurando emprego. Ao
contrário, para evitar o trabalho, Caco sempre surge com ideias mirabolantes de
ganhar dinheiro fácil.”
(Site
Teledramaturgia).
O
Sai de Baixo teve suas filmagens gravadas com plateia dentro do Teatro Procópio Ferreira* localizado na Rua
Augusta em São Paulo, que agora no
começo de 2026 foi demolido e contou
na sua vasta equipe de roteiristas com
Maria Carmen Barbosa**(1946-2023), Noemi Marinho, Flávio de Souza, José Antônio
de Souza dentre outros. Com redação-final assinada por Flávio de Souza, Claudio
Paiva, Juca Filho e Mauro Wilson.
E
teve sua direção creditada a diferentes diretores ao longo de suas seis
temporadas dentre eles estão: Cecil Thiré(1943-2020), Dennis Carvalho(1947-2026),
José Wilker(1944-2014), Jorge Fernando(1955-2019) dentre outros.
“As
gravações aconteciam às terças e quarta-feiras no Teatro Procópio Ferreira, em
São Paulo, em duas sessões: uma às 20 horas e a outra às 22 horas. Os ensaios
de cada episódio começavam às 13 horas, no próprio dia da gravação. Cada
episódio era gravado duas vezes, e na edição do humorístico eram misturadas as
melhores imagens de cada gravação.
A
primeira sessão era considerada um ensaio geral, já que, na maioria das vezes,
tanto a plateia quanto o elenco estavam mais esquentados na segunda sessão.”
(Teledramaturgia).
Também
contou com o envolvimento do músico Caçulinha(1938-2024), que nessa época
integrava o elenco do Domingão do Faustão(1989-2021) que fazia as
músicas incidentais.
O
Sai de Baixo estreou nas noites de domingo com a dura tarefa ingrata de
encarar o Topa Tudo por Dinheiro, programa apresentado pelo pioneiro da
televisão brasileira Silvio Santos(1930-2024) no SBT.
Isso
porque até aquela primeira metade da década de 1990, a Globo vinha sofrendo
duras derrotas contra Silvio Santos naquela noite dominical.
O
Saí de Baixo soube como explorar um estilo de comédia textual, onde o
elenco sabia mostrar ser bem afiado para encarar momentos de improvisos,
trazendo abordagens do cotidiano tipicamente brasileiro com pitadas de erotismo
na entrelinhas do texto.
O elenco dessa obra contou com a
participação de muitos atores feras, um elenco primoroso formado por: Luís
Gustavo, já saudoso que foi o idealizador do projeto, ele que já era um
dinossauro da televisão brasileira.
Nascido
na Suécia, filho de diplomata espanhol que se mudou para o Brasil quando ele
era ainda garotinho com cinco anos, Luís
Gustavo acompanhou o surgimento da televisão, começou como contrarregra no
rádio onde lá teve o intermédio de seu cunhado Cassiano Gabus
Mendes(1929-1993), que o convidou para participar de muitas das novelas que ele
escreveu.
Dentre
as mais marcantes novelas que ele estrelou está Beto Rockfeller***(1968-1969)
da extinta Tv Tupi, escrita por Bráulio Pedroso(1931-1990) que marcou a
história da teledramaturgia brasileira.
No
Saí de Baixo ele mostrou uma brilhante defesa do Vavá, um sujeito mau
humorado que comanda em seu apartamento uma agência de turismo, onde tem de
lidar com a presença indesejável de sua família desajustada e folgada, e lidar
com dois empregados doidos de pedras.
Outro
nome veterano presente no elenco do Saí de Baixo e que também já partiu para o plano espiritual
do mesmo jeito de que Luís Gustavo é Aracy Balabanian(1940-2023) representando
a Cassandra, a irmã do Vavá, uma senhora que mesmo vivendo de favor na casa do irmão, ainda
mantém sua postura de dondoca posuda, perfil típico de uma madame coroca
símbolo da tradicional elite paulista quatrocentona.
Uma
atriz que aquela altura já acumulava um extenso currículo em novelas desde os
primórdios da televisão brasileira e também participou de cinema.
Do
mesmo modo vale mencionar a presença de Miguel Falabella como o Caco Antibes,
aquele tipo bem repugnante com ar egocêntrico, narcisista, que representa
aquele típico perfil de pessoa com pedigree que dizia carregar uma ascendência nobre dinamarquesa, mas que no
fundo não passava de um sujeito com complexo de superioridade sociopática, um
verdadeiro canalha para enganar muita
gente e tentar passar a perna em todo mundo na malandragem.
O
ator começou sua carreira nos anos 1980, fazendo parte das encenações do
importante movimento teatral que ficou popularmente conhecido como teatro
besteirol, foi lá que contracenou com muitos atores que ingressaram na
televisão na década de 1980 assim como ele, cujo primeiro trabalho televisivo foi na novela Sol de Verão(1982-1983) e
foi também na década de 1980 que ele ficou marcado por comandar o extinto Vídeo
Show(1983-2019) onde comandou a atração por longos 14 anos entre 1987 a
2001.
Suas
performances ao lado de Marisa Orth fazendo a Magda com o bordão do “Cala a
Boca, Magda”, tornam esse momento dos mais memoráveis.
Aliás,
Marisa Orth em cena como Magda também se mostra incrível e com sua química e
entrosamento com Miguel Falabella. A maneira como ela incorpora em cena a
figura da Magda com sua atraente beleza, mas com um perfil de mulher sonsa
falando errado as colocações das palavras que beira a infantilização faz uma
representação bastante impagável.
Ela
que começou sua carreira na televisão
integrando o elenco do programa infanto-juvenil Revistinha(1987-1990) na
Tv Cultura e em seguida integrou o elenco da novela Rainha da Sucata(1990)
representando a Nicinha como pode ser conferido em reprise no Vale a Pena
Ver de Novo. Figurando como um novo talento
que estava despontando na televisão brasileira no começo da década de
1990.
Antes
do Saí de Baixo ela participou de um episódio da série infantil Mundo
da Lua(1991), uma co-produção da Tv Cultura e da Rede Globo. Em 1992,
integrou o elenco da TV Pirata em sua temporada final, fez a Valquíria
na novela Deus nos Acuda(1992-1993). Em seguida participou de um
episódio do Caso Especial no episodio O Alienista exibido em 1993
e de episódios da Comédia da Vida Privada(1995-1997) e do Você Decide(1992-2000)
durante o ano de 1995.
Até
conseguir um grande destaque e popularidade representando a Magda no Saí de
Baixo, que como eu bem já descrevi a maneira como ela em cena a representava como uma mulher de beleza atraente, mas de
perfil um tanto patética beirando a
infantilidade, principalmente em sua ingenuidade nonsense e com certo ar de
ninfomaníaca onde ela imprimiu aquele toque de sex appeal na personagem que a
fez tornar uma sex symbol posando até nua para a capa da extinta revista
Playboy em Agosto de 1997.
A
maneira como ficava subentendido as piadas de cunho erótico deles, era
mencionando a frase do Canguru
Perneta, que foi uma criação do próprio Miguel Falabella para rimar com
"ganso de jaqueta" e tornou-se uma piada recorrente sobre uma suposta
posição sexual exótica, frequentemente mencionada com tom cômico.
Assim
como também brilham na série Tom
Cavalcante como Ribamar, o porteiro
completamente sem nenhum parafuso na cabeça do Prédio do Arouche. Ele que
iniciou carreira como apresentador no final dos anos 1980, apresentando o Nordeste
Rural e o telejornal VM Notícias, produções locais de sua terra
natal, o Ceará pela TV Verdes Mares, uma afiliada cearense da Rede
Globo.
Foi
no final dos anos 1980, que ele teve contato com seu famoso conterrâneo Chico Anysio(1931-2012) que o
convidou para integrar o elenco do Chico Anysio Show e depois para a Escolinha
do Professor Raimundo e em Estados Anysios de Chico City, onde ele
apresentou o seu famoso personagem João Canabrava, um sujeito bebum.
Pode-se
dizer que muito da carreira de Tom contou com o certo apadrinhamento de Chico
Anysio.
Ele
em cena como Ribamar incorpora bem a sua
essência hiperativa que o tornava bem pitoresco.
E
por fim, a última menção do elenco fixo vai para a saudosa Claudia
Jimenez(1958-2022) como a Edileusa, em cena a maneira como ela representou a
tagarela desbocada foi surpreendente.
Ela
que começou fazendo uma participação no primeiro episódio do seriado Malu
Mulher(1979-1980) e ao longo da década de 1980 se destacou em programas de
humor, onde mostrou um bom traquejo para trabalhar um estilo de humor próprio
sem muito filtro.
No
seriado o seu desempenho como Edileusa foi magnifico, principalmente pelas
interações com Falabella, ela que só esteve presente só na primeira temporada
em consequência de sua saída foi motivada pelo incomodo com as piadas
gordofóbicas a respeito do seu peso que os roteiristas colocavam nas falas do
personagem.
O
que ocasionou de ao longo dos seis anos que o programa durou no ar até chegar
ao fim no dia 31 de Março de 2002 em diferentes mudanças de empregadas na
família do Arouche, “Lucinete, vivida por Ilana Kaplan, atriz de teatro gaúcha
que deixou um papel na novela O Amor Está no Ar(1997) para entrar no Sai
de Baixo. Porém, no ar, não agradou e participou de apenas quatro
episódios.
Sua substituta foi Márcia Cabrita(1964-2017), amiga de Miguel Falabella e desde
o início sua indicação. A nova empregada, Neide Aparecida, ficou no elenco até
a licença-maternidade de Márcia, em setembro de 2000.Sua substituta foi Cláudia
Rodrigues, que entrou com uma personagem que já fazia parte de seu repertório:
a desbocada Sirene, que permaneceu até o final do programa.”
(Teledramaturgia).
Fora
que também ficou marcado pelos conflitos de bastidores, que foram resultando em
algumas mudanças de formatos.
Em
1999, o elenco fixo sofre outro desfalque com a saída de Tom Cavalcante que
naquele momento ele “negociava com a direção da Globo sua liberação do Sai
de Baixo para um programa solo, que viria a ser o Megatom.
De início, Tom faria os dois programas simultaneamente. Porém, acabou
resolvendo antecipar sua saída do Sai de Baixo intempestivamente,
durante a gravação do episódio “Emergente como a Gente” (exibido em
13/06/99). Tom não voltou mais ao elenco e quase ficou sem seu Megatom,
que estreou apenas em 2000 (sendo extinto poucos meses depois). Entre 2002 e
2004, o porteiro Ribamar foi integrado ao repertório de Tom, fazendo parte do
humorístico Zorra Total. Ribamar também apareceu em programas de
Tom no canal Multishow.”
Durante
a temporada de 1999, “Marisa Orth engravidou durante a terceira temporada – e,
com ela, Magda. Caco Antibes Jr., ou melhor, o Caquinho, passou a fazer parte
do elenco em 1999. De início, por meio de um boneco bebê computadorizado,
movido por controle remoto e com a voz do dublador Mário Jorge de Andrade (que ficava na plateia). Houve até o
lançamento de uma réplica do boneco em lojas de brinquedos. Em outubro daquele
ano, o boneco “cresceu” e foi trocado pelo menino Lucas Hornos (então com 9
anos), que participou esporadicamente do programa até agosto de 2000. Hornos
teve de deixar o elenco por pressão do Juizado de Menores, na mesma época em
que a novela Laços de Família passou por problemas similares com os menores de
seu elenco.”
(Teledramaturgia).
Durante
a “temporada de 2000, entraram para o
elenco Ary Fontoura (Pereira) e Luís Carlos Tourinho (Ataíde). Pereira passou a
ser o affair de Cassandra e deixou o elenco no fim do mesmo ano. Ataíde
passou a ser o porteiro do prédio, assumindo a antiga função de Ribamar.”
(Teledramaturgia).
“Uma
das marcas do Sai de Baixo era o improviso constante dos atores
durante os episódios. Eles podiam se dirigir às pessoas da plateia e aos
integrantes da equipe técnica, ou mesmo provocar o companheiro de
cena. Miguel Falabella era um especialista nisso. Nas discussões
entre Caco Antibes e Cassandra, por exemplo, ele podia dizer os maiores
absurdos para Aracy Balabanian, chamá-la de cabeção, “Cascacu”, exaltar
seu laquê e até mesmo elogiar debochadamente da aparência de Cassandra: “Você
está um espetáculo hoje. Olha que cútis maravilhosa!”, ou simplesmente a beijar
na boca. Falabella gostava ainda de revelar ao público “histórias secretas” da
atriz, tudo devidamente distorcido. Até as participações dela em Vila
Sésamo eram lembradas. Aracy Balabanian contou que vivia explicando
às pessoas que essas loucuras eram apenas improviso, e que, longe das câmeras,
os dois eram amigos. Quando Falabella esquecia o texto, declamava a clássica
poesia infantil: “batatinha quando nasce, esparrama pelo chão. Isso tudo eu estou
falando porque o texto não me vem na hora”.”
(Memória
Globo).
O
programa também contou com muitas participações especiais de personagens que
apareciam para visitar a família do Arouche, que ajudavam a dar uma movimentada
na trama, uma dessas participações bastante lembradas “foi a de Dercy Gonçalves(1907-2008),
no episódio “A Estátua da Libertinagem”, exibido em 08/09/1996. A
escrachada atriz viveu Dona Leopoldina, mãe de Vavá e Cassandra, e chegou até a
mostrar os seios em cena. A participação chegou a suscitar debates sobre a
baixaria na TV, inclusive porque foi exibida no mesmo dia em que o Domingão
do Faustão mostrou o Latininho***, um adolescente com uma rara síndrome que
“imitava” o cantor Latino.”
(Teledramaturgia)
O sucesso dos episódios reunion levou a Globo a exibi-los na TV aberta, entre 03 e 24/11/2013, aos domingos após o Fantástico, no mesmo horário que o Sai de Baixo original.”
Em
2019, o Saí de Baixo ganhou uma adaptação para cinema em 2019, com roteiro de Miguel Falabella e
direção de Cris D´Amato, com parte do elenco original incrementado com outros
atores.
O
Sai de Baixo foi um programa de humor inigualável.
P.S. O nome Sai de Baixo antes de ser o título do programa humorístico da Globo nos anos 1990, já foi título de um filme de comédia brasileira lançada em 1956, que foi uma produção em preto e branco da Cine Filmes e da Produções Cinematográficas Herbert Richers S.A.
Do produtor brasileiro Herbert
Richers(1923-2009), a mesma ligada a dublagem da qual virou uma forte marca. E
teve a direção e roteiro escrito pelo croata-brasileiro Josip Bogoslaw Tanko
que assinava como J.B.Tanko(1906-1993). O enredo desse filme não tinha nada a
haver com o famoso humorístico da Rede Globo que carregou esse título que se
refere a expressão coloquial brasileira usada para avisar alguém que se afaste,
saia da frente ou se proteja de um perigo iminente. Também funciona como gíria
para "saia da frente" ou "saia do caminho".











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