quarta-feira, 4 de março de 2026

30 ANOS DA ESTREIA DA NOVELA QUEM É VOCÊ

 

No dia 04 de Março de 1996, estreava em cartaz na Globo no horário das seis, a novela Quem é Você(1996).



Essa novela foi concebida com argumento de Ivani Ribeiro(1922-1995), que começou a desenvolver sua escrita em 1993.  Mas que foi engavetada, “O título original era Caminho dos Ventos. Passados oito meses da morte de Ivani (em 17/07/1995), a trama foi retomada e ganhou novo título: Quem é Você. No lançamento da novela, foi feita uma homenagem à autora.

(Nilson Xavier no site teledramaturgia)

A escolha do título “alude a uma série de segredo, as verdadeira faces  das personagens da história”.

(Fábio Costa no canal Observatório da TV com o título O TBT da TV relembra a novela Quem É Você, que completa 25 anos, publicado em 16 de Abril de 2021).




A autora já era um nome veterano da televisão desde seus primórdios nos anos 1950, foi daquela primeira geração de roteiristas que estavam começando a escrever naquele formato experimental que era a televisão, e boa parte era oriunda do rádio. Ela foi contemporânea de Janete Clair(1925-1983), Dias Gomes(1922-1999), Cassiano Gabus Mendes(1929-1993), Manoel Carlos(1933-2026) dentre outros.

Ela já teve passagens por outras emissoras e havia ingressado na Rede Globo  no começo da década de 1980.

A primeira novela que ela escreveu ao ingressar  na Globo  foi Final Feliz(1982-1983),que foi a única trama original que ela escreveu na emissora, já que as que vieram em seguidas foram remakes de sucessos que ela já havia escrito em outras emissoras como: Amor com Amor se Paga(1984), um remake de Camomila e Bem-Me-Quer(1972-1973) da Tupi, A Gata Comeu(1985) um remake de A Barba Azul(1974) também da Tupi, Hipertensão(1986) um remake de Nossa Filha Gabriela(1971) também da Tupi, O Sexo dos Anjos(1989-1990) um remake de O Terceiro Pecado(1968) da Excelsior, Mulheres de Areia(1993), um remake da novela de mesmo nome exibido na Tupi em 1973 onde ela inseriu um entrecho de outra novela sua O Espantalho(1977) pela Rede Record e A Viagem(1994), remake da novela de mesmo nome exibido pela Tupi em 1975. 

E o argumento que ela desenvolveu para essa novela foi original, não foi baseado em nenhum remake, ela começou a escrever em 1993, chegou a apresentar para a direção da Globo que não aprovou, ficou engavetado.

Depois que foi aprovado, Ivani Ribeiro antes de falecer no dia 17 de Junho de 1995, por insuficiência renal, ela era diabética. Ela deixou pronto alguns capítulos e deixou para Solange Castro Neves que foi sua colaboradora em Mulheres de Areia e A Viagem para escrever os capítulos da novela, que marcou o seu trabalho póstumo.

O enredo dessa novela girava em torno do conflito das irmãs Maria Luísa(Elizabeth Savalla) e Beatriz(Cassia Kiss), que nutrem uma relação complicada com o pai Nelson(Francisco Cuoco) que as abandonou na infância para viver com outra mulher. O que causou indiretamente a morte prematura da mãe delas.

“Maria Luísa passou a refugiar-se em um mundo de fantasia e a venerar o pai. Já Beatriz reprimiu seus sentimentos e defende-se para que não aconteça com ela o mesmo que ocorrera à mãe. A primeira tem o afeto do marido Afonso(Alexandre Borges)  e a superproteção do pai. E a segunda vive às voltas com a solidão.

Na década de 1970, durante um baile de máscaras em Veneza, Maria Luísa anuncia que está grávida. Porém, Afonso  pensa que o filho é fruto de uma traição e se vinga, tendo relações sexuais com uma mulher mascarada. Nove meses depois, Beatriz tem um filho, mas esconde a identidade do pai, que pode ser o marido da irmã.

No tempo presente, Beatriz declara à irmã que seu filho, Cadu(Pedro Brício), é filho de Afonso. Traumatizada com a revelação, Maria Luísa tem um surto de ausência. O problema se agrava com o aparecimento de Cíntia(Luiza Thomé), uma corredora de Fórmula 1 por quem Afonso fora apaixonado na adolescência e que está de volta para lutar por ele.

Todavia, o perigo maior ainda é Beatriz, que se aproveita da crise no casamento da irmã e de sua doença para convencer Afonso a interná-la em uma clínica, deixando o caminho livre para os dois. Maria Luísa não perdoa a traição do marido. Apesar de amá-lo, foge ajudada por Gabriel(Paulo Gorgulho), um homem misterioso apaixonado por ela.”

(Teledramaturgia).

Essa novela que foi concebida por Ivani Ribeiro antes de falecer, coube a Solange Castro Neves a dura tarefa de escrever os capítulos da novela durante os sete meses de duração dessa novela que chegou ao fim no dia 7 de Setembro.

Ela contou com o auxílio de Lauro César Muniz, outro veterano autor de novelas da velha guarda desde os primórdios da televisão brasileira, que  foi o supervisor do texto da novela. Quem assinou a direção foi o saudoso Herval Rossano(1935-2007), ator de longa carreira no cinema e na televisão, e foi na televisão dirigindo novelas que ele consolidou uma brilhante carreira.

Solange Castro Neves escreveu “apenas os 24 primeiros capítulos (um mês de novela). Diante da pouca repercussão da trama e, ao desentender-se com Lauro César Muniz, então supervisor de texto, foi afastada para que ele prosseguisse com os trabalhos. (“O Globo”, 24/03/1996, pesquisa: Sebastião Uellington Pereira)”

(Teledramaturgia).

Pelo que a Solange Castro Neves  declarou anos depois  aos jornalistas Flávio Ricco e José Armando Vanucci para o livro Biografia da Televisão Brasileira(Editora Matrix, 2017):

“Eu estava acostumada a trabalhar com pessoas que conheciam o meu estilo e o respeitavam, além da grande confiança mútua. Quando comecei a escrever, senti-me de certa forma órfã de pai e mãe. A Globo estava passando por uma enorme mudança com a saída do Boni, e Ivani, Cassiano [Gabus Mendes] e Paulo Ubiratan haviam falecido”.

Por conta de todo esse problema envolvendo o fator audiência fez com que essa novela acabasse não conseguindo fazer sucesso e virou um fracasso.

Um dos pontos que foi bastante criticado pela imprensa na época foi quanto a escalação de Alexandre Borges para protagonizar o Afonso, ainda mais pelo fato de sua pouca idade na época com apenas 29 anos ao ser escalado para representar um homem de meia-idade que na história central era disputado por duas irmãs que eram representados por atrizes mais velhas que ele.

Por exemplo: Elizabeth Savalla que fazia Maria Luísa era doze anos mais velha que Alexandre Borges e Cassia Kis que vivia a Beatriz era só  seis anos mais velha que Alexandre Borges. Fora o fato dele já ser pai de um filho rapagão,  o Mauricio vivido pelo estreante Thiago Picchi, que era filho na vida real de Elizabeth Savalla que viveu sua mãe na novela que na ocasião estava com apenas 19 anos e era o suposto pai do jovem Cadu, filho da Beatriz,  vivido pelo também estreante  Pedro Brício que estava com 24 anos.

Ainda mais levando em conta que naquele momento ele era um ator que havia ingressado na TV fazia pouco tempo. Seu primeiro trabalho foi em Guerra Sem Fim(1993-1994) exibida na extinta Rede Manchete.

Só ingressou na Globo a partir da minissérie Incidente em Antares(1994) onde representou o Padre Pedro Paulo nessa adaptação de Nelson Nadotti e Charles Peixoto do romance homônimo de Érico Verissimo(1905-1975).

Durante o ano de 1995, ele emendou participações em Engraçadinha(1995), minissérie adaptada do romance do controverso Nelson Rodrigues(1912-1980) onde ele representou Luís Claudio que fez a memorável cena picante com a protagonista na chuva. Também participou de um episódio de A Comédia da Vida Privada*(1995-1997) e do Você Decide(1992-2000) e em  A Próxima Vítima(1995) vivendo o gigolô Bruno, um amante que não valia nada da Romana Ferreto(Rosa Maria Murtinho).

Realmente gera uma estranheza vê-lo em cena nessa novela com apenas 29 anos representando um personagem central que era um homem de meia-idade sendo disputado por duas irmãs que eram representadas  por atrizes mais velhas que ele, e pude constatar isso quando recentemente eu revisitei o primeiro capitulo completo disponível no Youtube, eu conferi na época que passou, era bem moleque e não havia percebido nada de tão estranho.  

Ao contrário dessa revisitada três décadas depois  onde a   estranheza fica perceptível quando a gente observa o aplique que a produção usou para grisalhar os fios de cabelos do ator para fazê-lo parecer um cara de meia-idade, o que terminou  não convencendo a ponto da coisa ficar falsa, nem mesmo ele naturalmente barbudo consegue convencer representando um cara de meia-idade nessa novela.

Aliás, sobre o elenco que essa novela contou, há de mencionar as participações de Júlia Lemmertz, com quem Alexandre Borges já era casado e haviam se conhecido quando participaram de Guerra Sem Fim na Manchete,  que apesar de estar na mesma novela, mas não faziam parte do mesmo núcleo.

Na novela, ela representou Débora, uma produtora de vídeo, cujo sócio é seu marido Túlio que foi vivido pelo saudoso Cecil Thiré(1943-2020), um sujeito que tinha um estilo peculiar de comédia que envolvia a sua vaidade em esconder a careca usando uma peruca.

Aliás, um fato curioso envolvia a coincidência de ambos, apesar da diferença de idades de vinte anos, sendo Cecil mais velho vinte anos do  que sua colega de cena  Júlia, mas os dois carregavam o talento no DNA. Sendo Júlia dos seus pais, os atores Linneu Dias(1927-2002) e Lillian Lemmertz(1937-1986) e Cecil de sua mãe, a atriz  Tônia Carrero(1922-2018).

A novela também contou com um núcleo de personagens cômicos  que viviam na Casa de Repouso comandada por Beatriz, gente idosa representada por veteranos da atuação  como: Castro Gonzaga(1918-2007), que representou o Arquimedes que era tio das protagonistas, Eva Todor(1919-2017) como Augusta que no primeiro capitulo aproveita o incêndio para fugir a procura de sua  filha, Eloisa Mafalda(1924-2018) como Kitti que chega a dirigir seu irreverente carro rosa acompanhada do jardineiro  Bartô(André Valli) para irem  atrás de Augusta no primeiro capítulo.

Também contou com Alberto Pérez(1924-2002) como Vô Samuca com seu amigo imaginário Simão, Vanda Lacerda(1923-2001) como Anita, Norma Geraldy(1907-2003) como Carlota, Lafayete Galvão(1935-2019) como Hamilton e Ênio Santos(1922-2002) como Ladislau dois músicos que são amigos inseparáveis, Ruth de Souza(1921-2019) como Isolina uma pianista que já teve fama mundial.

Grande parte destes já são  todos falecidos no passar dessas três décadas após o lançamento dessa obra até o momento em que escrevo esse texto, do mesmo modo que já são falecidos o já citado Cecil Thiré que fez o Túlio, Francisco Cuoco(1933-2025) que vivia o Nelson, pai das protagonistas, Dirce Migliaccio(1933-2009), o irmão de Dirce, Flávio Migliaccio(1934-2020) que na novela representou o motorista de Maria Luísa Jacinto,   André Valli(1945-2008) como o Bartô, o jardineiro da Casa de Repouso e Lídia Matos(1924-2013) como Dona Mimi.

A novela também tinha o núcleo da família do imigrante russo Sacha(Jonas Bloch) que era dono de um restaurante de culinária russa. Nesse seu núcleo familiar era formado pela sua  ex-mulher Valentina(Sílvia Bandeira), está disposta a reconquistá-lo, os filhos Iuri(Marcelo Serrado), amigo de Maurício que vive um amor platônico pela mãe dele, Maria Luísa,
e Irina(Rita Guedes), que se envolve com Maurício mas se apaixona por Cadu
a irmã Tânia(Sandra Barsotti), sócia de Beatriz num herbário, envolve-se com Nelson e
a prima Nádia(Helena Fernandes), apaixonada por ele.

Essa novela deu o azar de estrear em uma semana muito complicada onde boa parte da população brasileira  estava muito comovida e de luto  com a cobertura da imprensa com a trágica morte  do irreverente conjunto musical Mamonas Assassinas ocorrido na noite de sábado, 02 de Março em consequência do acidente aéreo na Serra da Cantareira em Santos-SP, quando eles estavam retornando da última apresentação em Brasília-DF e se preparando para a turnê internacional em Portugal.

Um fato curioso diz respeito a sua abertura, que mostrava um baile de máscaras venezianas ao som da famosa  canção de carnaval  Noite dos Mascarados  de autoria de  Chico Buarque lançada em 1975  que para a novela a canção foi interpretada por Emilio Santiago(1946-2013), ela foi bem escolhida, já que seu primeiro refrão traz a frase título da novela:

- Quem é você?

- Adivinha se gosta de mim

Hoje os dois mascarados procuram os seus namorados perguntando assim:

- Quem é você, diga logo...

- ...que eu quero saber o seu jogo

- ...que eu quero morrer no seu bloco...

- ...que eu quero me arder no seu fogo.

“Sobre a abertura, o designer gráfico Hans Donner narrou em seu livro “Hans Donner e seu Universo” que Boni (José Bonifácio de Oliveira Sobrinho) ficou encantado com as imagens e perguntou qual software havia sido usado para reproduzi-las. Donner então explicou como foi feita:
“Não é computação gráfica. Mandei construir uma piscina rasa, formando um espelho de água, e gravei as pessoas usando as máscaras, refletidas na superfície, com a câmera de cabeça para baixo, para desfazer a inversão das imagens. As distorções foram produzidas por pequenas ondas que provocamos na água.””

(Teledramaturgia).

Fora que também simbolizou está muito bem ligado a trama central, já que no primeiro capítulo mostra Maria Luísa organizando em sua mansão uma festa de mascarados venezianos lembrando do Carnaval em Veneza de quando participou  há vinte anos,  para celebrar o aniversário do seu filho e é lá que ela ouve de sua irmã Beatriz a confissão de que seu filho Cadu era filho de Afonso.

A logo da novela trazia uma mascara de carnaval. 

*Essa série foi inspirada nas crônicas do escritor Luís Fernando Verissimo(1936-2025) que era filho do escritor Érico Verissimo.


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