quinta-feira, 2 de julho de 2026

EM MEMÓRIA DE JASPION

 

Na manhã de quinta-feira, 2 de Julho de 2026, acordei pegando o meu smartfone me deparando com a triste notícia do falecimento do ator japonês Hikaru Kurosaki nome artístico de Seiki Kurosaki, o protagonista do Jaspion.






O ator tinha 64 anos, a causa de sua morte não foi revelada, quem anunciou sua morte foi Masaki Sekiguchi, um amigo próximo que passou a trabalhar para ele após o ex-ator se mudar para Okinawa onde passou a fazer carreira como instrutor de mergulho e administrando uma empresa chamada de Mother Earth. Isso muito tempo após ele ter deixado o meio artístico depois que a série chegou ao fim no Japão.

 

 

Nas palavras de Sekiguchi:

Mesmo sem precisar expressar isso em palavras, havia uma relação de apoio mútuo, em que a simples presença de cada um servia de sustentação para o outro. Por isso, sua partida é profundamente lamentável. Que ele descanse em paz…”

(Trecho tirado do site UOL).

Antes de protagonizar a série do Jaspion, o ator já tinha participado de outras produções do gênero tokusatsu como um suit actor, um dublê por trás das fantasias em produções não-creditadas, já tinha participado de uns filmes de ação e tinha também participado de dois episódios de Choudenshi Bioman(1984-1985) onde representou o Shouta Ishimori que é usado por Gear para virar um guerreiro malvado acreditando que iria virar um sexto Bioman.   Foi lá que ele conheceu a atriz Yûko Asuka(1957-2011) que na série representou a Farrah, uma androide que era membra do Big Three do malvado Império Gear com quem casou e viveu junto com a atriz até ela falecer em 2011, mas não tiveram filhos.




Para mim que tenho uma forte memória afetiva com Jaspion, cresci assistindo a série quando passou na extinta Rede Manchete no final dos anos 1980, é um pouco difícil digerir essa notícia, fica meio que a sensação de vazio, já que foi com Jaspion que eu aprendi a nunca desistir mesmo enfrentando os obstáculos da vida real, ainda mais vindo de um rapaz órfão que não ficava na postura de coitadismo, ele lutava por um mundo melhor, coisa que nossos benfeitores da vida real normalmente decepcionam.




A maneira como ele encarava os monstros gigantes, tinha muito da essência de Davi versus Golias, é bem nessa estrutura campbeliana da jornada heroica.  


 Kurosaki em Bioman como Shota




Aliás, muita coisa de referência bíblica a série carrega, investigava uma profecia da Bíblia Galáctica. Que comentava do grande mal no universo. Representado por um ser demoníaco, fruto das energias negativas do Universo chamado de Satan Goss. 

 
 Tadashi Kamitani o dublê do Jaspion no Circo Show em entrevista com Jô Soares. 

Esse fator   acredito eu seja o mais obvio para explicar o porquê do herói ser tão querido pelos brasileiros, seja o fato da série apresentar muitas referências ligadas ao cristianismo. Visto que maior parte da população brasileira é católica. Um contraste em relação com a população japonesa cujos praticantes do catolicismo são menor, maior parte deles são xintoístas.

 Isto pode ser sentido pelo próprio Jaspion simbolizar bastante o arquétipo do salvador vindo do céu, destinado a proteger a Terra do mal.

A figura messiânica do profeta Edin também carrega esta simbologia cristã ocidental. Do mesmo modo quando ele fala da profecia da Bíblia Galáctica, se referindo ao Velho e o Novo Testamento Cristão. O Pássaro Dourado ser despertado pelas cinco crianças irradiadas pela luz de Nosso Senhor e Jaspion ser o escolhido para acabar com o Satan Goss e seu exército de asseclas comandado pelo seu filho MacGaren também tem essa referência cristã ao capiroto e seu exército da religião cristã ocidental.

Do mesmo jeito que a trama trabalhou bem as camadas de evolução do personagem. Que na primeira metade da série agia muito abobalhado e imaturamente, sendo até grosseiro com a androide Anri.  A partir da segunda metade, passa a ter um perfil mais sério e mais focado na sua missão. Na sua jornada de defender a Terra de ser dominada pelo império demoníaco de Satan Goss para criar aqui o seu Império dos Monstros. 

Visto que entre os japoneses mesmo, eles não carregam tão forte memória afetiva por Jaspion como nós brasileiros, um pouco disso consequência do fato da série foi se apresentando muito Frankestein ao longo dos seus 46 episódios. Cuja direção foi revezada com três diretores: Yoshiaki Kobayashi, Akihira Tojo e Takeshi Ogasawara(1941-2011).

 Nos três primeiros episódios nós acompanhávamos a jornada aventuresca do herói numa estética de space ópera onde mostrava ele enfrentando o monstro da vez enviado por Satan Giss num planeta diferente.

 A partir do episódio 4 quando passam a estabelecer na Terra a gente vai se deparando com outros Frankestein como as mudanças no corte de cabelo do Jaspion que foi modificando a personalidade dele. O Satan Goss que antes não verbalizava, passa a verbalizar quando entra a Kilza para ressuscitar o MacGaren para deixa-lo mais forte, ainda mais quando ele muda o visual usando uma túnica de imperador romano com um capacete brega.

Tudo isso em alguns momentos criou furos de roteiro, como o fato de por exemplo, no começo do episódio 18 quando mostra Jaspion acompanhado de Kanoko e Kenta sem a presença do pai Nambara.

Ele nota e pergunta pela primeira vez sobre a ausência da mãe deles, que faleceu quando Kenta era bebê, sendo que quatro episódios antes que eles os conheceu já devia ter percebido isso.

E o Guila, o assassino contratado por MacGaren para eliminar Jaspion no episódio 21 será que ele morreu na caverna quando a base de MacGaren foi destruída pelo Daileon?

 E como não só a audiência, mas a venda de brinquedos não foi satisfatória, visto que é bom a gente ter um pouco desse discernimento ao criticar essas produções como infantilizadas demais, e ter um afastamento afetivo em pensar que elas são pensadas para vender brinquedos.

Algo que aqui no Brasil, foi diferente graças a contribuição do Governo Brasileiro com as importações e as gambiarras da extinta fabricante Glasslite que produziu muitos dos bonecos reaproveitando moldes de Robocop, e não eram os moldes originais importados do Japão.

Fora outros produtos licenciados que foram produzidos pela primeira distribuidora a Everest Video. Atualmente Jaspion está na propriedade da distribuição da Sato Company.

       Jaspion foi muito marcante para mim, digamos entender que pior do que os monstros gigantes que ele enfrentava são os monstros da vida real.

Segundo o famoso escritor irlandês Oscar Wilde(1854-1900):

 "Somos cada um o nosso próprio demônio, e fazemos deste mundo nosso próprio inferno”.

Ele soube bem como transmitir ao Jaspion o tom da resiliência, algo que talvez criou uma forte aproximação como nós brasileiros.

É tanto que eu cheguei a comprar uns lotes de DVDs lançados pela Focus Filmes em 2009, que veio com o boneco e o mangá da JBC lançado em 2020.

Kurosaki também fez carreira de cantor, tanto que na série ele chegou a mostrar o seu talento musical no episódio 8, cantando a canção:  Hanpo Yuzutte GO IN Ni!., essa canção compõe o repertório do LP que Kurosaki gravou no ano anterior.  

Jaspion é  tão parte da nossa cultura, que existe um sujeito do Pará que aparece postando andando rotineiramente nas ruas como Jaspion.

O nível de popularidade entre nós brasileiros é tamanha que já houve um tempo em que muita gente acreditou  que o Jaspion fosse brasileiro.

Isso ocorreu quando por volta de 1997, o saudoso humorista brasileiro Jô Soares(1938-2022) quando ainda estava no SBT, comandando o talk show Jô Soares Onze e Meia(1988-1999) ele convidou para entrevistar Tadashi Kamitani, o dublê do Jaspion no Circo Show que era produzido pela distribuidora Everest Vídeo.

Na entrevista não foi esclarecido que ele representava o Jaspion apenas no circo. A confusão se deveu ao fato de quando Jô apresentou em seu telão uma cena da série de Jaspion dentro do Daileon enfrentando uma batalha contra o monstro do episódio 17, o que se criou em cima disso uma falsa memória de que ele fosse o protagonista da série.

A verdade é que Tadashi Kamitani não é o ator que fazia o Jaspion na série de tv, mas sim apenas no Circo Show, onde ele inclusive se dividia entre Adriel de Almeida que vestia a armadura nas apresentações.

Quem protagonizou o Jaspion na série foi Hikaku Kurosaki, que só o representou na forma civil, transformado foram outras pessoas.

A razão que ocasionou isso se deve ao fato de que como na época, segunda metade da década de 1990 ainda não existia Google para fazer uma checagem de informação e provavelmente a escassa informação que a produção do Jô tinha acesso era por meio da antiga assessoria do Circo e os únicos acessos de informação que a camada otaku conseguia era por meio das nichadas revistas Herói.

Nisso resultou essa lenda do Jaspion ser brasileiro que foi difundida nos fóruns dos primórdios da internet brasileira.

Além de Kurosaki, outros atores que participaram de Jaspion que também já faleceram são: Noburu Nakaya(1929-2006) que fazia o Edin em Jaspion, Shôzo Îzuka(1933-2023) que fez a voz  original do Sata Goss, Massanari Nihei(1940-2021), o Oficial Ide da série Ultraman que em Jaspion participou do episódio 23 como o apresentador que filma o espetáculo do Monstro Sion.

Fora também que já são falecidos: o maestro Chumei Watanabe(1925-2022), o compositor das trilhas incidentais de Jaspion, o cantor Ai Takano(1951-2006) que canta na abertura de encerramento de Jaspion e Shozo Uehara(1937-2020) que foi o roteirista.

O ator Hiroshi Watari, que participou de Jaspion como Bommerman manifestou seu pesar pela perda de Kurosaki:

"Estou chocado com a notícia da morte do Kurosaki Hikaru. Este ano, muitos colegas da JAC [Japan Action Club, o clube de ação de Sonny Chiba] partiram. Nunca esquecerei o que aprendi no palco do Shinjuku Koma Theater e no set de Jaspion. Obrigado", escreveu Watari.

Com certeza, entre esses nomes que ele se refere está o de Kenji Ohba, o protagonista da série Policial Espacial Gavan(1982-1983).

Que descanse em Paz,

Eterno Jaspion.

(1962-2026).