segunda-feira, 27 de julho de 2026

30 ANOS DO ATENTADO DO PARQUE OLIMPICO CENTENÁRIO EM ATLANTA

 

No dia 27 de Julho de 1996, ocorreu um atentado terrorista durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, cujos equívocos sobre de quem foi seu autor, ocasionaram num dos episódios mais atrapalhados e equivocados da investigação da história dos Estados Unidos, um episódio que ficou conhecido como o Atentado ao Parque Olímpico Centenário.  




A explosão ocorreu horas depois do alerta do segurança Richard Jewell(1962-2007), que havia suspeitado de uma mochila verde do exército americano abandonada no local  escrita com o nome ALICE, que continha “três bombas caseiras cheias de pólvora sem fumaça, cercadas por pregos de alvenaria de 7,6 cm (três polegadas)” e mandou todos evacuarem ao redor do local onde estava ocorrendo a apresentação musical da banda Jack Mack and The Heart Attack, o seu alerta conseguiu salvar a vida de muitas pessoas, no entanto, essa explosão vitimou 111 pessoas feridas e  deixou dois mortos que foram:  Alice Hawthorne, uma senhora americana natural da Geórgia que morreu na explosão e o cinegrafista turco Melih Uzunyol cuja consequência da morte  foi indiretamente pois havia sofrido uma parada cardíaca quando estava  se dirigindo ao local.




“Jewell foi celebrado pelo ato e rapidamente ganhou os holofotes. Entretanto, uma reportagem da jornalista Kathy Scruggs para o The Atlanta Journal-Constitution colocou em cheque a real intenção de Richard. Informada por uma fonte do FBI que ele era o principal suspeito por ter plantado a bomba, Kathy publicou uma matéria relatando o fato, o que mudou a vida de Jewell e de sua mãe, Bobi, completamente.”

(Retirado da matéria do site Aventuras na História, publicada em 6 de Janeiro de 2020).

Por conta de todos os equívocos, a vida de Richard Jewell virou do avesso, com o FBI e a imprensa na sua cola e muita coisa do seu passado foi exposta, principalmente a respeito de sua personalidade de homem fracassado que usou daquilo como artificio para se destacar como herói, e muita gente chegava a fazer piadas gordofobicas sobre seu peso, só muito tempo depois que foram averiguados que ele não poderia ter planejado o atentado é que ele deixou de ser suspeito.




Somente em 1998, foi que se descobriu de quem foi autoria do atentado, principalmente depois de investigarem a similaridade de três séries de explosões que ocorreram seguidas ao atentado no Parque Centenário: Em 16 de Janeiro de 1997, houve uma explosão numa clínica de aborto no subúrbio de Sandy Springs, em Atlanta, um mês depois, em 21 de Fevereiro de 1997, houve a explosão também em Atlanta de um bar de lésbicas, ferindo cinco pessoas e em 29 de Janeiro de 1998, houve uma  explosão em  uma Clínica de Abortos em Birmigham, no Alabama. “Matando o policial de Birmingham e guarda de segurança da clínica Robert Sanderson, e ferindo gravemente a enfermeira Emily Lyons. As bombas de Rudolph continham pregos que agiam como estilhaços.

(Wikipédia).

Foi nesse último que através do retrato falado, se descobriu que o verdadeiro autor da explosão era Eric Rudolph, um terrorista doméstico e fanático religioso ligado a movimentos extremistas cristãos da supremacia branca que em 5 de Maio de 1998 entrou na lista dos procurados do FBI, só sendo preso apenas em 31 de   Maio de 2003, depois de passar cinco anos recluso nas Florestas da Carolina do Norte. Em 2005, Rudolph se declarou culpado de várias acusações de homicídio federais e estaduais e aceitou cinco penas de prisão perpétua consecutivas em troca de evitar um julgamento e uma sentença de morte em potencial.




Rudolph cumpre prisão no Presidio Federal Adx Florence.

As motivações que ocasionaram Rudolph a promover esse atentado tem um pouco de relação com a sua pregressa formação religiosa, Eric Robert Rudolph nasceu na Flórida em 1966, perdeu o pai em 1981, na época era um adolescente com 15 anos. Mudou-se junto com sua mãe e seus irmãos para Nantahala na Carolina do Norte.

Chegou a frequentar a Escola em Nantahala, fazendo a Nona Série, mas decidiu abandonar os estudos e trabalhou como carpinteiro ao lado de seu irmão Daniel.

Quando estava com 18 anos, Rudolph chegou a frequentar com sua mãe uma seita religiosa conhecida como Igreja de Israel.

Chegou a se alistar no Exército onde prestou serviço até sua dispensa em Janeiro de 1989, após ser flagrado fumando maconha.

Até o episódio do atentado no Parque Centenário durante os Jogos Olímpicos de Atlanta em 1996, Rudolph mantinha uma forte conexão com grupos supremacistas brancos e havia integrado ao Exército de Deus.

Segundo Rudolph declarou em 13 de Abril de 2005, durante sua condenação sobre a motivação do atentado:

“No verão de 1996, o mundo convergiu para Atlanta para os Jogos Olímpicos. Sob a proteção e os auspícios do regime em Washington, milhões de pessoas vieram celebrar os ideais do socialismo global. Corporações multinacionais gastaram bilhões de dólares, e Washington organizou um exército de segurança para proteger esses jogos, considerados os melhores de todos. Embora a concepção e o propósito do chamado movimento olímpico seja promover os valores do socialismo global, perfeitamente expressos na canção "Imagine ", de John Lennon, que foi o tema dos Jogos de 1996, o objetivo do ataque de 27 de julho foi confundir, irritar e envergonhar o governo de Washington perante o mundo por sua abominável aprovação do aborto a pedido. O plano era forçar o cancelamento dos jogos, ou pelo menos criar um estado de insegurança para esvaziar as ruas ao redor dos locais de competição e, assim, consumir as vastas quantias de dinheiro que haviam sido investidas neles.”

Um fato que chama aqui a atenção sobre esse perfil de atentado promovido por Rudolph, é que ele reflete justamente como os Estados Unidos estava lidando durante a década de 1990 com um cenário violento  relacionado aos  aspectos do terrorismo doméstico junto ao movimento do  extremismo religioso cristão que marcaram episódios trágicos na história social americana como o Cerco de Waco em 1993, onde a polícia tentava  libertar os reféns da seita religiosa Davidiana  de David Koresh(1959-1993) e a Explosão do Prédio de Oklahoma ocorrido em 1995, onde seu respectivo autor Timonty McVeigh(1968-2001), um veterano da Guerra do Golfo, quis vingar pelo Cerco de Waco.





Junte também ao fato que fazia bem uns vinte anos que as agências americanas estavam à procura de outro temido terrorista doméstico chamado de Ted Kaczynski (1942-2023), mais conhecido como Unambomber, um ecoterrorista que por volta de 1978 a 1995, foi responsável por enviar bombas nas universidades americanas, cujas explosões ocasionaram em mortes e foi somente na última vez que ele enviou uma carta aos jornais, que seu texto foi reconhecido por seu irmão David que fez contato com o FBI, informou o seu paradeiro que morava numa cabana, dentro da floresta, vivendo uma vida rústica, sem água encanada, que do jeito que o lugar era um verdadeiro chiqueiro e do jeito que o cara era um  sujismundo  ele devia cheirar mal à beça, principalmente quando foi preso em 1996, ele cumpriu prisão em Adx Florence até o seu falecimento em 2023.

 


 

 

 

 

DRAMATIZAÇÃO NO CINEMA




Em 2019, esse episódio foi retratado no filme O Caso Richard Jewell(Richard Jewell, EUA, 2019), esse drama biográfico que contou com a direção e produção de Clint Eastwood, com roteiro assinado por Billy Ray, que baseou a estrutura do roteiro no artigo da jornalista Marie Brenner publicado em 1997 na importante revista Vanity Fair e no livro investigativo O Suspeito: Um Atentado nas Olimpíadas, o FBI, a Mídia e Richard Jewell, o Homem Preso no Meio de autoria de Kevin Salwen e Kent Alexander, publicado em 2019,  ainda sem tradução para o português.



A maneira como a história é narrada, mesmo se baseando nos fatos verídicos de conhecimento público, ainda assim foram impressas umas doses de licenças poéticas.

A trama é narrada pela ótica do Jewell(Paul Walter Hause), tendo como ponto de partida o dia anterior da trágica explosão, com ele no Parque Centenário prestando o seu serviço de segurança observando a multidão prestigiando a apresentação musical de Kenny Rogers(1938-2020), o famoso ícone da música country.





 E temos então a reconstituição do trágico dia da explosão, onde mostra a ligação de Rudolph a um telefone público próximo ao Parque Centenário falando da bomba, enquanto que acompanhamos Jewell alertando para o povo se afastar.

Em paralelo, somos apresentados a jornalista Kathy Scruggs(Olivia Wilde) na redação do jornal The Atlanta Journal, querendo investigar o caso e ao se informar com um agente do FBI, que lhe passa a informação equivocada que Jewell era o suspeito  e ela passa essa informação, começou o calvário na vida de Jewell, com o FBI confiscando seus bens cuidando de sua pobre mãe doente Barbara “Bobi” Jewell(Kathy Bates) e a única pessoa que vai ser possível lhe defender é o advogado Watson Bryant(Sam Rockwell) que vai responsável pelo desfecho da reviravolta no seu caso e provar sua inocência.

Essa produção que consumiu cinco anos para ser concretizada, desde que foi anunciado em Fevereiro de 2014, onde as primeiras pessoas envolvidas nesse projeto foram: os atores Jonah Hill que seria o protagonista Jewell cujo papel acabou ficando com Paul Walter Hauser e Leonardo DiCaprio que foi cotado para ser Bryant o advogado de defesa de Jewell que ficou com Sam Rockwell.

Antes de Eastwood assumir a direção e produção, os primeiros diretores cotados foram: Paul Greengrass e Ezra Edelman e todas essas passadas de mãos e o único nome que se manteve desde o início foi do roteirista Billy Ray e sem nenhuma novidade sobre o desenvolvimento do projeto até começarem as filmagens em Atlanta em Junho de 2019.  

Do elenco vale mencionar o brilhante desempenho de Paul Walter Hauser como o protagonista, ele consegue bem transmitir a essência do Jewell como um sujeito com ares excêntricos, ainda mais quando lida com a loucura do circo midiático que sua virou após virar o suspeito da explosão, cujas únicas pessoas que lhe dão apoio nesse momento é sua mãe de quem ele já cuidava e seu advogado.

Além dele, merece também menção o bom desempenho de Sam Rockell, na pele do Bryant, o seu advogado de defesa que na verdade “ele nunca representou um suposto assassino, muito menos alguém acusado de um ataque terrorista doméstico que matou duas pessoas e feriu outras 111”.(Retirada do site Oxygen, de 26 de Dezembro de 2019).

Era um advogado imobiliário com quem Jewell já conhecia e é mostrado no filme que Bryant foi seu empregador no escritório que ele prestou serviço antes de virar o segurança dos Jogos Olímpicos, ele vai assumir uma importante função numa cena em que quando ele vai direção aos telefones públicos de onde foram feita a ligação antes da explosão, ele vai notando uma verdadeira inconsistência que prova que não podia ser Jewell o autor da bomba ao verificar o distanciamento do lugar dos telefones públicos para o Parque Centenário e o tempo entre a ligação e a explosão, e isso vai ser o ponto de virada para provar sua inocência. Ainda que de fato, isso não tenha ocorrido, pelo menos serviu para condensar uma importante figura heroica de porto seguro para ele naquele momento complicado da sua vida, o que fortaleceu uma forte relação de amizade entre os dois, ao ponto de quando Bryant se casou com  Nadya Ligth, sua assistente que aparece no filme representada por Nina Arianda, e tiveram filhos, eles contrataram a mãe de Jewell, Bobi para ser uma babá deles semanalmente.

A mãe de Jewell, Bobi Jewell* que foi muito bem representada no filme por Katty Bates, que transmiti bem em cena a sensação dolorosa de ver seu filho ser injustamente incriminado por esse crime que não cometeu e que devido a uma série de equívocos o tornou suspeito. A cena dela numa coletiva de imprensa, implorando as lágrimas pela inocência é de cortar o coração.  Por esse desempenho, ela chegou a receber uma indicação no Oscar 2020 na categoria de melhor atriz coadjuvante.

Na ocasião do lançamento do filme, ela que ainda estava viva declarou publicamente seus elogios a maneira como o filme veio para preservar a memória de seu filho que havia falecido 12 anos antes, e mostrar como equívocos podem mudar a vida de uma pessoa. Bobi Jewell faleceu em 2024, aos 88 anos, em Atlanta.

E outra menção ao elenco vai para Olivia Wilde no papel da jornalista Katthy Scrugs(1958-2001), a responsável pela informação equivocada da suspeita do FBI em torno de Jewell que fez sua vida virar do avesso.




A maneira como ela foi retratada na obra gerou uma polêmica na época do lançamento, principalmente pelo momento onde mostra ela dialogando com um agente do FBI num bar oferecendo sexo em troca de informação, isso levou ao editor do Atlanta Journal  Kevin Riley manifestar-se  em defesa dela:

Não consigo acreditar que os cineastas escolheriam retrata-la dessa forma, especialmente porque não há nenhuma evidência de que ela tenha feito essas coisa que eles a retratam fazendo”.

Riley não chegou a trabalhar com Scruggs, mas ouvindo depoimentos de ex-colegas dela no jornal para manifestar essa postura em defesa dela, sobre o seu perfil obstinada, que trabalhava duro para conseguir umas informações.

Isso ocorreu pelo fato de que Katthy Scruggs já era finada na ocasião do lançamento do filme, a jornalista faleceu em 2001, aos 42 anos, vítima de uma overdose de medicamentos.

No entanto, apesar dessa representação equivocada escolhida ao abordar a personagem para o filme, pelo menos a sua interprete soube bem como desempenhar o perfil um tanto arrogante ao qual ela foi desenhada com ares vilanescos para a gente sentir mesmo uma repulsa dela, principalmente da forma como ela acabou transformando a vida de Jewell do avesso.

O filme se conclui mostrando uma cena que se passa sete anos após todos os acontecimentos após a explosão, onde Jewell numa delegacia prestando serviço de policial recebe a visita de Bryant e ele o informa da captura de Rudolph.

Nos anos que se seguiram,  Jewell foi exigindo reparação da parte da imprensa pelas difamações que o equívoco da mídia causou em sua vida.

Dois anos após o episódio do Atentado durante os Jogos Olímpicos de Atlanta, Jewell conheceu Dana com quem se casou em 2001, com ela viveu numa fazenda na Geórgia criando animais de estimação até Jewell falecer em 2007, aos 44 anos, vitimado pela diabetes. Eles não tiveram filhos.

*Esse sobrenome é do segundo marido de Barbara Bobi Jewell, John Jewell, um executivo de seguros que a conheceu quando ela estava com Richard pequeno que ao nascer foi registrado como Richard White, sendo filho de Robert Earl White e quando o seu padrasto John o adotou passou a assinar com o sobrenome dele.

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