domingo, 12 de julho de 2026

ODISSEU E HÉRCULES JUNTOS NUM FILME PEPLUM

 

Nesse ano de 2026, existe uma imensa expectativa para a estreia da produção épica de A Odisseia de Homero, dirigido por Christopher Nolan.



Não é de hoje que Hollywood costuma explorar a jornada heroica dos mitos da antiguidade grega.

E se tem um filme interessante que soube trabalhar bem a interação do protagonista da Odisseia com o herói semideus Hércules esse filme em questão que vou comentar aqui trata-se de Hércules e a Rainha da Lídia (Ercole e la regina di Lidia, França, Espanha, Itália, 1959).




O filme trata-se de uma produção italiana pertencente ao subgênero peplum, nome derivado de peplo, que era referente aquela vestimenta das túnicas usadas na Grécia Antiga. Também referido como filme de espada e sandália.

O subgênero peplum de filmes épicos históricos surgiu na Itália ali por volta da década de 1950, naquele momento pegando carona na fase em que Hollywood estava investindo em produções épicas históricas monumentais com temáticas de heróis mitológicos, bíblicos ou mesmo da Antiguidade Clássica.  


 
Cartaz original do filme com o titulo 
diferente do internacional em inglês. 


Ainda mais porque muitas das grandes produções épicas de Hollywood tiveram suas locações filmadas na Itália, nos estúdios da Cinecittà.

Essas produções peplum de baixo orçamento refletiam um pouco aquele momento em que a indústria do cinema italiano estava querendo investir nesse toque mais escapista, ainda mais depois que o pais já estava começando a se recuperar economicamente uma década após o fim da Segunda Guerra Mundial em 1945, que deixou o país destruído após dar fim ao autoritário e opressor  governo fascista de Benito Mussolini(1883-1945), esse que ironicamente foi o fundador da Cinecittá que foi inaugurada em 1937.



 

O desolador cenário que a Itália viveu Pós-Segunda Guerra Mundial foi bastante representado e retratado no movimento do cinema Neorealista Italiano, em obras de cineastas como: Roberto Rosselini(1906-1977), Vittorio de Sica(1901-1974), Luchino Visconti(1906-1976) e Federico Fellini(1920-1993).




Digamos que naquele momento do final dos anos 1950, com a Itália conseguindo voltar a ter sua economia em crescimento e vendo que Hollywood fazia locação gravando suas produções monumentais. Ela decidiu então tirar uma casquinha disso, produzindo com orçamento baixo essas produções do subgênero peplum.

E a produção de Hércules e a Rainha da Lídia, ou como internacionalmente é mais conhecido pelo título de Hércules Unchained, onde inclusive quando eu tive um DVD do filme lançado pela distribuidora brasileira ClassicLine era assim que o título era conhecido, bem reflete esse contexto.


 
Cartaz do DVD da distribuidora brasileira ClassicLine 
lançada nos anos 2000 com o titulo internacional 
de Hercules Unchained. 



Nessa produção estrelada pelo fisiculturista americano Steve Reeves(1926-2000), vencedor de concursos de Mr. Universo e Mr. América como o mítico semideus Hércules, esse foi o segundo filme a contar com ele no papel, no ano anterior ele estrelou As Façanhas de Hércules(Le Fatiche de Ercole, Itália, Espanha, 1958).

Nos apresenta Hércules chegando no barco da Argonauta até Tebas.




Ao chegar em Tebas, ele acompanhado de sua amada Iole(Sylva Koscina) e do jovem Odisseu(Gabrielle Antonini) se dirigem até o Palácio do Rei Édipo(Cesare Fantoni) dirigindo numa carruagem.

Ao chegar lá descobre que o Rei Édipo cego resolve descer até o Hades com desgosto dos seus filhos Eteocles(Sergio Fantoni) e Polinices(Mimmo Palmara) vivendo em pé de guerra para ver quem vai ficar com o trono.




Hércules resolve intervir, levando acompanhado de Odisseu um papel com um acordo de paz, ocorre que Hércules acaba caindo numa ilha da rainha Onfale(Sylvia Lopez), a ilha da Lídia, onde ela usa de todo o feitiço possível para mantê-lo fazendo com que ele se mantivesse apaixonado por ela. E o pobre do Odisseu terá de fazer de tudo para tentar tira-lo desse feitiço para ele não ser o próximo a cair numa poça de gesso e virar estátua como já ocorreu com outros amantes de Onfale, e enfrentar a batalha contra os irmãos Eteocles e Polinices pelo trono de Tebas.  




Essa produção italiana do subgênero peplum contou com a direção de Pietro Francisci(1906-1977) que também assina o roteiro junto de Ennio de Concini(1923-2008) inspirado na obra de dois autores gregos da Antiguidade Clássica que foram:  Sófocles(496-405 A.C) com Édipo em Colono e Ésquilo(524-455 A.C) com Sete contra Tebas. Cuja produção é assinada por Bruno Vailati(1919-1990) e também contou com o envolvimento de Mario Bava(1914-1980), outro importante nome do cinema italiano.






Além de ser estrelado por Reeves, que apesar do seu desempenho mediano de ator beirando ao canastrão, ainda mais pelo fato de não saber dominar o idioma italiano, onde foi preciso que sua voz fosse dublada. Ainda assim, ele consegue transmitir uma ótima imponência na pele do mítico herói da antiguidade clássica, graças ao porte físico atlético de tanto treinamento no fisiculturismo que o ajudou nas cenas que exigiam mais fisicalidade por assim dizer.

Antes de se aventurar por essas produções na Itália, Reeves chegou a tentar estabelecer uma carreira de ator em Hollywood, participando de uns papeis menores, antes de ficar eternizado como o Hércules nessa produção peplum.

     Ele ficou tão assimilado ao Hércules, que no fim da vida comentava melancolicamente:

"As pessoas pensam que eu fiz dez filmes como Hércules, quando na verdade só fiz dois."

(Fonte: Memórias Cinematográficas).




Isso pode ser explicado pela confusão ocasionada de que ele chegou a ser convidado para repetir o papel de Hércules em outras produções peplum, mas após se recusar chamaram outros fisiculturistas, entre esses estava o britânico  Reg Park(1928-2007), que representou Hércules em Hércules na Conquista de Atlântida (Ecolle ala Conquista di Altantida, Itália, 1961) dirigido e roteirizado por Vittorio Cottafavi(1914-1998)  e em seguida, Reeves foi fazendo outros heróis épicos também em produções peplum como em As Aventuras do Ladrão de Bagdá(Il Ladro in Bagdá, Itália, 1961) que teve a codireção do americano Arthur Lubin(1898-1995) e de Bruno Vailati que assina como um dos roteiristas.


 
O fisiculturista britânico Reg Park em cartaz no filme Hércules na Conquista de Atlântida(1961).
 
Cartaz do filme As Aventuras do Ladrão de Bagdá(1961), 
outra produção italiana épica peplum estrelada 
por Reeves. 



O que acabou criando um Efeito Mandela em torno de muita gente achar que o ator estrelou dez filmes de Hércules, quando, na verdade só estrelou dois filmes.






O desempenho mediano de Reeves como ator em cena, é compensado pelo bom desempenho de grandes talentos do cinema italiano presentes no filme como: Gabrielle Antonini(1938-2018) que no filme faz um bom desempenho cômico como Odisseu, um ajudante de Hércules. Ele se destaca por tentar fazê-lo acordar do feitiço de Onfale sem saber do plano diabólico dela sobre ele. Daniele Vargas(1922-1992) que no filme representou o Anfiaros, o General de Eteocles, que nutre uma queda pela Iole, a amada de Hércules ao mantê-la refém.





A croata-italiana Sylva Koscina(1933-1994) representando a Iole, a amada de Hércules, ela empresta bem em cena uma docilidade junto a sua atraente beleza   para a personagem seguir o modelo do tropo narrativo da donzela indefesa a ser salva e mostra um brilhante talento musical na cena onde está cavalgando numa carruagem dirigida por Odisseu a canção acompanhada de uma lira que toca Con ter per l´eternitá, composta por Enzo Maseti(1893-1961) especialmente para o filme que é tocada instrumentalmente ao longo da história.

Algo que em conjunto a atraente beleza da atriz acaba dando além daquele toque de sexy appeal deu também um certo borogodó a personagem.

Outra atriz de beleza atraente presente no filme é Sylvia López(1933-1959), nome artístico de Tatjana Bent, uma francesa nascida na Áustria, que começou como modelo desfilando para o designer de moda Jacques Fath(1912-1954) com o pseudônimo de Sylvia Sinclair.

Estava se consolidando na carreira de atriz desde 1956 ao participar de produções francesas já assinando como Sylvia López, cujo sobrenome é de quando foi casada com o compositor francês Francis López(1916-1995). 

Sua representação como a Onfale no filme é incrível, o seu rosto e olhar magnético conseguiam bem captar a essência ardilosa dessa víbora do que ela era capaz de se utilizar para conseguir manipular um monte de homens para transforma-los em seus escravos sexuais e manda-los caírem numa poça de liquido de gesso que os transformam em estátuas.

Diagnosticada com leucemia, Sylvia López morreu precocemente ao 26 anos, em 20 de Novembro de 1959. Consta que a sua última participação no cinema foi em O Moralista (Il Moralista, Itália, 1959) do diretor Giorgio Bianchi(1904-1967) lançada postumamente.

O elenco de feras também conta com: Primo Carnera(1906-1967), um ex-lutador de boxe que no filme faz um brilhante desempenho do gigante Anteo que ousa desafiar Hércules na sua chegada a Tebas, Cesare Fantoni(1905-1963) faz uma participação especial na pele do Rei Édipo de Tebas, o filho de Cesare Fantoni, Sergio Fantoni(1930-2020) faz um brilhante desempenho na pele do Eteocles e sua disputa com o irmão Polinices, ele mostra um nível de insanidade, de loucura  no papel com suas risadas sinistras que mostra o nível de sua entrega ao personagem de perfil sociopático. Assim como Mimmo Palmara(1928-2016) faz uma brilhante defesa do Polinices com seu jeito mais calmo e estratégico.




Também mencionar as participações de Carlo D´Angelo(1919-1973) representando o Creonte, Patrizia Della Rovere como a Penélope, Andrea Fantasia(19??-1985) como o Rei de Itaca Laerte, pai do Odisseu, Gianpaolo Rosmino(1888-1982) na pele do Esculápio dentre outros.

Posso concluir que essa produção do subgênero peplum, pode até não chegar aos pés das grandes produções de Hollywood, no quesito qualidade de produção, mas no entanto carregava lá seu charme no conceito estético e simbolizou bem o contexto de sua época.

Esse subgênero peplum acabou servindo de inspiração para que o jovem austríaco Arnold Schwarzenegger ao se mudar para os Estados Unidos para competir no fisiculturismo ele tinha tanto em  Reeves e Park como seus ídolos, cujo primeiro trabalho dele no cinema foi justamente representando o mítico Hércules em Hércules em Nova York(Hercules in New York, EUA, 1970) onde ele assinava como Arnold Strong e como carregava um forte sotaque austríaco teve suas falas dubladas, uma produção obscura de sua filmografia bem antes de se tornar o famoso ícone do cinema de ação nos anos 1980.


 
O jovem  fisiculturista Arnold Schwarzzengger em começo de 
carreira como ator representando o mítico semideus 
em Hércules em Nova York(1970). 


Essas épicas produções peplum do cinema italiano ainda foram produzidas a rodo até a segunda metade da década de 1960, quando uma saturação ocasionada principalmente quando  as grandes produções épicas monumentais de Hollywood também estavam gastas e após o fracasso com Cleópatra(1963) estrelado por Elizabeth Taylor(1932-2011) cujo  gasto de produção geraram prejuízos para a Fox, os filmes monumentais foram deixando de serem produzidos e o cinema italiano  estava investindo em outro subgênero: o faroeste spaghetti.

Quanto ao astro Reeves após decidir se aposentar da carreira artística, viveu uma vida comum criando cavalos ao comprar um rancho em Valley Center, Califórnia. Onde lá também promovia o fisiculturismo sem o uso de drogas, a qual sempre se posicionava contrário publicamente. Foi nesse rancho que ele viveu ao lado de sua segunda esposa Aline Czartjarwicz até a morte dela em 1989, eles não tiveram filhos.  

Após ter ficado viúvo, Reeves ainda viveu nos anos seguintes frequentando algumas convenções e feiras de fãs de filmes épicos peplum.

Até falecer no dia 1º de Maio de 2000, depois de enfrentar uma batalha com um linfoma aos 74 anos, nesse ano de 2026, se ainda estivesse vivo o ator teria completado 100 anos.

 

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