Quando
se fala numa revista como a Playboy, tende se muito a assimilar a imagem
de uma revista erótica. Mas ao terminar de ver
a ótima série documental
intitulada American Playboy: A História de Hugh Hefner(American Playboy:
The Hugh Hefner Story, EUA, 2017) pude constatar que ela foi muito mais do que
isso.
Uma
produção da Amazon Prime Vídeo sobre a história da revista Playboy
que foi muito mais do que uma revista erótica.
Muito
interessante de se conhecer nesse ano de 2026 em que seu fundador Hugh Hefner faria 100 anos se tivesse vivo.
Dividida
em 10 episódios, a minissérie conta com a direção de Richard Lopez.
Produzida
e desenvolvida num formato que mescla
documentário com dramatização, um docudrama praticamente.
Cada
episódio vai apresentando um pouco da
biografia da revista símbolo do comportamento masculino passo a passo muito
bem detalhado a cada etapa e também
do seu criador.
Hugh
Hefner(1926-2017) é quem figura como o
fio condutor da narrativa em off do
começo ao fim. Mostrando muitas intercalações entre alguns depoimentos de
pessoas importantes que contribuíram para a história da revista dando seus depoimentos, entrevistas do Hefner
nas imagens de arquivos para diferentes os programas de TV americanos, o que
enriquece bastante o conteúdo, que soube como trabalhar o lado mais didático que é característico da
estética de um documentário ao mostrar os diferentes contextos históricos, sócio-políticos e cultural americano em que a Playboy teve uma grande participação e grande contribuição ao
longo de suas seis décadas de existência com as dramatizações onde Hefner
interpretado por Matt Whelan conduz bem
a narrativa desenvolvendo todas as suas camadas do empresário metódico e do playboy que ostentava publicamente a
vida luxuosa em sua mansão com as festas cheias de orgias com suas coelhinhas.
No
primeiro episódio, somos apresentados a forma como Hefner concebeu a revista,
cuja primeira edição lançada em 1953, contou com a capa da então grande estrela
de Hollywood Marilyn Monroe(1926-1962) e de como ele conseguiu sem precisar
pagar um alto cachê pelo ensaio, já que
ele havia comprado de um ensaio que ela fez para um calendário antes de virar
uma grande estrela do cinema.
Ao
longo dos episódios seguintes somos apresentados a trajetória de como ele foi
consolidando a marca da Playboy,
mostrando a origem do que o inspirou a logo do coelho que não foi a sua
primeira escolha de logomarca para a revista, expandindo para a televisão, para
os bares, os cassinos com os nomes da marca onde foram concebido a ideia das garçonetes se
vestirem com o adereço de coelhinhas que se tornou a marca registrada característica dos eventos da revista,
principalmente quando era em sua mansão que ocorria grandes festas.
Também
mostra que nem sempre a medida que a marca foi se consolidando nem tudo foi um
mar de rosas na vida de Hefner, ainda mais quando ele enfrentou uma vida
pessoal difícil a medida que era consumido demais pelo trabalho, passou por
três casamentos, adorava esbanjar aquele ideal masculino com suas playmates na
mansão.
Já
chegou a enfrentar investigações judiciais por acusação de imoralidade, já foi
criticado por grupos feministas que achavam o ideal da marca uma objetificação
sexual feminina.
Ao
mesmo tempo que a marca foi importante por dar
voz a classe oprimida da cultura americana que eram os negros
segregados.
Diante
disso tudo ele ainda encarou o surgimento das concorrências da Penthouse, e
também vivenciou trágicas perdas de duas mulheres muito importantes para ele
dentro da marca da Playboy.
Primeiro
foi com a perda de Bobbie Arnstein(1940-1975), que não era nenhuma playmate,
nem foi uma de duas coelhinhas e nem entre as tantas mulheres com quem ele
namorou, mas, tratava-se de sua secretária executiva que devido a sua conexão com um traficante de drogas, a fez ficar no radar da investigação do FBI, e isso resultou na
maior desgraça da sua vida que além de perder o emprego tiraria a própria vida:
“Em
uma coletiva de imprensa após a morte dela, ele acusou o então advogado James R. Thompson(1936-2020) de
assassinato, alegando que Thompson a usou em um esforço calculado para
destruí-lo. Arnstein foi presa em março de 1974 por agentes federais de
narcóticos e acusada de conspirar para transportar cocaína de Miami para
Chicago; ela negou as acusações. A investigação foi encerrada em dezembro de
1975, depois que os dois homens presos com Arnstein recusaram acordos de
imunidade para testemunhar contra Hefner.”
(IMDB).
No
documentário é dramatizado o
envolvimento amoroso que ela teve por um bandidão, e que por conta dessa
investigação do FBI, Hefner teve de demiti-la contra sua vontade, visto que ele
sempre se preocupava com ela, que foi sempre foi uma importante ajudante nas
suas decisões executivas e colaborava nos agendamentos.
Bobbie
Arnstein não suportou toda essa situação que deixou sua saúde mental
comprometida que ela acabou tirando a própria vida em janeiro de 1975.
Pior
mesmo ocorreu anos depois quando ele sofreu outra trágica perda de uma importante mulher ligada a marca Playboy
que ocorreu no dia 14 de Agosto de 1980,
quando a jovem atriz canadense Dorothy Stratten de apenas vinte anos era
covardemente assassinada pelo seu marido
Paul Snider(1951-1980), um sujeito explorador que trabalhava como um
cafetão que era o agenciador da carreira
de Stratten desde que a conheceu em uma
Dary Queen em Vancouver no Canadá.
Foi
ele o responsável por lançar sua carreira artística enviando suas fotos nuas
para a Playboy. Que ao receberem,
fizeram contato com ela onde ela participou de ensaios virando a Playmate* do
ano de 1979.
Snider
já demonstrava um tipo de comportamento tóxico, abusivo
e violento com Stratten, mostrando o seu
lado ciumento possesivo.
Quando
Stratten foi covardemente assassinada, ela estava investindo na carreira de
atriz, gravou uma participação na série de tv Ilha da Fantasia, estrelou
uma produção de filmes B de ficção cientifica chamado de Galaxina(1980)
e quando ela morreu ao chegar em sua
mansão na California por Paul Snider que disparou de sua espingarda Mossberg
calibre 12 e depois ele tirou a própria vida.
Stratten
havia retornado naquele momento em que foi covardemente morta por Snider, de um voo de Nova York onde estava filmado o
filme Muito Riso, Muita Alegria(They All Laughed, EUA, 1981) do diretor
Peter Bogdanovich(1939-2022) com quem estava começando a se relacionar
amorosamente durante as filmagens.
Esse
triste episódio da morte trágica de outra importante figura feminina atrelada a
marca da Playboy, poucos anos após a morte de Bobbie Arnstein marcou um
começo difícil ao qual Hefner teve de enfrentar durante a década de 1980 onde são dramatizados
nos últimos episódios que foi lidar com
a crise financeira da empresa onde a marca já expandida precisou diminuir
fechando as atividades de alguns cassinos, também precisou lidar com o modelo de política conservadora
americana pregada no moralismo cristão criado por Ronald Reagan(1911-2004) durante seu
mandato na de Presidente dos Estados Unidos, um ex-astro da Hollywood clássica
e com o fato de que com a recém- descoberta
da ciência de uma doença sexualmente transmissível que
era o HIV, isso tudo ameaçou a relevância
da Playboy.
No
entanto, Hefner foi conseguindo contornar a mantendo relevante até os seus últimos
suspiros de vida. Hefner faleceu no dia
27 de Setembro de 2017, aos 91 anos. Devido a causas naturais.
Uma
pena que não mostre quando a marca expandiu para outros países mostrou os bastidores
do seu surgimento aqui no Brasil com o
nome de A Revista do Homem, por conta da imposição da repressão da censura em plena época de
Ditadura Militar.
Pelo
que Roberto Civita(1936-2013), filho do fundador da Editora Abril Victor
Civita(1907-1990) que detinha o registro da marca em território brasileiro até
2015, pelo que ele comentou numa entrevista para a revista na edição de Agosto
de 2010 ao acompanhar a negociação dos bastidores para trazer a marca ao Brasil
e trabalhou muito tempo no importante de chefia da editora disse o seguinte:
“A
revista podia, o nome não. Assim, fizemos uma revista igualzinha aquela que
havíamos deixado com o ministro, só que com outro nome: A REVISTA DO HOMEM. Mas
a censura não nos deu trégua, colocando nossa publicação na vala comum do que
se fazia de mais vulgar.”
E
mostrar os populares programas de auditório brasileiros como o Domingo Legal
do apresentador Gugu Liberato(1959-2019) divulgando os ensaios com beldades
presentes no seu programa.
A
Editora Abril trabalhou com a marca no Brasil até o final de 2015, a razão para essa decisão envolveu que a Editora Abril que
detinha a propriedade intelectual da marca para operar em solo brasileiro desde 1975 vinha enfrentando uma situação
financeira difícil desde o começo dos anos 2010, algo que foi se agravando
depois da morte de Roberto Civita em 2013, que foi o principal
diretor-administrativo da empresa.
Quando
seus três filhos: Giancarlo, Roberta e Victor Neto assumiram o comando da
empresa a coisa foi se agravando.
Principalmente quando ocorreu a crise
econômica e política que o Brasil foi
encarando depois das Manifestações de 2013, que resultou no Golpe do
Impeachment da então Presidente da República Dilma Roussef em 2016 e só foi se
agravando após a vitória do repugnante Jair Bolsonaro para a Presidência da
República em 2018 e que só após a sua derrota em 2022 por Lula é que as coisas
foram aos poucos se estabilizando.
Isso
foi o que acabou pesando na decisão da empresa de não renovar a propriedade do
uso da marca Playboy para compor o seu rico catálogo junto com a Veja e os quadrinhos da Disney,
que foram as primeiras revistas que a editora publicou quando foi fundada em
1950, mas que também decidiu não
renovar, parando as publicações.
Isso
porque estava ficando muito caro pagar os royaltes para a matriz, fator esse
que pesou nessa decisão.
No
ano seguinte, a marca ainda operou no Brasil pelas mãos da PBB Entertainment,
que passou a publicar “bimestralmente, segundo a editora, a ação faz parte
do processo de reestruturação da marca no Brasil, que trará novidades para os
leitores.
Em
2017 a revista passou a sair a cada três meses. No mês de abril, o publisher
André Sanseverino foi afastado da revista após ser denunciado, junto com seu
sócio Marcos Aurélio de Abreu Rodrigues e Silva, de assédio sexual por nove
modelos que participaram de um evento da revista, em Curitiba. Elas acusavam
ambos de propor sexo em troca de dinheiro e fama.
Em
2 de abril de 2018 foi anunciado que seria somente uma edição por ano, deixando
assim de ser vendida nas bancas e passando a ser comercializada somente por
encomenda em seu site, para colecionadores.
Em
julho de 2018, é confirmado que a Playboy foi encerrada no Brasil após rescisão
de contrato entre a PBB Entertainment e a matriz norte-americana no fim de
2017.
Em
matéria publicada pelo UOL, a diretoria da revista nos Estados Unidos confirmou
que as operações virtuais da marca Playboy no Brasil eram irregulares e que
estava sob processo de investigação.
Por
conta disso, perfis nas redes sociais foram desativados e o site Men Play foi
fechado pelo FBI. Paralelo ao encerramento das atividades da versão
brasileira, a Playboy America fez um acordo e passou a distribuir a Playboy
Portugal em São Paulo e Rio de Janeiro
.”
(Wikipédia)
Hoje
restam apenas lembranças da revista que ajudou a influenciar, popularizar, a
diversificar ou mesmo a massificar a cultura e a arte das mais
diferentes manifestações.
Uma
dessas a mais óbvia a se destacar foi na fotografia, quantos dos
exuberantes corpos femininos mais cobiçados do mundo representados tanto por
atrizes, modelos, atletas e até mesmo das subcelebridades foram clicadas pelos
olhares, das lentes brilhantes dos mais talentosos fotógrafos
mundiais.
Muito
mais do que uma simples revista de mulher pelada, a Playboy que Hefner
criou também serviu como instrumento de orientação masculina tanto na
sexualidade, quanto no modo de se vestir, no modo de agir na vida social, dicas
de vinhos para bons apreciadores, dicas saudáveis, dicas de boas leituras,
entre elas de livros e hqs que estavam para serem lançadas.
Dicas
de músicas mostrando quais são os mais novos álbuns dos artistas a serem
lançadas no mercado, quais as novas tendências e mostrava também a agenda de
shows do cantor.
Dicas
de filmes e séries que estão para serem lançadas nos Home Vídeos, um deleite
para quem é colecionador desses artigos. Muito mais do que uma
simples revista de mulher pelada, a Playboy também apresentava um
riquíssimo conteúdo trazendo textos com as mais diferentes matérias com os mais
variados temas escritos pelos mais diferentes jornalistas.
Com colunas, artigos de opinião e até
mesmo acesso a leituras dos capítulos de livros que estavam para serem
lançados, para termos um gostinho a mais. Com direito a muito texto de humor e
charges de grandes desenhistas como Alpino, Mauro A. entre outros.
Também nos deixou muito antenados as
novas tendências tecnológicas, entre outras curiosas características dessa
revista. Inclusive até mesmo na cultura nerd/geek do mundo super-heróis ele
tornou-se referência inspirando a aparição de um personagem no desenho da Liga
da Justiça e no primeiro filme do Homem de Ferro de 2008 foi vivido numa ponta
pelo Stan Lee, o criador da Marvel.
Ela também revolucionou nas causas
sociais, especialmente contra o racismo, foi a divulgadora do movimento
literário beat, ajudou também a divulgar tudo que fosse relacionado aos filmes
de James Bond, promoveu grandes entrevistas com as mais importantes
personalidades sem fazer distinção de classe social, sexismo, de
ideologias políticas, deu voz para artistas, jornalistas, esportistas,
políticos, modelos e até mesmo as mais controversas celebridades o
espaço de terem suas vozes ali abrindo toda as suas vidas intimas e os seus mais singelos segredos, como
compartilhar os momentos onde perderam as suas virgindades.
No geral tudo isto serviu muito bem
para a revista ser o que é hoje. Apesar de ter passado por muitas faces
adversas e turbulentas ao longo dos seus 65 anos de vida. E muito disso deve-se
ao seu criador, ele mais do que criou uma simples revista de mulher pelada,
também criou uma forma de pensar, uma forma de apreciar arte alternativa, uma
forma revolucionaria de leitura entre tantas outras definições que
se pode dar para a Playboy.
Um homem cujo estilo de vida, podia não
ser o melhor exemplo para alguns puritanos conservadores, adorava se envolver
com todo tipo de mulher ao qual viviam sempre em sua mansão de luxo como um
harém, as famosas coelhinhas que não eram à toa que tinham esta denominação já
que o símbolo da revista é o coelho, casou e descasou com as mais diversas que
já passaram em sua vida e destes relacionamentos constituiu uma família formada
por quatro filhos, ele podia não o estilo de vida perfeito, gostava de apreciar
o que pregava na própria revista, mas pelo menos deixou um legado importante
com esta revista.
Inclusive
foi por causa da sua revista que ele já enfrentou sérios problemas com esta
camada da sociedade americana principalmente quando a revista surgiu em 1953
numa época onde a sexualidade era visto como um tabu. Simplesmente se não fosse
pela ousadia de Hugh Hefner a Playboy não existiria como a conhecemos.















































Nenhum comentário:
Postar um comentário