terça-feira, 21 de abril de 2026

100 ANOS DE HUGH HEFNER

 

Quando se fala numa revista como a Playboy, tende se muito a assimilar a imagem de uma revista erótica. Mas ao terminar de ver  a  ótima série documental intitulada American Playboy: A História de Hugh Hefner(American Playboy: The Hugh Hefner Story, EUA, 2017) pude constatar que ela foi muito mais do que isso.



Uma produção da Amazon Prime Vídeo sobre a história da revista Playboy que foi muito mais do que uma revista erótica.

Muito interessante de se conhecer nesse ano de 2026  em que seu fundador  Hugh Hefner faria 100 anos se tivesse vivo.




Dividida em 10 episódios, a minissérie conta com a direção de Richard Lopez.

Produzida e desenvolvida  num formato que mescla documentário com dramatização, um docudrama praticamente.




Cada episódio vai apresentando  um pouco da biografia da revista símbolo do comportamento masculino passo a passo muito bem  detalhado a cada etapa e também do  seu criador.  




Hugh Hefner(1926-2017) é quem  figura como o fio condutor da  narrativa em off do começo ao fim. Mostrando muitas intercalações entre alguns depoimentos de pessoas importantes que contribuíram para a história da revista  dando seus depoimentos, entrevistas do Hefner nas imagens de arquivos para diferentes os programas de TV americanos, o que enriquece bastante o conteúdo, que soube como trabalhar  o lado mais didático que é característico da estética de um documentário ao mostrar os diferentes contextos históricos,  sócio-políticos  e cultural americano  em que a Playboy teve uma  grande participação e grande contribuição ao longo de suas seis décadas de existência com as dramatizações onde Hefner interpretado por Matt Whelan conduz bem  a narrativa desenvolvendo todas as suas  camadas do empresário metódico  e do playboy que ostentava publicamente a vida luxuosa em sua mansão com as festas cheias de orgias com suas coelhinhas.




No primeiro episódio, somos apresentados a forma como Hefner concebeu a revista, cuja primeira edição lançada em 1953, contou com a capa da então grande estrela de Hollywood Marilyn Monroe(1926-1962) e de como ele conseguiu sem precisar pagar um alto cachê pelo ensaio,  já que ele havia comprado de um ensaio que ela fez para um calendário antes de virar uma grande estrela do cinema.


 
A histórica primeira capa da Playboy 
com a estrela do cinema Marylin Monroe. 


Ao longo dos episódios seguintes somos apresentados a trajetória de como ele foi consolidando a marca da Playboy,  mostrando a origem do que o inspirou a logo do coelho que não foi a sua primeira escolha de logomarca para a revista, expandindo para a televisão, para os bares, os cassinos com os nomes da marca  onde foram concebido a ideia das garçonetes se vestirem com o adereço de coelhinhas que se tornou a marca  registrada característica dos eventos da revista, principalmente quando era em sua mansão que ocorria grandes festas.


 
Capa da Playboy brasileira com Maité Proença 
de Agosto de 1996.


Também mostra que nem sempre a medida que a marca foi se consolidando nem tudo foi um mar de rosas na vida de Hefner, ainda mais quando ele enfrentou uma vida pessoal difícil a medida que era consumido demais pelo trabalho, passou por três casamentos, adorava esbanjar aquele ideal masculino com suas playmates na mansão.




Já chegou a enfrentar investigações judiciais por acusação de imoralidade, já foi criticado por grupos feministas que achavam o ideal da marca uma objetificação sexual feminina.


 
Matt Whelan como Hugh Hefner na minissérie. 


Ao mesmo tempo que a marca foi importante por dar  voz a classe oprimida da cultura americana que eram os negros segregados.

Diante disso tudo ele ainda encarou o surgimento das concorrências da Penthouse, e também vivenciou trágicas perdas de duas mulheres muito importantes para ele dentro da marca da Playboy.




 
A atriz Jane Fonda como Barbarella na capa da Penthouse
de 1968.  A grande concorrente da Playboy. 

Primeiro foi com a perda de Bobbie Arnstein(1940-1975), que não era nenhuma playmate, nem foi uma de duas coelhinhas e nem entre as tantas mulheres com quem ele namorou, mas, tratava-se de sua secretária executiva que devido a sua conexão  com um traficante de drogas, a fez  ficar  no radar  da investigação do FBI, e isso resultou na maior desgraça da sua vida que além de perder o emprego tiraria a própria vida:

Em uma coletiva de imprensa após a morte dela, ele acusou o  então advogado James R. Thompson(1936-2020) de assassinato, alegando que Thompson a usou em um esforço calculado para destruí-lo. Arnstein foi presa em março de 1974 por agentes federais de narcóticos e acusada de conspirar para transportar cocaína de Miami para Chicago; ela negou as acusações. A investigação foi encerrada em dezembro de 1975, depois que os dois homens presos com Arnstein recusaram acordos de imunidade para testemunhar contra Hefner.

(IMDB).




No documentário é dramatizado  o envolvimento amoroso que ela teve por um bandidão, e que por conta dessa investigação do FBI, Hefner teve de demiti-la contra sua vontade, visto que ele sempre se preocupava com ela, que foi sempre foi uma importante ajudante nas suas decisões executivas e colaborava nos agendamentos.

Boobie Arnisten  a secretária executiva 
de Hefner envolvida numa investigação 
de tráfico de drogas. 

Bobbie Arnstein não suportou toda essa situação que deixou sua saúde mental comprometida que ela acabou tirando a própria vida em janeiro de 1975.

Pior mesmo ocorreu anos depois quando ele sofreu outra trágica  perda de uma importante mulher ligada a marca Playboy que ocorreu  no dia 14 de Agosto de 1980, quando a jovem atriz canadense Dorothy Stratten de apenas vinte anos era covardemente  assassinada pelo seu marido Paul Snider(1951-1980), um sujeito explorador que trabalhava como um cafetão  que era o agenciador da carreira de Stratten desde  que a conheceu em uma Dary Queen em Vancouver no Canadá.




Foi ele o responsável por lançar sua carreira artística enviando suas fotos nuas para a Playboy.  Que ao receberem, fizeram contato com ela onde ela participou de ensaios virando a Playmate* do ano de 1979.

Snider já demonstrava um tipo de comportamento tóxico,   abusivo e violento  com Stratten, mostrando o seu lado ciumento possesivo.

Quando Stratten foi covardemente assassinada, ela estava investindo na carreira de atriz, gravou uma participação na série de tv Ilha da Fantasia, estrelou uma produção de filmes B de ficção cientifica chamado de Galaxina(1980) e quando ela morreu ao chegar  em sua mansão na California por Paul Snider que disparou de sua espingarda Mossberg calibre 12 e depois ele tirou a própria vida.


 
Cartaz do filme B Galaxina estrelada por 
Dorothy Stratten. 


Stratten havia retornado naquele momento em que foi covardemente morta por Snider,  de um voo de Nova York onde estava filmado o filme Muito Riso, Muita Alegria(They All Laughed, EUA, 1981) do diretor Peter Bogdanovich(1939-2022) com quem estava começando a se relacionar amorosamente durante as filmagens.


 
Dorothy Straten em cena no filme Muito Riso, Muita Alegria, lançado
postumamente. 


Esse triste episódio  da morte trágica  de outra importante figura feminina atrelada a marca da Playboy, poucos anos após a morte de Bobbie Arnstein marcou um começo difícil ao qual Hefner teve de enfrentar  durante a década de 1980 onde são dramatizados nos últimos episódios que foi lidar  com a crise financeira da empresa onde a marca já expandida precisou diminuir fechando as atividades de alguns cassinos, também precisou lidar  com o modelo de política conservadora americana   pregada no moralismo cristão criado  por Ronald Reagan(1911-2004) durante seu mandato na de Presidente dos Estados Unidos, um ex-astro da Hollywood clássica e com o fato de que  com a recém- descoberta da  ciência  de uma doença sexualmente transmissível que era o HIV, isso tudo  ameaçou a relevância da Playboy.

No entanto, Hefner foi conseguindo contornar a mantendo relevante até os seus últimos suspiros de vida.  Hefner faleceu no dia 27 de Setembro de 2017, aos 91 anos. Devido a causas naturais.  

Uma pena que não mostre quando a marca expandiu para outros países mostrou os bastidores do seu surgimento aqui no Brasil  com o nome de A Revista do Homem, por conta da imposição da  repressão da censura em plena época de Ditadura Militar.



































Pelo que Roberto Civita(1936-2013), filho do fundador da Editora Abril Victor Civita(1907-1990) que detinha o registro da marca em território brasileiro até 2015, pelo que ele comentou numa entrevista para a revista na edição de Agosto de 2010 ao acompanhar a negociação dos bastidores para trazer a marca ao Brasil e trabalhou muito tempo no importante de chefia da editora disse o seguinte:

A revista podia, o nome não. Assim, fizemos uma revista igualzinha aquela que havíamos deixado com o ministro, só que com outro nome: A REVISTA DO HOMEM. Mas a censura não nos deu trégua, colocando nossa publicação na vala comum do que se fazia de mais vulgar.”

E mostrar os populares programas de auditório brasileiros como o Domingo Legal do apresentador Gugu Liberato(1959-2019) divulgando os ensaios com beldades presentes no seu programa.

A Editora Abril trabalhou com a marca no Brasil até o final de  2015, a razão para essa decisão  envolveu que a Editora Abril que detinha a propriedade intelectual da marca para operar em solo brasileiro  desde 1975 vinha enfrentando uma situação financeira difícil desde o começo dos anos 2010, algo que foi se agravando depois da morte de Roberto Civita em 2013, que foi o principal diretor-administrativo da empresa.

Quando seus três filhos: Giancarlo, Roberta e Victor Neto assumiram o comando da empresa a coisa foi se agravando.

 Principalmente quando ocorreu a crise econômica e política  que o Brasil foi encarando depois das Manifestações de 2013, que resultou no Golpe do Impeachment da então Presidente da República Dilma Roussef em 2016 e só foi se agravando após a vitória do repugnante Jair Bolsonaro para a Presidência da República em 2018 e que só após a sua derrota em 2022 por Lula é que as coisas foram aos poucos se estabilizando.

Isso foi o que acabou pesando na decisão da empresa de não renovar a propriedade do uso da marca Playboy para compor o seu rico catálogo junto com a  Veja e os quadrinhos da Disney, que foram as primeiras revistas que a editora publicou quando foi fundada em 1950, mas que também decidiu  não renovar, parando as publicações.

Isso porque estava ficando muito caro pagar os royaltes para a matriz, fator esse que pesou nessa decisão.

No ano seguinte, a marca ainda operou no Brasil pelas mãos da PBB Entertainment, que passou a publicar “bimestralmente, segundo a editora, a ação faz parte do processo de reestruturação da marca no Brasil, que trará novidades para os leitores.

Em 2017 a revista passou a sair a cada três meses. No mês de abril, o publisher André Sanseverino foi afastado da revista após ser denunciado, junto com seu sócio Marcos Aurélio de Abreu Rodrigues e Silva, de assédio sexual por nove modelos que participaram de um evento da revista, em Curitiba. Elas acusavam ambos de propor sexo em troca de dinheiro e fama.

Em 2 de abril de 2018 foi anunciado que seria somente uma edição por ano, deixando assim de ser vendida nas bancas e passando a ser comercializada somente por encomenda em seu site, para colecionadores.

 Em julho de 2018, é confirmado que a Playboy foi encerrada no Brasil após rescisão de contrato entre a PBB Entertainment e a matriz norte-americana no fim de 2017.

Em matéria publicada pelo UOL, a diretoria da revista nos Estados Unidos confirmou que as operações virtuais da marca Playboy no Brasil eram irregulares e que estava sob processo de investigação.

Por conta disso, perfis nas redes sociais foram desativados e o site Men Play foi fechado pelo FBI. Paralelo ao encerramento das atividades da versão brasileira, a Playboy America fez um acordo e passou a distribuir a Playboy Portugal  em São Paulo e Rio de Janeiro
.”

(Wikipédia)

Hoje restam apenas lembranças da revista que ajudou a influenciar, popularizar, a diversificar ou mesmo a massificar a cultura e a arte das mais diferentes  manifestações. 

Uma dessas a mais óbvia a se destacar  foi na fotografia, quantos dos exuberantes corpos femininos mais cobiçados do mundo representados tanto por atrizes, modelos, atletas e até mesmo das subcelebridades foram clicadas pelos olhares, das lentes brilhantes  dos mais talentosos fotógrafos mundiais.  

 Muito mais do que uma simples revista de mulher pelada, a Playboy que Hefner criou também serviu como instrumento de orientação masculina tanto na sexualidade, quanto no modo de se vestir, no modo de agir na vida social, dicas de vinhos para bons apreciadores, dicas saudáveis, dicas de boas leituras, entre elas de livros e hqs  que estavam para serem lançadas.

 Dicas de músicas mostrando quais são os mais novos álbuns dos artistas a serem lançadas no mercado, quais as novas tendências e mostrava também a agenda de shows do cantor.

Dicas de filmes e séries que estão para serem lançadas nos Home Vídeos, um deleite para quem é colecionador desses artigos.  Muito mais do que uma simples revista de mulher pelada, a Playboy também apresentava um riquíssimo conteúdo trazendo textos com as mais diferentes matérias com os mais variados temas escritos pelos mais diferentes jornalistas. 

          Com colunas, artigos de opinião e até mesmo acesso a leituras dos capítulos de livros que estavam para serem lançados, para termos um gostinho a mais. Com direito a muito texto de humor e charges de grandes desenhistas como Alpino, Mauro A. entre outros.

         Também nos deixou muito antenados as novas tendências tecnológicas, entre outras curiosas características dessa revista. Inclusive até mesmo na cultura nerd/geek do mundo super-heróis ele tornou-se referência inspirando a aparição de um personagem no desenho da Liga da Justiça e no primeiro filme do Homem de Ferro de 2008 foi vivido numa ponta pelo Stan Lee, o criador da Marvel.  

       Ela também revolucionou nas causas sociais, especialmente contra o racismo, foi a divulgadora do movimento literário beat, ajudou também a divulgar tudo que fosse relacionado aos filmes de  James Bond, promoveu grandes entrevistas com as mais importantes personalidades sem fazer  distinção de classe social, sexismo, de ideologias políticas, deu voz para artistas, jornalistas, esportistas, políticos, modelos  e até mesmo as mais controversas celebridades o espaço de terem suas vozes ali abrindo toda as suas vidas  intimas e os seus mais singelos segredos, como compartilhar os momentos onde perderam as suas  virgindades.

         No geral tudo isto serviu muito bem para a revista ser o que é hoje. Apesar de ter passado por muitas faces adversas e turbulentas ao longo dos seus 65 anos de vida. E muito disso deve-se ao seu criador, ele mais do que criou uma simples revista de mulher pelada, também criou uma forma de pensar, uma forma de apreciar arte alternativa, uma forma revolucionaria de leitura  entre tantas outras definições que se pode dar para a Playboy.

       

Um homem cujo estilo de vida, podia não ser o melhor exemplo para alguns puritanos conservadores, adorava se envolver com todo tipo de mulher ao qual viviam sempre em sua mansão de luxo como um harém, as famosas coelhinhas que não eram à toa que tinham esta denominação já que o símbolo da revista é o coelho, casou e descasou com as mais diversas que já passaram em sua vida e destes relacionamentos constituiu uma família formada por quatro filhos, ele podia não o estilo de vida perfeito, gostava de apreciar o que pregava na própria revista, mas pelo menos deixou um legado importante com esta  revista.  

Inclusive foi por causa da sua revista que ele já enfrentou sérios problemas com esta camada da sociedade americana principalmente quando a revista surgiu em 1953 numa época onde a sexualidade era visto como um tabu. Simplesmente se não fosse pela ousadia de Hugh Hefner a Playboy não existiria como a conhecemos. 

*O termo playmate no universo da marca Playboy “é o termo dado para as modelos que ganham o pôster na página central da revista Playboy, como parte de um ensaio nu. Ao final de cada ano as doze "Playmate do mês" entram em uma eleição para escolher a Playmate do Ano, antes de em 2020 se optar por suspender essa votação.”(Wikipédia)

O curioso é que esse nome não é uma exclusividade da marca Playboy, digo isso porque o nome tem origem numa palavra que normalmente é usada para contexto infantil que numa tradução significa companheiros de brincadeira.  

Muitos criam uma confusão imaginando que elas são a mesma coisa das Coelhinhas, mas não são. As Coelhinha “são as funcionárias que trabalham nos eventos patrocinados pela  Playboy (originalmente nas boates da marca Playboy, criada pelo jornalista Hugh Hefner, em 1953), autorizadas a usar a roupa oficial de coelha (a notória Bunny Costume), aludindo ao coelho mascote da revista, passando ainda por um treinamento de comportamento e "manobras" para servir alguém na mesa ou em eventos específicos. Tais treinamentos legitimam-se na medida em que há registros de ocorrências constrangedoras promovidas por participantes que se excedem durante fotos e abordagens. “(Wikipédia).

O fato das coelhinhas se destacarem por uniforme fez com que a cultura pop replicasse essa fantasia ao universo sexual.


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