quarta-feira, 1 de abril de 2026

30 ANOS DA ESTREIA DA NOVELA VIRA LATA

 

No dia 1° de Abril de 1996, estreava em cartaz no horário das sete da Globo a novela Vira Lata(1996).




Uma trama um tanto quanto esquecida, onde o próprio autor Carlos Lombardi admiti que foi sua pior novela, onde ele fez do possível ao impossível para tentar consertá-la em vão.




Para entender melhor  do que se trata Vira Lata, vamos primeiramente explanar sobre os antecedentes do seu autor.

Carlos Lombardi começou sua carreira de roteirista de televisão no final dos anos 1970, após ter se formado no curso de comunicação(Rádio e TV).





Seu primeiro trabalho de roteirista foi escrevendo para o Telecurso 2ºGrau na TV Cultura de São Paulo.

Foi na extinta Rede Tupi escrevendo a novela Como Salvar o Meu Casamento(1979) que ele teve sua primeira experiência escrevendo com apenas 20 e poucos  anos, onde dividiu a titularidade com Edy Lima(1924-2021) e Ney Marcondes, que contou com a direção de Atilio Riccó.




Essa produção ficou marcada como a última da pioneira Rede Tupi, que já vivendo num colapso financeiro teve sua produção “interrompida faltando poucos capítulos para o seu término. Não foi somente uma frustração para todos os profissionais envolvidos. Representou, principalmente, o prenúncio de que a emissora, moribunda, não teria muito tempo de vida.”

Quando ocorreu o final  abrupto da novela sem desfecho  no dia 21 de Fevereiro de 1980, a Tupi enfrentou um longo período turbulento de cinco meses  de greves de funcionários e ainda operou exibindo reprises de novelas  nos seus últimos momentos de vida até chegar ao fim em Julho de 1980.




Logo em seguida, Lombardi chegou a ser convidado por Walter Avancini(1935-2001) para escrever O Todo Poderoso(1979-1980) na Bandeirantes(Band), novela que já encontrava adiantada, pois tinha começado a ser escrita por Clóvis Levy e José Safiotti Filho.  

Lombardi ingressou na Globo no começo da década de 1980  onde o primeiro trabalho que ele escreveu na emissora não foi logo como autor-titular, mas sim como colaborador.




Sua primeira novela na emissora como colaborador foi em Jogo da Vida(1981-1982), obra de autoria de Silvio de Abreu com argumento de Janete Clair(1925-1983).

No ano seguinte, trabalhou como colaborador na novela Elas por Elas(1982), de autoria de Cassiano Gabus Mendes(1929-1993), imagino o quanto para ele tenha sido uma honra trabalhar num texto escrito por Cassiano Gabus Mendes, ainda mais pelo fato de que àquela altura Cassiano já era um nome consagrado e foi da primeira geração de roteiristas oriundos do rádio que surgiu nos primórdios da televisão brasileira.




Ainda mais levando em conta o fato de que ele um jovem de vinte e poucos anos cuja carreira já foi moldada pela televisão, digo isso porque Lombardi que nasceu em 1958 representava a primeira geração de brasileiros que nasceram e cresceram assistindo televisão.

Com certeza ele teve uma grande aula prática em como se estrutura um roteiro de capítulos em novelas com um roteirista já veterano.




Foi também em 1982 que ele escreveu para a Tv Cultura Maria Stuart(1982) um tele romance inspirado na obra de Friedrich Schiller(1759-1805).

Em 1983, ele novamente escreveria como colaborador em uma novela de Silvio de Abreu que foi em Guerra dos Sexos(1983-1984) cujo sucesso do estilo de estética cômica pastelão é o que marcaria para sempre o estilo de humor de Lombardi quando no ano seguinte ele escreveu sua primeira novela como titular que foi Vereda Tropical(1984-1985) que contou com o envolvimento de Silvio de Abreu sendo creditado como supervisor  do texto.

Foi a partir de Bebê a Bordo(1988-1989) que Lombardi “mostrou seu estilo próprio, em uma linguagem cheia de ação, humor e diálogos sarcásticos.”(Teledramaturgia).

 Ele costumava trabalhar em seus enredos  num ritmo  acelerado  e frenético principalmente ao trabalhar com cenas que envolviam pancadaria, tiroteio e correria.

Esse tipo de adrenalina em suas novelas as  faziam  se aproximarem de uma linguagem cinematográfica dos filmes de ação mesclado a linguagem das histórias em quadrinhos de super-heróis.

Do mesmo modo, o seu texto se caracterizava pelo estilo irreverente e porquê não dizer excêntrico  dos diálogos sarcásticos dos personagens quando se envolviam  situações corriqueiras pelo tom do deboche  cínico  do moralismo hipócrita da sociedade brasileira bem escancarado. Ainda mais  quando apelava para erotismo masculino com seus protagonistas sem camisa mostrando os corpos sarados e peitorais.

E isso foi sua “marca registrada, perpetuada em seus trabalhos posteriores”*, como na novela  Perigosas Peruas(1992) onde convidou o autor Cassiano Gabus Mendes o papel de Dom Franco Torremolinos o temido mafioso e em  Quatro por Quatro(1994-1995) até chegar ao foco em questão do texto  que é sobre a novela Vira Lata.

A trama de Vira Lata gira em torno da descoberta do promotor Braulio Vianna(Murilo Benicio) um sujeito  rígido que não faz a mínima ideia  de que “sua mulher Helena(Andréa Beltrão) lhe ocultava que seu pai Moreira(Jorge Dória) é um estelionatário procurado pela polícia, exigiu que ela fizesse uma escolha: ou o pai ou as filhas. Helena então viaja a Florianópolis para refletir uma decisão e conhece Lenin(Humberto Martins), por quem se apaixona. Ao saber que o pai era traído pelo seu cunhado Ítalo(Rômulo Arantes) e que corria perigo de vida, Helena decide ajudá-lo e some com ele.”

Lenin o sujeito por quem Helena se apaixona ao conhecer acidentalmente é um cara de perfil aventureiro, sujeito largado do mundo que vive arrumando encrencas.

Lenin tem dois irmãos chamados de Fidel(Marcelo Novaes) e Mussolini(Luciano Viana) que foram cuidados pelo pai Lupércio Wanderpetrokovitz(Claudio Marzo) depois que a mãe dos três Stella(Gloria Menezes) os abandonaram na infância para viver um novo amor com um cara jovem com   quem se casou, o mulherengo do Ângelo Visconti(Mario Gomes).

Lenin também conta em sua família com Aliança Bauen(Ivone Hoffman), uma governanta alemã que ajudou Lupércio a criar os três depois que a desmiolada da mãe os abandonou pequenos  e Aurélio Wanderpetrokovitz (Ary Fontoura) o seu tio, irmão de seu pai Lupércio que comanda o hotel da família em Florianópolis que é o Solar Santa Maria.

Fidel é o que carrega uma desilusão amorosa por ter sido abandonado por Pietra(Vanessa Lóes) que resolve reaparecer virando um fantasma em sua vida casada com Toco(Tuca Andrada) acompanhada de seu filho Toquinho(Eduardo Caldas), que fica numa dúvida dele ser filho de Fidel ou de Lenin, e sua cunhada Renata(Carolina Dieckman), que vai se apaixonar por Fidel, sem saber que ele é irmão de Mussolini com quem ela se envolveu e engravidou e fora que na vida de Fidel vai aparecer uma menina de rua chamada Tatu(Débora Secco) que pode ser sua suposta filha, e que nutre uma paixão platônica por Lenin.

Fidel apesar de ser o mais certinho  e tímido  com relação a Lenin, ainda assim enfrenta problemas sérios com a Lei a ponto de ficar fichado na polícia.

 Ao longo da trama vai sendo colocado o drama que um dos três irmãos Wanderpetrokovitz tinha uma doença congênita a ponto de morrerem a qualquer momento, terminou que quem morreu foi Lenin.

No núcleo principal da família da protagonista Helena, cuja casa vive cheia de cachorros o que justifica o título vira lata onde convive além do marido Vianna, as duas filhas Juliana(Kananda Maia) e Geovana(Alessandra Aguiar) e a empregada Dolores(Talma de Freitas).

Ela também recebe a visita frequente de sua inseparável amiga Valquíria(Betty Lago) e fora que ela na sua família além  de ter o pai bandidão, ela também  tem dois irmãos que são  cumplices de seu pai que tratam-se de Aquiles(Roberto Battaglin) e Cassandra(Maria Zilda Bethlem), esta que vem a ser casada com Ítalo Batalha que vai ser o responsável por assassina-la no decorrer da trama e tentar assassinar seu sogro.

Ainda mais  que Ítalo  mantém um caso extraconjungal com a Antígone(Cinira Camargo) outra cumplice de Moreyra.

Em paralelo temos Stella vivendo uma crise na sua relação com o cafajeste do Ângelo,  resolvendo se reaproximar dos filhos para tratar da herança.

Essa novela que contou com a direção de Jorge Fernando(1955-2019) que também participa como ator na pele do Baba Ovo foi um trabalho que o autor Carlos Lombardi mais assume publicamente que esta foi a pior novela que ele escreveu ao longo de sua extensa carreira de novelista ao longo dos anos em que trabalhou na Globo.

No depoimento que prestou ao livro Autores, História da Teledramaturgia do Projeto Memória Globo,  Lombardi declarou:

“Foi minha pior novela. Em Vira-lata aprendi a jogar fora o que não funciona e consertar o que está dando errado com a novela no ar. Consertei a novela somente no capítulo 80. Do capítulo 20 em diante, fiquei tentando ajustar, porque estreei com 20 capítulos prontos.”

Talvez um dos fatores que tenha tornado Vira-Lata um fracasso, pode ter relação ao fato de que o texto de Lombardi e a direção de Jorge Fernando não conseguia se encaixar, não encontrava conexão.

Fernando que além de ator, também tinha firmado o seu nome como diretor em novelas, o seu estilo de direção irreverente, ágil e focado no humor, muitas vezes próximo ao pastelão. Sua direção era conhecida por transformar cenas dramáticas em momentos cômicos, trazendo leveza e dinamismo, especialmente nas novelas das 7 da Rede Globo, onde consolidou uma estética ágil e divertida. Algo incomum para um diretor de novela carregar uma identidade autoral, visto que normalmente isso é mais comum entre os autores.

E talvez por esse motivo que em Vira Lata o resultado do seu estilo autoral de direção não tenha conseguido se encaixar e mostrar um boa química com a estética  caótica de Carlos Lombardi.

Segundo palavras do próprio Lombardi sobre a direção de Jorge Fernando:

“Errei coisas no texto, na escalação e o Jorginho errou na mão, apesar de eu admirá-lo muito. Foi uma comunicação ruim”.

Lombardi já havia começado a desenvolver a escrita do argumento do roteiro de Vira Lata em 1992, quando concluiu Perigosas Peruas. Que chegou a ser aprovada e que em 1994, seria a novela escolhida para substituir Olho no Olho (1993-1994) escrita por Antônio Calmon, que chegou a entrar em pré-produção, que contaria com a direção de Roberto Talma(1949-2015).

Mas devido as dificuldades de produção, principalmente para treinar os cães, a trama acabou sendo engavetada. O que resultou que a trama seguinte escolhida para suceder Olho no Olho, foi o remake de A Viagem(1994) de Ivani Ribeiro(1922-1995) que foi sucedida por outra trama escrita por Lombardi Quatro por Quatro, que foi sucedida por Cara & Coroa (1995-1996) de Antônio Calmon que foi a antecessora de Vira Lata.

Andrea Beltrão e Humberto Martins, já naquela época, estavam cotados para os papéis de Helena e Lênin, mas se comprometeram com as gravações da minissérie A Madona de Cedro (exibida em 1994), o que contribuiu para a suspensão de Vira-lata. Quando enfim liberada, Andrea Beltrão foi deslocada para A Viagem, de Ivani Ribeiro, novela escolhida para a vaga de Olho no Olho. Já Humberto Martins voltou à cena em Quatro por Quatro (1994), do próprio Lombardi, a produção sucessora de A Viagem.

(Teledramaturgia).

Somente após o sucesso com Quatro por Quatro, foi que a Globo resolveu aprovar o roteiro engavetado de Vira Lata que foi escolhida para suceder a novela Cara & Coroa. Lombardi aceitou encurta suas férias, caso Jorge Fernando topasse dirigir, como ele declarou para o jornal Folha de São Paulo de 31 de Março de 1996:

“Até achei que ele não ia querer, porque tinha acabado de sair de uma novela [A Próxima Vítima], mas ele topou. Acho que ficou a fim porque era um projeto diferente do anterior”.

Dentre os principais pontos que o autor admitiu que mais errou a mão foi na escalação de Andreia Beltrão para viver a protagonista Helena, como ele desabafou no depoimento ao livro A Seguir, Cenas dos Próximos Capítulos de autoria de André Bernardo e Cíntia Lopes:

“A Andréa Beltrão foi chata pra caramba! Nunca mais pretendo escrever ou trabalhar com ela na vida. E olha que acho a Andréa uma atriz brilhante. Mas ela não é uma estrela no sentido de empatia popular. É uma brilhante atriz, de mau humor. E põe mau humor nisso… Ela não gostava do que estava fazendo. E parecia também não gostar com quem estava contracenando.”

A atriz que àquela altura já tinha consolidado sua carreira na televisão quando ingressou na Rede Globo nos anos 1980 participando da novela Corpo a Corpo(1984-1985) de Gilberto Braga(1945-2021) e depois ficou nacionalmente conhecida como a Zelda Scott do seriado da Armação Limitada(1985-1988) e veio de uma sequência de novelas, mas que nessa novela digamos assim ela não conseguiu encontrar uma conexão com o texto de Lombardi.

Acredito eu que ela até hoje não deve guardar muitas boas lembranças sobre essa novela que foi a que ela menos gostou de todo o seu currículo. Ainda mais agravado pelos problemas de saúde que ela apresentou e estando grávida de dois meses teve de ficar longe dos estúdios por pelo menos dez capítulos.

Como consequência desse afastamento temporário de Andreia Beltrão, Lombardi precisou mudar os rumos do triângulo amoroso Lenin-Helena-Vianna (Humberto Martins, Andréa Beltrão e Murilo Benício). Na história, Helena deu um susto em seus pretendentes ao viajar sem deixar pistas, fazendo com que os dois ficassem enlouquecidos à sua procura.

Foi então que ele resolveu mudar o foco  concentrando  o protagonismo em Renata, papel vivido por Carolina Dieckman, que vai viver um romance com Fidel. Como bem admitiu o próprio Lombardi: “A novela só subiu quando peguei uma atriz coadjuvante e falei: esta é mocinha da história”.

Na ocasião em que participou de Vira Lata num papel primeiramente secundário que por conveniência do autor virou a principal, Carolina Dieckman naquele momento era ainda uma jovem atriz  em começo de carreira com apenas 18 anos que já  estava despontando na televisão desde que aos 15 anos passou no teste para ser uma das cinco protagonista da minissérie Sexy Appeal (1993) de Antônio Calmon seguido de uma participação em Fera Ferida(1993-1994), em seguida,  co-protagonizou Tropicaliente(1994) na pele da mocinha Açucena e integrou o elenco do primeiro ano  da soap opera Malhação(1995-2020) como a Juliana.  

Aliás, o elenco dessa novela também contou com a presença de muitos dos atores a quem Lombardi recorrentemente costumava escalar figurando entre os seus queridinhos dentre esses começo mencionando Humberto Martins, que àquela altura já figurava como um galã cuja carreira na televisão vinha ascendendo desde quando no final anos 1980 participou de duas novelas na Manchete que foram Carmem(1987) que foi uma novela escrita por Glória Perez, inspirada no conto homônimo do francês Prosper Merimée(1803-1870) e Olho por Olho(1988) escrita por José Loureiro(1932-2017).

Mas foi a partir de sua participação na novela Vale Tudo(1988-1989) que ele passou a fazer muitas novelas dentro da emissora que conseguiu firma-lo e onde foi aos poucos virando um grande galã.

Participou em seguida das novelas Barriga de Aluguel(1990-1991), Pedra Sobre Pedra(1992), Mulheres de Areia (1993) e em Quatro por Quatro (1994-1995) escrita pelo Lombardi onde protagonizou Bruno. Foi a partir dessa novela que Humberto Martins passou a ser com frequência escalado para as novelas escritas por Lombardi formando uma parceria.

A provável explicação do porquê de Humberto Martins figurar na preferência de Lombardi, a ponto de tê-lo como seu muso  pode estar no fato de que o autor via que ele em cena conseguia melhor captar a essência sarcástica do seu estilo de texto cômico ácido e anárquico e que aliado ao seu porte físico atlético  para encarar as frenéticas e perigosas  cenas  de ação que exigiam muito preparo físico para encarar a  adrenalina cinematográfica que o  seu texto exigia, fosse no corpo a corpo, no tiroteio ou mesmo em perseguição, ainda mais para explorar o toque de apelo sexual de fantasia erótica feminina com os heróis descamisados mostrando os peitões marombados.

Isso era uma uma marca registrada do autor, caracterizados por galãs sarados frequentemente sem camisa em cenas de ação, humor e romance em suas novelas. Esse estilo marcante explorava a boa forma dos atores, equilibrando apelo visual com tramas dinâmicas. Se tornou um tropo narrativo frequente em suas novelas.

Outro ator  também preferido por Lombardi que compôs o elenco de Vira Lata é Marcelo Novaes, que representou o Fidel, irmão de Lênin. Talvez uma das razões para Novaes figurar entre os preferidos do autor,  envolvia justamente o fato de que Novaes em cena conseguia bem captar bem  a essência do humor sarcástico de Lombardi para representar uns tipos cômicos com ares de cafajestes, sedutores, mulherengos  e com seu porte físico atlético conseguia também encarar perigosas cenas cheias de adrenalina que Lombardi explorava muito em suas novelas.

Outro nome presente  no elenco de Vira Lata que Lombardi frequentemente a escalava em suas novelas  que no caso especifico trata-se de uma presença feminina é da saudosa Betty Lago(1955-2015), ex-modelo que desde o começo dos anos 1990 e que na novela representou a Valquíria, amiga inseparável de Helena.

Segundo o que o próprio Lombardi declarou numa entrevista concedida para o site da Revista Caras de 13 de Setembro de 2024, a respeito de sua preferência em escala-la com tanta frequência para suas novelas:

“Ela tinha a facilidade de falar o meu texto sem ajuda, ela captava muito bem o que eu queria. Quando o elenco é bom, quero repeti-lo sempre, por isso a Betty fez tantas novelas minhas. Ela era muito boa representando, sabia o que estava dizendo, não era um papagaio. Três pessoas liam bem o meu texto: Betty, Nair Belo e Marcos Pasquim. Falavam com aparente facilidade. Tanto que Betty e o Pasquim repetiram novelas, como Uga Uga”.

E de fato desde a primeira vez  que ela trabalhou com Lombardi em Quatro Por Quatro como a Bibi, uma das quatro protagonistas femininas, ela de fato mostrava mesmo captar a essência do seu texto sarcástico principalmente ao explorar o tropo narrativo de mulheres finas fúteis, dondocas e com uma língua ácida e ferina para comentar muitas abobrinhas.

Além desses, o elenco também contou a presença de alguns nomes veteranos que trabalhavam há mais de 30 anos na Globo, grandes feras talentosas, cujo desempenho  é desperdiçado  e subtilizado por conta da qualidade medíocre do texto, onde nem a presença deles  consegue salvar a trama do fracasso, como Glória Menezes na pele da Stella, mãe do Lenin, Fidel e Mussolini que ficou tão insatisfeita com a qualidade do texto que pediu para sair da novela, o que resultou na substituição por Laura, irmã de Stella vivida por Susana Vieira.

Como Lombardi declarou no livro: Autores, História da Teledramaturgia:

“Demorei a descobrir que havia errado a escalação. Eu e a Andréa Beltrão não nos entendemos. (…) Errei também na escalação da Glória Menezes, que pediu para sair da novela. Ela estava insatisfeita com a personagem. Quer dizer, as duas atrizes escaladas para viver as mulheres centrais da trama estavam erradas. Com isso, perdi a empatia do público com as protagonistas, o que é fundamental. A partir do capítulo 80, peguei a terceira protagonista da história [vivida por Carolina Dieckmann] e a transformei na primeira.”

  Outros atores veteranos presentes no elenco de Vira Lata foram: o  saudoso Jorge Dória(1920-2013) na pele do picareta do Moreira, pai da protagonista Helena, o também saudoso Cláudio Marzo(1940-2015) na pele do Lupércio, pai do Lenin que aparece no começo vindo a falecer, um senhor perturbado do juízo. Ary Fontoura na pele do Aurélio, tio do Lênin que vive as turras com Aliança vivida pela veterana Ivone Hoffman com quem nutre um interesse amoroso. Cinira Camargo como Antígone, cumplice de Moreira e amante de Ítalo, Kadu Moliterno como o policial Romeu, que é amigo de Vianna.

Esse elenco de feras também contou com Maria Zilda Bethlem como a Cassandra, irmã de Helena,  Roberto Battaglin como Aquiles, o irmão de Helena, Tuca Andrada como Toco,  Mário Gomes como Ângelo, marido de Stella, que também costumava ser uma presença recorrente nas obras de Lombardi, talvez pelo fato  dele conseguir captar bem a essência do seu humor sarcástico para representar homens sedutores, mulherengos com ares de cafajestes e   a saudosa Nair Bello(1931-2007) que também era outra presença recorrente nas novelas de Lombardi, provavelmente pelo mesmo motivo de que ela em cena conseguia captar bem a essência sarcástica do humor lombardiano ao representar os tipos do tropo narrativo de senhoras com ares de megera autoritária  de língua afiada e um tanto escandalosas.  

O elenco de Vira Lata também contou com a presença de jovens atores em inicio de carreira mas que já vinham despontando em outras produções na emissora como: Murilo Benicio na pele do Bráulio Vianna, Vanessa Lóes como Pietra, Luciano Vianna como Mussolini, o irmão caçula de Lênin, Luana Piovani como Wânia, Georgiana Góes que havia se lançado na série juvenil Confissões de Adolescentes (1994-1995) e participado da novela A Próxima Vítima(1995) que em Vira Lata representou  a Celina,  Deborah Secco, na época com apenas 16 anos na pele da menina de rua Tatu, suposta filha de Fidel, que já vinha despontando na televisão desde sua participação na novela Mico Preto (1990) quando estava com 11 anos, a medida que foi crescendo participou do elenco da série Confissões de Adolescente (1994-1995) e da A Próxima Vitima  (1995).

Fora que  também revelou o talento de Talma de Freitas como a Dolores, empregada de Vianna e Helena, e Talita Castro, filha do ator Ewerton de Castro  como Branca, estagiária do escritório de advocacia de Vianna.

Também mencionar a participação do trio de crianças, como  as duas meninas filhas de Vianna e Helena, representadas por: Alessandra Aguiar como Geovana, na época com 8 anos de idade, mas  que já vinha despontando  desde que foi lançada na novela Barriga de Aluguel(1990-1991), com apenas 3 anos e integrou o elenco do humorístico dos Trapalhões em sua fase final quando a trupe havia reduzido a trio depois da morte do Zacarias em 1990 e de Kananda Raia como Juliana, na época com apenas 10 anos e  se esse sobrenome lhe soa familiar, essa menina ela é sobrinha da atriz e bailarina Claudia Raia.

E completando o trio infantil, Eduardo Caldas na pele do Toquinho, na época com 11 anos, ela já despontava na emissora desde que foi lançado na novela Felicidade(1991-1992), quando tinha só sete anos. Ao longo dos anos 1990,  ele foi crescendo despontando em muitas novelas, até que a partir dos anos 2000, resolve deixar o oficio de ator e mudou de carreira, hoje em dia  trabalha por trás das câmeras como roteirista e diretor.

Outro também jovem  talento presente em Vira Lata é de João Rebello(1979-2024), sobrinho do ator e diretor Jorge Fernando que na novela representou o jovem rebelde Nilo, filho da Valquíria, na época com 16 anos. Ele já vinha despontando na emissora desde que foi lançado na novela Cambalacho(1986) de Silvio de Abreu quando tinha apenas sete anos representando um dos filhos adotivos da cambalacheira Leonarda(Fernanda Monternegro) e ao longo do final da segunda metade dos anos 1980 até o começo da segunda metade dos anos 1990, João Rebello foi crescendo despontando nas novelas Bebê a Bordo(1988-1989), O Sexo dos Anjos(1989-1990), Vamp(1991-1992), Deus nos Acuda(1992-1993), participou do primeiro ano da soap opera Malhação em 1995 como o Caco e após Vira Lata ainda participou da novela Zazá(1997-1998), onde depois disso decidiu deixar o oficio  de ator e passou a se dedicar a atividade musical de DJ, e passou a ser diretor de videoclipes dos mais famosos cantores brasileiros. João Rebello teve a sua vida  tragicamente interrompida aos 45 anos, quando foi covardemente assassinado “a tiros enquanto estava em seu carro na Praça da Independência, em Trancoso, destino turístico popular no extremo sul da Bahia, tudo indica é que ele tenha sido confundido com algum criminoso. As testemunhas disseram que dois homens em uma motocicleta se aproximaram do carro, atiraram à queima-roupa e fugiram. Dois dias depois, a Policia Civil da Bahia declarou que não havia indícios de que João Rebello, estivesse envolvido em qualquer atividade criminosa. Segundo a polícia, a investigação sobre o assassinato do ex-ator mirim da Globo leva à "impossibilidade de qualquer envolvimento da vítima em atividade criminosa". Em 28 de outubro, a Polícia Civil da Bahia identificou os dois suspeitos do assassinato de João Rebello. As investigações indicaram que a vítima foi morta por engano. Em 30 de outubro, a Justiça da Bahia determinou a prisão preventiva de três homens suspeitos de matar João Rebello. Em 31 de outubro, um dos suspeitos de matar João Rebello, Wallace Santos Oliveira, se entregou à polícia em Trancoso, distrito turístico de Porto Seguro, no extremo sul da Bahia, acompanhado de um advogado. Em 20 de dezembro, dois suspeitos de envolvimento na morte de João Rebello foram mortos em trocas de tiros com a Polícia Militar em Arraial d'Ajuda, distrito turístico de Porto Seguro, na Bahia.”

(Fonte: Wikipédia).

Aliás, não só João Rebello, mas outros dois atores  que integraram  o elenco de Vira Lata também tiveram um final de vida trágico são: Rômulo Arantes(1957-2000) e Gerson Brenner(1959-2026).

       No caso de Rômulo Arantes que na novela representou o Ítalo, genro que passa a perna em Moreira, ele que antes de virar ator, foi nadador e competiu em três edições de Jogos Olímpicos: Munique(1972), Montreal(1976) e Moscou(1980). E a partir dos anos dos anos 1980, ao encerrar a carreira na natação passou a investir na carreira de ator.

       E seu o vasto currículo de novelas que estreou o fez figurar o galã da preferência do público feminino. Ele também estava investindo na carreira musical como cantor de country até que tragicamente sua vida foi interrompida no acidente aéreo de  ultraleve ocorrido no dia 10 de Junho de 2000, dois dias antes de completar 43 anos, na cidade de Maripá de Minas, em Minas Gerais.

   No acidente morreu também o co-piloto, Fábio Amorim Ribeiro Ruivo, de 24 anos. O ex-nadador possuía uma  fazendo na região, onde também morava sua esposa, a empresária Valéria Braga. Ele viajava em um ultraleve monomotor , modelo Pelicano (prefixo 2347) que, por volta das 10h30, teria sofrido uma pane antes de cair. Seu corpo foi enterrado no Cemitério Municipal de  Bicas, cidade vizinha de Maripá de Minas.

  (Fonte: Wikipédia).

    Quanto a Gerson Brenner que na novela representou o Amadeu e partiu faz poucos dias, em 23 de Março de 2026, vitima de falência múltipla dos órgãos aos 66 anos. 

     Consequência do trágico episódio ocorrido em 17 de Agosto de 1998, “durante uma viagem de São Paulo ao Rio de Janeiro, o ator foi vítima de uma armadilha criminosa ao parar seu carro perto do acesso 60 da  Rodovia Ayrton Senna, para trocar o pneu, tendo sido baleado na cabeça ao ser atacado por bandidos que queriam subtrair o veículo. Em razão do ato, passou meses em coma  e sofreu diversas sequelas, tais como distúrbios na fala, na motricidade e na capacidade cognitiva, sendo obrigado a abandonar a carreira artística. Durante o período em que esteve em coma por conta do assalto, Gerson estava esperando uma filha com Denize Taccto, sua então esposa, sendo batizada de Vitória Brenner. A relação chegaria ao fim em 1999, após os conflitos entre a sua família e Denize. Brenner também foi casado com a modelo  Ana Cristina Haas entre 1990 e 1994, sendo pai de Anna Luisa Haas.

Recebeu cuidados da última esposa, a psicóloga Marta Mendonça, até o falecimento.”

      A sequela que ele adquiriu como consequência desse episódio onde perdeu as mobilidades físicas e de comunicação ficando dependente encarando tratamentos médicos, gerou um fim trágico de sua carreira que estava se ascendendo na televisão desde que foi lançado na novela Kananga do Japão (1989) na extinta Rede Manchete de Wilson Aguiar Filho(1951-1991), a partir de 1990 ingressou na Globo na novela Rainha da Sucata(1990) de Silvio de Abreu representando o Gerson, um dos três filhos de Dona Armênia, vivido por Aracy Balabanian(1940-2023), como podemos conferir recentemente na reprise do Vale a Pena Ver de Novo, onde entre os atores que representou o seu irmão estava Marcello Novaes como o Geraldo(Gera), o mesmo que em Vira Lata fez o Fidel.  

   E um aspecto curioso sobre o elenco de Vira Lata, é que o nome do ator Eduardo Moscovis que chega a aparecer nos créditos da abertura, foi escalado para viver Frederico, mas acabou não podendo participar,  acontece que o ator foi realocado para participar da novela das seis  Anjo de Mim(1996-1997), sucessora de Quem é Você(1996).

     Nisso resultou que quem ficou com o papel foi Mateus Carrieri, que também representou  na novela, o papel dos gêmeos Cacetada e Cratera, mas que não tinham conexão alguma com Frederico.

   Vira Lata foi bastante criticada pela “superexposição de corpos e um grande troca-troca de casais em um horário tradicionalmente familiar. Muitos telespectadores sentiram-se chocados com as cenas apelativas, como as da infidelidade de Bráulio Vianna (Murilo Benício) com a empregada diante das próprias filhas, com um certo erotismo vulgar.”

(Teledramaturgia).

   Um dos maiores desafios da produção foi lidar com a quantidade de cachorros que foram escolhidos para serem os bichos de estimação da protagonista Helena, para o cachorro Zé(da raça sheep dog) “foi escolhido o cão Funk, mistura de duas raças puras, collie e sheep dog. Carlos Lombardi e Jorge Fernando, de acordo com o Jornal do Brasil de 17/02/1996, relutaram em aceitar o eleito por não ser ele propriamente um vira-lata, como pedia o título. A criadora e treinadora In-coelum Perdigão, habituada às gravações com animais, argumentou: “Um SRD (sem raça definida) vem de muitas misturas de temperamento. São imprevisíveis e podem tumultuar um set de gravação.””

(Teledramaturgia).

       “Para conferir o aspecto “animal de rua” a Funk, os pelos dele foram aparados de forma irregular. O cão – à época com um ano e dois meses, 40 quilos e 1,5m quando de pé – contava com regalias, como motorista e dublês – seus irmãos, Rap e Rumba.

      Ao total, 18 cães participaram da novela, número reduzido para 6 no decorrer dos trabalhos, resultado das dificuldades enfrentadas nas gravações. “Sempre adorei cachorro. Mas atuar com eles é muito desgastante. Repetimos a cena várias vezes e é aquela em que o cão ficou melhor que vai ao ar”, brincou Murilo Benício em depoimento ao jornal O Globo de 28/04/1996.”

(Teledramaturgia).

     Quando houve o lançamento de Vira Lata “coincidiu com a campanha do Governo Federal em prol do uso da camisinha – que nada tinha a ver com a novela. A propaganda chamava o órgão sexual masculino de “Bráulio”.

    Ao mesmo tempo, em Vira-lata, Bráulio era o nome do personagem de Murilo Benício. O apelido pegou após as reclamações dos Bráulios do Brasil, repercutidas, inclusive, no Fantástico e no Jornal Nacional, o que conferiu um apelo extra ao personagem da novela.”

(Teledramaturgia).

   Posso concluir que Vira Lata é uma novela que diversos motivos  ficou tão obscura na história da Globo que por um bom tempo nunca foi reprisada tanto no Vale a Pena Ver de Novo quanto exibido no antigo canal pago Viva do Grupo Globo, agora nesse momento em que escrevo essa novela vai estar disponibilizada no catálogo do Globoplay após 30 anos a no Projeto Resgate a partir do dia 20 de Abril de 2026.

       P.S. A música escolhida para ser tocada na abertura da novela é Cachorro Vira Lata, um clássico samba de autoria de Alberto Ribeiro(1902-1971) que foi gravado por Carmem Miranda(1909-1955) em 1937 pela gravadora Odeon Records. “A história desta canção surgiu a partir de uma adoção realizada por Carmen Miranda, quando ela deixou os estúdios da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro. Contudo, algum tempo depois, o vira-lata fugiu. Esse episódio inspirou Alberto Ribeiro, que transformou o fato em música. Benedito Lacerda(1903-1958), líder do conjunto regional, dá início ao samba com uma melodia nostálgica tocada em sua flauta.” (Fonte: Wikipedia).

      Essa canção ganharia anos uma regravação de Ney Matogrosso em seu quinto álbum solo, Seu Tipo, lançado em 1979 pela WEA.

       Na novela, a canção foi regravada pela ex-Novos Baianos Baby do Brasil.

       A canção foi bem apropriadamente escolhida, ainda mais pela forma como a abertura mostro um cachorro feito de jornal salvando a menina de um sequestrador que conectava ao título, cuja história além de mostrar Helena com seus cachorros, dentre esses estava Zé, a “estrela canina da novela, simboliza o título da trama, que representa a maior parte dos personagens: sozinhos em seus recomeços, à mercê do próprio destino. Zé é um cão cheio de personalidade, que escolhe a casa de Helena para se instalar, onde já moram outros 15 cachorros. Só ele é testemunha das escapadas de Bráulio para o quarto da empregada, de quem tem muita bronca.”

(Memória Globo).


*Após Vira Lata, Lombardi escreveu Uga Uga(2000-2001), escreveu a minissérie O Quinto dos Infernos(2002), Kubanakan(2003), Pé na Jaca(2006-2007) e a série Guerra e Paz(2008). Em 2012, Lombardi transferiu para a Record, onde lá escreveu Pecado Mortal(2013-2014), a única na emissora. Desde sua saída na Record, que ultimamente Lombardi não mantém mais nenhum vínculo empregatício com nenhuma emissora.


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