sábado, 25 de abril de 2026

O MATUTO QUE SONHOU EM SER REI DA ESPANHA

O MATUTO QUE SONHOU EM SER REI DA ESPANHA




Zezinho era um rapaz
Longe da realidade,
Foi criado pela avó
Com muita ingenuidade.
Em Cachoeira do Sapo,
Não era de muito papo,
Nem amigos na cidade.
Só vivia numa rede,
Não tinha disposição;
Também não era bonito,
Faltava-lhe aptidão.
Mas se achava importante,
Pois era primo distante
Do humorista Mução.
Não terminou os estudos,
Também nunca namorou;
Só pensava em enricar,
No “tigrinho” até jogou.
Só tinha uma bicicleta,
Sua peça predileta,
Dela nunca se apartou.
A sua vó, Damiana,
Não tinha o que fazer;
Vendo o neto se perdendo,
Só assistindo TV,
Passando o dia inteiro,
Sem trabalhar, sem dinheiro
E sem pressa de viver.
Um dia, uma notícia
Causou-lhe grande estupor:
A princesa da Espanha,
Por nome de Leonor,
Seria de lá rainha,
Jovem, bonita, sozinha,
Esperando um grande amor.
Dizia a dita matéria
Que a cobiçada princesa,
Filha de Felipe VI,
Seria um dia Alteza.
Quando seu pai, rei, partisse
E a vida permitisse,
Herdaria a realeza.
Zezinho já se viu rei,
Em pensamento noivou;
A princesa era dele,
Sua sorte, enfim, chegou.
Fazendo um único plano,
Dizendo que, ao fim do ano,
Para a Espanha eu vou.
Fez cálculos, traçou rota
De como por lá chegar;
Estudando o espanhol,
Já começou a hablar.
Sonhando com a coroa
E com sua vida boa
Quando com ela casar.
Dizia: “Vó, eu tô rico,
Dessa vez eu me dei bem!
Eu vou primeiro pra lá,
A senhora vai também.
Vamos morar num castelo,
Desse grande, chique, belo,
E por lá vou ser alguém.”
Né que convenceu a vó,
Que já pensou no vestido,
E suas economias
Já deu ao neto querido:
Quinhentos e dez reais
Duns produtos naturais
Que ela tinha vendido.
Zezinho pegou a bike
Em busca do litoral,
Na direção de Galinhos,
E não quis ir por Natal.
Lá o trânsito é pesado,
Ele não tem traquejado
E talvez se desse mal.
Em Caiçara do Norte,
O futuro rei chegou;
Cansado de pedalar,
Num bar legal encostou.
E, ao sentar numa mesa,
Pela atendente Tereza,
Ligeiro se apaixonou.
Tereza, muito vivida,
No seu colo foi sentando,
E um cheiro no cangote
Na mesma hora foi dando.
E, se ele quisesse mais,
Era apenas cem reais —
Zezinho já foi pagando.
Por cinco dias seguidos,
Ele voltou ao lugar,
Com o peito enxameado,
Desejoso para amar,
Gastando tudo o que tinha,
Até o que ainda vinha,
Sem saber como ganhar.
Esqueceu logo a princesa,
Castelo, trono, reinado;
A promessa à sua vó
Há tempo tinha quebrado,
Pois tava no paraíso —
Nada mais era preciso
Que amar e ser amado.
Pelo dengo com Tereza,
Empenhou a bicicleta
E nunca foi tão feliz,
Pois aquilo lhe completa.
Lá se tornou pescador
Pra viver aquele amor
De maneira mais discreta.
Construiu uma barraca
Pra vender o seu pescado
E juntar mais dinheiro
Pra pagar o combinado,
Escravo dessa paixão,
Sem regra e sem padrão,
Que forjou o seu reinado.
Hoje, quem passa na praia
E vê um homem no mar,
Em cima de um barquinho,
Jamais pode imaginar
Que o dono dessa artimanha
Quase foi rei da Espanha,
Se não fosse aquele bar.
Poema de Lino Sapo. 

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