quinta-feira, 18 de junho de 2026

20 ANOS SEM BUSSUNDA

 

            No dia 17 de Junho de 2006, o Brasil perdia o talento do humor de Claudio Besserman Viana vulgo Bussunda(1962-2006) cujo apelido Bussunda surgiu em referência ao personagem cartunesco chamado Sujismundo, criação do brasileiro Ruy Perotti(1937-2005) que nos anos 1970 costumava aparecer em comerciais de TV numa série de quatro filmetes, que variavam entre 60 e 90 segundos de duração, e eram exibidos na TV e no cinema.









             Com o intuito de conscientizar a higienização na população brasileira nessa campanha do regime militar com o lema: Povo desenvolvido, é povo limpo.

             O Sujismundo era representado justamente como uma pessoa sem higiene, um porcalhão cujo nome que foi batizado simbolizando bem isso.


Bussunda entrevistando o ícone brasileiro da Formula 1
Ayrton Senna(1960-1994) no primeiro ano do Casseta & Planeta, Urgente 
em 1992. 

          Juntando as palavras sujo com imundo. E se tornou popular em nós para definir esse tipo de pessoa sem higiene.


Sujismundo, personagem cartunesco que inspirou 
o nome artístico de Bussunda.


           E foi precisamente quando ele agia sem muita higiene quando estava num acampamento de férias na infância que ele ganhou o apelido de Bussunda, primeiro era Besserman Sujismundo que foi se alterando para Bessermundo, depois ficar Bessundo, Bussundo e até chegar a Bussunda que o tornou famoso nacionalmente no Casseta & Planeta.  

            Nascido numa família de classe média alta, filho caçula dos três filhos do cirurgião Luís Guilherme Vianna e da renomada psicanalista Helena Besserman Vianna(1932-2002) que carregava uma descendência judaico-polonesa e por conta disso Bussunda tinha uma formação religiosa judaica, esse casal inclusive esteve envolvido na luta comunista contra a Ditadura Militar no Brasil.

           Bussunda era irmão do economista Sergio Besserman Vianna que chegou a presidir o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) e do médico Marcos Besserman Vianna que desenvolve pesquisas para a Fundação Oswaldo Cruz. 

         A história de como ele conheceu e fundou a trupe do Casseta & Planeta aconteceu quando no final dos anos 1970, três amigos que se conheceram na UFRJ formado por: Beto Silva, Marcelo Madureira e Hélio de La Peña, juntos criaram uma fanzine humorística chamada de Casseta Popular que logo depois viraria uma revista que trazia uma estética anárquica de humor ácido provocativo paródico, posteriormente ingressaram nesse grupo Claudio Manoel e Bussunda.


 
Bussunda na capa da revista Casseta Popular 
publicada em 1991 que trazia o 
estilo de humor que o grupo levaria para a 
televisão.


E o grupo aumentaria quando três amigos que trabalhavam para outra mídia impressa humorística O Planeta Diário, uma sátira ao famoso jornal do Superman, formado por três ex-redatores de O Pasquim: Reinaldo Figueiredo, Hubert Aranha e Claudio Paiva ao se juntarem a eles formaram o Casseta & Planeta.

O fato deles terem começado a fazer humor no jornalismo explica o famoso lema deles do “humorismo verdade, jornalismo mentira”.


 
Reinaldo, Hubert e Claudio Paiva com um exemplar de
O Planeta Diário. 


O ousado estilo ácido de humor provocativo que o grupo fazia nesse modelo tradicional de mídia impressa foi colocado na TV quando eles primeiramente ingressaram compondo a equipe de redatores da TV Pirata(Brasil, 1988-1992) que foi um embrião do que seria depois o Casseta e Planeta, onde juntos de outros nomes importantes do humor brasileiro: como o escritor Luís Fernando Verissimo(1936-2025), o  cartunista Glauco Villas-Boas*(1957-2010), o dramaturgo Mauro Rasi(1949-2003) dentre outros.

Cujo elenco era formado por atores surgido do teatro de variedades, que abordavam sobre a comédia de costumes, também popularmente chamado pejorativamente de besteirol e do revolucionário Asdrúbal Trouxe o Trombone, que já eram estrelas popularmente conhecidas das novelas da Globo com nomes como:  Diogo Villela, Débora Bloch, Guilherme Karan(1958-2016), Cristina Pereira, Luiz Fernando Guimarães, Regina Casé, Ney Latorraca(1944-2024) dentre outros exemplos.

Cuja estética humorística também se conectava um pouco com o que a trupe fazia em satirizar e provocar o cotidiano social brasileiro. 

Em seguida, eles fizeram carreira na música lançando um LP de humor.

 

Posteriormente, mostrariam a cara e a coragem apresentando o programa Doris Para Maiores(Brasil, 1991), acompanhado da jornalista Doris Giesse e  somente  em 1992, passariam a comandar o programa Casseta & Planeta, Urgente, que durou 18 anos no ar.

 

Foi lá que eles ganharam a característica logomarca da cobrinha verde saindo do globo terrestre que foi idealizado pelo designer austríaco-brasileiro Hans Donner, que há mais de vinte anos prestava serviço a emissora desenhando logomarcas marcantes de novelas e produzindo aberturas.  Que simbolizava a união da Casseta Popular e do Planeta Diário, a escolha da cobra foi bem apropriado para simbolizar a identidade visual deles com o seu humor ácido.




Inicialmente nesse programa, ele não contava com a presença de Maria Paula, a primeira mulher a participar foi a jornalista Kátia Maranhão que não participava tanto das esquetes, apenas comandava o programa dentro do estúdio assumindo a função séria do jornalismo.




 Só depois é que colocaram a Maria Paula, egressa da extinta MTV Brasil para assumir a função de ser como ela ficou popularmente conhecida de “A Oitava Casseta”.

Isso porque o grupo era composto de sete homens formado por: Claudio Manoel, Beto Silva, Bussunda, Marcelo Madureira, Hélio de La Peña, Hubert e Reinaldo.

Já Claudio Paiva, ex-companheiro de Hubert e Reinaldo no O Planeta Diário não os acompanhou nessa nova empreitada.

E no que eles foram se consolidando na TV, foram se expandindo escrevendo muitos livros de piadas, eu cheguei a ter um desses que foi o Seu Creysson: Vidia e Obra(2002), sobre o tipo popular representado por Claudio Manoel.

Bussunda mostrava um ótimo talento artístico para representar de forma caricata celebridades, representou muitas personagens femininas quando parodiava novelas da Globo dentre outros.

 

 

QUANDO BUSSUNDA DESAGRADOU TIM MAIA.

Se teve uma celebridade que Bussunda tirou sarro que não ficou nada satisfeito com sua imitação foi o cantor Tim Maia(1942-1998), o ícone do funk e da soul music brasileira e junto a Roberto Carlos formou uma banda chamada The Sputniks no final dos anos 1950, o ameaçou publicamente de dar porrada ao vê-lo o imitando no Domingão do Faustão em 1989.








Isso ocorreu como consequência do fato de Tim Maia que já estava agendado para se apresentar no programa, resolveu de última hora não querer se apresentar.

Ele apesar de carregar um brilhante talento para compor e tinha um timbre de voz agudo inigualável que o tornava idolatrado, ao mesmo tempo era uma pessoa de personalidade explosiva, encrenqueira que vivia reclamando da qualidade do som, da falta de retorno, enfim, todos esses fatores o tornavam uma pessoa difícil de lidar a ponto dele ficar com sua reputação manchada por já  ter brigado c
om Deus e o mundo por assim dizer, principalmente ao  se recusar a cumprir o compromisso das agendas de shows.

Isso já resultou dele criar  desafetos com as gravadoras, com os empresários que já o agenciaram para agendar seus shows e esses se sentido lesados  pelo não cumprimento do compromisso moveram uma onda de processos na justiça contra ele, também criou desafetos com músicos que perderam a paciência com ele sempre pedindo para parar de executar   uma canção  por viver reclamando do som  ou mesmo  da falta de retorno no áudio ao acompanhá-lo nos seus shows e ensaios, para piorar sua situação ele ainda enfrentou problemas com a Receita Federal por não ter declarado seus impostos.

Isso tudo fez ele chegar ao ponto de chegar a uma etapa da sua vida de falir completamente.

Tanto que ele chegou ao fundo do poço de ficar com a corda no pescoço, que foi durante as festividades do Réveillon de 1997, Tim recebeu da justiça uma ordem de confisco do seu imóvel e dos seus bens, em consequência do tanto de dívida que já tinha acumulado até aquele momento.

Sua saúde que já se encontrava fragilizada, em consequência do seu estilo desregrado de sujeito vida louca. Com 55 anos e pesando 142Kg, Tim estava sentindo os efeitos da cobrança que os excessos alimentares, misturado com as bebidas e com drogas nas noitadas que costumava promover em sua casa, representaram para ele naquele momento um fim melancólico da sua potente voz que ocorreu quando ele passou mal na apresentação televisionada ocorrida em 8 de março de 1998 no Teatro Municipal de Niterói(RJ).

Já visivelmente debilitado e com a saúde comprometida por uma crise de hipertensão. O cantor entrou no palco com atraso, tentou iniciar o repertorio cantando as primeiras estrofes da canção Não Quero Dinheiro(Só Quero Amar), não conseguiu dá continuidade  e precisou ser retirado. Ele foi hospitalizado e faleceu dias depois, em 15 de março de 1998.

Bom, mas, voltando ao foco relacionado ao Bussunda, como ele entra aqui na história? Simples, Fausto Silva estrategicamente contornou a situação comentando que Tim Maia se apresentaria no Domingão  na semana seguinte, ele então convidou a trupe do Casseta & Planeta para se apresentarem cantando o single do repertorio do  LP Preto com um Buraco no Meio, que eles gravaram pelo selo da gravadora WEA em 1989 cuja faixa principal  Mãe é Mãe, que trazia uma mensagem humorística de cunho depreciativo machista, também trazia  Bussunda fazendo  imitação do Tim Maia e isso foi propicio para no dia específico  que eles se vingassem de Tim Maia trazendo uma pessoa fazendo a imitação dele não só vocal mas, também todo caracterizado de Tim Maia.

O cantor ficou possesso de raiva ao ver aquilo que chegou a ligar “para o local dizendo que apareceria para atirar em Bussunda, irritado principalmente com os enchimentos - "o cara já é gordo para caralho e tá dizendo que é menos gordo que eu?"”

(Trecho da Wikipédia retirado do livro biográfico Bussunda-A Vida do Casseta do jornalista Guilherme Fiuza publicado em 2010 pela editora Objetiva).

Digamos que Bussunda, indiretamente se tornou uma das pessoas que virou um desafeto do cantor por conta da sua imitação dele e como consequência disso ele passou muitos sem ser convidado para se apresentar na Globo.

Já quanto ao Bussunda, usufruiu bem do sucesso nos anos seguintes, depois que em 1992 o Casseta & Planeta ganhou um programa próprio na emissora.




Chegou a trabalhar em outras produções fora do Casseta & Planeta, como quando fez uma participação na novelinha infantil Caça Talentos (1996-1998) e no filme Zoando na TV(1998) e chegou a trabalhar em dublagem fazendo a voz do ogro verde Shrek nos filmes:  Shrek(2001) e em Shrek 2(2004), que logo após seu falecimento em consequência de um ataque cardíaco sofrido   quando ele estava na Alemanha com parte do grupo para fazer a cobertura da Copa do Mundo de 2006, quem passou a dublar o ogro foi Mauro Ramos.

Grande Bussunda, como o seu humor faz falta para o Brasil de hoje.

 

 

*O cartunista Glauco era sobrinho de Orlando(1914-2002), Claudio(1916-1998) e Leonardo Villas-Boas(1918-1961), o famoso trio de irmãos exploradores que descobriram o Parque Nacional do Xingu. Cuja história foi contada no filme Xingu(2011).  Glauco foi brutalmente assassinado em 12 de Março de 2010, dois dias após completar 53 anos. Pelo frequentador da Seita do Santo Daime que ele comandava que assassinou seu filho Raoni. Um rapaz com longo histórico de transtorno mental. O assassino foi assassinado em 2016 quando estava cumprindo pena em um presidio em Goiás por outros crimes sem relação ao assassinato de Glauco.

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