domingo, 21 de dezembro de 2025

15 ANOS DO FIM DO CASSETA & PLANETA, URGENTE.

 

No dia 21 de dezembro de 2010, chegava ao fim o programa humorístico  do Casseta & Planeta, Urgente(1992-2010).




Programa comandado pela trupe do Casseta e Planeta que estava no ar  todas as noites de terça-feira depois da novela das oito, hoje chamada de novela das nove desde 1992.




 A história de como esse grupo humorístico foi originado  é um tanto quanto  pitoresco, já que ele começou quando no final dos anos 1970, três  amigos que se conheceram na UFRJ formado por Beto Silva, Marcelo Madureira e Hélio de La Peña, juntos criaram uma fanzine humorística chamada de Casseta Popular que logo depois viraria uma revista que trazia uma estética anárquica de humor ácido provocativo paródico, posteriormente ingressaram nesse grupo  Claudio Manoel e  Bussunda(1962-2006)*.




E o grupo aumentaria quando três amigos que trabalhavam para outra mídia impressa  humorística O Planeta Diário, uma sátira ao famoso jornal do Superman, formado por três ex-redatores de O Pasquim: Reinaldo Figueiredo, Hubert Aranha e Claudio Paiva ao se juntarem a eles formaram o Casseta & Planeta.

 O fato deles terem começado a fazer humor no jornalismo explica o famoso lema deles do “humorismo verdade, jornalismo mentira”.






O ousado estilo ácido de humor provocativo  que o grupo fazia nesse modelo tradicional de mídia impressa foi colocado na TV quando eles primeiramente ingressaram compondo a equipe de redatores da TV Pirata(Brasil, 1988-1992) que foi um embrião do que seria depois o Casseta e Planeta, onde juntos de outros nomes importantes do humor brasileiro: como o escritor Luís Fernando Verissimo(1936-2025), o  cartunista Glauco Villas-Boas**(1957-2010), o dramaturgo Mauro Rasi(1949-2003) dentre outros.







Cujo elenco era formado por atores surgido do teatro de variedades, que abordavam sobre a comédia de costumes,  também popularmente chamado pejorativamente de besteirol e do revolucionário Asdrúbal Trouxe o Trombone,  que já eram estrelas popularmente conhecidas das novelas da Globo com nomes como:  Diogo Villela, Débora Bloch, Guilherme Karan(1958-2016),  Cristina Pereira, Luiz Fernando Guimarães, Regina Casé, Ney Latorraca(1944-2024)  dentre outros exemplos.

Cuja estética humorística também se conectava um pouco com o que a  trupe fazia em satirizar  e provocar o cotidiano social  brasileiro. 

Em seguida,  eles fizeram carreira na música  lançando um LP de humor.





 

Posteriormente,  mostrariam a cara e a coragem  apresentando o programa Doris Para Maiores(Brasil, 1991), acompanhado da jornalista Doris Giesse e  somente  em 1992, passariam a comandar o programa Casseta & Planeta, Urgente, que durou 18 anos no ar.





Foi lá que eles ganharam a  característica  logomarca da cobrinha verde saindo do globo terrestre que foi idealizado pelo designer austríaco-brasileiro Hans Donner, que há mais de vinte anos prestava  serviço a emissora desenhando logomarcas marcantes de novelas e produzindo aberturas.  Que simbolizava a união da Casseta Popular e do Planeta Diário, a escolha da cobra foi bem apropriado para simbolizar a identidade visual deles com o seu humor ácido.





Inicialmente nesse programa, ele não contava com a presença de Maria Paula, a primeira mulher a participar foi a jornalista Kátia Maranhão que não participava tanto das esquetes, apenas comandava o programa dentro do estúdio assumindo a função séria do jornalismo.

 Só depois é que colocaram a Maria Paula, egressa da extinta  MTV Brasil para assumir a função de ser como ela ficou popularmente conhecida de “A Oitava Casseta”.

Isso porque o grupo era composto de sete homens formado por: Claudio Manoel, Beto Silva, Bussunda, Marcelo Madureira, Hélio de La Peña, Hubert e Reinaldo. Já  Claudio Paiva, ex-companheiro de Hubert e Reinaldo no O Planeta Diário não os acompanhou nessa nova empreitada.




E no que eles foram se consolidando  na TV, foram se expandindo escrevendo muitos livros de piadas, eu cheguei a ter um desses que foi o Seu Creysson: Vidia e Obra(2002), sobre o tipo popular representado por Claudio Manoel.




Mesmo após o desfalque que o grupo sofreu com a morte do Bussunda, em consequência de um ataque cardíaco sofrido   quando ele  estava na Alemanha com parte do grupo para fazer a cobertura da Copa do Mundo de 2006, ainda assim eles continuaram juntos trabalhando  na TV por mais quatro anos. 




A estética de humor do Casseta & Planeta já tendia a ser datada, e isso já é algo característico da comédia que desde o surgimento de sua arte nos primórdios da humanidade no teatro da Grécia Antiga, tendia a ser datado pelo fato dele ridicularizar situações e costumes sociais de acordo com cada época,  ao contrário do drama cuja história é sempre atemporal. 




  Do mesmo modo como acontece com  o humor das charges, porque como o seu estilo humorístico tinha muito do DNA no jornalismo cujo roteiro das piadas dependiam do que vinha acontecendo nos noticiários da imprensa seja tanto na política dos quais eles tiravam sarro, fosse em parodiar as novelas em cartaz da Globo, fosse parodiar personalidades em situações nada agradáveis ou temas espinhosos na rotina de nossa sociedade, envolvendo os avanços científicos, o comportamento  social ou qualquer coisa do tipo eles não perdoavam mesmo.


 
Cena de Falha Nostra, uma esquete satirizando a novela 
Terra Nostra(1999-2000) em reprise na Globo. 


Eles tiravam muito sarro de grupos sociais marginalizados como os pretos, a comunidade LGBTQIAPN+, os PCDs, os povos originários, as pessoas obesas e como o predomínio do grupo era masculino, eles também faziam muitas  piadas machistas de cunho erótico ou mesmo depreciativo.

Algo que hoje em dia já não é mais tão tolerado, não pelo politicamente correto, mas porque os grupos sociais marginalizados já não toleram mais isso.


O saudoso Bussunda(1962-2006) entrevistando o
Rei das Pistas Ayrton Senna(1960-1994) em 1992 no 
ano da estreia do Casseta & Planeta, Urgente. 


Se bem que não se  pode julgar,  nem lacrar e nem sequer cancelar  o tipo  de humor que eles faziam até porque a gente tem de levar em conta de que quando  esse grupo surgiu, foi  num momento em que ainda  vivíamos  numa época opressora de transição do final da Ditadura Militar para o começo da Redemocratização.

Onde prevalecia uma forte censura aos meios de comunicação.  E estávamos nos adaptando a ter  de volta a nossa  liberdade de expressão depois de passarmos 21 anos sobre a  opressão dos militares. E vivíamos num cenário de alta inflação.

Poderia comparar que o tipo transgressor de humor deles os fazem   equivalerem  como  os porta-vozes  da geração oprimida pela ditadura nos anos 1980, algo  parecido  ao que os cantores Cazuza(1958-1990) e Renato Russo(1960-1996)*** simbolizavam para a música brasileira com suas letras transgressoras de cunho panfletário e provocativo ao cenário do Brasil dos anos 1980.

Isso inclusive me lembra que no meu tempo de Colégio Objetivo,  quando eu fazia a antiga 8ª Série do Ensino Fundamental, isso lá em 2002, durante uma aula  de história sobre a Ditadura no Brasil.

Nosso professor mencionou o exemplo do Casseta & Planeta, para explicar para nós que já erámos da geração que não alcançou a fase de repressão da ditadura e já era símbolo  de museu para nós, por assim dizer. 

Que aquele humor que a gente assistia do grupo  que ainda passava na TV, seria impensável da gente assistir tipo durante os anos 1970, fase mais repressora da ditadura.

Ainda no meu tempo de Objetivo, eu tive outro professor que não vou mencionar aqui  o nome e nem de qual disciplina ele lecionava que ele por ser crente, chegou uma vez em sala de aula comentando sua indignação reacionária  de um quadro do Casseta & Planeta onde eles faziam uma blasfêmia a Deus, por causa da brincadeira que eles fizeram com uma esquete onde o Seu Creysson(Claudio Manoel) virava um ser iluminado.

Uma postura que lembrando hoje,  irei dizer que se mostrou muito equivocada da parte dele, porque ele não entendeu que o intuito ali  não era difamar nenhuma religião, mas sim criticar o culto em torno de pastores midiáticos que ostentam uma vida de luxo para enganar seus ingênuos  fiéis virando suas ovelhas.

Essa sua postura mostrou o quanto que ele não passava de uma ovelha do rebanho desses pastores que estava transformando sala de aula  em púlpito, algo que tem se mostrado preocupante hoje em dia.

Quando o humor especificamente ousa provocar a religião, o negócio tende a trazer uma reação de enfurecimento de grupos religiosos reacionários, extremistas etc...

Pegar outros exemplos de situações semelhantes ao que eu testemunhei desse meu professor foi quando os  britânicos do Monty Pyton lançou o filme A Vida de Brian(Life of Brian, Reino Unido, 1979), que chegou a ser  proibido de ter  distribuição  em alguns países  pela forma como eles zoavam a história bíblica do nascimento de Jesus Cristo ou mesmo como ocorreu anos depois com o Porta dos Fundos, que em 2019 lançou um especial natalino para a Netflix intitulado A Primeira Tentação de Cristo (Brasil, 2019), que gerou uma revolta de grupos religiosos reacionários que até destruíram sua sede.

Olha com todo respeitado por qualquer religião, independente de qual seja o credo, até porque sou seguidor do espiritismo.    

Principalmente a  quem siga a religião evangélica, até porque eu meio que indiretamente tive uma educação evangélica porque minha mãe veio do berço de uma família protestante.  Onde inclusive um irmão dela faz carreira no sacerdócio, ministrando como pastor há mais de 30 anos numa igreja batista da Bahia e mesmo não sendo seguidor fiel,  cheguei  a frequentar alguns cultos evangélicos.

 Do mesmo  modo que cheguei a frequentar umas missas  de  igrejas católicas, onde recebi  batismo  que foi onde literalmente  meu pai teve essa formação educacional, já que estudou  do maternal ao ensino médio  num colégio de padres, apesar de não ter virado um seguidor fervoroso.

Mas não tem quem me convença de que pastores midiáticos com influência na política para formar uma bancada  evangélica no planalto e com aqueles discursos autoritários, moralistas  e recalcados  de demonizar tudo que foge ao padrão que eles pregam de deus e família e arrumarem bodes expiatórios condenando anime como coisa do demônio  e convencendo qualquer fiel de que são milagreiros.

Mas que no fundo escondem serem uns bando de gente torpe, que adora ostentar uma vida luxuosa e fazer suas orgias.

Esses sim, me desculpem mas são gente que se mostram mais nocivas do que qualquer coisa. Não merecem o meu respeito.

Diferentes fatores deram origem ao fim do programa, um deles envolveu a forte concorrência com o Pânico na TV (2003-2011) na RedeTV que estava fazendo sucesso com seu estilo de humor de choque, que é aquele que costuma ultrapassar os limites do aceitável para o inaceitável e do CQC(2008-2015) da Band inspirado no formato argentino do Caiga Quien Caiga.  Fazendo humor paródico de jornalismo, onde mostrava eles entrevistando os parlamentares de Brasília, entre esses estava Jair Bolsonaro, um medíocre deputado federal  representante  do baixo clero que ganhou voz nesse programa de humor pelo seu  discurso autoritário contra os gays que era explorado até a última gota para fazer um humor involuntário.

O mesmo que anos depois se tornaria Presidente da República fazendo um desgoverno e agora está como deve, apodrecendo na cadeia esse verme.

O Casseta & Planeta chegou a retornar a grade da Globo em 2012, mas sem o mesmo prestigio de antes.

De certa forma, posso concluir que o ousado estilo de humor que eles faziam seriam impensáveis de serem replicados hoje em dia.

P.S. O nome baixo clero era dado na Idade Média a sacerdotes que atuavam diretamente nas vilas e aldeias em contrastes aos bispos, arcebispos e cardeais que eram do alto clero. Na política brasileira, essa nomenclatura é empregada para designar parlamentares com pouca expressão na Cãmara dos Deputados, movidos principalmente por interesses provincianos ou pessoais. São deputados sem muita influência ou participação nos processos políticos importantes no Parlamento. Estão mais preocupados com sua base eleitoral, além de contarem com pouca presença na mídia. Foi esse caso do então deputado federal Jair Bolsonaro antes de ser Presidente da República.

*Pseudônimo de Claudio Besserman Vianna, cujo apelido Bussunda  surgiu em referência ao personagem cartunesco chamado Sujismundo, criação do brasileiro Ruy Perotti(1937-2005) que  nos anos 1970 costumava aparecer em comerciais de TV numa série de quatro filmetes, que variavam entre 60 e 90 segundos de duração, e eram exibidos na TV e no cinema. Com o intuito de conscientizar a higienização na  população brasileira nessa campanha do regime militar com o lema: Povo desenvolvido, é povo limpo. O Sujismundo era representado justamente como uma pessoa sem higiene, um porcalhão  cujo nome que foi batizado simbolizava  bem isso. Juntando as palavras sujo com imundo. E se tornou popular em nós para definir esse tipo de pessoa sem higiene. E foi precisamente quando ele agia sem muita higiene quando estava num acampamento de férias na infância que ele ganhou o apelido de Bussunda, primeiro era Besserman Sujismundo que foi se alterando para Bessermundo, depois ficar Bessundo, Bussundo e até chegar a Bussunda que o tornou famoso nacionalmente no Casseta & Planeta.  Nascido numa família de classe média alta, caçula dos três filhos de um cirurgião e de uma psicanalista. Bussunda era irmão do economista Sergio Besserman Vianna que chegou a presidir o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) e do médico Marcos Besserman Vianna que desenvolve pesquisas para a Fundação Oswaldo Cruz. 

**O cartunista Glauco era sobrinho de Orlando(1914-2002), Claudio(1916-1998) e Leonardo Villas-Boas(1918-1961), o famoso trio de irmãos exploradores  que descobriram o Parque Nacional do Xingu. Cuja história foi contada no filme Xingu(2011).  Glauco foi brutalmente assassinado em 12 de Março de 2010, dois dias após completar 53 anos. Pelo frequentador da Seita do Santo Daime que ele comandava que assassinou seu filho Raoni. Um rapaz com longo histórico de transtorno mental. O assassino  foi assassinado em 2016 quando estava cumprindo pena em um presidio em Goiás por outros crimes sem relação ao assassinato de Glauco.

***Uma triste coincidência é que tanto Cazuza e Renato Russo morreram precocemente devido ao HIV. Cazuza morreu com 32 anos em 1990 vítima de um choque séptico.   Já Renato Russo faleceu aos 36 anos em 1996, vítima de doença pulmonar obstrutiva crônica, septicemia e infecção urinária.   

 *Pseudônimo de Claudio Besserman Vianna, cujo apelido Bussunda  surgiu em referência ao personagem cartunesco chamado Sujismundo, criação do brasileiro Ruy Perotti(1937-2005) que  nos anos 1970 costumava aparecer em comerciais de TV numa série de quatro filmetes, que variavam entre 60 e 90 segundos de duração, e eram exibidos na TV e no cinema. Com o intuito de conscientizar a higienização na  população brasileira nessa campanha do regime militar com o lema: Povo desenvolvido, é povo limpo. O Sujismundo era representado justamente como uma pessoa sem higiene, um porcalhão  cujo nome que foi batizado simbolizava  bem isso. Juntando as palavras sujo com imundo. E se tornou popular em nós para definir esse tipo de pessoa sem higiene. E foi precisamente quando ele agia sem muita higiene quando estava num acampamento de férias na infância que ele ganhou o apelido de Bussunda, primeiro era Besserman Sujismundo que foi se alterando para Bessermundo, depois ficar Bessundo, Bussundo e até chegar a Bussunda que o tornou famoso nacionalmente no Casseta & Planeta.  Nascido numa família de classe média alta, caçula dos três filhos de um cirurgião e de uma psicanalista. Bussunda era irmão do economista Sergio Besserman Vianna que chegou a presidir o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) e do médico Marcos Besserman Vianna que desenvolve pesquisas para a Fundação Oswaldo Cruz. 

**O cartunista Glauco era sobrinho de Orlando(1914-2002), Claudio(1916-1998) e Leonardo Villas-Boas(1918-1961), o famoso trio de irmãos exploradores  que descobriram o Parque Nacional do Xingu. Cuja história foi contada no filme Xingu(2011).  Glauco foi brutalmente assassinado em 12 de Março de 2010, dois dias após completar 53 anos. Pelo frequentador da Seita do Santo Daime que ele comandava que assassinou seu filho Raoni. Um rapaz com longo histórico de transtorno mental. O assassino  foi assassinado em 2016 quando estava cumprindo pena em um presidio em Goiás por outros crimes sem relação ao assassinato de Glauco.

***Uma triste coincidência é que tanto Cazuza e Renato Russo morreram precocemente devido ao HIV. Cazuza morreu com 32 anos em 1990 vítima de um choque séptico.   Já Renato Russo faleceu aos 36 anos em 1996, vítima de doença pulmonar obstrutiva crônica, septicemia e infecção urinária.   

 

 

 


Nenhum comentário:

Postar um comentário