No
dia 21 de dezembro de 2010, chegava ao fim o programa humorístico do Casseta & Planeta, Urgente(1992-2010).
Programa
comandado pela trupe do Casseta e Planeta que estava no ar todas as noites de terça-feira depois da
novela das oito, hoje chamada de novela das nove desde 1992.
A história de como esse grupo humorístico foi
originado é um tanto quanto pitoresco, já que ele começou quando no final
dos anos 1970, três amigos que se
conheceram na UFRJ formado por Beto Silva, Marcelo Madureira e Hélio de La
Peña, juntos criaram uma fanzine humorística chamada de Casseta Popular
que logo depois viraria uma revista que trazia uma estética anárquica de humor
ácido provocativo paródico, posteriormente ingressaram nesse grupo Claudio Manoel e Bussunda(1962-2006)*.
E
o grupo aumentaria quando três amigos que trabalhavam para outra mídia
impressa humorística O Planeta Diário,
uma sátira ao famoso jornal do Superman, formado por três ex-redatores de O
Pasquim: Reinaldo Figueiredo, Hubert Aranha e Claudio Paiva ao se juntarem
a eles formaram o Casseta & Planeta.
O fato deles terem começado a
fazer humor no jornalismo explica o famoso lema deles do “humorismo verdade,
jornalismo mentira”.
O
ousado estilo ácido de humor provocativo
que o grupo fazia nesse modelo tradicional de mídia impressa foi
colocado na TV quando eles primeiramente ingressaram compondo a equipe de
redatores da TV Pirata(Brasil, 1988-1992) que foi um embrião do que
seria depois o Casseta e Planeta, onde juntos de outros nomes
importantes do humor brasileiro: como o escritor Luís Fernando Verissimo(1936-2025),
o cartunista Glauco Villas-Boas**(1957-2010),
o dramaturgo Mauro Rasi(1949-2003) dentre outros.
Cujo
elenco era formado por atores surgido do teatro de variedades, que abordavam
sobre a comédia de costumes, também
popularmente chamado pejorativamente de besteirol e do revolucionário Asdrúbal
Trouxe o Trombone, que já eram
estrelas popularmente conhecidas das novelas da Globo com nomes como: Diogo Villela, Débora Bloch, Guilherme
Karan(1958-2016), Cristina Pereira, Luiz
Fernando Guimarães, Regina Casé, Ney Latorraca(1944-2024) dentre outros exemplos.
Cuja
estética humorística também se conectava um pouco com o que a trupe fazia em satirizar e provocar o cotidiano social brasileiro.
Em
seguida, eles fizeram carreira na
música lançando um LP de humor.
Posteriormente, mostrariam a cara e a coragem apresentando o programa Doris Para Maiores(Brasil,
1991), acompanhado da jornalista Doris Giesse e
somente em 1992, passariam a
comandar o programa Casseta & Planeta, Urgente, que durou 18 anos no
ar.
Foi
lá que eles ganharam a característica logomarca da cobrinha verde saindo do globo
terrestre que foi idealizado pelo designer austríaco-brasileiro Hans Donner,
que há mais de vinte anos prestava serviço a emissora desenhando logomarcas
marcantes de novelas e produzindo aberturas. Que simbolizava a união da Casseta Popular
e do Planeta Diário, a escolha da cobra foi bem apropriado para
simbolizar a identidade visual deles com o seu humor ácido.
Inicialmente
nesse programa, ele não contava com a presença de Maria Paula, a primeira
mulher a participar foi a jornalista Kátia Maranhão que não participava tanto
das esquetes, apenas comandava o programa dentro do estúdio assumindo a função
séria do jornalismo.
Só depois é que colocaram a Maria Paula,
egressa da extinta MTV Brasil
para assumir a função de ser como ela ficou popularmente conhecida de “A
Oitava Casseta”.
Isso
porque o grupo era composto de sete homens formado por: Claudio Manoel, Beto
Silva, Bussunda, Marcelo Madureira, Hélio de La Peña, Hubert e Reinaldo.
Já Claudio Paiva, ex-companheiro de
Hubert e Reinaldo no O Planeta Diário não os acompanhou nessa nova
empreitada.
E
no que eles foram se consolidando na TV,
foram se expandindo escrevendo muitos livros de piadas, eu cheguei a ter um
desses que foi o Seu Creysson: Vidia e Obra(2002), sobre o tipo popular
representado por Claudio Manoel.
Mesmo
após o desfalque que o grupo sofreu com a morte do Bussunda, em consequência de
um ataque cardíaco sofrido quando
ele estava na Alemanha com parte do
grupo para fazer a cobertura da Copa do Mundo de 2006, ainda assim eles
continuaram juntos trabalhando na TV por
mais quatro anos.
A
estética de humor do Casseta & Planeta já tendia a ser datada, e
isso já é algo característico da comédia que desde o surgimento de sua arte nos
primórdios da humanidade no teatro da Grécia Antiga, tendia a ser datado pelo
fato dele ridicularizar situações e costumes sociais de acordo com cada
época, ao contrário do drama cuja
história é sempre atemporal.
Do mesmo modo como acontece com o humor das charges, porque como o seu estilo
humorístico tinha muito do DNA no jornalismo cujo roteiro das piadas dependiam
do que vinha acontecendo nos noticiários da imprensa seja tanto na política dos
quais eles tiravam sarro, fosse em parodiar as novelas em cartaz da Globo,
fosse parodiar personalidades em situações nada agradáveis ou temas espinhosos
na rotina de nossa sociedade, envolvendo os avanços científicos, o
comportamento social ou qualquer coisa
do tipo eles não perdoavam mesmo.
Eles
tiravam muito sarro de grupos sociais marginalizados como os pretos, a
comunidade LGBTQIAPN+, os PCDs, os povos originários, as pessoas obesas e como
o predomínio do grupo era masculino, eles também faziam muitas piadas machistas de cunho erótico ou mesmo
depreciativo.
Algo
que hoje em dia já não é mais tão tolerado, não pelo politicamente correto, mas
porque os grupos sociais marginalizados já não toleram mais isso.
Se
bem que não se pode julgar, nem lacrar e nem sequer cancelar o tipo
de humor que eles faziam até porque a gente tem de levar em conta de que
quando esse grupo surgiu, foi num momento em que ainda vivíamos
numa época opressora de transição do final da Ditadura Militar para o
começo da Redemocratização.
Onde
prevalecia uma forte censura aos meios de comunicação. E estávamos nos adaptando a ter de volta a nossa liberdade de expressão depois de passarmos 21
anos sobre a opressão dos militares. E
vivíamos num cenário de alta inflação.
Poderia
comparar que o tipo transgressor de humor deles os fazem equivalerem
como os porta-vozes da geração oprimida pela ditadura nos anos
1980, algo parecido ao que os cantores Cazuza(1958-1990) e Renato
Russo(1960-1996)*** simbolizavam para a música brasileira com suas letras
transgressoras de cunho panfletário e provocativo ao cenário do Brasil dos anos
1980.
Isso
inclusive me lembra que no meu tempo de Colégio Objetivo, quando eu fazia a antiga 8ª Série do Ensino
Fundamental, isso lá em 2002, durante uma aula
de história sobre a Ditadura no Brasil.
Nosso
professor mencionou o exemplo do Casseta & Planeta, para explicar
para nós que já erámos da geração que não alcançou a fase de repressão da
ditadura e já era símbolo de museu para
nós, por assim dizer.
Que
aquele humor que a gente assistia do grupo
que ainda passava na TV, seria impensável da gente assistir tipo durante
os anos 1970, fase mais repressora da ditadura.
Ainda
no meu tempo de Objetivo, eu tive outro professor que não vou mencionar
aqui o nome e nem de qual disciplina ele
lecionava que ele por ser crente, chegou uma vez em sala de aula comentando sua
indignação reacionária de um quadro do Casseta
& Planeta onde eles faziam uma blasfêmia a Deus, por causa da
brincadeira que eles fizeram com uma esquete onde o Seu Creysson(Claudio
Manoel) virava um ser iluminado.
Uma
postura que lembrando hoje, irei dizer
que se mostrou muito equivocada da parte dele, porque ele não entendeu que o
intuito ali não era difamar nenhuma
religião, mas sim criticar o culto em torno de pastores midiáticos que ostentam
uma vida de luxo para enganar seus ingênuos
fiéis virando suas ovelhas.
Essa
sua postura mostrou o quanto que ele não passava de uma ovelha do rebanho
desses pastores que estava transformando sala de aula em púlpito, algo que tem se mostrado
preocupante hoje em dia.
Quando
o humor especificamente ousa provocar a religião, o negócio tende a trazer uma
reação de enfurecimento de grupos religiosos reacionários, extremistas etc...
Pegar
outros exemplos de situações semelhantes ao que eu testemunhei desse meu
professor foi quando os britânicos do Monty
Pyton lançou o filme A Vida de Brian(Life of Brian, Reino Unido,
1979), que chegou a ser proibido de
ter distribuição em alguns países pela forma como eles zoavam a história
bíblica do nascimento de Jesus Cristo ou mesmo como ocorreu anos depois com o Porta
dos Fundos, que em 2019 lançou um especial natalino para a Netflix
intitulado A Primeira Tentação de Cristo (Brasil, 2019), que gerou uma
revolta de grupos religiosos reacionários que até destruíram sua sede.
Olha
com todo respeitado por qualquer religião, independente de qual seja o credo,
até porque sou seguidor do espiritismo.
Principalmente
a quem siga a religião evangélica, até
porque eu meio que indiretamente tive uma educação evangélica porque minha mãe
veio do berço de uma família protestante.
Onde inclusive um irmão dela faz carreira no sacerdócio, ministrando
como pastor há mais de 30 anos numa igreja batista da Bahia e mesmo não sendo
seguidor fiel, cheguei a frequentar alguns cultos evangélicos.
Do mesmo
modo que cheguei a frequentar umas missas de
igrejas católicas, onde recebi
batismo que foi onde
literalmente meu pai teve essa formação
educacional, já que estudou do maternal
ao ensino médio num colégio de padres,
apesar de não ter virado um seguidor fervoroso.
Mas
não tem quem me convença de que pastores midiáticos com influência na política
para formar uma bancada evangélica no
planalto e com aqueles discursos autoritários, moralistas e recalcados
de demonizar tudo que foge ao padrão que eles pregam de deus e família e
arrumarem bodes expiatórios condenando anime como coisa do demônio e convencendo qualquer fiel de que são
milagreiros.
Mas
que no fundo escondem serem uns bando de gente torpe, que adora ostentar uma
vida luxuosa e fazer suas orgias.
Esses
sim, me desculpem mas são gente que se mostram mais nocivas do que qualquer
coisa. Não merecem o meu respeito.
Diferentes
fatores deram origem ao fim do programa, um deles envolveu a forte concorrência
com o Pânico na TV (2003-2011) na RedeTV que estava fazendo sucesso com
seu estilo de humor de choque, que é aquele que costuma ultrapassar os limites
do aceitável para o inaceitável e do CQC(2008-2015) da Band inspirado no
formato argentino do Caiga Quien Caiga. Fazendo humor paródico de jornalismo, onde
mostrava eles entrevistando os parlamentares de Brasília, entre esses estava
Jair Bolsonaro, um medíocre deputado federal representante do baixo clero que ganhou voz nesse programa de humor pelo seu discurso autoritário contra os gays que era
explorado até a última gota para fazer um humor involuntário.
O
mesmo que anos depois se tornaria Presidente da República fazendo um desgoverno
e agora está como deve, apodrecendo na cadeia esse verme.
O
Casseta & Planeta chegou a retornar a grade da Globo em 2012, mas
sem o mesmo prestigio de antes.
De
certa forma, posso concluir que o ousado estilo de humor que eles faziam seriam
impensáveis de serem replicados hoje em dia.
P.S. O nome baixo clero era dado na Idade Média a sacerdotes que
atuavam diretamente nas vilas e aldeias em contrastes aos bispos, arcebispos e
cardeais que eram do alto clero. Na política brasileira, essa nomenclatura é
empregada para designar parlamentares com pouca expressão na Cãmara dos
Deputados, movidos principalmente por interesses provincianos ou pessoais. São
deputados sem muita influência ou participação nos processos políticos
importantes no Parlamento. Estão mais preocupados com sua base eleitoral, além
de contarem com pouca presença na mídia. Foi esse caso do então deputado
federal Jair Bolsonaro antes de ser Presidente da República.
















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