segunda-feira, 15 de dezembro de 2025

25 ANOS DO FILME A NOVA ONDA DO IMPERADOR.

 

        No dia 15 de Dezembro de 2000, estreava a animação dos Estúdios Disney A Nova Onda do Imperador, uma produção um tanto quanto esquecida cujos bastidores tensos o fizeram marcar como o ponto de partida para iniciar a fase tenebrosa da Disney naquele começo de século 21, que foi a sua Segunda Era Sombria.




Segunda porque a primeira teve início em  1970 com o lançamento de Aristogatas, dirigido pelo alemão Wolfgang Reitherman(1909-1985), ele foi o  ponto de partida para o começo do  período de declínio criativo e financeiro que ocorreu entre 1970 e 1988, após a morte de Walt Disney em 1966. Essa fase foi marcada pelo afastamento da visão do fundador, pela tentativa de reduzir custos com a xerografia  (que gerou animações com traços pesados e "arranhados"), e por filmes de alto orçamento com baixo retorno em bilheteira, como o fracasso de  O Caldeirão Mágico(1985). A era terminou com a chegada de novos gestores, como  Jeffrey Katzenberg, que ajudaram a impulsionar o sucesso do período de Renascimento   posterior.” 

(Texto de pesquisa no Google).





Foi nessa fase que a Disney foi a única que ousou manter ativo seu departamento de animação, visto que  seus outros concorrentes  da Era de Ouro das Animações entre os anos 1930 e 1940 estavam fechando os seus departamentos de animação  por conta da nova realidade dos aparelhos de tvs nas casas dos americanos, e alguns egressos como William Hanna(1910-2001) e Joseph Barbera(1911-2006) após serem demitidos da MGM  haviam fundado a Hanna-Barbera Productions. Onde passaram a concentrar no mercado televisivo, barateando a produção usando uma técnica de animação limitada.




Outros também foram embarcando nessa tendência ao longo das décadas seguintes, durante a década de 1980, quando as animações se tornaram massificadas como vitrines para vender brinquedos, foi também nessa época em que a popularidade do home vídeos, fez surgir nesse momento as produções de animação direto para as fitas VHS.




Uma das produtoras responsáveis pela produção direto para VHS com produção mais limitada da limitada de baixíssimo orçamento  foi a GoodTimes Entertainment, que por volta da década de 1990 chegou a produzir versões similares de algumas animações que a Disney lançou em sua Era da Renascença que teve início com o lançamento de A Pequena Sereia(1989), onde eu que nasci em 1985, já cresci alcançando essa nova fase dourada do estúdio, vendo nas telonas Aladdin(1992), O Rei Leão(1994), Pocahontas(1995), O Corcunda de Notre-Dame(1996), Hércules(1997),Mulan(1998) e Tarzan(1999).




A picareta da  GoodTimes Home Vídeo que hoje já não existe mais,  a empresa foi vendida em 2005  para o grupo Mundó, juntamente com a Golden Films. Produziu muitos títulos similares a Disney lançando para VHS em animação de baixa qualidade, onde inclusive eu cheguei a ganhar de presente de minha tia no dia das crianças de 1997 uma VHS da animação  Hércules, uma produção da GoodTimes pouco tempo depois de assistir a animação de Hércules da Disney no cinema.  Essa empresa costumava plagiar na cara dura as produções da Disney ao longo dos anos 1990. Essas animações foram distribuídas no Brasil pela extinta Cosmos Vídeos  que ficaram conhecidas por suas dublagens raras, feitas exclusivamente para home vídeo e que se perderam ao longo do tempo. Figurando como mídias perdidas.




Aliás, a Disney também chegou a aproveitar o mercado do home vídeo na década de 1990 para lançar direto em VHS umas sequencias de suas produções que fizeram sucesso  nessa fase da renascença, que foi o caso de Aladdin que ganhou direto para VHS as sequencias de O Retorno de Jafar(1994) e Aladdin e os 40 Ladrões(1996).

Que também ganharam espaço na televisão com as séries derivadas dessas produções.




Pois bem, foi nessa época especifica da transição Pós-Era Renascentista da Disney que surge A Nova Onda do Imperador, marcando o início da Era Experimental da Disney, também conhecida como Segunda Era das Trevas, foi um período de inovação e experimentação na animação da Disney, que ocorreu aproximadamente entre 2000 e 2008. Marcada por novas abordagens de narrativa, animação e personagens.

Essa fase  foi onde a Disney procurou  inovar em personagens e narrativas, afastando-se da fórmula musical que caracterizou o Renascimento da década de 1990.  





Tentando criar personagens mais densos e jornadas mais complexas foram um dos focos da experimentação. 

Marcou também pelo surgimento de diferentes tipos de animação e a introdução de tecnologias como a animação por computador no CGI em 3D, vista em filmes como Dinossauros  e  O Galinho Chicken Little. 

Onde  apesar de algumas produções serem bem-recebidas, a maioria dos filmes desta era não alcançou grande sucesso de público, resultando em uma fase de incertezas financeiras para o estúdio. 

A principal razão para que essa animação simbolizasse o ponto de partida para o começo dessa Segunda Era Sombria da Disney se deve como consequência  da influência de quando  meses antes foi lançado a animação Dinossauro no dia 19 de Maio de 2000.





Dinossauro foi o primeiro lançamento da Disney de animação tridimensional gerada por computador. Custou US$ 127,5 milhões, tornando-se o lançamento mais caro do ano. O filme foi um sucesso financeiro, arrecadando mais de US$ 349 milhões internacionalmente na receita total de bilheteria, tornando-se o quinto filme de maior bilheteria de 2000. Usando do fotorrealismo para explorar o universo dos Dinossauros, apesar da trama ter feito um sucesso nas bilheterias, ela dividiu as opiniões da crítica especializada que não gostou muito da sua proposta diferente.

Foi o início da fase experimental da Disney, eis que chegamos no filme A Nova Onda do Imperador, um projeto que  foi concebido  por Roger Allers e Matthew Jacobs, e  começaram a desenvolver o projeto em 1994.

Allers havia dirigido o grande fenômeno das bilheterias de 1994 que foi O Rei Leão e chegou a argumentar para Michael Eisner o CEO da Disney: “ele tem todos os elementos de um filme clássico da Disney".

Nos cinco anos que Allers consumiu para desenvolver o roteiro que teve início segundo pelo que  informou a revista Variety em Janeiro de 1995, em “Uma história original com temática Inca.”

Nesse interim a equipe de produção promoveu uma viagem ao Peru em 1996 para estudar artefatos incas, bem como a paisagem, a arquitetura e a paisagem na qual este império foi criado para assim poderem começar a estruturar o roteiro.

 O enredo de A Nova Onda do Imperador gira em torno do Imperador Kuzco, um sujeito excêntrico, extravagante e irreverente  que governa Machu Pichu.

Um sujeito um tanto egoísta e megalomaníaco,  não faz ideia que a Bruxa Yzma quer tentar planejar um golpe para tirá-lo do poder, criando uma porção mágica para mata-lo, mas que por um descuido de seu assistente Kronk que altera a fórmula da porção  o transforma numa lhama.

É transformado numa lhama que ele começa a sua jornada heroica de tentar impedir com que Yzma tente usurpar o seu trono, ele tenta ir atrás do camponês Pacha a quem ele esnobou quando esse foi atrás dele para pedir ajuda, e nessa situação ele se recusa a ajudar Kuzco.

E a partir daí  que a trama vai girando em torno de  muita confusão aventuresca na jornada heroica de Kuzco e Pacha.

As razões  para a Disney figurar essa animação como o ponto de partida de iniciar essa sua fase obscura como a  segunda era sombria naquele cenário da transição da virada do século*, está relacionado a consequência que esse  filme gerou um  resultado não satisfatório para a Disney, ocasionado principalmente pelos conflitos de bastidores que foram bastante tumultuados e causou adiamentos, consequência principalmente das mudanças de equipe durante toda a etapa da produção que fez a obra dividir as opiniões e o orçamento da produção já tinha chegado ao limite.

Inicialmente o título do filme seria Kingdom of the Sun, cujas ideias iniciais eram diferentes do que foi  mostrado na obra.  Cuja inspiração para a  estrutura do roteiro foi no clássico literário de Mark Twain(1835-1910) que é O Principe e o Mendigo**.

Nessa sua primeira estrutura de roteiro mostraria o egoísta e ganancioso  Kuzco trocando de lugar com o simplório camponês  Pacha, que seria semelhante a ele assim como na obra de Twain. Onde a bruxa Yzma teria planos para convocar o Deus do Mal Supai e destruir o sol para que ela possa manter sua juventude. Um plano bastante mirabolante. A ideia de transformar Kuzco  numa lhama seria mantida, principalmente depois que Yzma  descobrisse que a troca foi feita entre Kuzco e Pacha. E nesse roteiro chegou a mostrar que Kuzco em sua forma de lhama conheceria uma pastora de lhamas chamada Mata, com quem se apaixonaria, que acabou sendo descartado na versão final do filme.

Foi durante toda essa etapa de produção que a direção executiva da Disney sentindo que o tom era sério demais, contratou outros roteiristas que pudessem trabalhar na leveza do humor. No início de 1997, o produtor Randy Fullmer contactou Mark Dindall para dirigir. Enquanto que Allers pessoalmente chegou a chamar o famoso cantor Sting para compor as trilhas sonoras do filme.

Durante o verão de 1997, foi anunciado que Rogers Allers e Mark Dindall seriam diretores do filme e Randy Fullmer seria produtor.

Durante o “verão de 1998, era evidente que Kingdom of the Sun não estava avançado o suficiente em produção para ser lançado no verão de 2000, conforme o planejado. Neste momento, um dos executivos da Disney supostamente teria entrado no escritório de Randy Fullmer e, colocando seu polegar e o dedo indicador a meio centímetro de distância, afirmou que "só falta isso para seu filme ser cortado." Fullmer foi falar com Allers, e informou-o da necessidade de concluir o filme a tempo para o lançamento no verão de 2000, pois acordos cruciais com McDonald's, Coca-Cola e outras empresas já estavam estabelecidos e dependiam de alcançar aquela data de lançamento.

Allers reconheceu que a produção estava atrasada, mas estava confiante de que, com uma extensão de seis meses a um ano, ele poderia concluir o filme. Quando Fullmer negou o pedido de prorrogação de Allers, o diretor decidiu deixar o projeto. Em 23 de setembro de 1998, o projeto foi cancelado, tendo tido custos de produção no montante de 25-30 milhões de dólares e vinte e cinco por cento do filme animado.”

(Wikipédia).

Isso consequentemente ocasionou na saída de Allers do projeto, o então executivo da Disney Michael Eisner chateado com a situação resolveu dá a Fullmer e Dindall um ultimato para salvar o filme ou a produção seria cancelada.

Fullmer e Dindall tiveram o duro desafio de correrem contra o tempo deixando a produção parada por seis meses para reescrever o roteiro e modificando o título.

Originalmente o nome de Kuzco seria Manco, uma provável referência a uma importante figura incaica chamada de Manco Capac que viveu ali por volta do século 13 antes da colonização espanhola, mas depois que eles descobriram que no idioma japonês existia a palavra omanco para definir vagina, então eles modificaram para Kuzco que é o nome de uma cidade do Peru, a Cuzco que já foi  local do antigo Império Inca, que é um patrimônio da humanidade e que no antigo idioma local quíchua dos povos incas significa centro do mundo. Bem apropriado para o perfil egocêntrico do protagonista.

Já o nome de Pacha foi escolhido em referência a Pachamama uma divindade andina ancestral (Quéchua/Aimará) que personifica a Terra, a fertilidade, a vida, a maternidade e o universo, sendo um pilar da cosmovisão indígena da América do Sul, especialmente no Peru, Bolívia e Argentina, honrada com oferendas de alimentos, bebidas e folhas de coca, simbolizando gratidão e conexão com a natureza, com celebrações marcadas em agosto para nutrir a terra. O seu significado é mundos, universos, tempo e espaço.

Já o nome da vilã Yzma veio de origem do idioma hispânico isma que significa ciúme, que refletia bem sua inveja e ambição de usurpar o trono.

O filme aqui no Brasil ganhou uma popularidade graças ao elenco de dublagem  que contou com a participação de famosas estrelas da televisão para dublarem os personagens principais da obra: Kuzco foi dublado por Selton Mello cuja voz original é de David Spade, Humberto Martins que na ocasião estava estrelando a novela das sete da Globo Uga Uga(2000-2001) é quem fez a voz do Pacha que no original foi feita por John Goldman que de inicio seria de Owen Wilson. E Marieta Severo que na ocasião estava brilhando na pele da Alma na novela das oito Laços de Família(2000-2001) foi a responsável por dublar a malvada bruxa Yzma que no original foi representada pela saudosa cantora Eartha Kitt(1927-2008).




Outros fatores que tornam essa animação figurar propositalmente no limbo do esquecimento da Disney e iniciar essa sua fase obscura, está justamente no fato de que a arrecadação não foi muito satisfatória para a Disney para o orçamento alto e a trama ter dividido as opiniões devido aos bastidores conflituosos que ocasionou na mudança de equipe que modificou a estrutura inicial e modificou o título, isso gerou um clima de incertezas a respeito dessa produção.

Consequentemente, isso  resultou num desespero para a Disney que fez com que Roy Edward Disney(1930-2009), sobrinho de Walt Disney e filho de Roy Oliver Disney(1893-1971) começasse uma guerra para salvar a Disney onde tivermos uma demissão na chefia  executiva da empresa  e uma mudança de nome no departamento que era de Walt Disney Feature Animation para Walt Disney Animation Studios.

Ainda mais que a Disney fora esses problemas internos,  estava ficando atenta ao surgimento de  uma nova ameaça de um concorrente de peso  que vinha da DreamWorks, um estúdio de animação que havia surgido em 1994, fundado pelo  recém-egresso da Disney Jeffrey Katzenberg junto a Steven Spielberg e David Geffen que naquele ano de 2000 surpreenderia lançando a animação de A Fuga das Galinhas(2000), uma coprodução com o estúdio britânico da Aardman usando de uma técnica de stop motion.



Uma produção que contou com a codireção de Peter Lord e Nick Park que também assinam o roteio junto com Karey Kirkpatrick que marcou o começo de uma nova fase da indústria da animação ao apresentar uma envolvente  história que gira em torno da jornada das galinhas tentando fugir do galinheiro da perversa Senhorita Tweedy, onde lá precisam engordarem elas  para serem mandadas para o abate e virarem comidas industriais, e contaram com a ajuda  de um galo de circo que apareceu acidentalmente ali.  

Uma interessante mensagem crítica  sobre a exploração da escravidão, ainda mais sabendo que sua inspiração foi no desumano modelo de prisão genocida  que o mundo  já conheceu que foi o holocausto dos campos de concentração praticado pelos nazistas aos judeus e outras minorias durante a Segunda Guerra Mundial.

O sucesso de critica e bilheteria de A Fuga das Galinhas que se tornou um marco importante para a história da animação ocasionou na criação de uma nova categoria para o Oscar de Melhor Animação, já que como até então não existia essa categoria.

O filme também fez sucesso com a crítica e havia a esperança que a obra fosse indicada a melhor filme no Oscar de 2001 ou ganhasse um prêmio honorário, já que, naquele tempo, as animações só apareciam na premiação da Academia de Cinema de Hollywood nessas duas formas. É o que acontecera com A Branca de Neve em 1939 e Toy Story em 1996.

Contrariando as grandes expectativas, o Oscar esnobou completamente A Fuga das Galinhas, apesar dos enormes esforços de sua equipe de produção para ser concretizado.

O filme levou vários anos de  produção para ser concretizado. O filme levou vários anos de produção, mais de 40 animadores para criar cenas trabalhosas, gravadas quadro a quadro.

A DreamWorks, distribuidora do filme, fez uma forte campanha de divulgação, proporcionando várias entrevistas do elenco de dublagem e produtores à imprensa, que elogiou o projeto. Apesar do sucesso comercial e do retorno positivo da crítica, a história protagonizada por Ginger não entrou na lista de indicados — concorreram Chocolate, O Tigre e o Dragão, Erin Brockovich, Traffic e Gladiador — o vencedor.

(Trecho retirado da matéria do site da Veja de 16 de Dezembro de 2023, sobre o filme pegando carona  no lançamento da sequência na Netflix 23 anos após o primeiro filme.)

 

            No primeiro ano que teve essa categoria que foi em 2002, a primeira  animação a vencer foi Shrek(2001) da Dreamworks, que marcou o ponto de partida para um novo ciclo da indústria de animação com uso da moderna animação em 3D.

Num balanço geral, dá para se compreender e concluir sobre o porquê que a Disney considera a produção de A Nova Onda do Imperador como o marco inicial dessa obscura fase  em sua centenária história no ramo da animação como a Segunda Era Sombria, um período também marcado pela Era da Experimentação.




Foi nessa fase que aos poucos, a Disney foi deixando de lado o tradicional 2D e passando a fazer em 3D. Ainda mais depois do sucesso de Shrek da Dreamworks, onde nisso foi dando origem as outras de produções de concorrentes como: Blue Sky, Sony Animation, Ilumination dentre outros.


*Temos que levar em conta que tecnicamente no ano 2000, ainda estávamos no século 20. Baseado no fato de que no calendário cristão ele começa pelo Ano 1 D.C. e não pelo ano zero. Só a partir de 2001 é que entramos no novo século.

**A Disney já chegou a produzir uma adaptação animada dessa clássica  obra de Mark Twain em um curta-metragem de 24 minutos lançado em 1990 direto  para o mercado de home vídeo estrelado pelo Mickey Mouse como os sósias que se trocam, o famoso rato símbolo da empresa. Que contou com a direção de George Scribner e roteiro adaptado por Gerrit Graham e Sam Graham. 

 

 

 

 

 

 

 

 

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