No dia 15 de Dezembro de 2000, estreava
a animação dos Estúdios Disney A Nova Onda do Imperador, uma produção um
tanto quanto esquecida cujos bastidores tensos o fizeram marcar como o ponto de
partida para iniciar a fase tenebrosa da Disney naquele começo de século 21,
que foi a sua Segunda Era Sombria.
Segunda
porque a primeira teve início em 1970
com o lançamento de Aristogatas, dirigido pelo alemão Wolfgang
Reitherman(1909-1985), ele foi o ponto
de partida para o começo do “período
de declínio criativo e financeiro que ocorreu entre 1970 e 1988, após a morte
de Walt Disney em 1966. Essa fase foi marcada pelo afastamento da visão do
fundador, pela tentativa de reduzir custos com a xerografia (que gerou
animações com traços pesados e "arranhados"), e por filmes de alto
orçamento com baixo retorno em bilheteira, como o fracasso de O Caldeirão
Mágico(1985). A era terminou com a chegada de novos gestores, como
Jeffrey Katzenberg, que ajudaram a impulsionar o sucesso do período de
Renascimento posterior.”
(Texto
de pesquisa no Google).
Foi
nessa fase que a Disney foi a única que ousou manter ativo seu departamento de
animação, visto que seus outros
concorrentes da Era de Ouro das
Animações entre os anos 1930 e 1940 estavam fechando os seus departamentos
de animação por conta da nova realidade
dos aparelhos de tvs nas casas dos americanos, e alguns egressos como William
Hanna(1910-2001) e Joseph Barbera(1911-2006) após serem demitidos da MGM haviam fundado a Hanna-Barbera Productions.
Onde passaram a concentrar no mercado televisivo, barateando a produção usando
uma técnica de animação limitada.
Outros
também foram embarcando nessa tendência ao longo das décadas seguintes, durante
a década de 1980, quando as animações se tornaram massificadas como vitrines
para vender brinquedos, foi também nessa época em que a popularidade do home
vídeos, fez surgir nesse momento as produções de animação direto para as fitas
VHS.
Uma
das produtoras responsáveis pela produção direto para VHS com produção mais
limitada da limitada de baixíssimo orçamento foi a GoodTimes Entertainment, que por
volta da década de 1990 chegou a produzir versões similares de algumas
animações que a Disney lançou em sua Era da Renascença que teve início
com o lançamento de A Pequena Sereia(1989), onde eu que nasci em 1985, já
cresci alcançando essa nova fase dourada do estúdio, vendo nas telonas Aladdin(1992),
O Rei Leão(1994), Pocahontas(1995), O Corcunda de Notre-Dame(1996),
Hércules(1997),Mulan(1998) e Tarzan(1999).
A
picareta da GoodTimes Home Vídeo que
hoje já não existe mais, a empresa foi
vendida em 2005 para o grupo Mundó,
juntamente com a Golden Films. Produziu muitos títulos similares a Disney
lançando para VHS em animação de baixa qualidade, onde inclusive eu cheguei a
ganhar de presente de minha tia no dia das crianças de 1997 uma VHS da
animação Hércules, uma produção
da GoodTimes pouco tempo depois de assistir a animação de Hércules da
Disney no cinema. Essa empresa costumava plagiar na cara dura as
produções da Disney ao longo dos anos 1990. Essas animações foram distribuídas
no Brasil pela extinta Cosmos Vídeos que ficaram conhecidas por suas
dublagens raras, feitas exclusivamente para home vídeo e que se perderam ao
longo do tempo. Figurando como mídias perdidas.
Aliás,
a Disney também chegou a aproveitar o mercado do home vídeo na década de 1990
para lançar direto em VHS umas sequencias de suas produções que fizeram sucesso
nessa fase da renascença, que foi o caso
de Aladdin que ganhou direto para VHS as sequencias de O Retorno de Jafar(1994)
e Aladdin e os 40 Ladrões(1996).
Que
também ganharam espaço na televisão com as séries derivadas dessas produções.
Pois
bem, foi nessa época especifica da transição Pós-Era Renascentista da Disney
que surge A Nova Onda do Imperador, marcando o início da Era
Experimental da Disney, também conhecida como Segunda Era das Trevas, foi
um período de inovação e experimentação na animação da Disney, que ocorreu
aproximadamente entre 2000 e 2008. Marcada por novas abordagens de narrativa,
animação e personagens.
Essa
fase foi onde a Disney procurou inovar em personagens e narrativas,
afastando-se da fórmula musical que caracterizou o Renascimento da década de
1990.
Tentando
criar personagens mais densos e jornadas mais complexas foram um dos focos da
experimentação.
Marcou
também pelo surgimento de diferentes tipos de animação e a introdução de
tecnologias como a animação por computador no CGI em 3D, vista em filmes como Dinossauros
e O Galinho Chicken Little.
Onde
apesar de algumas produções serem bem-recebidas, a maioria dos filmes
desta era não alcançou grande sucesso de público, resultando em uma fase de
incertezas financeiras para o estúdio.
A
principal razão para que essa animação simbolizasse o ponto de partida para o
começo dessa Segunda Era Sombria da Disney se deve como
consequência da influência de quando meses antes foi lançado a animação Dinossauro
no dia 19 de Maio de 2000.
Dinossauro
foi
o primeiro lançamento da Disney de animação tridimensional gerada por
computador. Custou US$ 127,5 milhões, tornando-se o lançamento mais caro do
ano. O filme foi um sucesso financeiro, arrecadando mais de US$ 349 milhões
internacionalmente na receita total de bilheteria, tornando-se o quinto filme
de maior bilheteria de 2000. Usando do fotorrealismo para explorar o universo
dos Dinossauros, apesar da trama ter feito um sucesso nas bilheterias,
ela dividiu as opiniões da crítica especializada que não gostou muito da sua
proposta diferente.
Foi
o início da fase experimental da Disney, eis que chegamos no filme A Nova
Onda do Imperador, um projeto que foi concebido por Roger Allers e Matthew Jacobs, e começaram a desenvolver o projeto em 1994.
Allers
havia dirigido o grande fenômeno das bilheterias de 1994 que foi O Rei Leão
e chegou a argumentar para Michael Eisner o CEO da Disney: “ele tem todos os
elementos de um filme clássico da Disney".
Nos
cinco anos que Allers consumiu para desenvolver o roteiro que teve início
segundo pelo que informou a revista Variety
em Janeiro de 1995, em “Uma história original com temática Inca.”
Nesse
interim a equipe de produção promoveu uma viagem ao Peru em 1996 para estudar
artefatos incas, bem como a paisagem, a arquitetura e a paisagem na qual este
império foi criado para assim poderem começar a estruturar o roteiro.
O enredo de A Nova Onda do Imperador gira
em torno do Imperador Kuzco, um sujeito excêntrico, extravagante e irreverente que governa Machu Pichu.
Um
sujeito um tanto egoísta e megalomaníaco,
não faz ideia que a Bruxa Yzma quer tentar planejar um golpe para
tirá-lo do poder, criando uma porção mágica para mata-lo, mas que por um
descuido de seu assistente Kronk que altera a fórmula da porção o transforma numa lhama.
É
transformado numa lhama que ele começa a sua jornada heroica de tentar impedir
com que Yzma tente usurpar o seu trono, ele tenta ir atrás do camponês Pacha a
quem ele esnobou quando esse foi atrás dele para pedir ajuda, e nessa situação
ele se recusa a ajudar Kuzco.
E
a partir daí que a trama vai girando em
torno de muita confusão aventuresca na
jornada heroica de Kuzco e Pacha.
As
razões para a Disney figurar essa
animação como o ponto de partida de iniciar essa sua fase obscura como a segunda era sombria naquele cenário da
transição da virada do século*, está relacionado a consequência que esse filme gerou um resultado não satisfatório para a Disney,
ocasionado principalmente pelos conflitos de bastidores que foram bastante
tumultuados e causou adiamentos, consequência principalmente das mudanças de
equipe durante toda a etapa da produção que fez a obra dividir as opiniões e o
orçamento da produção já tinha chegado ao limite.
Inicialmente
o título do filme seria Kingdom of the Sun, cujas ideias iniciais eram
diferentes do que foi mostrado na obra. Cuja inspiração para a estrutura do roteiro foi no clássico literário
de Mark Twain(1835-1910) que é O Principe e o Mendigo**.
Nessa
sua primeira estrutura de roteiro mostraria o egoísta e ganancioso Kuzco trocando de lugar com o simplório
camponês Pacha, que seria semelhante a
ele assim como na obra de Twain. Onde a bruxa Yzma teria planos para convocar o
Deus do Mal Supai e destruir o sol para que ela possa manter sua juventude. Um
plano bastante mirabolante. A ideia de transformar Kuzco numa lhama seria mantida, principalmente depois
que Yzma descobrisse que a troca foi feita
entre Kuzco e Pacha. E nesse roteiro chegou a mostrar que Kuzco em sua forma de
lhama conheceria uma pastora de lhamas chamada Mata, com quem se apaixonaria,
que acabou sendo descartado na versão final do filme.
Foi
durante toda essa etapa de produção que a direção executiva da Disney sentindo
que o tom era sério demais, contratou outros roteiristas que pudessem trabalhar
na leveza do humor. No início de 1997, o produtor Randy Fullmer contactou Mark
Dindall para dirigir. Enquanto que Allers pessoalmente chegou a chamar o famoso
cantor Sting para compor as trilhas sonoras do filme.
Durante
o verão de 1997, foi anunciado que Rogers Allers e Mark Dindall seriam
diretores do filme e Randy Fullmer seria produtor.
Durante
o “verão de 1998, era evidente que Kingdom of the Sun não
estava avançado o suficiente em produção para ser lançado no verão de 2000,
conforme o planejado. Neste momento, um dos executivos da Disney supostamente
teria entrado no escritório de Randy Fullmer e, colocando seu polegar e o dedo
indicador a meio centímetro de distância, afirmou que "só falta isso para
seu filme ser cortado." Fullmer foi falar com Allers, e informou-o da
necessidade de concluir o filme a tempo para o lançamento no verão de 2000,
pois acordos cruciais com McDonald's, Coca-Cola e outras empresas já estavam
estabelecidos e dependiam de alcançar aquela data de lançamento.
Allers
reconheceu que a produção estava atrasada, mas estava confiante de que, com uma
extensão de seis meses a um ano, ele poderia concluir o filme. Quando Fullmer
negou o pedido de prorrogação de Allers, o diretor decidiu deixar o
projeto. Em 23 de setembro de 1998, o projeto foi cancelado, tendo tido
custos de produção no montante de 25-30 milhões de dólares e vinte e cinco
por cento do filme animado.”
(Wikipédia).
Isso
consequentemente ocasionou na saída de Allers do projeto, o então executivo da
Disney Michael Eisner chateado com a situação resolveu dá a Fullmer e Dindall
um ultimato para salvar o filme ou a produção seria cancelada.
Fullmer
e Dindall tiveram o duro desafio de correrem contra o tempo deixando a produção
parada por seis meses para reescrever o roteiro e modificando o título.
Originalmente
o nome de Kuzco seria Manco, uma provável referência a uma importante figura
incaica chamada de Manco Capac que viveu ali por volta do século 13 antes da
colonização espanhola, mas depois que eles descobriram que no idioma japonês
existia a palavra omanco para definir vagina, então eles modificaram para Kuzco
que é o nome de uma cidade do Peru, a Cuzco que já foi local do antigo Império Inca, que é um
patrimônio da humanidade e que no antigo idioma local quíchua dos povos incas significa
centro do mundo. Bem apropriado para o perfil egocêntrico do protagonista.
Já
o nome de Pacha foi escolhido em referência a Pachamama uma divindade
andina ancestral (Quéchua/Aimará) que personifica a Terra, a fertilidade, a
vida, a maternidade e o universo, sendo um pilar da cosmovisão indígena da
América do Sul, especialmente no Peru, Bolívia e Argentina, honrada com
oferendas de alimentos, bebidas e folhas de coca, simbolizando gratidão e
conexão com a natureza, com celebrações marcadas em agosto para nutrir a
terra. O seu significado é mundos, universos, tempo e espaço.
Já
o nome da vilã Yzma veio de origem do idioma hispânico isma que significa
ciúme, que refletia bem sua inveja e ambição de usurpar o trono.
O
filme aqui no Brasil ganhou uma popularidade graças ao elenco de dublagem que contou com a participação de famosas
estrelas da televisão para dublarem os personagens principais da obra: Kuzco
foi dublado por Selton Mello cuja voz original é de David Spade, Humberto
Martins que na ocasião estava estrelando a novela das sete da Globo Uga Uga(2000-2001)
é quem fez a voz do Pacha que no original foi feita por John Goldman que de
inicio seria de Owen Wilson. E Marieta Severo que na ocasião estava brilhando
na pele da Alma na novela das oito Laços de Família(2000-2001) foi a
responsável por dublar a malvada bruxa Yzma que no original foi representada
pela saudosa cantora Eartha Kitt(1927-2008).
Outros
fatores que tornam essa animação figurar propositalmente no limbo do
esquecimento da Disney e iniciar essa sua fase obscura, está justamente no fato
de que a arrecadação não foi muito satisfatória para a Disney para o orçamento
alto e a trama ter dividido as opiniões devido aos bastidores conflituosos que
ocasionou na mudança de equipe que modificou a estrutura inicial e modificou o
título, isso gerou um clima de incertezas a respeito dessa produção.
Consequentemente,
isso resultou num desespero para a
Disney que fez com que Roy Edward Disney(1930-2009), sobrinho de Walt Disney e
filho de Roy Oliver Disney(1893-1971) começasse uma guerra para salvar a Disney
onde tivermos uma demissão na chefia
executiva da empresa e uma
mudança de nome no departamento que era de Walt Disney Feature Animation
para Walt Disney Animation Studios.
Ainda
mais que a Disney fora esses problemas internos, estava ficando atenta ao surgimento de uma nova ameaça de um concorrente de peso que vinha da DreamWorks, um estúdio de
animação que havia surgido em 1994, fundado pelo recém-egresso da Disney Jeffrey Katzenberg
junto a Steven Spielberg e David Geffen que naquele ano de 2000 surpreenderia
lançando a animação de A Fuga das Galinhas(2000), uma coprodução com o
estúdio britânico da Aardman usando de uma técnica de stop motion.
Uma
produção que contou com a codireção de Peter Lord e Nick Park que também
assinam o roteio junto com Karey Kirkpatrick que marcou o começo de uma nova
fase da indústria da animação ao apresentar uma envolvente história que gira em torno da jornada das
galinhas tentando fugir do galinheiro da perversa Senhorita Tweedy, onde lá
precisam engordarem elas para serem
mandadas para o abate e virarem comidas industriais, e contaram com a ajuda de um galo de circo que apareceu
acidentalmente ali.
Uma
interessante mensagem crítica sobre a
exploração da escravidão, ainda mais sabendo que sua inspiração foi no desumano
modelo de prisão genocida que o mundo já conheceu que foi o holocausto dos campos
de concentração praticado pelos nazistas aos judeus e outras minorias durante a
Segunda Guerra Mundial.
O
sucesso de critica e bilheteria de A Fuga das Galinhas que se tornou um
marco importante para a história da animação ocasionou na criação de uma nova
categoria para o Oscar de Melhor Animação, já que como até então não existia
essa categoria.
“O
filme também fez sucesso com a crítica e havia a esperança que a obra fosse
indicada a melhor filme no Oscar de 2001 ou ganhasse um prêmio honorário, já
que, naquele tempo, as animações só apareciam na premiação da Academia de
Cinema de Hollywood nessas duas formas. É o que acontecera com A Branca de Neve
em 1939 e Toy Story em 1996.
Contrariando
as grandes expectativas, o Oscar esnobou completamente A Fuga das Galinhas,
apesar dos enormes esforços de sua equipe de produção para ser concretizado.
O
filme levou vários anos de produção para
ser concretizado. O filme levou vários anos de produção, mais de 40 animadores
para criar cenas trabalhosas, gravadas quadro a quadro.
A
DreamWorks, distribuidora do filme, fez uma forte campanha de divulgação,
proporcionando várias entrevistas do elenco de dublagem e produtores à
imprensa, que elogiou o projeto. Apesar do sucesso comercial e do retorno
positivo da crítica, a história protagonizada por Ginger não entrou na lista de
indicados — concorreram Chocolate, O Tigre e o Dragão, Erin Brockovich, Traffic
e Gladiador — o vencedor.”
(Trecho
retirado da matéria do site da Veja de 16 de Dezembro de 2023, sobre o filme
pegando carona no lançamento da sequência
na Netflix 23 anos após o primeiro filme.)
No primeiro ano que teve essa
categoria que foi em 2002, a primeira
animação a vencer foi Shrek(2001) da Dreamworks, que marcou o
ponto de partida para um novo ciclo da indústria de animação com uso da moderna
animação em 3D.
Num
balanço geral, dá para se compreender e concluir sobre o porquê que a Disney
considera a produção de A Nova Onda do Imperador como o marco inicial
dessa obscura fase em sua centenária
história no ramo da animação como a Segunda Era Sombria, um período
também marcado pela Era da Experimentação.
Foi
nessa fase que aos poucos, a Disney foi deixando de lado o tradicional 2D e
passando a fazer em 3D. Ainda mais depois do sucesso de Shrek da
Dreamworks, onde nisso foi dando origem as outras de produções de concorrentes
como: Blue Sky, Sony Animation, Ilumination dentre outros.
**A Disney já chegou a produzir uma
adaptação animada dessa clássica obra de
Mark Twain em um curta-metragem de 24 minutos lançado em 1990 direto para o mercado de home vídeo estrelado pelo
Mickey Mouse como os sósias que se trocam, o famoso rato símbolo da empresa. Que
contou com a direção de George Scribner e roteiro adaptado por Gerrit
Graham e Sam Graham.








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