sexta-feira, 16 de outubro de 2026

QUANDO DIGIMON ESTREOU NA GLOBO

 

Na manhã desse último sábado, 10 de outubro de 2026, ocorreu o retorno de Digimon Adventure na Rede Globo para ser exibido de forma especial numa temática dedicada ao Dia das Crianças e para a edição do Criança Esperança num programa que trazia nesse único dia o retorno da TV Globinho.





O que me inspirou a comentar sobre os bastidores de como foi a estreia do anime em solo brasileiro.

Na manhã de segunda-feira, dia 3 de Julho de 2000, o anime de Digimon Adventure (Japão, 1999-2000) estreava na Rede Globo com a dura missão de salvar a audiência matinal da emissora dos Marinhos. Um marco importante para a história daquela nova fase dos animes na TV Brasileira Pós-Cavaleiros do Zodíaco*.

Para compreenderem melhor, vamos primeiro analisar por partes sobre os contextos que levaram a essa animação virar essa aposta da Globo para salvar sua audiência.

Primeiramente sobre Digimon, trata-se de uma franquia que foi originada dos jogos do Tamagotchi, ele foi desenvolvido por três pessoas: Akihiro Yokoi, Aki Maita e Takeichi Hongo mas que assinam em conjunto com o pseudônimo de Akiyoshi Hongo.

A trama de Digimon Adventure girava em torno de sete crianças que estavam passando férias de verão num acampamento, quando de repente, aparecem uns aparelhos eletrônicos do céu que as levam para o outro mundo. E nesse outro mundo eles se deparam com uns bebês monstrinhos que são seres digitais, chamados de Digimons que habitam o digimundo e será lá o ponto de partida para a jornada heroica deles enfrentando os perigos com seus companheiros digimons para enfrentar desafios maiores do que eles próprios imaginavam e esses digimons são transformados pela influência do digivice o aparelho que eles receberam quando estavam no acampamento que o trouxeram para o mundo onde habitam os digimons, seres digitais que vivem no digimundo e seus perigos contra os digimaus ao longo da jornada dos 54 episódios.




A estreia de Digimon no Japão ocorreu no dia 7 de Março de 1999, porém, um fato curioso, é que a data onde as crianças foram mandadas foi no dia 1º de Agosto de 1999, isso fica evidente no episódio que mostra a rápida volta de Tai para casa, ao perceber pela data do calendário pregado na parede que a passagem do tempo no digimundo era diferente no mundo real.

Essa data tornou-se tão simbólica entre os digifãs, que como a maioria das crianças era natural de Odaiba, o 1º de Agosto virou a data comemorativa do Memorial Odaiba Day.

Um dia antes eles chegaram a mostrar uma OVA que mostrava anos antes das setes crianças irem ao Digimundo, elas terem testemunhado uma batalha de Digimons gigantes em Odaiba.

Digimon teve a produção da Toei Animation, contou entre seus roteiristas com Akiyoshi Hongo, os mesmos criadores dos Tamagotch que originaram o anime, e teve 12 diretores responsáveis por dirigir os 54 episódios da série.

Muito da estrutura da série teve a influência, além do jogo dos monstrinhos, mas também do romance de aventura clássica do século 19 Dois Anos de Férias, obra do célebre autor francês Júlio Verne(1828-1905), também pegou inspiração numa produção sci-fi hollywoodiana Jogos de Guerra(WarGames, EUA, 1983) que é protagonizado pelo estreante Matthew Broderick, um jovem ator em começo de carreira como o jovem nerd David.

Há também muita referência a obra de H.P.Lovecraft(1890-1937) nas pegadas de terror, principalmente nas representações grotescas dos digimaus.

A chegada de Digimon representou um marco importante naquele momento para simbolizar a salvação da audiência da Globo nos horários matinais.

E a principal razão era porque, envolveu o fato de que a apresentadora “Angélica sofria muito para vencer o Bom Dia & Cia (1993-2022), do SBT, e o Eliana & Alegria (1998-2002), da Record. O programa da TV de Silvio Santos tinha os desenhos de Warner e Disney em um contrato milionário. Já a Record tinha justamente Pokémon no auge da "pokemania””.(Trecho tirado de matéria do site Notícias da TV, de 10 de Setembro de 2022).

 

Ou seja, analisando o contexto da época,  esses dois matinais infantis comandados por apresentadoras loiras como: Jackeline Petkovic no SBT e Eliana Michaelichen Bezerra na Record também chamadas pela mídia de babás eletrônicas davam trabalho para a também loira  Angélica Ksysivics na Globo  conseguir reagir nessa disputa entre o público infantil, especialmente quando a gente lembra a fase louca do vale tudo na guerra de audiência que a tv brasileira vivia no  recente fim da  década de 1990 e começo dos anos 2000.

Tanto que o Angel Mix que Angélica comandava durante o primeiro semestre do ano 2000, estava enfrentando uma série de derrotas consecutivas na audiência foi como consequência pela febre de Pokémon.

Justamente por isso que a Globo naquele momento adquiriu Digimon, que teve a árdua tarefa ingrata de salvar a audiência da Globo para enfrentar uma concorrência forte com Pokémon que gerou muitas rivalidades.

A maneira como Digimon chegou aqui no Brasil foi por meio de uma antiga empresa brasileira chamada Dá Licença de Luiz Angelotti que atualmente é conhecida como Angelotti Licensing, que conseguiu por intermédio de uma extinta empresa americana chamada de CWI, que representava no Ocidente a empresa japonesa Toei Animation, a proprietária intelectual do anime.

A Dá Licença já tinha firmado uma boa parceria com essa representante quando antes de trazer Digimon para a Globo, eles tinham trazido Dragon Ball Z para a Band em 1999.

Essa Dá Licença fez um trabalho meticuloso de marketing para trabalhar a marca Digimon no Brasil. Principalmente no licenciamento dos bonecos, revistas e tudo mais.

Antes de estrear na Globo, o anime fez sua estreia primeiro no antigo pago infantil  Fox Kids(1996-2004), como consequência de um acordo da Globo.  Por conta de questões envolvendo o intervalo de tempo de uma janela entre uma distribuição e outra.

Foi nesse contexto que Digimon estreou na  Rede Globo com essa difícil missão de salvar a emissora nesse horário, e é preciso deixar claro que  sua estreia não ocorreu na TV Globinho, como alguns digifãs equivocadamente afirmaram carregando essa memória,  mas sim num programa chamado Férias Animadas, que foi um programa provisório que a apresentadora Angélica comandava depois do fim do Angel Mix que havia encerrado numa sexta-feira, 30 de Junho de 2000 para tapar o buraco que ficaria até começar a produção de sua nova atração chamada de Bambuluá(Brasil, 2000-2001) que só veio a ocorrer apenas em 9 de  outubro de 2000, foi em Bambuluá que originou a esquete da TV Globinho, antes de virar um programa solo a partir de janeiro de 2002, quando Bambuluá chegou ao fim.




O que explica de certo modo, a ponto deles criarem essa falsa memória de que a estreia do anime foi na TV Globinho. Sendo que na verdade, a estreia do anime ocorre no período de transição desses matinais infantis comandados por Angélica.

Do mesmo jeito que Além de envolverem a afirmação de que eles se recordavam de ver a apresentadora Angélica de chapéu azul aparecendo na abertura cantado: Digimon, digitais, digimon somos os campeões.

 

Bom, na verdade, a Angélica de fato produziu a música para a abertura do anime, sendo que essa versão não foi produzida em cima da versão original feita no Japão que era a canção Butter-fly do finado Kōji Wada(1974-2016), mas da versão que a Globo adquiriu exportado dos EUA.

Ou seja, da versão americana, que contou com o dedo da Saban Productions, produtora de Power Rangers, já que os responsáveis por compor a música dessa versão anime nos EUA foram os produtores executivos de Power Rangers, os israelenses Haim Saban e Shuky Levy.

  Cujo primeiro refrão que é Digimon, Digitais, Digimon somos campeões, não é cantado pela Angélica, mas sim pela voz masculina do dublador Romeu D´Angelo que em Digimon dublou alguns digimons, como o Monzaemon que é um urso gigante.

Ela só começa mesmo a cantar a partir do refrão: “Eles vão se transformar
Para o seu mundo salvar....”

 

De fato, foi produzido um videoclipe da Angélica usando um chapéu azul aparecendo num fundo de chroma-key com o desenho, mas não era a abertura.

Na verdade, esse videoclipe era veiculado durante a janela que o programa Férias Animadas exibia entre o final do bloco com o desenho que antecedia a Digimon para começar mesmo a sua exibição.

Era uma forma deles conseguirem segurar os telespectadores mirins para atraírem para a exibição de Digimon para servir como um esquenta, preparando o terreno até a atração começar de fato.

 

Quando iniciava o desenho mesmo, era mostrado a abertura, mas sem a presença da Angélica.

 

Isso ocorria porque a Globo espertamente encaixou Digimon no horário das 11:00 Horas para poder concorrer diretamente com Pokémon e num horário que transitava entre o final do matinal infantil para o começo dos programas vespertinos que começava com as linhas jornalísticas e dava continuidade com os programas de entretenimento.  

 

Umas das razões para essa outra falsa memória que os digifãs brasileiros criaram em Digimon se deve ao fato de que nesse videoclipe da Angélica, o fundo mostrando o desenho com ela aparecendo de chapéu azul cantando e dançado era da abertura o que ocasionou nessa outra confusão com relação a estreia do anime no Brasil. Comenta-se que foi pensado em lançar um CD com trilha nacional de Digimon foi pensada mas nunca se concretizou.

 

 

Um fato curioso sobre o anime está no fato de que sua dublagem produzida no extinto estúdio da Herbert Richers(1950-2010), que na época o extinto programa Vídeo Show(1983-2019) chegou a mostrar uma matéria com eles juntos.  




Uma curiosidade interessante sobre essa dublagem do anime “apesar de ser feita com base na versão japonesa, também sofreu muita influência de outras fontes, tanto por pedidos da Bandai, em decorrência de internacionalização da marca, quanto da própria Rede Globo, que exibiu o anime no Brasil e querendo competir com o sucesso que Pokémon fazia na altura, também fez suas interferências na marca, que afetaram o processo de dublagem em consequência.

Primeiramente, os nomes de vários personagens foram localizados no ocidente como um todo (e não apenas no Brasil) em razão de uma internacionalização da marca, como "Tai Kamiya" no lugar de "Taichi Yagami".

Já especificamente no Brasil, o tratamento dado às músicas da série sofreu divergências para com outros lugares onde as dublagens feitas também se basearam no áudio original japonês. O encerramento não recebeu uma dublagem, e a abertura foi substituída por uma versão estendida do DigiRap norte-americano; esta tendo sido iniciativa da própria Rede Globo para promover a (na época) apresentadora infantil Angélica, e a marca Digimon no país de forma registrada. A abertura japonesa era exibida na Fox Kids antes de sua estreia na Globo - sendo substituída pelo DigiRap logo após, mas mantida especificamente em algumas exibições posteriores do episódio 2.

À parte destas peculiaridades citadas, a dublagem brasileira foi fiel à versão japonesa, sendo produzida a partir dela, contendo praticamente toda a trilha sonora composta no Japão e nenhum corte de qualquer cena.”

(FONTE: DUBLAPÉDIA).

Sua dublagem foi dirigida pela finada Ângela Bonatti(1939-2025) que também dublava alguns personagens esporádicos na série,  cujo seu elenco contou entre os principais com Caio César de Melo(1988-2015) que dublou o TK, o mais novo do grupo e ele junto a Indiane Christiane que dublava a Kari eram as únicas crianças que dublavam os protagonistas, os digiescolhidos, já que boa parte dos digiescolhidos eram dublados por gente grande como: Luiz Sérgio Vieira como Tai, Paulo Vignolo como Matt, Priscilla Amorim como Sora, Erika Menezes como Mimi, Rodrigo Antas como Izzy e Hermes Barolli como Joe.

Indiane hoje em dia já não atua mais na dublagem, e Caio César morreu de forma tragicamente covarde em 30 de setembro de 2015, quando estava prestando serviço policial no Complexo do Alemão no Rio de Janeiro onde foi atingido pelo pescoço com uma troca de tiros com bandidos aos 27 anos.

 Já sobre Hermes Barolli, ele já era uma voz bem conhecida do grande público por quem curtia Cavaleiros do Zodíaco onde dublava a voz do Seyia. Fato curioso é que na época que ele dublou ele esse personagem, ele estava residindo no Rio de Janeiro. Ele nasceu no berço de uma família que trabalhava na dublagem. Filho dos dubladores Gilberto Barolli e Zodja Pereira e irmão das dubladoras Leticia Quinto e Luciana Barolli.

Aliás, outro nome do elenco principal da dublagem de Digimon, que também carrega a dublagem no sangue é Fernanda Baronne, que dublava a Palmon e suas digievoluções da digiescolhida Mimi, ela quando assinava com outro nome Fernanda Fernandes é filha da Marlene Costa e irmã da Flávia Saddy.

Do mesmo modo é com relação a Robson Richers, que dublou o Gabumon e as digievoluções do Matt que tem parentesco com o dono do estúdio, ele é sobrinho do finado Herbert Richers(1923-2009), ou seja, a pessoa física que deu nome a empresa que já foi uma importante produtora de cinema. A empresa que é representada como a pessoa jurídica.  Essa empresa fechou suas portas pouco tempo após o falecimento do dono.

Ele só dublou o Gabumon e suas digievoluções somente na primeira temporada, na segunda temporada foi substituído por Marcos Souza. Atualmente Robson Richers já não atua mais na dublagem.

Outro nome do elenco principal da dublagem de Digimon que carrega um parentesco na dublagem é Carol Kapfer que dublou a Tailmon, Digimon da Kari ela é filha dos dubladores Mario Jorge de Andrade e Monica Rossi. Já quando ela digievolui para Angewomon sua voz é dublada por Gilza Mello.

Dos digimons principais dos digiescolhidos, essa Digimon da Kari foi a única exceção com voz mudada ao digievoluir, visto que grande parte como a exemplo dos já citados Fernanda Baronne e Robson Richers que ao dubladores as digievoluções dos seus respectivos digiescolhidos sofriam nas cenas de transformação onde do falsete agudo mais infantil que era característico da forma fofinha dele, quando mudavam para a forma agigantada precisavam trabalhar no grave rouco.

É o caso de Manolo Rey que se encarregou de dublar a voz do Agumon e suas digievoluções que era do líder Tai, Mabel Cezar que dublou a voz do Pyomon e suas digievoluções que era da Sora, Clécio Souto que dublou o Tentomon e suas digievoluções que era do Izzy, Thiago Fagundes que dublou o Gomamon e suas digievouluções que era do Joe e Miriam Ficher que dublou o Patamon e suas digievlouções que era do TK.

Até o momento dessa publicação grande parte do elenco da dublagem brasileira de Digimon feita na Herbert Richers em 2000 já são falecidos como a exemplo dos já citados Caio César e Angela Bonatti.

Dentre esses falecidos estão: Domicio Costa(1928-2016) que fez a voz do Myotismon, Ednaldo Lucena(1937-2020),que fez a voz do Myotismon e Venonmyotismon, Paulo Flores(1944-2000) que dublou o Vegiemon e o  Piedmon, um dos quatro Mestres das Trevas, José Luiz Barbeito(1962-2018) que dublou o Picodevimon, Luiz Brandão (1930-2007) que dublou o Digitamamon, Henrique Ogalla(1944-2020) que dublou o Pumpkimon, Adalmária Mesquita(1950-2020) fez a voz da Lady Devimon e Orlando Drummond(1919-2021) que fez a voz do Gennai, o mentor dos digiescolhidos que aparece a partir do décimo episódio.

Também some-se ao nome de Ricardo Vooght(1954-2026) que dublou a voz de dois digimons: Andromon e Centarumon, da Iara Riça(1965-2021) como Elecmon e Carlos Marques(1933-2021) que dublou o Sussumu Kamiya, pai do Tai e da Kari.

Aliás, no núcleo dos pais dos digiescolhidos, é curioso observar que há uns que não tiveram vozes fixas, tanto que eram repetidos. Exemplos: A finada diretora Ângela Bonatti que também dublou alguns digimons, também consta creditada a ser a voz de três mães dos digiescolhidos e em cada uma se alternou com outras dubladoras, ou seja, ela foi mãe do Tai e da Kari onde dublou a Yuko Kamiyia se alternando com Silvia Salustti, também foi a mãe do Izzy onde dublou a Kae Mizumi onde dividiu com a também finada Christiane Louise(1971-2021), foi mãe do Matt e do TK onde dublou a mãe deles se dividindo com Izabela Bicalho   e foi a mãe da Sora dublando a Toshiko Takenouchi onde dividiu com Marly Ribeiro.

Enfim, posso concluir sobre o porquê de Digimon figurar entre os animes mais memoráveis já assistidos nos anos 2000, e justamente por isso foi que em gratidão a Digimon a Globo o incluiu entre os seus desenhos exibidos.

 

 

*A razão para o autor escolher a referência a Cavaleiros do Zodíaco como esse ponto de partida, se deve no quesito comercial no licenciamento de brinquedos e outros produtos. É claro que já houve exibições de outros animes antes de Cavaleiros do Zodíaco como: Astro Boy, A Princesa e o Cavaleiro, Don Drácula, Saber Rider, As Aventuras de Peter Pan da Tatsunoko, Doraemon dentre outros. Que quando foram exibidos não carregavam a nomenclatura de anime. Algo que só ocorreu quando a revista Herói, que veio como consequência de CDZ passou o meio de informação disso na era pré-internet passou a usar com frequência essa nomenclatura.

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