segunda-feira, 2 de setembro de 2024

30 ANOS DE VR TROOPERS

 


 

 No dia 03 de Setembro de 1994, estreava nos Estados Unidos a série VR TROOPERS(EUA, 1994-1996).

Trata-se de uma adaptação americana da Saban Entertainment de três  séries japonesas do gênero tokusatsu, que compõe a franquia metal hero. 




Ambas da década de 1980 que originalmente já tinham sido exibidas no Brasil como Guerreiro Dimensional Spielvan(Jikuu Senshi Spielban, Japão, 1986-1987) e Metalder-O Homem Máquina(Chōjinki Metarudā, Japão, 1987-1988).

Com a inserção na segunda temporada do Policial do Espaço Shaider('Uchū Keiji Shaidā', Japão, 1984-1985).




A ideia da produtora de fazer essa adaptação aconteceu como consequência do sucesso de Mighty Morphin  Power Rangers(EUA,1993-Atual) uma adaptação da série japonesa super sentai Kyōryū Sentai Zyuranger(Japão, 1992-1993). Uma realização de um antigo desejo de exportar tokusatsu para o Ocidente, através dessas adaptações.





Já que lá pelo final dos anos 1970, Stan Lee(1922-2018) criador do Universo Marvel  cedeu o Homem-Aranha para ser adaptado pela Toei numa série tokusatsu, lançada em 1978, como forma de atrair o mercado asiático,  com características bem típicas dos japoneses que envolviam o Homem-Aranha encarar monstros que se agigantavam e chamar um robô gigante Leopardon para enfrenta-los.

Isso passou a  ser colocado  na franquia Super Sentai, série dos super  esquadrões criadas por Shotaro Ishinomori(1938-1998), o cabeça da franquia Kamen Rider,   a partir de 1975 com Himitsu Sentai Gorenger(1975-1977).

 E que a partir da terceira série da franquia que foi Battle Fever J (1979-1980), que contou com a participação direta do próprio Stan Lee é que foi inserido o Robô Gigante que permanece até hoje.

Foi  Lee quem tentou trazer para o Ocidente bem antes do empresário israelense, nascido no Egito, Haim Saban vim a adaptar Super Sentai para Power Rangers para o Ocidente  no começo dos anos 1990.

Como bem foi  mostrado no episódio da terceira ou quarta temporada da série documental da Netflix,   Brinquedos Que Marcaram Época(The Toys That Made Us, EUA, 2017-2019).

Ao entrevistarem a produtora de TV Margareth Loesch, responsável por produzir grandes desenhos com a Marvel Productions,  que foi com quem Lee mostrou o material da série Taiyou Sentai Sun Vulcan (Japão, 1981-1982) e quando ela apresentou o material  editado aos executivos de muitas  emissoras, a maioria detestou, achou a produção de qualidade questionável, brega, com efeitos especiais capengas enfim.

Isso fez Lee terminar desistindo do projeto, anos depois em 1984, Saban que na época já estava envolvido  no ramo do entretenimento  sendo   responsável por  produzir jingles de séries animadas famosas, como a de He-Man, Inspetor Bugiganga entre outros desenhos  famosos dos anos 1980.

Tinha feito uma viagem ao Japão e ao assistir na TV do seu quarto de hotel, havia ficado impressionado  ao se deparar  com a então série super sentai em exibição na TV Asahi que foi Choudenshi Bioman(Japão,1984-1985), série que antecedeu ao famoso Esquadrão Relâmpago Changeman(Degenki Sentai Changeman, Japão, 1985-1986), que passou aqui no Brasil entre o final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, sendo distribuído pela  Everest Vídeo. E que em 2020 passou na Band durante a quarentena da Pandemia do Covid-19.

Ao se deparar com essa série, Saban teve a ideia de tentar adapta-la para Power Rangers antes de Zyurangers. Chegou a fazer um esboço, escalou o elenco, gravou um piloto não indo para frente até finalmente ver  o seu sonho ser concretizado em 1993 com Mighty Morphins Power Rangers.

Depois que viu Power Rangers bombar, Saban e seu então sócio, o israelense Shuki Levy resolveram alçar outros voos,  desta vez adaptando outra franquia japonesa de tokusatsu que foi a Metal Hero.

Depois que dei uma revisitada na série isso por volta de 2020 enquanto ainda estava disponível na Netflix, acompanhando  todos os 50 episódios da primeira temporada que esses eu já tinha visto e revisto  bastante quando eu era criança,  na época que passava nas manhãs da  Rede Globo na antiga grade infantil da TV Colosso(1993-1997) hoje ocupada por programa de variedades lá pelos idos de 1995/1996,  e os 40 episódios da segunda temporada onde que essa eu não acompanhei antes, porque ela teve uma passagem muito obscura aqui no Brasil.

Pude constatar com outros olhos, as razões do porquê de  ao contrário de Power Rangers ter conseguido vingar como adaptação de Super Sentai ao Ocidente e virar uma grande marca,  o mesmo não se pode dizer em relação a VR Troopers como outra tentativa de adaptação de outra franquia  de tokusatsu para o Ocidente.

O enredo da série girava em torno de Ryan Steele(Brad Hawkins), um jovem atleta faixa preta no karaté da Escola de Artes Marciais Tao Dojo, administrada por Tao Chong(Richard Rabago), é lá que ele também se torna o instrutor da academia junto de seus inseparáveis amigos JB Reese(Michael Bacon) e Kaitilin Star(Sara Brown) que é jornalista do importante jornal de maior circulação da cidade fictícia  de CrossWorld: o  Daily Voice Underground.

Nesse jornal, ela trabalha com Woody Stoker( Michael Sorich) seu excêntrico editor-chefe e o Percival “Percy” Rooney III(Aaron Pruner) um sujeito completamente esnobe, egocêntrico  por ser sobrinho do Prefeito de CroosWorld  e com um comportamento bastante   pitoresco, que em qualquer situação se acha bom, mas que no fundo não  passava de um sujeito patético, vivia espirrando por ser alérgico a qualquer coisa,  com um ar bastante dissimulado de ficar no pé da Kaitilin ao deixar seu evidente ar de inveja com ela, pelas boas matérias que ela escrevia para o jornal. 

Um dia Ryan e seus amigos, recebem uma mensagem eletrônica misteriosa no computador do Tao Dojo, que foi do Professor Horátio Hart(Julian Combs) para irem até o laboratório dele e lá, descobrem que ele um programa de computador foi quem os recrutou para uma grande batalha do mundo  virtual movida por um ser maligno chamado Grimlord que é o alter ego do ganancioso e prepotente empresário Karl Ziktor(Gardner Baldwin) dono das Industrias Ziktor, que ao pegar a mão numa bola de cristal e diz: “Poder da escuridão venha a mim, leve me de volta a realidade virtual”.

Onde se transforma no horroroso,  asqueroso, nojento e crápula do  Grimlord-Mestre do Mundo Virtual, onde tem entre seus asseclas General Ivar e General Icebot, que a cada episódio com um plano mirabolante envia sempre um mutante ou mesmo mechanoide para dominar o mundo real e o virtual e sempre envia seus soldados skugs para enfrentar os Troopers e na segunda temporada teve o incremento em outro cenário do Oraclon, Doomaster, Despera  e os Skugs mudam de forma com as cinco guerreiras aumentando ainda mais a ameaça.

É a partir daí que terá início a jornada dos Troopers para combater as forças do mal, e especialmente Ryan terá motivos  pessoais para isso, já que ele descobre logo no primeiro episódio que seu pai, o cientista Tyler Steele(David Carr), que havia sumido da vida dele desde quando  era criança e foi quem desenvolveu o programa virtual junto com o Professor Hart da Realidade Virtual e ao longo dos episódio  descobre que ele foi  sequestrado por Grimlord.

Uma das razões que posso argumentar, que me fez observar depois dessa revisitada na série após muitos anos que havia visto na infância pela TV Globo lá pela segunda metade da década de 1990, é  no quanto pude constatar como ela ao contrário de Power Rangers que conseguiu vingar ao adaptar os tokusatsu da franquia super sentai originais  japoneses para o público do Ocidente  e se estabelecer como uma grande marca mundial, VR Troopers no caso não conseguiu obter  esse feito com relação a adaptar a franquia Metal Hero para o Ocidente.

 E um dos principais problemas que posso destacar, está no fato de que a Saban teve uma ideia duvidosa de não respeitar como um dos principais  pontos característicos que envolvia a essência  dessa franquia é que nelas, os heróis enfrentavam as ameaças dos diabólicos impérios malignos sejam vindos do espaço ou mesmo do subterrâneo, como seres solitários. E não em equipe, como acabou acontecendo em relação a VR Troopers.

Originalmente, a Saban tinha pensado em fazer apenas uma adaptação de Metalder, onde até gravou um episódio piloto, onde a proposta da estética se mostrava bem diferente do tom que foi tomado na série.

Nesse episódio piloto, cujo nome original era Cybertron, que  depois  da Saban verificar que o registro do nome já  era da propriedade intelectual da Hasbro, fabricante da linha  de brinquedos Transformers, que não por acaso comprou em 2019 da Saban a franquia dos Power Rangers.

Nesse episódio piloto, onde o protagonista se chamava Adam Steele  e foi interpretado primeiramente por Jason David Frank(1973-2022), o Tommy Oliver-Ranger Verde de Power Rangers, mostrou preservando algumas características que foram mantidas na série, como ele encarando um  torneio de artes marciais, onde ele é instruído pelo Tao, enfrenta um adversário interpretado por Brad Hawkins que acabou ficando  com o seu papel com o nome alterado para Ryan Steele.

 O curioso é  que o Tao passaria a figurar como seu mentor e sabia do segredo de Grimlord, que também foi mantido a característica dele ser um alter ego humano como era em Metalder e seus asseclas,  e como em Metalder, eles também mantiveram a figura do cachorro falante que na série virou o Jeb. Companheiro de Ryan desde que ele era uma criança e ele um  filhote.

Praticamente seria uma versão solitária dele e que também existia na contraparte japonesa.  O episódio piloto não carregava abordagem envolvendo Realidade Virtual que era de onde vinha os seus poderes e onde vinha a ameaça do Grimlord que na contraparte japonesa de Metalder  era inspirado no Imperador Neroz, como acabou resultando depois, o que provavelmente deve explicar o porquê da ideia de juntá-lo a Spielvan já que achando que um herói solitário poderia não ser muito rentável, principalmente para atrair o marketing do licenciamento dos brinquedos como ocorria a Power Rangers e para aproveitar a onda moderna do desenvolvimento tecnológico da Realidade Virtual que ainda estava longe de virar uma realidade como agora.

 Ainda mais se a gente for lembrar que ainda vivíamos na fase pré-midia digital, trazia uma estética futurista.

Com as modificações, resultou de  Jason Frank desistir da série e retornar a Power Rangers reprisando o papel do Tommy agora assumindo o posto de Ranger Branco inspirado em Kiba Ranger na contraparte japonesa de Gosei Sentai Dairanger(Japão,1993-1994) inserido na segunda temporada de Power Rangers. E Brad Hawkins acabou assumindo o protagonismo da série.

A ideia duvidosa da Saban de adaptar  duas diferentes séries de  tokusatsu japonesas, três com o enxerto de Policial do Espaço Shaider(Uchuu Kenji Shaider, Japão, 1984-1985) a partir da segunda temporada, as mesclando, unindo, cuja características são de heróis solitários para formarem uma equipe trouxe uma grande estranheza ao público.

Principalmente para nós brasileiros, que havíamos acompanhado as versões originais que passariam por aqui nos anos 1990 em diferentes emissoras: Spielvan passou na Rede Manchete, Metalder passou na Band e Shaider passou na Globo.

 E  esta estranheza ao revisita-la pude constatar pela forma como ficou  estruturada e remendada sua estética, onde por exemplo, como a ideia inicial era só adaptar Metalder, todo o ponto central da trama girava em torno de Ryan Steele, que quando se transformava na primeira temporada virava a armadura de Metalder.

 Isso ficava evidente ao longo dos 90 episódios que a série contou em suas duas temporadas,    quando a cada episódio nós telespectadores erámos lembrados disso, onde ao iniciar o enredo  vinha a introdução de Ryan fazendo uma narrativa em off lembrando de sua infância treinando Karatê com seu pai em um templo japonês com suas mensagens motivacionais que seu pai ensinou  para nos inserir a situação da ameaça provocada por Grimlord invocando o monstro do dia, para botar em prática seu plano mirabolante de dominar a humanidade no mundo real e os  Troopers tentarem impedir e ao terminar o episódio mostra Ryan retornando aquele lugar de sua infância com a narrativa em off provando como a ótica da série centrava  em torno dele narrando na   primeira pessoa. 

Ou seja, Ryan dos três protagonistas era o fio condutor da narrativa.

Isso porque tudo foi ali  consequência do resultado da pesquisa de realidade virtual desenvolvida por  seu  pai Tyler muitos anos atrás, que ele até então  achava que  estava morto, mas, na verdade havia sido capturado e mantido refém pelo Grimlord.

E o Professor Hart sabia disso, porque muitos anos antes dele virar uma máquina, vivendo numa tela  de computador, ele ajudou seu pai na pesquisa quando ainda era ser humano e que só no episódio em que os Troopers vão atrás de uma caixa que mostrava a real identidade de Grimlord  é que soubemos quando  ele virou máquina,  quando foi morto por Grimlord, onde Tyler transferiu sua consciência cerebral e o transformou numa inteligência artificial.

Por Ryan ser o ponto central do mote da série, era notável que seus dois companheiros  Troopers, o J.B Resse e a Kaitilin Star ficavam deslocados, desfocados da obra,  mesmo dividindo o protagonismo com o Ryan.

Mais parecendo figurarem como se fossem os  sidekicks de Ryan, o equivalente a se Ryan fosse o Batman, J.B. seria o Robin e Kaitilin seria a Batgirl.

Fora que do mesmo jeito  como ocorria em Power Rangers em seus primeiros anos, a Saban para compensar a carência de recursos, inseriu materiais já prontos das séries japonesas, como  bem o próprio   Haim Saban descreveu no episódio da série  documental Brinquedos que Marcaram Época.

No caso de Power Rangers ele inseriu muito nas cenas de batalhas deles transformados e com os mechas com os monstros agigantados.

Em relação a Power Rangers, não se percebia tanto destoamento da qualidade  de imagem das películas originais japonesas remendadas  porque como a primeira série super sentai  Zyuranger era uma produção recente de 1992, e Power Rangers veio em 1993 e logo depois em 1994 fora inserido os mechas e os monstros de Dairanger e com Tommy retornando como o Ranger Branco inspirado no Kiba Ranger com sua adaga falante, a estranheza não era muito perceptível, já  com relação a essa adaptação de três  séries da franquia metal hero que não tinham nada em comum, a não ser por serem da década de 1980, já deixavam evidente como a qualidade envelhecida  das  imagens  das películas japonesas, principalmente nas cenas de batalhas na Pedreira em Yorii, próximo a Provincia de Saitama onde costumava servir de locação para as produções da Toei Company.

Já mostrava uma forte estranheza nessa colcha de retalhos que a Saban fazia. Confesso que em alguns momentos me deu uma vergonha alheia, ver por exemplo nessas cenas a inserção de diálogos que não precisaria necessariamente ter. Principalmente porque como eu já tinha visto originalmente Spielvan quando passou originalmente na extinta Rede Manchete no começo dos anos  1990, isto lá para 1991, com o nome de Jaspion 2, uma sugestão da então distribuidora Everest Vídeo,   uma das três adaptadas por VR Troopers, não acompanhei Metalder que tinha passado na Band na mesma época de Spielvan, lembro vagamente de ver a série super sentai Gigantes Guerreiros Google Five(Dai Sentai Google Five, Japão, 1982-1983).

 E lembro vagamente de ter visto uns dois episódios de Shaider quando passou originalmente na Rede Globo de forma bem obscura. Como eu ainda tinha Spielvan fresco na memória achava muito estranho observar como ele tinha pouco destaque na série, representado pelo J.B e a Kaitilin.

Só aparecer alguns mechanoides, o General Deslock virar Ivar e Dr. Bio virar Icebot e os Soldados Crown virarem Skugs(que parecia soar com Skank, nome da famosa banda de rock-reggae brasileira), que quando se tocavam provocavam choque e sumiam, confesso que até achava divertido apesar da estranheza.

Se para nós brasileiros que já havíamos acompanhados as versões originais japonesas  escolhidas para serem adaptadas pela Saban, já achamos estranho os remendos da série, imagine o público americano que não tinha visto antes estas séries originais que nunca tinham passado em solo americano.  Fora que o modelo do design das armaduras feitas para serem gravadas na série destoava muito das versões japonesas que eram inseridas nas cenas de batalha.

Como o capacete de J.B. parecer um objeto oval, a armadura da Katilin explorou muito exageradamente os  tons  anatômicos dos seus  seios e da sua bunda para tentar dar um toque  mais a sexy personagem  a ponto dela parecer um tanto gordinha e as armaduras de Ryan também destoavam demais das versões de Metalder e Shaider, e  o que falar do Grimlard vestido de forma carnavalesca quando muda de localização no mundo virtual.

Pelo menos o trio protagonista mostrou ter dado bem conta do recado nos papeis que lhe couberam representar, principalmente pelo carisma mostrado  em cena. Defendendo bem em cena. 

Brad Hawkins na pele do Ryan Steele mostrou muita segurança no papel, mesmo  com a pouco idade que tinha na época com apenas 18 anos,  ao desempenhar o personagem que era todo o ponto central da série, em todas as suas camadas e nuances.

Desde a mais dramática dele lidando com o drama de ter crescido ausente de seu pai que foi capturado por Grimlord, e a série não mostrou nada  sobre sua mãe, mas se deduz que ela morreu quando ele era um bebê,  ou seja, um órfão, uma característica que foi    bem trabalhada dentro da fórmula campbeliana da Jornada do Herói, até mesmo a mais cômica quando ele perde a paciência com o seu cachorro Jeb fazendo umas trapalhadas.

Michael Bacon ou Michael Hollander como aparece registrado o seu nome no site do IMDB, mas que na série assinava com este codinome representando o J.B. Reese,  na época com apenas 27 anos, sendo nove mais velho que Brad Hawkins também demonstrou uma boa defesa do seu papel que dividia o protagonismo com o Ryan, mesmo ele tecnicamente figurando como um deslocado da história, já que o ponto central da obra era sempre o Ryan.

Ou seja, ficava muito a sombra dele, mesmo assim o ator conseguiu defender o seu papel ao dar uns toques nerds entendendo de informática  ao personagem sem fazer ele parecer um estereotipo abobalhado e infatiloide e o representou bem como um companheiro inseparável do Ryan como se fosse uma espécie de irmão que ele nunca teve, serviu bem  para essa função.

E Sara Brown na pele da Kaitilin Star, também mostrou uma ótima defesa do papel, mesmo na época estando com apenas 19 anos e mantinha uma relação amorosa com um dos produtores da série Shuki Levy.

Com quem até casou e tiveram um filho. Mesmo a personagem sofrendo do mesmo problema do J.B. de ficar bastante deslocada e desfocada da trama central que girava em torno do Ryan.

Porém, a atriz mostrou um bom  desempenho em dar uma outra  função não só  como companheira Trooper do Ryan, mas também como jornalista do importante jornal em circulação de CrossWorld, o Daily Voice UnderGround. Com um perfil de intrépida repórter equivalente a Lois Lane nas histórias do Superman.

A maneira como a sua profissão foi  retratada na série representou bem um detalhe do quanto que a estética da obra  ficou bastante datada. Principalmente pela forma como o jornal Daily Voice Underground, ainda trabalhava como mídia impressa, naquele período onde o  recurso da internet como instrumento de uso comum  estava  ainda engatinhado, não eram todas as residências que tinham os acessos fáceis e ela era uso mais restrito a poucas residências.

Fora que por exemplo, tanto nas cenas do Jornal Daily Voice Underground, quanto no Tao Dojo e no Laboratório do Professor Hart é bem perceptível ser mostrado  eles mexendo  com os modelos de computadores de telas quadradas com tubo polegadas, que hoje em dia ficaram bastante obsoletos e foi bem na época do surgimento do famoso modelo  Windows 95, fora o uso de pagers para se comunicarem numa época em que os celulares ainda eram em formato de  telhas.

E arquivando em disquetes.  E como a internet ainda engatinhando, é até perdoável o fato de que o Jornal onde Kaitilin trabalhou na série ainda não tenha aderido a formação da mídia digital criando uma página do site e usado o método tradicional como mídia física. Deixando bem evidente como a série ficou datada.

E fora algumas vestimentas muito bregas.

Além desse trio protagonista, também merece destaque de minha parte as participações secundárias  de Michael Sorich como Woody Stocker e Aaron Pruner como Percy Rooney. Os dois alívios cômicos da série que trabalham no jornal Daily Voice Underground de Crossworld.

É bem compreensível que a Saban criou essa dupla cômica para equivaler ao que estava dando certo em Power Rangers com a dupla Bulk e Skull que roubavam as cenas quando implicavam com os rangers na escola de Alameda dos Anjos fazendo bullying com aquele jeito de vestir bem rebelde  grunge.

Algo que no papel parecia uma maravilha, na execução falhou miseravelmente.  Principalmente o Percy que era chato demais, eu já não simpatizava muito com este personagem  desagradável  pra cacete,  na época que eu acompanhava a série na Globo lá pela década de 1990, e continuei não gostando do Percy depois dessa minha  revisitada  nela na Netflix.

Aaron Pruner que representou o personagem então com apenas 18 anos de idade na época, até que desempenhou  razoavelmente bem  o personagem no humor mais físico, bem caracteristicamente circense,  porém o texto não o ajudou muito nos diálogos bastantes patéticos onde ele falava coisas muito afetadas com aquele perfil egocêntrico dele, que saia sem muito timming  mostrando como o humor dele era  bastante sem função e deslocado da trama. A maneira afetada dele agir muito abobalhado e patético, fazia ele ficar no típico estereotipo de nerd com óculos e com vestir de forma elegante.

O nível da chatice do quanto  Percy para mim era bastante irritante e desagradável, pode ser comparável ao Scooby-Loo a versão mirim do Scooby-Doo ou mesmo  como aconteceu posteriormente com o Jar Jar Binks em Star Wars-Episódio 1: A Ameaça Fantasma(Star Wars: Episode I – The Phantom Menace,EUA,1999).

Um fato curioso, é que no episódio piloto de Cybertron, Percy aparece como filho do vilão, mas como tudo foi alterado e virou Frankstein, pode bem notar que o Percy acabou ficando muito jogado na história.

Tirando uns poucos episódios em que ele mostra ter alguma utilidade que é quando ele convenientemente foi exposto ao perigo de ser mantido refém pelos Skrugs  e nisso ele é salvo pelos heróis que envolveu o conceito da fada da conveniência dentro da inércia da roteiro, de resto, ele não tem utilidade nenhuma.

 Já Michael Sorich como Woody não sofreu tanto desse problema mesmo ele sendo um editor-chefe excêntrico, pelo menos ele sabia trabalhar o timming cômico do personagem, e sabia o momento certo dele agir de forma mais séria, principalmente quando queria convencer a Kaitilin a escrever matérias que ela não gostava, coisa que faltou demais no Percy.

 

A série também contou em seu elenco com Julian Combs como o Professor Hart, que representou bem o seu papel na série  procurando colocar um tom mais humanizado e emotivo ao personagem mesmo ele sendo uma inteligência artificial preso numa tela de computador.

  Que teve sua vida  eternizada do seu  antigo cérebro humano depois que perdeu a vida ao ser assassinado pelo Grimlord, e isto graças a Tyler Steele de quem no passado quando era humano ainda colaborou em suas pesquisas para o desenvolvimento da realidade virtual.

Outras menções  do elenco vai para David Carr fazendo participações pontuais como o Tyler Steele, pai do protagonista, que desempenhou bem o papel, apesar de eu achar o seu rosto muito sem expressão e um tanto apático. Pareceu demonstrar uma emoção muito fria.

Também mencionar  e destacar as participações de dois atores desse elenco que já não se encontram mais vivos nesse plano físico que são: Gardner Baldwin(1951-2011) como Karl Ziktor/Grimlord e Richard Rabago(1943-2012) como Tao.

Gardner Baldwin ficou incrível  como o antagonista Karl Ziktor/Grimlord na série, ele que faleceu em 2011 aos 60 anos esteve excelente na série.

 Principalmente na forma como ele representando o prepotente e crápula do empresário Karl Ziktor, dono das Industrias Ziktor em CroosWorld. Sua magnifica  representação e entrega ao papel principalmente na maneira ameaçadora e intimidadora  de olhar, e soltando umas constantes risadas secas e diabólicas, mostravam o nível da megalomania sem limites que ele tinha, fora a sua excentricidade exótica dele ter como bichinho de estimação uma iguana que ele batizou de Juliette.  E mesmo quando vira o asqueroso Grimlord onde apenas faz um papel brilhante emprestando a voz.

Já Richard Rabago, que representou o Tao na série, que faleceu em 2012, com 69 anos. Nascido no Havaí, de descendência nipônica, do mesmo jeito que seu personagem na série, Rabago sempre foi praticante das artes marciais, mostrando inclusive uma ótima verossimilhança ao papel.

Ele defendeu bem o papel de instrutor dos Troopers, sem perceber que eram os Troopers.

Visto que como originalmente o personagem tinha sido pensado para ser o mentor de Ryan Steele quando a série estava planejada apenas para ser uma adaptação de Metalder, para não ser  desperdiçado, já que a mentoria acabou ficando com o Professor Hart,  o colocaram bem nesta função de instruir os Troopers com as artes marciais.

Confesso em um balanço geral, que ao revisitar esta série depois de muitos anos, constatar com outros olhos que assim até que achei divertido mesmo ficando ruim e estranhando demais o tipo da estética e rindo de nervoso de momentos constrangedores.

Só lamento não terem mantido o áudio com o casting  das vozes dubladas pelo antigo estúdio de dublagem do Rio de Janeiro, a  Herbert Richers que foi exibida  na saudosa manhãs da Rede Globo,  nessa versão dublada que foi  exibida pela Netflix, a dublagem foi produzida no outro estúdio de dublagem   também do Rio de Janeiro como a Herbert Richers, que no caso aqui foi na Gemini Mídia, onde todas as vozes foram alteradas. Desde os heróis até mesmo os aliados e vilões da trama. Uma pena.

Enfim, posso simplesmente descrever que revisitar VR Troopers pela Netflix  me proporcionou um momento nostálgico bastante vergonhoso.

Pude constatar que ao observar pelo nível brega da obra como ela envelheceu mal.

domingo, 1 de setembro de 2024

30 ANOS DE CAVALEIROS DO ZODÍACO NO BRASIL

 

No dia 01 de Setembro de 1994, estreava no Brasil, o  anime que foi o grande fenômeno da tv brasileira Cavaleiros do Zodíaco(Saint Seyia, Japão, 1986-1987).


     Em um dia de Outubro de 2021, eu havia acabado de concluir minha revisitada a fase clássica da animação de Cavaleiros do Zodíaco produzida nos anos 1980 na Netflix.





Exibida na extinta Manchete nos anos 1990. Confesso que foi muito bom revisitar a série. Pude perceber com outros olhos, o que eu nunca tinha percebido antes. Algo que ia além de ser uma produção voltada com o único proposito  para vender brinquedos para crianças como eu ou outros produtos, ou seja, muito além do apego material, isso é algo que acontece também com muita frequência neste tipo de produção, não só no Japão, como também nos EUA.




Tipo,  por exemplo, nos anos 1980, mesma época da produção de Cavaleiros do Zodíaco no Japão, nos EUA estava muito em alta produções de animações voltadas para a TV que tinham esse único objetivo de vender brinquedos, ainda mais que muitas dessas produções  surgiram inspirado  nas  linhas de brinquedos como foi o caso do He-Man, Comandos em Ação, Transformers, Tartarugas Ninjas e mais especificamente no Japão com as séries de tokusatsu que passaram no Brasil, como Jaspion, Changeman, Flashman, Jirayia dentre outros.   

 Principalmente sobre as sutis mensagens espirituais, principalmente no quesito de reencarnação como ocorreu com Saori Kido ser a reencarnação da Deusa Grega Atena, algo que eu aprendi muito quando passei a me ingressar na doutrina espírita,   ou mesmo sobre o conceito de cosmo energia do espaço, do universo e suas outras dimensões físicas.




Nunca tinha reparado como CDZ, tinha esse texto tão além de claro abordar os mitos gregos que foi o que me despertou o interesse  e suas várias  constelações, fora também o fato de trazer uma curiosa abordagem sobre o budismo com os poderes do Cavaleiro de Ouro  Shaka de Virgem, e o misticismo simbolizado nas armaduras de ouro com os doze signos zodiacais.




Analisando bem, pude perceber, quando Cavaleiros estreou aqui no Brasil pela extinta Rede Manchete em 1994, me remetendo aos famosos videntes da TV    que  foi uma data  destinada¹ para isso acontecer. Uma das razões para enfatizar o meu argumento,  é que na época o Brasil estava vivendo uma fase muito  otimista e eufórica  porque no futebol  tínhamos conquistado o título do Tetracampeonato na Copa do Mundo dos EUA após longos 24 anos de jejum e foi nessa ocasião que o nosso cenário socioeconômico também transpareceu favorável  quando foi implementado o Plano Real.





Aproveito para recomendar a  vocês  darem uma assistida ao filme brasileiro Real-O Plano por trás da História(Brasil, 2017) que ele pode exemplificar em forma de dramatização como foram os bastidores do surgimento da moeda.




Pois bem, foi esse Plano Real que ajudou a salvar nossa economia que ela se encontrava afundado desde os anos 1980.

A animação foi inspirada no mangá de Masami Kurumada que  começou a publicar no final de 1985 e cujo sucesso inspirou a Toei Animation a fazer a animação que estreou na TV Japonesa em 11 de Outubro de 1986.




Seria impensável imaginar a animação chegando ao Brasil antes de 1994, e fosse o fenômeno que se tornou comercialmente falando nas vendas de brinquedos justamente pelo fato de que do jeito que nosso cenário econômico se encontrava  um caos  com a inflação em alta entre o final dos anos 1980 e começo dos anos 1990.

É tanto que a nossa indústria de brinquedos fazia umas picaretagens para conseguir importar linhas de bonecos como as dos Live Actions como Jaspion, por exemplo.




Não tinha como a animação estrear no Brasil entre os anos de  1988/89, porque além da inflação alta, estávamos passando também por um período de reformulação política, onde apesar da Ditadura Militar ter acabado no ano que eu nasci, 1985, quando o último presidente militar João Batista Figueiredo(1918-1999), ao concluir seu mandato foi sucedido por José Sarney, um primeiro civil que tomou a posse no lugar de Tancredo Neves, o último eleito indiretamente, mas acabou adoecendo e morreu.





Mesmo durante o começo da segunda metade da década de 1980 a gente ser governado por um civil, ainda assim havia alguns resquícios da ditadura vivos como a censura aos meios de comunicação, que foi extinguido quando  em 1988 foi aprovada a Constituição. E em 1989 tivemos a primeira eleição presidenciável onde elegemos Fernando Collor.






Do mesmo modo que não havia como CDZ estrear no Brasil entre os anos de 1990/91/92, porque durante este período  do Governo Collor a inflação além de estar descontrolada, piorou com os Planos Collor I e II,  quando ele mandou confiscar as poupanças de todos os cidadãos.




Portanto, no cenário propício que a economia do Brasil se encontrava em 1994 aquilo influenciou bastante para que a animação pudesse estrear na grade de programação da extinta Rede Manchete no dia 01 de Setembro de 1994.

É curioso imaginar que antes de Manchete aceitar exibir CDZ, outras emissoras foram procuradas pela empresa espanhola Samtoy, a distribuidora que trouxe CDZ para cá, todas haviam se recusado a exibir temendo pelo  teor violento, principalmente no aspecto gráfico com toques de  nível gore².





Inclusive Eduardo Miranda, crítico de cinema, que tem um canal no Youtube, chamado Projeto Cinevisão, que trabalhava no Departamento de Cinema e TV  da Manchete chegou a contar em mais de uma ocasião  que quando participou da reunião com a Samtoy e a diretoria executiva da emissora e mostraram para eles o material com a fita demo³ de um trailer promo**** que mostrava cortes e edições  de cenas muito pesadas, com a violência muito gráfica. Naquele primeiro instante, a diretoria se recusou a exibir, por causa do espanto com aquele tom pesado.




Os executivos da Samtoy haviam ficado bastante tristes por essa recusa, já que tinham ido atrás de outras emissoras depois de verem essa promo, todas haviam recusado.

 Foi então que Miranda  resolveu dar uma nova chance, conferiu os primeiros episódios e depois de constatar que ele não era de violência, trazia uma história que prezava pela amizade. Foi então que a Manchete decidiu dar um ok e CDZ, pode ser finalmente  exibido na grade da emissora, por um contrato de permuta. Onde a emissora dava uma liberdade deles usarem o espaço para anunciar os produtos de brinquedos da série fabricados diretamente pela fabricante  japonesa Bandai.




Essa forma de troca era a opção mais viável dela  poder aceitar exibir, já que não podia comprar, porque na época ela já se encontrava a beira da falência, e depois do falecimento do dono Adolpho Bloch em 1995, a coisa só piorou para a Manchete ao chegar no fim da década de 1990, ao derradeiramente fechar suas portas em Maio de 1999.




O curioso é que quando a Samtoy trouxe a animação para o Brasil, ela não  trouxe diretamente exportado do Japão, mas sim da Espanha, que foi de lá que eles alteraram o nome original Saint Seyia, para Los Caballeros Dell Zodíaco, que nos brinquedos mantinham até esse nome,  do mesmo jeito que havia feito antes os franceses, o primeiro lugar do Ocidente onde CDZ foi exportado.




Provavelmente para evitar problemas justamente  com a Igreja Católica, principalmente porque o nome original  Saint Seyia pudesse remeter a Santa Ceia. 

E foi exportado da Espanha, com áudio espanhol, mas com roteiro adaptado do inglês que a primeira dublagem de CDZ exibida pela Manchete foi produzido pelo antigo estúdio de dublagem paulista da Gota Mágica,  de propriedade do Mário Lúcio de Freitas que também foi responsável por produzir a trilha sonora da série no Brasil, com a música de abertura cantada pela dupla infantil  Larissa&William,  inclusive a Larissa, agora em carreira solo que assina como Larissa Tassi,  junto com a gravadora Sony Music produziram em CD.

A trilha musical  brasileira de CDZ, onde além de contar com a música da dupla, também contava  com a participação do próprio Mário Lúcio de Freitas, também compositor de boa parte das faixas, que teve também a participação de Michael Sullivan como compositor,  interpretando a faixa  Mestre do Mal, que contou com a participação do dublador Walter Breda, representando com sua voz grave  e amedrontadora o Ares ameaçando matar os Defensores de Atena.

 Do mesmo  modo que o disco  também contou com a participação do Hermes Barolli, dublador do Seyia na faixa Marin, interpretada pela Sara Regina, onde ele apenas reproduz a famosa fala do seu personagem o Me dê sua força Pegasus, que na época eu até cheguei a adquirir junto com alguns brinquedos da linha CDZ que fui ganhando.

Inclusive, aproveito para compartilhar  a agradável experiência que  posteriormente eu tive quando assisti a uma apresentação da  Larissa depois que cresceu e virou um mulherão,  sem o William,   agora em carreira solo  assinando como Larissa Tassi,  eu  tive o privilégio de prestigiar o show que ela fez aqui em Natal-RN durante o evento do Yujô Fest em 2018.

  Foi uma grande nostalgia apreciar o antigo traço da animação que contou com a colaboração do saudoso designer characters  Shingo Araki(1939-2011) dentre outros animadores  que também colaboraram na série. Assim como foi ouvindo a trilha sonora erudita composta pelo também saudoso Seiji Yokoyama(1935-2017).

 E saudoso também foi apreciar algumas vozes da versão dublada que já partiram como Valter Santos(1954-2013) dublador do Camus de Aquário, Araken Saldanha(1928-2020) voz do Mestre Ancião, Maralisi Tartatini(1944-2014), voz da Shina, Paulo Celestino Filho(1957-2017), voz do Máscara da Morte, Borges de Barros(1920-2007) voz  do Gigars e  Jonas Mello(1937-2020) como narrador.

Detalhe que a versão dublada exibida na Netflix que o disponibilizou  até o dia 14 de Outubro de 2021 foi a feita pelo estúdio paulista da Álamo***** por volta dos  anos 2000, para o retorno de CDZ a TV Brasileira.

E não a versão dublada originalmente exibida pela Manchete nos anos 1990. Uma das razões para haver essa redublagem, foi porque a Samtoy, a antiga empresa que trouxe para o Brasil, havia encerrado suas atividades no País.

 Quando CDZ  retornou ao ar no Brasil  por volta de 2003, no canal pago infantil da Cartoon Network brasileira compondo o bloco Toonami foi outra empresa que distribuiu e como consequência dos trâmites burocráticos que envolviam renegociações de contratos com os profissionais da dublagem envolvidos  nessa produção  nos acordos de direitos conexos, além do que como material do áudio dublado exibido pela   Manchete nos anos 1990, trazia muitos  erros de inverossimilhança pelo fato de justamente ter sido feito   em cima de outros idiomas. Veio adaptado do espanhol, que foi adaptado do francês que adaptou o original em japonês e fora que o roteiro veio adaptado em inglês.

Tudo isso  gerou erros de muitas concordâncias nas falas dos personagens, como Jabu de Unicórnio, se apresentar de Capricórnio em um episódio, ou mesmo o Saga fazer uma confusão  de Street Fighter se referindo a cosmo energia de Seyia como Ken, enfim.

Por esses fatores, a série passou pela redublagem feita pelo estúdio paulista da Álamo por volta de 2003/2004.

Boa parte do elenco principal protagonista foi mantido nessa nova dublagem: Hermes Barolli como Seiya de Pégaso, Élcio Sodré como Shryriu de Dragão, Francisco Brêtas como Hyoga de Cisne, Ulisses Bezerra como Shun de Andrômeda e Leonardo Camillo como Ikki de Fênix de quem tive o privilégio de conhecer pessoalmente e tirar uma foto quando em 2018 ele esteve aqui em Natal-RN no evento da Lúdus Convenção Geek, pessoa muito gentil. Do mesmo jeito foi  como mantiveram  a Leticia Quinto que fez a voz da Saori Kido, a  reencarnação da Deusa Atena.

E também os que dublaram mais de um personagem como Gilberto Barolli que dublou o cavaleiro de ouro  Saga de Gêmeos, o General Marina de Poseidon Kanon de Dragão Marinho, Marcelo Campos que dublou o Jabu de Unicórnio e  Mú de Aries, Wendell Bezerra que dublou o Guerreiro Deus Fenrir de Alioth na Saga de Asgard  e o General Marina Baian de Cavalo Marinho na Saga de Poseidon dentre outros exemplos.  

Onde algumas vozes tiveram de serem trocadas: uns  por motivos   de falecimentos, como foi o caso de Ézio Ramos(1936-1999), que dublou a voz do cavaleiro de ouro Afrodite de Peixes na dublagem feita nos anos 1990 e na redublagem da Álamo precisou ser substituído   e do Nelson Batista(1936-1998) que fez a voz do General Marina  Io de Schylla na dublagem dos anos 1990, e que nessa redublagem foi substituído por Mauro Eduardo.

Outros casos foram  por  afastamentos, como foi o  exemplo de Noeli Santisteban que fez a voz da Tetis de Sereia na dublagem dos anos 1990, e como já não residia mais aqui no Brasil, precisou ser substituída na redublagem da Álamo por Denise Reis    ou mesmo por questões trabalhistas envolvendo as rixas entre dubladores com estúdios, como foi o caso de Flávio Dias, que dublou Julian Solo/Poseidon na dublagem dos anos 1990 e que por ser brigado com a Álamo, não aceitou participar dessa nova dublagem, onde ele foi substituído por Alfredo Rollo.

 Na época, muitos grupos de fóruns sobre dublagem na internet, como as das comunidades do extinto Orkut,  criticaram bastante sobre essas mudanças e meteram o cacete sobre a questão de dublador ter rixa com o estúdio.

Esquece-se que ali como em qualquer meio de trabalho é natural ocorrer essas desavenças contratuais  entre as empresas aqui no caso  representados pelos estúdios com funcionários, no caso dubladores.

Enfim valeu a pena revisitar a fase clássica após ter assistido a nova versão da Netflix, que devo confessar que estranhei muito. Confesso que prefiro mais a versão antiga.

 E ao revistar,  olhando agora com um olhar mais crítico depois de adulto.

 Pude perceber como a nostalgia pode nos enganar a respeito de algo marcante da nossa infância que tendemos a endeusar achando que na nossa época era melhor, quando a gente revisita a obra  anos depois, observarmos com um senso mais crítico o que antes costumamos ignorar e passar desapercebido alguns erros como o fato de que na animação clássica exibida pela Manchete,  a história mostrava-se arrastada ao longo dos 114 episódios.

 Ainda mais com um monte de fillers(enchimentos) de personagens que foram criados  especificamente para a animação enquanto que o Kurumada não concluía a saga no mangá.

Fora a ideia de criar a Saga de Asgard justamente para dar tempo de Kurumada conseguir concluir a saga de Poseidon no mangá. E quando ele estava para criar a Saga de Hades no mangá por volta de 1989, ele entrou em atrito com a Toei, com a Sueisha, editora responsável pelas publicações e distribuições  dos mangás de CDZ no Japão e a Bandai, fabricante dos brinquedos sobre os rumos para a série, que isto ocasionou dele encerrar por ali e precisou esperar uns treze anos para conseguir transpor a Saga de Hades para a animação, o que só foi possível em 2002. Aliás, eu também conferi a Saga de Hades na Netflix, onde pude finalmente compreender algumas situações que a série clássica deixou muitos buracos e que preencheu muito bem.

Como o fato de explicar, por exemplo, por  que o cavaleiro de ouro Dhoko de Libra, que muitos conhecem como Mestre Ancião, o mentor do Shiryu de Dragão, cujo corpo real não era daquele simpático senhor anão, mas uma camada para esconder sua real aparência jovial com um bom proposito. Ou mesmo esclarecer que a Seika, a irmã do Seyia de Pégaso que no começo da história mostra o seu desejo de encontrá-la desde que foram separados do orfanatos para ir treina para virar um cavaleiro, mas que depois ele vai esquecendo e só volta a mencionar na Saga de Poseidon, quando o General Marinha Kasa de Salamandra tenta enganar Seyia com o disfarce da Marin, fazendo ele pensar que ela fosse sua irmã.  

Talvez uma das coisas que mais me  fascina em CDZ é o fato da história carregar muitos elementos que remetam a formula campbeliana da Jornada do Herói.

Como o fato dos cinco defensores de Atena serem jovens órfãos, que foram destinados para tal função ao serem selecionados por um rico japonês chamado de Mitsumasa Kido, o avô adotivo da Saori Kido.

Um elemento bastante batido muito usado na cultura pop, basta a gente lembrar do Tarzan, do Batman, do Jaspion,  do Luke Skywalker na saga de Star Wars dentre outros exemplos.

Que trazem um pouco do caráter mítico que envolve a trama, como o fato da Saori Kido ser a reencarnação da Deusa Atena, e dos cinco que a compõe, dois carregam o manto de cosmoenergia inspirado em figuras folclóricas da mitologia grega como o Seyia com o ser alado Pegaso, Shun com a Andromeda uma mulher que foi acorrentada como castigo divino, Ikki com a Fênix.

Já o Shyriu sendo de Dragão remete mais as lendas folclóricas chinesas e japonesas e Hyoga sendo de Cisne que é um animal que simboliza bem a típica cultura russa, principalmente por ele  ter nascido na Sibéria. Onde inclusive existe uma famosa opera teatral criada pelo maestro russo Piotr Ilitch Tchaikovski(1840-1893) intitulado de O Lago dos Cisnes, que simboliza bem essa característica da ave na cultura russa. Onde inclusive podemos notar uma referência a obra de Tchaikovski na batalha de Hyoga contra o Cisne Negro, a sua versão maligna algo como ocorre na opera de O Lago dos Cisnes.

Nas próprias  narrativas mitológicas gregas que Kurumada se inspirou para criar CDZ, muitos heróis eram órfãos, o que bem inspirou a teoria do estudioso americano Joseph Campbell(1904-1987) a criar o livro que estuda isso intitulado de O Herói de Mil Faces.

Um dos maiores legados  que CDZ trouxe para o Brasil, é que foi a partir dele que passamos a categorizar dentro de uma caixinha,  as animações japonesas como animes.

Isso graças a influência da revista Herói que era o único meio de acesso as informações que tínhamos naquela fase pré-midia digital. Se bem que os japoneses costumam nomear  animes tanto as produções deles quanto as vindas do Ocidente.

É bom deixar claro que CDZ não foi o primeiro anime a ser exibido na TV brasileira, antes dele tivemos em outros canais animes como: Speed Racer, Astro Boy, A Princesa e o Cavaleiro, Phantomas, Zillion, Doraemon dentre outros.

Mas como CDZ ficou marcado pelo sucesso não só de audiência, mas também no aspecto comercial da venda de brinquedos, de certo modo dá para entender o nível da importância.

O modo como CDZ chegou ao Brasil nos anos 1990 pela Rede Manchete é algo que hoje em dia seria improvável de acontecer novamente, muito disso por conta da Resolução 163 da  Lei de Publicidade Infantil aprovada em 2014  que tornou inviável a qualquer programa infantil  se sustentar sem os anúncios de brinquedos.

¹O que o autor quis se referir com relação a essa colocação em tom de piada  é porque durante os meados dos anos 1990, quando CDZ estava no ar e era um fenômeno comercial. Coincidentemente aqui no Brasil também estava em alta o modismo místico  do horóscopo sendo exibido na TV. Ainda mais se a gente for lembrar  que na animação  entre os Cavaleiros de Ouro eles eram simbolizados pelos 12 signos zodiacais.  Para isto, basta lembrarmos das propagandas que apareciam constantemente na TV dos serviços telefônicos como do Instituto Omar Cardoso, de videntes como Walter Mercado(1932-2019) enfim. Justamente os serviços telefônicos de 0900, que ajudou a popularizar aquele momento. Era algo comum naquela época em que sequer imaginávamos hoje poder ter um serviço como a Amazon, por exemplo. Por si só já era visto como moderno, para isto basta lembrarmos dos informeciais do antigo Grupo Imagem que apareciam nos comerciais das TVs abertas, que eram um saco de ver. Foi também por essa época que surgiu o Shoptime, um canal de televendas dos antigos canais Globosat das antenas parabólicas. Esse tipo de fenômeno acabou inspirando a canção 1406, do excêntrico conjunto musical Mamonas Assassinas que abre a faixa do único CD da banda lançado em 1995, cuja numeração do título era referente ao digito telefônico do Grupo Imagem em tom de sátira onde aparece uma menção aos produtos como as Facas Ginsu    e a parodia do Casseta & Planeta Urgente! com as Organizações Tabajara.  Era o conceito mais moderno de  serviço comercial  que tínhamos naquela fase pré-mídia digital, onde o acesso  à internet  ainda era um retrato utópico algo parecido com o que, por exemplo,  a então novela das oito da Rede Globo Explode Coração(Brasil, 1995-1996) da  autora Glória Perez nos apresentava,  onde a maneira como a internet foi inserida no mote da história envolvendo  o primeiro encontro virtual do casal protagonista que eram de mundos diferentes, no caso da cigana Dara (Tereza Seiblitz) com o empresário Júlio Falcão(Edson Celulari).  A geração que nasceu depois dos anos 2000, acostumada com Amazon, sequer imaginava como era o estilo de vida  pré-internet que o autor vivenciou.

²Palavra inglesa para descrever sangue.

³A palavra é uma abreviação para demonstração, não tem nada de demoníaco.  

****Abreviação da palavra promoção, de promocional.

*****Fundada em 1972, pelo técnico de som britânico Michael Stoll(1927-2005), egresso da Companhia Som de Vera Cruz e sediada na cidade de São Paulo-SP. Esse estúdio foi uma grande referência na dublagem brasileira, principalmente para o nicho de produções nipônicas. O estúdio encerrou suas operações em Agosto de 2011.