segunda-feira, 29 de dezembro de 2025

30 ANOS DO CINEMA DA RETOMADA

 

Em 2025, o cinema nacional celebra seus 30 anos que entrava em um movimento chamado de Cinema da Retomada.

Para entender o que significou esse movimento, vou explicar seus antecedentes.

O ponto de partida para compreender o que foi esse movimento da retomada e o que ele significou para o  cinema nacional, ocorreu quando em 1990, foi empossado Fernando Collor de Mello, o primeiro Presidente da República do Brasil eleito democraticamente em 1989, naquela fase de Redemocratização da política brasileira Pós-Ditadura Militar.

Ele obteve uma vitória acirrada num segundo turno contra o líder sindical, ex-torneiro mecânico  e fundador do Partido dos Trabalhadores(PT), Luiz Inácio Lula da Silva, que enfrentava pela primeira vez uma campanha para o cargo de Chefe de Estado da Nação*, e sendo nosso atual Presidente da República.

Com seu lindo rosto jovial, que atraiu o eleitorado feminino, medindo 1,85 cm de altura, dono de uma voz de barítono  que bem defini o perfil de sua oratória onde conseguiu persuadir com um eloquente discurso a  convencer de que era um sujeito progressista, um tipo até então  obscuro da política brasileira, cuja política já vinha do seu histórico familiar.

Nascido no berço  de dois  influentes clãs  oligárquicos da  política do Estado de Alagoas,  seu avô materno “Lindolfo Collor (1890-1942), era descendente dos primeiros colonos   chegados ao Brasil, em 1824. Foi eleito deputado federal pelo Rio Grande do Sul  nos anos de 1923 e 1927, tornando-se um dos líderes da  Revolução e sendo nomeado por Getúlio Vargas(1882-1954) o primeiro titular do Ministério do Trabalho, Indústria e Comércio, do qual se afastou em 1932 ao romper com o presidente, tendo participado da  Revolução Constitucionalista daquele ano. Bisneto do jornalista Luís Bartolomeu de Souza e Silva(1862-1932),  criador da revista O Tico-Tico”. Além do fato dele ser filho de Arnon Afonso Farias de Melo(1911-1983), influente nome da política alagoana  que já foi “deputado federal em 1950 e governador de  Alagoas de 1951 a 1956. Após deixar o governo do estado, foi eleito  senador por três mandatos consecutivos (1962, 1970 e 1978). Em 1963, no prédio do Senado Federal, Arnon de Melo matou seu colega José Kairala(1924-1963)  quando tentava disparar à queima roupa em  Silvestre Péricles de Góis Monteiro(1896-1972), que supostamente também estava armado. Arnon de Melo não foi jamais formalmente acusado pelo homicídio.” (Fonte: Wikpedia).

Usando do slogan de Caçador de Marajás, querendo adotar uma política de privatização para dar fim a empresas estatais que eram vistas como grandes Elefantes Brancos.

O que atraiu a camada dos empresários, que passaram a serem grandes apoiadores de sua campanha, que depositavam nele uma esperança de  salvação para o setor econômico brasileiro que vivia aquela alta fase da inflação.

       Quando ele tomou posse, a primeira medida que tomou foi confiscar a poupança dos brasileiros, adotou uns planos econômicos que só aumentaram o problema da inflação e prejudicou  a produção do cinema nacional mandando fechar a Embrafilmes. E mandando retirar  os  incentivos fiscais pelo governo.  

 

Foi o começo de uma fase nebulosa do cinema nacional, que ocasionou na mudança de carreira do cineasta Arnaldo Jabor(1940-2022) para o jornalismo e foi   por essa época ainda foram lançados alguns filmes já produzidos e  estrelados por populares artistas da tv, que tinham forte apelo com a camada infato-juvenil, ainda conseguiam atrair uma boa bilheteria.

Dentre esses estava a   trupe dos Trapalhões formada por: Renato Aragão (Didi), Manfred Sant´Ana (Dedé), Antônio Carlos Bernardes Gomes vulgo Mussum(1941-1994) e Mauro Faccio Gonçalves vulgo Zacarias(1934-1990) que faziam sucesso na TV desde os anos 1970  e os apresentadores de programas de auditório infantil Xuxa Meneghel e Sérgio Mallandro.

Os Trapalhões lançaram três filmes no começo dos anos 1990, que foram:  Uma Escola Atrapalhada(Brasil, 1990), dirigido por Del Rangel(1955-2019) que marcou o último a contar com a participação de Zacarias que faleceu no dia 18 de Março de 1990, vítima de uma insuficiência respiratória aos 56 anos. Ele já estava enfrentando problemas de saúde quando sentindo-se “acima do peso e resolveu por conta própria iniciar um regime macrobiótico à base de frutas e saladas, com o auxílio de remédios. Ele acabou perdendo vinte quilos, porém como consequência, seu organismo enfraqueceu, chegando a atingir seus pulmões e lhe deixando com anemia. Sua magreza e palidez repentina chamaram a atenção dos fãs e da mídia, chegando a saírem matérias nos jornais declarando que o ator havia contraído o vírus da AIDS, doença em voga na época. Tais boatos teriam abalado o psicológico do trapalhão, que estava preocupado com a reação dos fãs, principalmente as crianças, em relação a tal mentira. Por conta disso, Mauro isolou-se em sua casa, passando a não atender ligações ou receber visitas.

Devido a sua fraqueza e estado de saúde delicado, Mauro foi impedido pelos médicos de retornar para as gravações do programa, iniciadas em janeiro de 1990. Ele precisou se afastar dos Trapalhões e não chegou a gravar cenas para o quadro Trapa Hotel, onde interpretaria um maítre. Teve forças para atuar em seu último filme, Uma Escola Atrapalhada, onde o quarteto fez somente uma participação e onde sua magreza já estava em evidência.” (Fonte:Wikipédia).

Depois disso, vieram os dois últimos filmes estrelados pelo grupo  agora apenas como trio formado por Didi, Dedé e Mussum que foram: O Mistério de Robin Hood(Brasil, 1990) e Os Trapalhões e a Árvore da Juventude(Brasil, 1991), ambos dirigidos por José Alvarenga Júnior e que depois disso, não foi mais produzido nenhum filme dos Trapalhões, já que o grupo chegaria ao fim após o falecimento de Mussum em 1994 vítima de uma insuficiência cardíaca aos 53 anos.

Com o fim da trupe, Renato Aragão só voltaria a produzir filmes já na fase do Cinema da Retomada com o filme O Noviço Rebelde(Brasil, 1997), dirigido por Tizuka Yamazaki que marcou o primeiro de uma série de filmes solos dele estrelando o seu famoso personagem, cujo nome completo é: Didi Mocó Sonrisal Colesterol Novalgino Muffumbo, muito pitoresco.

Foi também nesse período que foi lançado Lua de Cristal(Brasil, 1990) filme estrelado pela apresentadora infantil  Xuxa Meneghel** e com direção de Tizuka Yamazaki, que já era figura presente nos filmes dos Trapalhões, uma versão brasileira moderna de um clássico conto de fadas da Cinderela, que contou com Sérgio Mallandro como seu Principe Encantado.

O mesmo Sérgio Mallandro também estrelou duas produções lançadas nessa época que foram: Sonho de Verão  e Inspetor Faustão e o Mallandro.

Em Sonho de Verão(Brasil, 1990) obra que contou com a direção de Paulo Sérgio de Almeida(1945-2025) tinha uma história que girava em torno de Léo, vivido pelo Mallandro, um sujeito desengonçado e muito imperativo que passa a viver na mansão de uma rica família que foi viajar aos Estados Unidos, onde ele mente para a governanta Sófia(Fafy Siqueira) dizendo que era sobrinho dos proprietários, mas que na verdade não tinha parentesco algum, era um tremendo  pilantra, um picareta   e chama para convidar um grupo de jovens para fazer  zoeira na mansão.

Esse filme ficou um tanto obscuro na história do cinema brasileiro só sendo  redescoberto tempos depois, por conta do filme sul-coreano Parasita(Gisaechung, Coreia do Sul, 2019), obra de Bong Jong-Hoo, cujo mote do roteiro tem uma estrutura que lembra muito o que foi trabalhado em Sonho de Verão.

Essa obra que contou no seu elenco com as participações  das Paquitas e dos Paquitos, os famosos assistentes de palco dos programas de Xuxa Menghell, e da ex-paquita Andréa Veiga como a Jam, par romântico do Léo e com participação do popular apresentador Fausto Silva. Esse mesmo com quem Mallandro protagonizaria o filme vergonhoso da história do cinema brasileiro que foi lançado no ano seguinte.

Já em Inspetor Faustão e o Mallandro(Brasil, 1991) protagonizado por Fausto Silva, famoso apresentador que na época comandava o Domingão do Faustão(1989-2021) na Globo, numa produção que contou com muitos dedos da Globo, foi produzida pela Xuxa Produções produtora da Xuxa Meneghel, teve seu roteiro escrito por Nelson Nadotti com argumento de Fausto Silva e direção de Mário Márcio Bandarra(1955-2021) que naquele momento já era um renomado diretor em produções da Globo.

Só de saber  que foi Faustão o responsável pelo argumento do texto, você já pode esperar uma qualidade minimamente questionável desse tipo de história. Um dedo podre no meio.

E que de fato se mostrou, o filme apresenta uma história  muito sem lógica de tão cretina que se apresenta: a começar pelo fato  de apresentar Faustão fazendo ele mesmo, mostrando que não tem o menor talento para ator.

Fazendo um feirante que pela intervenção divina de Deus que foi representado por Paulo César Pereio(1940-2024) fazendo  apenas a locução, sendo que curiosamente o ator era ateu e já esteve envolvido na polemica de mandar destruir  a estátua do Cristo Redentor no Rio de Janeiro.

Faustão  é nomeado inspetor de polícia, para salvar os animais de contrabandistas comandados por Budum(Chiquinho Brandão) que tem como cliente um turista americano chamado Tom Crù(Claudio Mamberti).

Nessa sua jornada para caçar os contrabandista dos animais,  ele conhece o policial Mallandro, representado pelo próprio Sérgio Mallandro, filho do seu chefe superior Superintendente(Costinha), um sujeito de perfil bem desagradável, ainda mais por agir muito hiperativo.

Principalmente para lhe fazer companhia e a partir daí  tem se início sua jornada de confusões, que só aumentaram com a presença inconveniente  de seu sobrinho Faustinho(Caique Benigno).

A primeira vez que eu assisti a esse filme quando menino foi assistindo numa fita  VHS que meu pai havia locado e tenho que confessar que eu até achava engraçado, ainda que sem muito senso crítico, já que naturalmente criança não tem discernimento para isso.

Ao revisitar décadas depois sendo exibido no Youtube, pude perceber como a obra envelheceu mal justamente pelo roteiro se mostrar nonsense a nível pastelão, medíocre. Há momentos no texto  que mostram eles fazendo umas piadas de cunho erótico implícito que soa muito brega, ainda mais que eles queriam destinar ao público infanto-juvenil.

E como tudo foi feito as presas, você nota uma qualidade questionável da produção especialmente no som e na imagem.

Nas cenas que mostra Faustão em seu apartamento com seus dois cachorros com os nomes pitorescos de Inflação que é grande  e Salário Mínimo que é pequeno  onde você bem pode notar como a obra ficou datada já que ele estava cutucando o cenário econômico  do Brasil da Era Collor. 

Se Faustão como ator peca no filme, imagine Sergio Mallandro que o tempo todo  faz aquele maneirismo de humor físico característico nos programas infantis que apresentava com aquele jeito risível de vergonha alheia a nível infantilóide que além de  soar desagradável, fica irritante.

Fora que o elenco apesar de contar com participações de grandes estrelas globais como as atrizes: Luiza Tomé fazendo a namorada de Faustão, Claudia Alencar como a noiva de Mallandro, Paolla Bettega como uma comparsa do vilão Budum e Adriana Esteves numa participação especial.

Essas atrizes  talentosas e de belezas atraentes sofrem para representar o nível canastrão do texto desse filme.

Fora o desperdício que o filme faz do talento de feras  do calibre de Claudio Mamberti(1940-2001) que coitado sofre para fazer  uma representação  do  turista americano Tom Crú, cuja interpretação  beira ao caricato empostando a voz para fazer  o sotaque gringo que ele  tenta reproduzir. E a participação do  Costinha(1923-1995) então nem se fala,  é desperdiçado numa única cena em que faz o papel do pai do Mallandro.

Além disso, nem as participações de talentos da música brasileira  como: Sandra de Sá, Sidney Magal, Patrícia Marx, Silvinho Blau Blau   ou mesmo do saudoso Wando(1945-2012) fazendo suas performances cantando como se tivesse gravando para videoclipes conseguem segurar o interesse do público  pela obra.

Fora a participação do garoto Caique Benigno, fazendo o Faustinho, sobrinho do Faustão. Que se mostra um moleque serelepe  de um nível de chateação mais inconveniente que do Mallandro. Posteriormente esse menino se tornaria um dos protagonistas do programa infantil do SBT Disney Club(1997-2001) como o Macarrão/Macaco. Atualmente desenvolve o trabalho de DJ.

Vale também mencionar a participação de Chiquinho Brandão que representou na obra  o vilão Budum, um traficante de animais que passa o filme inteiro arrotando, chegando a nível patético.

Sobre esse ator um fato triste a comentar é que   na mesma data que a obra foi lançada Chiquinho Brandão  morreu num acidente automobilístico ocorrido na Lagoa Rodrigo de Freitas, quando estava retornando de mais um dia de gravação da minissérie da Rede Globo O Sorriso do Lagarto(Brasil, 1991), no dia 04 de Junho de 1991, o ator estava com 39 anos.

Esses são só alguns exemplos, porque também houve outras pouco conhecidas produções nacionais lançadas nessa época que não chegaram a serem lançadas comercialmente como: A Rota do Brilho(Brasil, 1990) do diretor Deni Cavalcanti, O Corpo de José Antônio Garcia(1955-2005), Perfume de Gardênia (Brasil, 1992) de Guilherme Almeida Prado, Alma Corsária (Brasil, 1993) de Carlos Reichembach(1945-2012), e Lamarca(Brasil, 1994) de Sérgio Rezende, inspirado na vida do guerrilheiro Carlos Lamarca(1937-1971).

Como se pode ver,  a situação em que a produção cinematográfica brasileira no começo dos anos 1990 foi das mais nebulosas, mas teve uma luz no fim do túnel que ocorreu quando o irmão do então presidente Collor, o empresário Pedro Collor(1952-1994) veio a público aparecendo na capa da revista semanal Veja, publicada em Maio de 1992, com a manchete Pedro Collor Conta Tudo para denunciar todos os esquemas corruptos onde ele estava envolvido, junto com seu tesoureiro Paulo César Farias(1945-1996).

Inicialmente ninguém acreditava de que aquilo fosse verdade, visto seu histórico com problemas de saúde mental, o chamaram de louco. Mas depois que se investigou e se descobriu que era tudo verdade, a mesma camada dos empresários que os apoiaram na Campanha de 1989, resolveram se articularem para lhe derrubar e moveram as camadas populares com os jovens cara-pintadas que resultou no seu processo de Impeachment.

Após Collor ser impedido de continuar seu mandato pela decisão dos parlamentares, e quem assumiu seu lugar foi o vice Itamar Franco(1930-2011). Dois anos após denunciar o irmão, Pedro Collor faleceria em dezembro de 1994  de câncer com melanoma maligno da pele com metástase no cérebro, o que agravou o problema delicado de sua saúde mental.

Pior mesmo foi o desfecho do ex-tesoureiro Paulo César Farias que  foi misteriosamente assassinado em 23 de Junho de 1996, acompanhado de sua então namorada Suzana Marcolino. Um crime que até hoje gera muita polêmica, e que nem mesmo os autores de romances policiais imaginariam que isso pudesse acontecer.

Foi no curto mandato de Itamar Franco que o Brasil começou a se reorganizar economicamente e a produção cultural de cinema se beneficiou bastante disso.

Isso porque após o Impeachment de Collor foram implementadas  medidas que promoveram a retomada do cinema no país. A criação de leis de incentivo, como a Lei Rouanet (1991) e a Lei do Audiovisual (1993), possibilitou a captação de recursos por meio de renúncia fiscal, estimulando o investimento privado em projetos culturais. Além disso, o Prêmio Resgate do Cinema Brasileiro, realizado entre 1993 e 1994, financiou a conclusão de diversas obras, dando início ao renascimento da produção cinematográfica”.

Algo que foi concretizado no primeiro mandato do  governo de outro Fernando, no caso, o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, que surgiu na pasta de Ministro da Fazenda no Governo Itamar Franco, ajudou a implantar a moeda do Plano Real em Julho de 1994 que ajudou a estabilizar o cenário econômico do Brasil como mostrado no filme Real-O Plano Por Trás da História(Brasil, 2017) dirigido por Rodrigo Bittencourt. E aproveitando o momento onde a Seleção Brasileira de Futebol estava fazendo uma boa campanha pela conquista do Tetracampeonato na Copa do Mundo realizada nos Estados Unidos.

Isso se tornou um ponto  favorável para que no mesmo ano de 1994, ele  vencesse no primeiro turno a Campanha Presidencial, derrotando o líder sindical Lula que disputava pela segunda vez ficando em segundo lugar.

Foi portanto,  nesse contexto que a partir de 1995,o cinema nacional voltou com tudo e deu início a esse ciclo que justamente por isso,  esse período é rotulado de Cinema da Retomada.

 

 

 

FILMES DESSA FASE QUE RECOMENDO ASSISTIREM:

Selecionei algum dos filmes que são essenciais para se conhecer essa fase  da Retomada do Cinema Nacional. Essa lista não é rankeada, mostrando do melhor ao pior, não.  São apenas  recomendações que seguem a linha cronológica do período estabelecido que  foram lançados esses filmes brasileiros  entre 1995 a 2002. Que para quem ainda não teve a oportunidade de assistir, procurar assistir, conhecer e apreciar as estéticas de cada um.

 

CARLOTA JOAQUINA-A PRINCESA DO BRASIL(1995)



Começo mencionando com Carlota Joaquina-A Princesa do Brasil que é o ponto de partida essencial para se conhecer esse período do cinema da retomada. Contando com a direção da ex-atriz Carla Camuratti, que também assina o roteiro ao lado de Melanie Dimantas  e Angus Mitchell e também contou com o envolvimento do cineasta Breno Silveira(1964-2022) assinando como diretor de fotografia, o mesmo que dez anos depois foi responsável por dirigir 2 Filhos de Francisco(Brasil, 2005), a cinebiografia da popular dupla sertaneja Zezé Di Camargo & Luciano.

Ele é essencial pelo fato dele abordar uma interessante dramatização histórica sobre uma polêmica figura política  que já governou o Brasil, no caso a Rainha Carlota Joaquina(1775-1830).

Apesar da polêmica  ocasionada entre os historiadores por conta de sua representação cômica um tanto exagerada, beirando ao caricato não ser muito verosímil com os fatos, principalmente na maneira como Carlota Joaquina protagonizada por Marieta Severo  foi representada como uma lasciva que vivia traindo o marido e Dom João IV(1767-1826) protagonizado por Marco Nanini  um bobalhão frouxo e comilão, ainda assim a obra tem seu grau de importância.

Sua estética cômica apresenta muitos elementos satíricos  com toques teatrais, e até um tanto carnavalescos  se utilizando de referência a pornochanchada, que servia de uma certa forma  a trazer com toque de escapismo fabular,  uma crítica a aquele momento específico do cenário político e econômico do Brasil da segunda metade da década de 1990, se reorganizando economicamente após enfrentar a caótica situação que já vinha  acompanhando desde sua Redemocratização.

A produção mostrou um bom apuro técnico ao reconstituir toda a cenografia de época, os figurinos impecáveis e o elenco de primeira categoria que além de contar com os já mencionados Marieta Severo e Marco Nanini, também contou com Marcos Palmeiras representando o Imperador Dom Pedro I(1798-1834) com  seu jeito boêmio, Beth Goulart como a Princesa Maria Teresa de Bragança(1793-1874), Vera Holtz como a Rainha de Espanha Maria Luísa de Parma(1751-1819), mãe de Carlota Joaquina. Fora também as participações saudosas de Antônio Abujamra(1932-2015) na pele do Conde de  Mata-Porcos, um personagem ficcional que foi criado para simbolizar o descontentamento da camada da população “brasileira” com a Corte. Ney Latorraca(1944-2024) que representou bem no filme o pintor francês Jean-Baptiste Debret(1768-1848) que esteve de passagem no Brasil durante a Missão Artística Francesa. Outras participações saudosas a serem  mencionadas são de  Norton Nascimento(1962-2007) como o Fernando Leão que vem a ser amante de Carlota Joaquina aqui no Brasil, com quem chega a encenar uma picante cena sexy.  E de Thales Pan Chacon(1956-1997) na pele do médico da Corte.

Lembro da primeira vez que eu assisti a esse filme foi vendo numa VHS locada numa videolocadora quando eu era bem moleque e me divertir muito e revisitando na Netflix pude bem observar como o filme envelheceu bem.

 

 

 

O MENINO MALUQUINHO(1995)



Outro também ponto de partida essencial para se conhecer o movimento do Cinema da Retomada  é o filme O Menino Maluquinho, inspirado num famoso personagem cartunesco do Ziraldo(1932-2024). Um filme infanto-juvenil brasileiro que me lembro vagamente de ter ido assistir, eu estava com 10 anos acompanhado da minha família no antigo prédio da sala de cinema do Rio Verde aqui em Natal/RN, localizado em frente à Catedral Nova na Avenida Floriano Peixoto em Tirol, no centro da cidade, onde hoje é o prédio de uma Igreja Evangélica. O filme contou com a direção de Helvecio Ratton e produção de Tarcísio Vidigal com roteiro adaptado pelo próprio criador.

O filme apesar de apresentar entre suas falhas técnicas, uma qualidade meio sofrível da imagem com alguns chuviscos que criam uma sensação de ter envelhecido mal com o tempo, dando uma sensação de produção amadora por causa da retomada tímida e a captação do áudio também não estava lá essas coisas. Mas que de todo jeito ainda é uma produção que mesmo com recursos bem limitados e com um orçamento até modesto se formos comparar aos padrões hollywoodianos.

Apresenta um belo primor no roteiro  que foi bem fielmente adaptado como eu bem pude verificar algum tempo depois de ganhei uma edição em livro presenteado por meus pais que era uma maravilha todo ilustrado e com poucos textos. Mas mesmo assim muito empolgante, história incrível.

Cujo elenco contou com a participação saudosa de  Luís Carlos Arutin(1933-1996) que representou no filme o papel do Vovó Passarinho, papel esse que foi o último  de sua carreira***, já que ele tragicamente morreria pouco tempo depois,  vítima de um incêndio em seu apartamento no seu Rio de Janeiro na madrugada do dia 8 de Janeiro de 1996.

Que também conta com Patrícia Pillar e Roberto Bontempo nos papeis do pai do protagonista, muito bem defendido por Samuel Costa e com a ótima trilha musical assinada por Antônio Pinto, filho de Ziraldo com a canção-tema  de  Milton Nascimento e Rita Lee(1947-2023) cujo trecho é:

Vida de moleque é vida boa

Vida de menino é maluquinha

É bente altas, rouba bandeira

Tudo que é bom é brincadeira

É bente altas, rouba bandeira.

 

 

 

O QUATRILHO(1995)



Outro lançamento de 1995, O Quatrilho trata-se também  de um filme lançado nessa fase do Cinema da Retomada como essencial. Uma produção que contou com o envolvimento de uma importante família ligada a cinema, no caso dos Barretos.

 Com produção executiva do casal Lucy e Luiz Carlos Barreto, dirigido pelo filho do casal Fábio Barreto(1957-2019). Inspirado no romance de José Clemente Pozenato(1938-2024) cujo roteiro foi adaptado por  Leopoldo Serran(1942-2008) e por Antônio Calmon que na ocasião já era um renomado roteirista na tv escrevendo novelas na Rede Globo.  O filme traz uma abordagem a respeito da visão do sistema econômico agropastoril no sul do pais, mais precisamente na serra gaúcha no começo do século 20 representado na figura de dois casais de imigrantes italianos: De um lado temos Angelo(Alexandre Paternost)  e Teresa(Patrícia Pilar)  e do outro Massimo(Bruno Campos) e Pierina(Glória Pires), casal que vão fazer ao longo do enredo  uma troca de pares, com Teresa ficando com Mássimo e Pierina com Angelo como bem sugere o título que é um termo para um jogo de cartas que utiliza um baralho especial de 40 cartas, existe uma cena no filme no bar mostrando o pessoal jogando cartas que mencionam o nome Quatrilho.

Figura na minha lista como essencial pelo fato de ser o primeiro dessa leva de filmes que representou o Brasil na disputa do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro que agora é intitulado de Internacional em 1996, onde perdeu para a produção holandesa  A excêntrica família de Antônia(Antonia, Países Baixos, 1995) da diretora Marleen Gorris. A única vez até então  que um filme brasileiro disputou essa categoria no Oscar foi em 1963, com o filme O Pagador de Promessas(1962) dirigido por Anselmo Duarte(1920-2009) inspirado na peça teatral de Dias Gomes(1922-1999). Isso tirando o exemplo de  Orfeu Negro(Brasil, França, Itália, 1959) que quando ganhou nessa mesma categoria em 1960, não foi representando o Brasil apesar de se passar no Brasil e ser falado em português. Foi representando a França, ainda mais que seu diretor foi ninguém mais, ninguém menos do que o francês Marcel Camus(1912-1982).

No elenco de O Quatrilho conta com Patrícia Pilar, Glória Pires, Bruno Campos e Alexandre Pasternost como os quatro protagonistas, o saudoso Gianfrancesco Guarnieri(1934-2006) na pele do Padre Giotto, o também saudoso Cecil Thiré(1943-2020) como o Padre Gentille, José Lewgoy(1920-2003) como o Rocco, Claudio Mamberti como Batistton e Antônio Carlos Pires(1927-2005), pai da atriz Glória Pires como Aurelio.


O GUARANI(1996)



Apesar da má fama que ele carregou pelo prejuízo financeiro que sua realizadora teve de carregar O Guarani, ainda assim figura na minha lista como um filme essencial  para se conhecer dessa fase da Retomada do Cinema Nacional. Baseado no clássico romance indianista de José de Alencar(1829-1877), que já teve outras adaptações para cinema, sendo que o primeiro registro  é de 1912, ainda da fase do cinema mudo e em preto e branco, mas que figura como uma obra perdida. Em 1916, foi lançada outra adaptação dirigida pelo ítalo-brasileiro Vittorio Capellaro(1877-1943) que também figura como uma obra perdida. Em 1979, foi lançada  a primeira versão falada e em cores de O Guarani, que foi dirigido por Fauzi Mansur(1941-2019) com roteiro adaptado por Ody Fraga(1927-1987), que contou com o popular astro da pornochanchada David Cardoso como o protagonista Peri. Isso sem contar na minissérie produzida pela Rede Manchete em 1991, cujo roteiro foi adaptado por Walcyr Carrasco e dirigido por Marcos Schechtman que futuramente integrariam a equipe de roteiristas e diretores da Rede Globo. Onde o Peri foi protagonizado por Leonardo Brício e a sua amada Ceci foi representada por Angélica Ksyvickis,  a popular apresentadora infantil que comandava na Manchete o Clube da Criança.

Até chegar a essa versão especifica de 1996, que contou com a direção da Norma Bengell(1935-2013), uma atriz que já figurou uma grande musa do cinema brasileiro, cujo papel mais marcante foi fazendo a Leda em Os Cafajestes(Brasil, 1962) do diretor Ruy Guerra, onde protagonizou a  memorável primeira cena de nudez frontal da história do cinema brasileiro dela correndo na praia nos minutos finais do filme.

O Guarani não foi sua primeira experiência de diretora, antes ela já teve a experiência dirigindo Eternamente Pagú(Brasil, 1988), cinebiografia da escritora modernista Patrícia Galvão(1910-1962) dentre outros.

Nessa sua versão dirigindo O Guarani, cuja adaptação do roteiro foi assinado por José Joffily nos apresenta uma interessante história que expõe a visão crítica ao Brasil colonialista do século 16, simbolizada na figura da Ceci(Tatiana Issa) como uma jovem branca colonizadora vivendo sua paixão proibida pelo guerreiro indígena guarani Peri(Márcio Garcia) no momento onde estava ocorrendo uma guerra colonial.

Dentre as menções do elenco que contam com feras vão para os protagonistas Márcio Garcia e Tatiana Issa como Peri e Ceci que mostram um bom entrosamento em cena, ambos figuravam como os jovens talentos que estavam despontando  na televisão. Márcio Garcia como Peri se mostra excelente principalmente ao expor o porte físico atlético para representar sua essência guerreira, ele que   figurava como o jovem galã símbolo sexual da preferência do público feminino que na ocasião era bastante requisito nas novelas da Globo e Tatiana Issa na pele da Ceci, mostra um excelente desempenho ao imprimir um toque dócil, calmo e sereno a personagem.

Com seu lindo rosto angelical que a tornou uma símbolo sexual masculina chegando a posar nua para a capa da antiga Playboy em 1998, que também era bastante requisitada em novelas da Globo, mas que nos últimos anos deixou o oficio de atriz de lado e se dedicou a função de cineasta. Um dos interessantes trabalhos dirigidos pela atriz que tive o privilégio de conferir foi em Pacto Brutal-O Assassinato de Daniela Perez(Brasil, 2022), série documental em cinco episódios sobre o assassinato da atriz Daniela Perez pelo casal Guilherme de Pádua(1969-2022) e Paula Thomaz ocorrido em dezembro de 1992.

Apesar do filme ter gerado um prejuízo para a cineasta que lhe rendeu uma má fama a ponto de fazê-la devolver aos cofres públicos o investimento do que foi gasto. Ainda assim, a trama tem seu nível de importância para entender o que foi o cinema da retomada.

 

O QUE É ISSO, COMPANHEIRO(1997)




Com uma abordagem muito cara sobre como o Brasil lida com essa herança violenta  da Ditadura Militar, o filme O que é Isso, Companheiro trata-se de uma produção que também contou com o envolvimento da família Barreto na produção e foi dirigida por outro filho do casal que é o Bruno Barreto.

 Baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira, que também assina o roteiro ao lado de Leopoldo Serran e que no filme é representado por Pedro Cardoso que foi um dos responsáveis pelo sequestro do embaixador americano  Charles Burke Elbrick(1908-1983) em 1969  junto aos guerrilheiros do MR-8, grupo armado que combatia a Ditadura Militar.

A obra  retrata bem como foi  sua participação no sequestro ao embaixador americano Elbrick(Alan Arkin), onde acompanhamos Fernando antes de participar do grupo armado participando  de uma manifestação ao lado de Artur(Eduardo Moscovis), um aspirante a ator e de Oswaldo(Selton Mello) que o acompanha na luta armada quando ele é apresentado por meio de Marcão(Luíz Fernando Guimarães) ao local secreto do bando que é comandado por Maria(Fernanda Torres) e recebem os codinomes para preservarem suas reais identidades, Fernando passa ser chamado de Paulo.No grupo onde ele ingressa, também integram: Renée(Claudia Abreu), Júlio(Caio Junqueira), Jonas(Matheus Nachtergaele) e Toledo(Nélson Dantas).

No decorrer da história, vamos acompanhando Fernando agora como Paulo sendo treinado para disparar armas  e eles arquitetando o sequestro ao embaixador e até chegar de fato a execução do sequestro que acompanhamos a rotina tensa deles até a sua libertação que ocorre  no dia 7 de Setembro de 1969, feriado do dia da Independência do Brasil, após quatro dias de sequestro.

O filme aborda bem  pela ótica de mostrar as consequências das violências brutais, principalmente pela ótica do guerrilheiro Fernando Gabeira que participou de assaltos e organizou o sequestro de um embaixador.

Ele foi outro lançado nessa fase do Cinema da Retomada  a representar o Brasil no Oscar em 1998, disputando na categoria de melhor filme estrangeiro, que agora é denominada de melhor filme internacional para o belga-holandês Karakter de Mark Van Diem.

P.S. A edição do Oscar de 1998 ficou marcada pela vitória de Titanic de James Cameron ganhando 11 Estatuetas das quais foi indicado. O único filme a conseguir esse foi Ben-Hur(1959) na edição do Oscar de 1960.

 

 

CENTRAL DO BRASIL(1998)



Outro filme importante lançado nessa fase do Cinema da Retomada que merece ser assistido. Essa obra contou com a direção do Walter Salles****, o diretor do premiado no Oscar 2025  Ainda Estou Aqui, nos traz uma excelente abordagem sobre a realidade do Brasil analfabeto, principalmente quando acompanhamos a jornada da protagonista Dora(Fernanda Montenegro), uma mulher que trabalha na Estação Central do Brasil, daí o título  se oferece a escrever as cartas de pobres  pessoas analfabetas para seus parentes distantes que residem em outras cidades.

Até ela se deparar com um garoto chamado Josué(Vinicius de Oliveira), com quem constrói uma amizade e resolve acompanha-lo em sua jornada para retornar a sua terra natal  numa estética road movie para ir ao interior do Nordeste indo em procura do seu pai.

Essa obra cujo roteiro foi escrito por Marcos Bernstein e João Emanuel Carneiro que fariam carreira na televisão escrevendo novelas para a Globo.

Ele também é outro essencial para se conhecer essa fase do Cinema da Retomada, principalmente por abordar a realidade brasileira com o analfabetismo.

Ele também foi outro dessa fase  a representar o Brasil no Oscar de 1999, onde competiu não só na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, mas também de Melhor Atriz para Fernanda Montenegro.  Na categoria de Melhor Filme Estrangeiro, ele perdeu para o italiano A Vida é Bela(1997) dirigida por Roberto Benigni e para a categoria de atriz Fernanda Montenegro perdeu para a americana Gwyneth Paltrow que estrelou o filme anglo-americano Shakespeare Apaixonado(Shakespeare in Love, Reino Unido, EUA, 1998).

Justamente por esse motivo é que esse figura na minha lista como essencial.

 

MAUÁ-O IMPERADOR E O REI(1999)




A cinebiografia do empresário  Irineu Evangelista de Sousa(1813-1889), o Barão de Mauá. Que no século 19, foi um empresário que tentou  trazer a  indústria ferroviária para o Brasil, mesmo enfrentando a resistência do Imperador Dom Pedro II(1825-1891).

Dirigida por Sérgio Rezende, que também assina o roteiro junto com Paulo Halm e Joaquim Vaz de Carvalho, a obra explora ao longo de suas 2 horas e 15 minutos de duração toda a sua  trajetória mostrando de sua humilde infância no interior do Rio Grande do Sul quando se depara com o pai morto montado num cavalo, quando vai acompanhado de seu tio Rio de Janeiro, então capital do Império  e de como foi conseguindo mostrar aptidão para os negócios que o fez prosperar, mas enfrentando uma resistência dos conservadores do Império.

Essa obra foi premiada em dois festivais de cinema ocorridos no ano 2000, venceu na categoria melhor filme no Festival de Cinema Hispânico de Miami e nas categorias de melhor figurino e melhor direção de arte no Prêmio Guarani de Cinema Brasileiro.

Conta em seu elenco com feras como Paulo Betti como protagonista Mauá, Malu Mader representando o papel de Maria Joaquina de Sousa a quem Mauá a chama de May, sua sobrinha/esposa. O que pode parecer estranho essa relação incestuosa, mas temos que lembrar que no Brasil do século 19, esse tipo de costume era muito comum de casamentos arranjados entre parentes. Antônio Pitanga como Valentim, um escravo que ele conheceu quando criança foi trabalhar numa venda e o libertou antes da Lei Aurea. Rodrigo Penna na pele do Imperador Dom Pedro II(1825-1891). Mencionar as saudosas participações de Hugo Carvana(1937-2014) como Queiros e Claudio Correa e Castro(1928-2005) como o Visconde do Uruguai que o batiza em sua entrada na maçonaria.

Por esses fatores o tornam essencial de se conhecer sobre essa fase do Cinema da Retomada.



BICHO DE SETE CABEÇAS(2000)



Esse drama barra pesada abordando sobre a importância da saúde mental é outro que também figura na minha lista dos filmes brasileiros essenciais  dessa fase do Cinema da Retomada. Porque ele representa bem um reflexo da realidade nua e crua da podridão que existe nos locais que eram para serem de acolhimento, terminam sendo um pesadelo e da realidade destrutiva de quem é um usuário de drogas.

Nesse filme acompanhamos a jornada de Neto(Rodrigo Santoro), um jovem de classe média introvertido, que mora com seus país e não sabe o que quer da vida.

Se aventura com umas más companhias que o levam a experimentar aquele pó branco o tornando um usuário, e seus pais ao descobrirem o levam para dois manicômios onde lá ele vai enfrentar tratamentos de choques dos mais abusivos e desumanos.

Nessa obra dirigida por Laís Bodanzky, teve seu roteiro assinado por Luiz Bolognesi inspirado na história real de Austregésilo Carrano Bueno(1957-2008) que ele escreveu no seu livro O Canto dos Malditos, cujo nome foi alterado, assim como os personagens reais da clínica que ele frequentou quando era jovem e enfrentou problemas com drogas. Principalmente que pelo que pude  pesquisar sobre o livro, ele chegou a sofrer uma ameaça de censura da partes dos mencionados no livro que ameaçaram recolher a obra das prateleiras.

Ele virou um ativista do movimento anti-manicomunal e o  retrata sem maquiagem nenhuma como o nosso governo faz vista grossa para o problema.

Um dos principais destaques do filme vai para o desempenho de Rodrigo Santoro na pele do Neto, a entrega com que ele demonstra em cena é impressionante.

Pode-se dizer que com esse desafiador papel se mostrou um ponto de virada na sua carreira, digo isso porque até então ele tinha consolidado sua carreira despontando na televisão durante a década de 1990 fazendo novelas, onde fez uns papeis bons e outros medíocres. O que gerou uma certa subestimação da crítica a respeito do seu potencial de atuação.

Com o brilhante desempenho nesse papel, Rodrigo Santoro a concentrar mais sua carreira no cinema.

Onde aqui ele contracena com duas feras como Othon Bastos e Cassia Kiss que representam os seus país no filme, também participam do filme Caco Ciocler na pele do Interno Rogério sujeito totalmente afetado pelo tratamento desumano, Luís Miranda como o Enfermeiro Marcelo que apesar do jeito gentil e amigável que ele interage com o protagonista, isso não deixa de trazer um desconforto com o fato da sua postura passiva e omissa com o tratamento desumano que se dão ao protagonista. Também mencionar a participação do saudoso Altair Lima(1936-2002) na pele do Doutor Cintra Araújo, o diretor do manicômio, um sujeito que se mostra ser bem apessoado, no entanto, ele é muito omisso com as práticas de violência dentro da instituição,   tem uma cena dele experimentando dentro de sua clínica o pozinho branca de medicamento  e ao se direcionar para uma janela para observar a movimentação do pátio da clínica, a câmera faz uma brilhante  edição tresloucada representando o seu  olhar distorcido ao som de uma  canção delirante de Arnaldo Antunes intitulada de Carnaval  que assina trilha junto com André Abujamra e Pena Schmidt.

E por fim, mencionar a participação de Jairo Mattos como o Enfermeiro Ivan, que trabalha em outra clinica onde Neto é mandado, um sujeito bem truculento que apresenta um violência brutal e desumana.

Um filme difícil de digerir, mas mesmo assim muito relevante.

 

 

 

 

 

 

CARAMURU-A INVENÇÃO DO BRASIL(2001)




Inicialmente produzido como uma minissérie que a Globo exibiu em Abril de 2000 para celebrar os 500 anos do descobrimento do Brasil. Caramuru-A Invenção do Brasil traz uma interessante abordagem de forma humorística e com toques escapistas  sobre como ocorreu a chegada dos navegadores portugueses em território brasileiro.  

Centrado na chegada do navegador português  Diogo Álvares Correia(Selton Mello) em território e vive um triangulo amoroso entre duas irmãs indígenas Paraguaçu(Camila Pitanga)  e Moema(Débora Secco). Que é chamado pela tribo local de Caramuru.

Com direção de Guel Arraes que assina o roteiro junto de Jorge Furtado, o filme figura na minha lista do essenciais da fase do Cinema da Retomada, justamente pelo fato de sua estética apresentar de uma forma cômica a origem da nossa identidade como nação.

Com um elenco primoroso que conta com Selton Mello, Camila Pitanga, Déborah Secco, Débora Bloch, Luís Melo e o saudoso Pedro Paulo Rangel(1948-2022).

  

     CIDADE DE DEUS(2002)




Encerrando a lista com chave de ouro menciono aqui Cidade de Deus como o filme essencial para se conhecer sobre esse ciclo do Cinema da Retomada.

Nesse filme dirigido por Fernando Meirelles, com roteiro de Bráulio Mantovani adaptado de um romance homônimo de Paulo Lins.    

O enredo mostra uma abordagem escancarada sobre o problema social do narcotráfico nas comunidades carentes do Brasil, aqui no caso focalizado  na Cidade de Deus, como o sugere o título.

O enredo é estruturado em apresentar duas diferentes linhas temporais sobre a Cidade de Deus narrado pela ótica do Buscapé(Alexandre Rodrigues) entre as décadas de 1960 e 1970.

Na introdução somos apresentados a ele na linha de frente em cima do muro no conflito decisivo  entre a quadrilha de Zé Pequeno(Leandro Firmino da Hora) e a quadrilha do Cenoura(Matheus Nachtergaele), os dois que vivem em pé de guerra  pelo espaço dos seus  pontos de venda naquela localização.

É nesse mesmo local  que num ótimo  trabalho de edição que naquela mesma posição que o Buscapé se encontra, a gente é transposto a ele na infância brincando de jogar bola como goleiro,  apresentando como era a Cidade de Deus nos anos 1960  como uma rua sem urbanização com estrada de barro, onde o tipo de moradia por lá carregava um aspecto rústico de parecer uma zona rural dentro da capital, onde o povo até criava galinhas.

Parecendo um cenário de faroeste, ainda mais que ali somos ao local lidando com o terror do Trio Ternura, que agem como se fossem Robin Hood distribuindo o roubo para as pessoas carentes do bairro. Um trio formado por Alicate( Jefchander Suplino), Cabeleira(Jonathan Haagensen) e Marreco(Renato de Souza), sendo esse o irmão mais velho de Buscapé.

Buscapé também é contemporâneo de infância de uma perigosa dupla de garotos formada por Bené(Michel Gomes moleque) e Dadinho(Douglas Silva moleque).

Bené que era irmão caçula do Cabeleira, cresceria junto com Dadinho que passaria a se chamar pela  alcunha de  Zé Pequeno.

Um fato curioso é que o Bené crescido foi representado por Phelipe Haagensen que é irmão de Jonathan Haagensen que fez o Cabeleira.

É no reinado de Zé Pequeno na Cidade de Deus, na década de 1970 já mais crescido e urbanizado e  com as ruas asfaltadas que nessa passagem somos apresentados ao nosso fio condutor o Buscapé crescido fazendo bicos trabalhando como fotojornalista onde registra os acontecimentos e vai transitando com diferentes núcleos do filme,  onde interações com o grupo de jovens da classe média carioca que ele costuma se reunir na praia para experimentar uma boa maconha e dentre esses está uma jovem chamada Angélica(Alice Braga) com  quem ele não tira o olho e sonha em perder a virgindade.

Do mesmo modo que vai interagindo com Zé Pequeno, Cenoura e outros moradores até chegar ao momento derradeiro da obra que mostra ele no fogo cruzado entre as facções de Zé Pequeno e Cenoura até terminar com a morte de ambos.

       A sua  montagem contou com o envolvimento de  Daniel Rezende, que anos depois faria carreira no oficio de diretor titular ao dirigir: Bingo-O Rei das Manhãs(Brasil, 2017), Turma da Mônica-Laços(Brasil, 2019), Turma da Mônica-Lições(Brasil, 2021) e mais recentemente com O Filho de Mil Homens(Brasil,2025).

      Ele foi o último dessa fase do Cinema da Retomada que representou o Brasil no Oscar. Era para ter disputado o Oscar em 2003, segundo pelo que o critico de cinema Waldemar Dalenogare Neto divulgou em uma pesquisa feita  em Abril de 2019: “Cidade de Deus foi esnobado no Oscar 2003 após alguns dos membros utilizarem uma brecha no regulamento para dar nota baixa ao filme. Um número minoritário de membros da comissão de filme estrangeiro se retirou da sessão interna da academia onde estava sendo exibido o filme, antes do final, e imediatamente a nota da produção caiu de 10 para 6. Na época, isso era permitido pelo regulamento interno, e foi a primeira vez aconteceu o esvaziamento de uma sessão. Um dos pontos apontados na pesquisa, é o perfil da época dos membros que faziam parte da comissão, composto por homens de perfil conservador, e que não gostava de cenas de sexo e violência nos filmes, a não ser que tenha uma justificativa de acordo com o ponto de vista deles. Devido a reação negativa, a Miramax desistiu de fazer campanha para o filme e adiou para o ano seguinte. Quando Cidade de Deus recebeu quatro indicações no Oscar 2004, a reação negativa voltou-se para o Oscar de melhor filme estrangeiro. Em 2005 a academia encomendou um estudo para evitar tais injustiças, o que levou a criação da short list (pré-lista), para diversificar a seleção. Posteriormente, devido a uma nova polêmica no perfil do comitê nos anos 2010, foram adicionados mais membros.”

     Quando disputou Oscar de 2004, concorreu  em quatro categorias nas quais perdeu: Melhor Diretor para Fernando Meirelles que perdeu para o neozelandês Peter Jackson que concorreu pelo filme O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei(2003), concorreu para Melhor Roteiro Adaptado onde perdeu também para O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei, disputou também em Melhor Fotografia onde perdeu para Mestres dos Mares-O Lado Mais Distante do Mundo(2003) e concorreu para Melhor Edição onde perdeu também para O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei.

      Uma produção de qualidade incrível, cujo roteiro estruturou bem uma figura de um herói que mata o vilão sem necessariamente precisar disparar uma arma.

      Como assim? Explico: A primeira impressão  que fica no filme quando vemos o Buscapé como narrador, agindo como fio condutor com a narrativa em off, é que ele foi moldado para ser o herói, principalmente quando na introdução somos apresentados a ele no fogo cruzado entre as duas facções que disputam o poder na Cidade de Deus.

      Em alguns momentos mostra ele tentando flertar para virar bandido  ao se apoderar de uma arma para promover um assalto numa situação bem fodida em que se encontrava,  nesse linha tênue entre o explicar dando a entender que ele seria o responsável pela morte do Zé Pequeno, o que poderia gerar uma nociva representação romantizada do crime.

       Porém, não é isso que acontece, já que Buscapé acaba desistindo de querer promover o assalto, porque ele se mostra bonzinho demais para isso. Ainda assim, ele é moldado como herói, já que ele ajudou a derrotar o reinado de Zé Pequeno por meio das lentes de sua câmera  fotográfica  que ele tirava e eram publicadas num jornal onde ele fazia a distribuição e atuava como um freelancer. Esse era portanto sua verdadeiro arma para combater os traficantes.

         O Zé Pequeno acabou sendo morto foi pelos garotos que ele ameaçava matar se não trabalhassem para ele.

         Pode-se dizer que a maneira como o Buscapé foi moldado dentro da narrativa foi para  ele representar a ótica da camada dos populares da Cidade de Deus, simbolizando os cidadãos honestos, onde ele como fio condutor transita entre as diferentes camadas de moradores da comunidade.  E é uma testemunha ocular em  explicar as diferentes camadas  da mesma Cidade de Deus como era na sua infância para a Cidade de Deus que ele cresceu oprimida pelas facções do narcotráfico.

      O livro foi inspirado num romance de Paulo Lins, que de fato se inspirou na história onde boa parte dos criminosos representados no filme realmente existiram como: Zé Pequeno que foi a alcunha de José Eduardo Barreto da Conceição(1957-1985), Mané Galinha que foi o alcunha de Manoel Machado Rocha(1952-1979), Bené é outro que também, o Trio Ternura e o Cenoura.

    Sendo que muita coisa retratada no filme foi muito ficcionalizada usando de  uns toques de licenças poéticas para tornar a obra mais palatável.

         Boa parte do elenco que compõe esse filme são de atores até então desconhecidos do grande público, boa parte vinda das comunidades o que dá uma verossimilhança que com o sucesso do filme foram despontando em produções tanto no cinema quanto na televisão.

       Dentre esses há de mencionar Alexandre Rodrigues na pele do Buscapé, o personagem central na história. Ele consegue sustentar  bem as pontas narrando em primeiro pessoa mostrando as duas facetas da Cidade de Deus  de forma não-linear, começando pelo final mostrando ele na linha de frente do confronto entre as facções de Zé Pequeno e do Cenoura. E vai construindo de nos guiar pela Cidade de Deus em duas linhas temporais diferentes de como foi mudando estruturalmente, mas lidando com o mesmo problema de caos urbano.  

      É curioso ver a  maneira como ele foi desenhado com um perfil heroico de conseguir derrotar  o Zé Pequeno sem necessariamente se utilizar de uma pistola para mata-lo, o que poderia extrapolar a linha tênue  entre o  explicar para o justificar, mas apenas se utilizando de uma câmera fotográfica que por meio das suas lentes que ele registrava se tornava a testemunhava ocular dos acontecimentos na Cidade de Deus, pela sua ótica de morador comum da comunidade, pessoa honesta que simbolizava a camada dos populares que viviam a opressão das facções, ainda mais pela maneira como ele transitava pela diferentes camadas de moradores da Cidade de Deus e fora dela.

       Também contou entre os novos talentos revelados no filme  com: Thiago Martins ainda menino com 13 anos, representando Lampião, que se junta ao bando de Zé Pequeno, Roberta Rodrigues como Berenice, a esposa do Cabeleira, Alice Braga em começo de carreira, no filme a sobrinha da atriz Sonia Braga representa a Angélica, uma jovem de classe média que desperta o interesse amoroso de Buscapé, mas acaba se envolvendo amorosamente e perigosamente pelo bandidão Bené.

       O cantor Seu Jorge fazendo um brilhante desempenho como Mané Galinha, um sujeito que inconformado com o fato de ver Zé Pequeno estuprar sua mulher passa a organizar uma gang para acabar com ele.

          O filme também revelou o talento de Douglas Silva, na ocasião um menino de 13 anos que representou bem o vilão Dadinho criança já mostrando o seu nível de crueldade e que ao crescer passando  a se chamar de Zé Pequeno bem representado por Leandro Firmino da Hora, na primeira cena onde ele aparece numa boca e o povo o chama por Dadinho ele solta seu memorável e icônico bordão: “Dadinho é o caralho, meu nome é Zé Pequeno, Porra”.

          Já mostrando o seu perfil de empoderamento, sua autoridade e nível de crueldade de sociopatia.  

           Outro jovem talento revelado no filme é Daniel Zettel, que no filme representa Tiago um jovem de classe média do grupo de Angélica que é usuário de drogas e vira um membro da facção de Zé Pequeno, após o filme ele despontou em muitos trabalhos na televisão e cinema  ao longo dos anos 2000.

          Assim como destacar a participação fera  de Matheus Nachtergaele, na ocasião já um ator consagrado no cinema e televisão que faz um brilhante desempenho na pele do Cenoura. Era famoso pelo João Grilo no filme  O Auto da Compadecida(Brasil,2000).  Um sujeito que também demonstra carregar um nível de tamanha crueldade quanto o Zé Pequeno.

     Outras feras  presentes no filme são:  Charles Paraventi, um americano naturalizado brasileiro que já era uma figura ilustre em estrelar comerciais para televisão que no filme representa o Tio Sam, um fornecedor de armamentos ilegais por meio da policia corrupta que distribui para Zé Pequeno e é a policia corrupta que lhe tira a vida.

     E por fim mencionar a participação de Graziela Moretto que representa no filme a jornalista Marina Cintra, que é responsável por contratar Buscapé para trabalhar no Jornal do Brasil.

       É ela quem  o acolhe em seu apartamento se compadecendo do seu drama de viver num lugar que é cheio de  tiroteio. É com ela que ao experimentar relaxar tragando uma verdinha que Buscapé apesar de não ser  mostrado, mas ficou subentendido que ele teve a sua primeira transa. Coisa que não ocorreu com a Angélica como ele tanto desejava.

      Ou seja, ele perdeu a virgindade com a jornalista Marina Cintra.

      Até hoje o legado desse filme foi tão importante, cuja estética  inspirou o surgimento da onda das favelas movies que inspirou artistas internacionais e recentemente a HBO Max produziu cuja história dá continuidade aos eventos apresentados nesse filme.

            Justamente por isso é o que torna essencial de se conhecer dessa fase do Cinema da Retomada e apreciar o nível da qualidade estética de cada um.

 

 

        

     

         

 

      P.S. No Oscar de 2004, O Senhor dos Anéis-O Retorno do Rei, o capitulo final da trilogia dirigida por Peter Jackson que começou com A Sociedade do Anel(2001) e As Duas Torres(2002) inspirado na trilogia de fantasia de J.R.R.Tolkien(1892-1973) marcava por entra na história da edição por ter sido o terceiro a levar as 11 Estatuetas, um recorde que até apenas o épico histórico monumental Ben-Hur(1959) conquistou no Oscar de 1960 e o épico de catástrofe náutica Titanic(1997) conquistou no Oscar de 1998.


*O atual Presidente da República Lula ainda disputou cinco vezes o cargo, perdeu em 1994 e em 1998 para o sociólogo Fernando Henrique Cardoso. Venceu em 2002, 2006 e em 2022.

**A apresentadora Xuxa só retornaria a  produzir e estrelar filmes  após a fase da Retomada com o filme Xuxa Requebra(Brasil, 1999), que novamente contou com a direção da Tizuka Yamazaki.

***Quando Arutin morreu ainda estava no ar a novela A Idade da Loba(1995-1996) na Bandeirantes onde ele participou  representando o papel do Doutor João Semana. Quando o último capitulo foi ao ar no dia 19 de Janeiro de 1996, ele já tinha concluído sua participação na novela.

****O cineasta Walter Salles, diretor de Ainda Estou Aqui, é filho do banqueiro Walter Moreira Salles(1912-2001),  fundador do Itaú Unibanco. Ele junto de seus três irmãos formados por Pedro, Fernando e João Moreira Salles são herdeiros de uma fortuna  estimada em 4,5 bilhões de dólares. Desses seus três irmãos, João Moreira Salles também é cineasta, sendo no caso documentarista.  Dentre os documentários dirigidos por João que  recomendo verem  estão: Entreatos(Brasil, 2004) onde ele registrou a vida rotineira de Lula durante a corrida presidencial de 2002 e Santiago(Brasil, 2007) que traz a entrevista dele  com seu ex-mordomo Santiago Badariotti Merlo(1912-1994) que demorou 15 anos para ele concluir, nesse meio tempo Santiago já havia falecido.

 

      

domingo, 28 de dezembro de 2025

O POLÊMICO FILME DE BRIGITTE BARDOT

 

Em memória a atriz a Brigitte Bardot(1944-2025) comento aqui sobre o mais famoso filme estrelado por ela, estou me referindo a E Deus criou a Mulher (Et Dieu...crea la femme, França, Itália, 1956).




Uma obra-prima do cinema francês dirigida por Roger Vadim(1928-2000), diretor expoente do importante movimento cinematográfico francês da  Novelle Vague. Mostrou um dos primeiros exemplos de nudez no cinema.




Na trama, a acompanhamos representando a Juliette, uma jovem  órfã de dezoito anos com desejos sexuais à flor da pele na pequena e tradicional vila de Saint-Tropez. Ela tem a mania de sempre andar descalça, o que acende os desejos e chama a atenção dos homens ao seu redor.

O primeiro pretendente dela é um senhor chamado  Eric Carradine (Curd Jürgens) que aparece na região querendo construir um cassino, mas que é impedido pela importante família Tardieu  que é a proprietária de um pequeno estaleiro na área que ele precisa comprar para erguer o empreendimento mas se recusa a vender o negócio.

 É então que aparece Antoine (Christian Marquand) o primogênito da família, que volta para casa para discutir a situação com os familiares e encontra Juliette pronta para se envolver com ele.

Porém, as intenções de Antoine são de um envolvimento rápido e sem compromisso e ele a rejeita, deixando a cidade sem levá-la. Os guardiões de Juliette, irritados com suas extravagâncias sexuais, a ameaçam de enviá-la novamente ao orfanato.

Para mantê-la na cidade, Carradine apela a Antoine para que ele se case com ela, o que este desdenha, mas seu irmão mais novo, Michel (Jean-Louis Trintignant), apaixonado secretamente por Juliette, aceita o desafio e a pede em casamento.

Apesar de estar apaixonada por seu irmão mais velho, ela aceita. Quando Antoine enfim retorna para casa, os problema começam para os recém-casados, e todo os homens em sua vida começam a compreender o que ela representa para eles.

Principalmente pela maneira como sua falta de bons modos causa uma situação de estranheza, a ponto de gerar incômodos e ambos temem pela reputação social.

Na época  em que foi lançado  causou muito escândalo principalmente nos minutos iniciais  em que mostra o corpo  da exuberante atriz Brigite Bardot no auge da beleza aparece representando a jovem Juliette completamente peladona tomando banho de sol em frente a sua varanda.

Essa ousadia custou caro  ao filme, causando como consequência em  sua  proibição  ou mesmo censura em alguns países. 

De todo jeito, o nude  neste filme  que revelou a bela Brigitte Bardot ao cinema foi muito importante para a narrativa já que  serviu para introduzir ao público a essência de sua personagem-protagonista Juliette Hardy. Uma jovem sensualmente provocante  e  sem muito pudores nessa produção franco-italiana que além de contar com a assinatura de Vadim na direção e participa como ator representando um companheiro de ônibus de Antoine.

Ele também assina o roteiro junto com Raoul Levy(1922-1966), que além com a bela BB como protagonista, também há de mencionar as participações do alemão Curd Jürgens(1915-1982) que representa bem no filme o papel de Eric Carradine, anos depois ele faria um vilão na franquia que foi em 007-O Espião Que Me Amava(1977) onde fez Carl Stromberg.

Também mencionar a participação de Christian Marquand(1927-2000) como o Antoine Tardieu e Jean-Louis Trintignant(1930-2022) como o Michel Tardieu.

Descanse em Paz,

BB.

 

 

quarta-feira, 24 de dezembro de 2025

O DOCUMENTÁRIO SOBRE CARMEN MIRANDA

 

Lançado em 1995, ano do 40°Aniversário de morte de Carmen Miranda (1909-1955) o documentário Carmen Miranda: Banana is Bussiness (1995).

Produzido pela produtora Channel 4 e contando com a direção da brasileira Helena Solberg que também assina como roteirista.




O documentário narra toda a trajetória da icônica Carmen Miranda, contando um pouco de sua infância em Portugal, onde nasceu em Várzea da Ovelha, uma vila localizada no município de Marco de Canaveses no Norte de Portugal.

Até haver a emigração da família para o Brasil, onde se estabeleceram no Rio de Janeiro.




 Ao longo da duração de 1 hora e 31 minutos, a obra vai contando   sua trajetória com depoimentos e muitas imagens de arquivos. Dentre os entrevistados há de mencionar a participação de César Romero (1907-1994) que acompanhou o clássico seriado do Batman dos anos 1960, deve se lembrar dele como Coringa.




Pois bem, no cinema ele fez par romântico com Carmen Miranda em sua passagem pelos Estados Unidos. Essa sua participação no documentário mostra o último registro público dele, já que ele faleceu um ano antes do lançamento em 1º de Janeiro de 1994.




Um material vastamente riquíssimo para explorar e conhecer sobre Carmen Miranda, uma mulher a frente do seu tempo. Que colecionou polêmicas entre os mais conservadores medíocres e era acusada de ser vendida ao Tio Sam.

Uma verdadeira preservação da memoria cultural brasileira tão negligenciada pelos Poderes Públicos, para lembrar os 70 anos que se completou em 2025 de sua partida. 

segunda-feira, 22 de dezembro de 2025

FILMES QUE SE PASSAM NO NATAL, MAS NÃO SÃO NATALINOS

 

Chega dezembro, época natalina é aquele momento em que a família reunida em casa com uma ceia farta e quem sabe para acompanhar na televisão aos filmes natalinos.  Se bem que nem todos apesar de ambientarem na festa  natalina, são tão filmes natalinos assim.

 

Para entender melhor separei uns cinco   exemplos de filmes que se passam no Natal, mas não são  especificamente natalinos como estamos acostumados a conhecer:

 Rambo-Programado para matar(1982)



A primeira coisa que a gente pensa quando se  menciona  em um filme de Rambo é tiro, porrada e bomba, ainda mais  sendo estrelado por Sylvester Stallone que figurava como o astro brucutu dos filmes de ação dos anos 1980.

 

Nesse primeiro filme da franquia de Rambo que foi inspirado no livro First Blood do americano David Morrell publicado em 1972, cuja inspiração  foi  no drama dos soldados veteranos do Vietnã que ao retornarem para o país eram vistos como párias da sociedade e tinham que lidar com o problema de saúde mental ocasionando pelo conflito.

 

No filme, cujo roteiro foi adaptado pelo próprio Stallone junto de Michael Kozoll e

William Sackheim(1919-2004) e contou com a direção do canadense Ted Kotcheff(1931-2025).

 

 Pelo que pude pesquisar do livro que eu ainda não li, e no começo de 2025 ganhou uma nova edição em português pelo selo do Pipoca&Nanquim é que no livro o nível descritivo da violência ela é mais extremo  do que em comparação ao que vimos no filme  que explora o nível mais brutalmente  gráfico da violência.

 

No livro, ele explora mais nuances complexas do personagem lidando com o trauma psicológico da Guerra do Vietnã, o Rambo dos livros se mostra mais brutal,   mais perturbador e mais tresloucado   do que foi mostrado no filme, fora que também no livro ele trabalha a interação de  Rambo com outros personagens importantes no filme.

 

Só para citar alguns exemplos: O  Xerife Will Teasle na cidade de Hope que no filme foi bem defendido pelo saudoso Brian Dennehy(1938-2020) com uns toques bem vilanescos de crueldade para perseguir o protagonista. O que já  no livro ele demonstrava carregar uma maior  profundidade por ser uma pessoa que enfrentava uma separação e tinha sido combatente da Guerra da Coréia e o Coronel Samuel Trautman que foi representado no filme pelo também  saudoso Richard Crenna(1926-2003) no livro ele não mantinha um forte vínculo paternal com Rambo  como o filme procurou transparecer e ele acaba o matando no final do  livro, coisa que chegou a ser reproduzido no primeiro corte do filme, mas depois da exibição teste que foi rejeitado, o final precisou ser reescrito visto que eles ali viam um bom potencial do Rambo pode virar uma franquia, ainda mais que Stallone na ocasião já era visto como o nome mais rentável para Hollywood. O que transformou Rambo numa icônica figura heroica do cinema de ação dos anos 1980.

 

Pois bem, toda a situação da perseguição da polícia local a Rambo ocorre bem na época do natal.

 

A gente pode perceber isso pelas decorações natalinas  que aparece na delegacia onde Rambo é mantido preso e em lugares da pacata cidade que teve sua tranquilidade interrompida pela sua presença indesejável.

 

Justamente por esse motivo, é que esse filme figura na minha lista.



Brasil-O Filme(1985)



Apesar de carregar o nome do nosso pais no título, ele não se passa no Brasil, mas sim  num cenário de futuro distópico do Reino Unido. O filme do diretor Terry Gilliam, um ex-membro do grupo humorístico Monty Pyton tem esse nome   por causa da canção "Aquarela do Brasil", de Ary Barroso(1903-1964), que aparece em uma versão instrumental na trilha sonora, simbolizando um refúgio utópico para o protagonista em meio a uma sociedade distópica e burocrática, e não por ter qualquer ligação direta com o país ou sua política. Gilliam usou a música como um "estado de espírito" de sonho e escapismo, e o título se tornou uma referência à busca por um lugar ideal em um mundo opressor.  

Principalmente para o protagonista Sam Lowry(Jonathan Price) lidando com o cenário futurista totalitarista, tendo seus devaneios voando no céu como se fosse um anjo.

Esse filme com uma estética excêntrica e bem espalhafatosa, se passa durante as festividades natalinas, mas com certeza, ninguém observa por esse ponto.

 

      Duro de Matar(1988)




Quando você ouve a menção desse clássico filme de ação dos anos 1980 com certeza lhe vem à cabeça muito tiro, porrada e bomba e é essa impressão que temos sobre o filme Duro de Matar que contou com  a direção de John McTiernan.

Principalmente vendo o policial  John McClane(Bruce Willis) enfrentando sozinho um grupo de terroristas comandado pelo alemão Hans Gruber vivido pelo britânico Alan Rickman(1946-2016) que quem foi da geração que acompanhou a franquia do bruxinho Harry Potter(2001-2011) deve se lembrar dele como o sinistro Professor Severo Snape.

Onde nesse filme, ele  mantém pessoas que trabalhavam num prédio de uma empresa onde quem trabalhava era Holly McClane(Bonnie Bedelia), esposa do John McClane.

Sendo que o todo o mote desse filme, ocorre justamente na época do natal.

Mas jamais assimilaria o filme como natalino.

 

O Estranho Mundo de Jack(1993)



A primeira impressão que temos quando nos deparamos com O Estranho Mundo de Jack é  de uma animação medonha de terror  para se dizer o mínimo, especialmente quando a gente se depara com personagens com aparências grotescas e comportamentos bizarros vivendo em um  local sinistro que é a Cidade do Halloween.

Porém, no decorrer da história mostra o protagonista Jack indo para a cidade do Natal tentando trazer o clima natalino ali dentro.

Essa animação em stop motion contou com a direção de Henry Selick e com a produção executiva do Tim Burton. Sobre este, um fato curioso que chama a atenção é que equivocadamente as pessoas tendem a creditar a direção desse filme ao Tim Burton, muito disso se deve em virtude da estética do filme carregar muito da assinatura autoral do Tim Burton por abordar uma temática de terror em animação stop motion, cujo design pavoroso dos personagens com um clima sombrio faz remeter o estilo excentricamente peculiar do diretor com seus toques mais góticos.

A primeira impressão que fica é um filme de terror, mas que se passa no Natal.


De Olhos Bem Fechados(1999)




Esse filme póstumo do  renomado cineasta Stanley Kubrick(1928-1999) é um filme cujo mote aborda o  complicado drama da  crise no casamento dos protagonistas Bill e Alice vividos pelo então casal 20 de Hollywood Tom Cruise e Nicole Kidman.

O filme traz uma abordagem com classificação para maiores de 18 anos por apelar ao erotismo, e isso a gente pode notar desde o começo mostrando o casal protagonista peladões após fazerem sexo e mostrando Bill vagando pelas ruas a noite após brigar com Alice a procura de qualquer mulher para realizar suas fantasias eróticas que termina  pelo acaso descobrindo  por meio de seu amigo uma mansão que promove orgias com o povo todo mascarado.

Mas o que a gente não percebe, é que sutilmente todo o mote da trama é ambientado durante as festividades do natal. Principalmente quando a gente em cada momento com as decorações natalinas em diferentes cenas.

domingo, 21 de dezembro de 2025

15 ANOS DO FIM DO CASSETA & PLANETA, URGENTE.

 

No dia 21 de dezembro de 2010, chegava ao fim o programa humorístico  do Casseta & Planeta, Urgente(1992-2010).




Programa comandado pela trupe do Casseta e Planeta que estava no ar  todas as noites de terça-feira depois da novela das oito, hoje chamada de novela das nove desde 1992.




 A história de como esse grupo humorístico foi originado  é um tanto quanto  pitoresco, já que ele começou quando no final dos anos 1970, três  amigos que se conheceram na UFRJ formado por Beto Silva, Marcelo Madureira e Hélio de La Peña, juntos criaram uma fanzine humorística chamada de Casseta Popular que logo depois viraria uma revista que trazia uma estética anárquica de humor ácido provocativo paródico, posteriormente ingressaram nesse grupo  Claudio Manoel e  Bussunda(1962-2006)*.




E o grupo aumentaria quando três amigos que trabalhavam para outra mídia impressa  humorística O Planeta Diário, uma sátira ao famoso jornal do Superman, formado por três ex-redatores de O Pasquim: Reinaldo Figueiredo, Hubert Aranha e Claudio Paiva ao se juntarem a eles formaram o Casseta & Planeta.

 O fato deles terem começado a fazer humor no jornalismo explica o famoso lema deles do “humorismo verdade, jornalismo mentira”.






O ousado estilo ácido de humor provocativo  que o grupo fazia nesse modelo tradicional de mídia impressa foi colocado na TV quando eles primeiramente ingressaram compondo a equipe de redatores da TV Pirata(Brasil, 1988-1992) que foi um embrião do que seria depois o Casseta e Planeta, onde juntos de outros nomes importantes do humor brasileiro: como o escritor Luís Fernando Verissimo(1936-2025), o  cartunista Glauco Villas-Boas**(1957-2010), o dramaturgo Mauro Rasi(1949-2003) dentre outros.







Cujo elenco era formado por atores surgido do teatro de variedades, que abordavam sobre a comédia de costumes,  também popularmente chamado pejorativamente de besteirol e do revolucionário Asdrúbal Trouxe o Trombone,  que já eram estrelas popularmente conhecidas das novelas da Globo com nomes como:  Diogo Villela, Débora Bloch, Guilherme Karan(1958-2016),  Cristina Pereira, Luiz Fernando Guimarães, Regina Casé, Ney Latorraca(1944-2024)  dentre outros exemplos.

Cuja estética humorística também se conectava um pouco com o que a  trupe fazia em satirizar  e provocar o cotidiano social  brasileiro. 

Em seguida,  eles fizeram carreira na música  lançando um LP de humor.





 

Posteriormente,  mostrariam a cara e a coragem  apresentando o programa Doris Para Maiores(Brasil, 1991), acompanhado da jornalista Doris Giesse e  somente  em 1992, passariam a comandar o programa Casseta & Planeta, Urgente, que durou 18 anos no ar.





Foi lá que eles ganharam a  característica  logomarca da cobrinha verde saindo do globo terrestre que foi idealizado pelo designer austríaco-brasileiro Hans Donner, que há mais de vinte anos prestava  serviço a emissora desenhando logomarcas marcantes de novelas e produzindo aberturas.  Que simbolizava a união da Casseta Popular e do Planeta Diário, a escolha da cobra foi bem apropriado para simbolizar a identidade visual deles com o seu humor ácido.





Inicialmente nesse programa, ele não contava com a presença de Maria Paula, a primeira mulher a participar foi a jornalista Kátia Maranhão que não participava tanto das esquetes, apenas comandava o programa dentro do estúdio assumindo a função séria do jornalismo.

 Só depois é que colocaram a Maria Paula, egressa da extinta  MTV Brasil para assumir a função de ser como ela ficou popularmente conhecida de “A Oitava Casseta”.

Isso porque o grupo era composto de sete homens formado por: Claudio Manoel, Beto Silva, Bussunda, Marcelo Madureira, Hélio de La Peña, Hubert e Reinaldo. Já  Claudio Paiva, ex-companheiro de Hubert e Reinaldo no O Planeta Diário não os acompanhou nessa nova empreitada.




E no que eles foram se consolidando  na TV, foram se expandindo escrevendo muitos livros de piadas, eu cheguei a ter um desses que foi o Seu Creysson: Vidia e Obra(2002), sobre o tipo popular representado por Claudio Manoel.




Mesmo após o desfalque que o grupo sofreu com a morte do Bussunda, em consequência de um ataque cardíaco sofrido   quando ele  estava na Alemanha com parte do grupo para fazer a cobertura da Copa do Mundo de 2006, ainda assim eles continuaram juntos trabalhando  na TV por mais quatro anos. 




A estética de humor do Casseta & Planeta já tendia a ser datada, e isso já é algo característico da comédia que desde o surgimento de sua arte nos primórdios da humanidade no teatro da Grécia Antiga, tendia a ser datado pelo fato dele ridicularizar situações e costumes sociais de acordo com cada época,  ao contrário do drama cuja história é sempre atemporal. 




  Do mesmo modo como acontece com  o humor das charges, porque como o seu estilo humorístico tinha muito do DNA no jornalismo cujo roteiro das piadas dependiam do que vinha acontecendo nos noticiários da imprensa seja tanto na política dos quais eles tiravam sarro, fosse em parodiar as novelas em cartaz da Globo, fosse parodiar personalidades em situações nada agradáveis ou temas espinhosos na rotina de nossa sociedade, envolvendo os avanços científicos, o comportamento  social ou qualquer coisa do tipo eles não perdoavam mesmo.


 
Cena de Falha Nostra, uma esquete satirizando a novela 
Terra Nostra(1999-2000) em reprise na Globo. 


Eles tiravam muito sarro de grupos sociais marginalizados como os pretos, a comunidade LGBTQIAPN+, os PCDs, os povos originários, as pessoas obesas e como o predomínio do grupo era masculino, eles também faziam muitas  piadas machistas de cunho erótico ou mesmo depreciativo.

Algo que hoje em dia já não é mais tão tolerado, não pelo politicamente correto, mas porque os grupos sociais marginalizados já não toleram mais isso.


O saudoso Bussunda(1962-2006) entrevistando o
Rei das Pistas Ayrton Senna(1960-1994) em 1992 no 
ano da estreia do Casseta & Planeta, Urgente. 


Se bem que não se  pode julgar,  nem lacrar e nem sequer cancelar  o tipo  de humor que eles faziam até porque a gente tem de levar em conta de que quando  esse grupo surgiu, foi  num momento em que ainda  vivíamos  numa época opressora de transição do final da Ditadura Militar para o começo da Redemocratização.

Onde prevalecia uma forte censura aos meios de comunicação.  E estávamos nos adaptando a ter  de volta a nossa  liberdade de expressão depois de passarmos 21 anos sobre a  opressão dos militares. E vivíamos num cenário de alta inflação.

Poderia comparar que o tipo transgressor de humor deles os fazem   equivalerem  como  os porta-vozes  da geração oprimida pela ditadura nos anos 1980, algo  parecido  ao que os cantores Cazuza(1958-1990) e Renato Russo(1960-1996)*** simbolizavam para a música brasileira com suas letras transgressoras de cunho panfletário e provocativo ao cenário do Brasil dos anos 1980.

Isso inclusive me lembra que no meu tempo de Colégio Objetivo,  quando eu fazia a antiga 8ª Série do Ensino Fundamental, isso lá em 2002, durante uma aula  de história sobre a Ditadura no Brasil.

Nosso professor mencionou o exemplo do Casseta & Planeta, para explicar para nós que já erámos da geração que não alcançou a fase de repressão da ditadura e já era símbolo  de museu para nós, por assim dizer. 

Que aquele humor que a gente assistia do grupo  que ainda passava na TV, seria impensável da gente assistir tipo durante os anos 1970, fase mais repressora da ditadura.

Ainda no meu tempo de Objetivo, eu tive outro professor que não vou mencionar aqui  o nome e nem de qual disciplina ele lecionava que ele por ser crente, chegou uma vez em sala de aula comentando sua indignação reacionária  de um quadro do Casseta & Planeta onde eles faziam uma blasfêmia a Deus, por causa da brincadeira que eles fizeram com uma esquete onde o Seu Creysson(Claudio Manoel) virava um ser iluminado.

Uma postura que lembrando hoje,  irei dizer que se mostrou muito equivocada da parte dele, porque ele não entendeu que o intuito ali  não era difamar nenhuma religião, mas sim criticar o culto em torno de pastores midiáticos que ostentam uma vida de luxo para enganar seus ingênuos  fiéis virando suas ovelhas.

Essa sua postura mostrou o quanto que ele não passava de uma ovelha do rebanho desses pastores que estava transformando sala de aula  em púlpito, algo que tem se mostrado preocupante hoje em dia.

Quando o humor especificamente ousa provocar a religião, o negócio tende a trazer uma reação de enfurecimento de grupos religiosos reacionários, extremistas etc...

Pegar outros exemplos de situações semelhantes ao que eu testemunhei desse meu professor foi quando os  britânicos do Monty Pyton lançou o filme A Vida de Brian(Life of Brian, Reino Unido, 1979), que chegou a ser  proibido de ter  distribuição  em alguns países  pela forma como eles zoavam a história bíblica do nascimento de Jesus Cristo ou mesmo como ocorreu anos depois com o Porta dos Fundos, que em 2019 lançou um especial natalino para a Netflix intitulado A Primeira Tentação de Cristo (Brasil, 2019), que gerou uma revolta de grupos religiosos reacionários que até destruíram sua sede.

Olha com todo respeitado por qualquer religião, independente de qual seja o credo, até porque sou seguidor do espiritismo.    

Principalmente a  quem siga a religião evangélica, até porque eu meio que indiretamente tive uma educação evangélica porque minha mãe veio do berço de uma família protestante.  Onde inclusive um irmão dela faz carreira no sacerdócio, ministrando como pastor há mais de 30 anos numa igreja batista da Bahia e mesmo não sendo seguidor fiel,  cheguei  a frequentar alguns cultos evangélicos.

 Do mesmo  modo que cheguei a frequentar umas missas  de  igrejas católicas, onde recebi  batismo  que foi onde literalmente  meu pai teve essa formação educacional, já que estudou  do maternal ao ensino médio  num colégio de padres, apesar de não ter virado um seguidor fervoroso.

Mas não tem quem me convença de que pastores midiáticos com influência na política para formar uma bancada  evangélica no planalto e com aqueles discursos autoritários, moralistas  e recalcados  de demonizar tudo que foge ao padrão que eles pregam de deus e família e arrumarem bodes expiatórios condenando anime como coisa do demônio  e convencendo qualquer fiel de que são milagreiros.

Mas que no fundo escondem serem uns bando de gente torpe, que adora ostentar uma vida luxuosa e fazer suas orgias.

Esses sim, me desculpem mas são gente que se mostram mais nocivas do que qualquer coisa. Não merecem o meu respeito.

Diferentes fatores deram origem ao fim do programa, um deles envolveu a forte concorrência com o Pânico na TV (2003-2011) na RedeTV que estava fazendo sucesso com seu estilo de humor de choque, que é aquele que costuma ultrapassar os limites do aceitável para o inaceitável e do CQC(2008-2015) da Band inspirado no formato argentino do Caiga Quien Caiga.  Fazendo humor paródico de jornalismo, onde mostrava eles entrevistando os parlamentares de Brasília, entre esses estava Jair Bolsonaro, um medíocre deputado federal  representante  do baixo clero que ganhou voz nesse programa de humor pelo seu  discurso autoritário contra os gays que era explorado até a última gota para fazer um humor involuntário.

O mesmo que anos depois se tornaria Presidente da República fazendo um desgoverno e agora está como deve, apodrecendo na cadeia esse verme.

O Casseta & Planeta chegou a retornar a grade da Globo em 2012, mas sem o mesmo prestigio de antes.

De certa forma, posso concluir que o ousado estilo de humor que eles faziam seriam impensáveis de serem replicados hoje em dia.

P.S. O nome baixo clero era dado na Idade Média a sacerdotes que atuavam diretamente nas vilas e aldeias em contrastes aos bispos, arcebispos e cardeais que eram do alto clero. Na política brasileira, essa nomenclatura é empregada para designar parlamentares com pouca expressão na Cãmara dos Deputados, movidos principalmente por interesses provincianos ou pessoais. São deputados sem muita influência ou participação nos processos políticos importantes no Parlamento. Estão mais preocupados com sua base eleitoral, além de contarem com pouca presença na mídia. Foi esse caso do então deputado federal Jair Bolsonaro antes de ser Presidente da República.

*Pseudônimo de Claudio Besserman Vianna, cujo apelido Bussunda  surgiu em referência ao personagem cartunesco chamado Sujismundo, criação do brasileiro Ruy Perotti(1937-2005) que  nos anos 1970 costumava aparecer em comerciais de TV numa série de quatro filmetes, que variavam entre 60 e 90 segundos de duração, e eram exibidos na TV e no cinema. Com o intuito de conscientizar a higienização na  população brasileira nessa campanha do regime militar com o lema: Povo desenvolvido, é povo limpo. O Sujismundo era representado justamente como uma pessoa sem higiene, um porcalhão  cujo nome que foi batizado simbolizava  bem isso. Juntando as palavras sujo com imundo. E se tornou popular em nós para definir esse tipo de pessoa sem higiene. E foi precisamente quando ele agia sem muita higiene quando estava num acampamento de férias na infância que ele ganhou o apelido de Bussunda, primeiro era Besserman Sujismundo que foi se alterando para Bessermundo, depois ficar Bessundo, Bussundo e até chegar a Bussunda que o tornou famoso nacionalmente no Casseta & Planeta.  Nascido numa família de classe média alta, caçula dos três filhos de um cirurgião e de uma psicanalista. Bussunda era irmão do economista Sergio Besserman Vianna que chegou a presidir o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) e do médico Marcos Besserman Vianna que desenvolve pesquisas para a Fundação Oswaldo Cruz. 

**O cartunista Glauco era sobrinho de Orlando(1914-2002), Claudio(1916-1998) e Leonardo Villas-Boas(1918-1961), o famoso trio de irmãos exploradores  que descobriram o Parque Nacional do Xingu. Cuja história foi contada no filme Xingu(2011).  Glauco foi brutalmente assassinado em 12 de Março de 2010, dois dias após completar 53 anos. Pelo frequentador da Seita do Santo Daime que ele comandava que assassinou seu filho Raoni. Um rapaz com longo histórico de transtorno mental. O assassino  foi assassinado em 2016 quando estava cumprindo pena em um presidio em Goiás por outros crimes sem relação ao assassinato de Glauco.

***Uma triste coincidência é que tanto Cazuza e Renato Russo morreram precocemente devido ao HIV. Cazuza morreu com 32 anos em 1990 vítima de um choque séptico.   Já Renato Russo faleceu aos 36 anos em 1996, vítima de doença pulmonar obstrutiva crônica, septicemia e infecção urinária.   

 *Pseudônimo de Claudio Besserman Vianna, cujo apelido Bussunda  surgiu em referência ao personagem cartunesco chamado Sujismundo, criação do brasileiro Ruy Perotti(1937-2005) que  nos anos 1970 costumava aparecer em comerciais de TV numa série de quatro filmetes, que variavam entre 60 e 90 segundos de duração, e eram exibidos na TV e no cinema. Com o intuito de conscientizar a higienização na  população brasileira nessa campanha do regime militar com o lema: Povo desenvolvido, é povo limpo. O Sujismundo era representado justamente como uma pessoa sem higiene, um porcalhão  cujo nome que foi batizado simbolizava  bem isso. Juntando as palavras sujo com imundo. E se tornou popular em nós para definir esse tipo de pessoa sem higiene. E foi precisamente quando ele agia sem muita higiene quando estava num acampamento de férias na infância que ele ganhou o apelido de Bussunda, primeiro era Besserman Sujismundo que foi se alterando para Bessermundo, depois ficar Bessundo, Bussundo e até chegar a Bussunda que o tornou famoso nacionalmente no Casseta & Planeta.  Nascido numa família de classe média alta, caçula dos três filhos de um cirurgião e de uma psicanalista. Bussunda era irmão do economista Sergio Besserman Vianna que chegou a presidir o IBGE(Instituto Brasileiro de Geografia e Estatísticas) e do médico Marcos Besserman Vianna que desenvolve pesquisas para a Fundação Oswaldo Cruz. 

**O cartunista Glauco era sobrinho de Orlando(1914-2002), Claudio(1916-1998) e Leonardo Villas-Boas(1918-1961), o famoso trio de irmãos exploradores  que descobriram o Parque Nacional do Xingu. Cuja história foi contada no filme Xingu(2011).  Glauco foi brutalmente assassinado em 12 de Março de 2010, dois dias após completar 53 anos. Pelo frequentador da Seita do Santo Daime que ele comandava que assassinou seu filho Raoni. Um rapaz com longo histórico de transtorno mental. O assassino  foi assassinado em 2016 quando estava cumprindo pena em um presidio em Goiás por outros crimes sem relação ao assassinato de Glauco.

***Uma triste coincidência é que tanto Cazuza e Renato Russo morreram precocemente devido ao HIV. Cazuza morreu com 32 anos em 1990 vítima de um choque séptico.   Já Renato Russo faleceu aos 36 anos em 1996, vítima de doença pulmonar obstrutiva crônica, septicemia e infecção urinária.