quinta-feira, 6 de agosto de 2026

25 ANOS SEM JORGE AMADO

 

No dia 6 de Agosto de 2001, a literatura brasileira perdia o talento de Jorge Amado(1912-2001).

Nascido em Itabuna-BA, em 1912, Jorge Amado costumava trabalhar em suas obras um caráter sócio-político, panfletário, de denúncia que tinha começado a escrever na década de 1930 inspirado no  revolucionário movimento artístico-modernista da década anterior. Especialmente por ter sido durante muito tempo militante esquerdista, já foi inclusive filiado ao PCdoB.




Equivocadamente há gente que o  rótula como autor pornográfico, principalmente quando ele deixou de lado o caráter mais panfletário em suas obras  e passou   passar a escrever sobre o cotidiano com aqueles toques apimentados   de erotismo, principalmente pelas mais diversas adaptações audiovisuais que já foram feitas de seus livros, onde os mais famosos são das protagonistas femininas que criaram aquele estereótipo da objetificação  sexualizada da baiana. 

Quem pensa a respeito disso da obra de Jorge Amado comete muitos equívocos, só o conhece superficialmente.

 




Dentre os romances que ele escreveu da qual eu tive a oportunidade de ler dessa fase mais panfletária do autor é Terras do Sem-Fim, publicada em 1943, que abordava bem o cenário bucólico do sertão baiano do auge da economia cacaueira na década de 1920, abordando a opressão do autoritarismo coronelista e a pobreza da seca. Uma realidade que ele bem conhecia por ter nascido e crescido dentro dessa realidade.




Já da fase que o autor passou a escrever mais sobre o cotidiano das quais já tive a oportunidade de ler, faço menção a Gabriela-Cravo e Canela, publicada em 1958. Foi a partir desse romance ambientado no cenário bucólico do sertão baiano da Ilhéus da década de 1920 em pleno auge do ciclo econômico cacaueiro que representou um importante marco de sua transição literária, onde o autor deixava de lado o caráter sócio-político panfletário, de denúncia e passou a escrever sobre as crônicas dos costumes com tipos populares, mas ainda mantendo os tons de crítica social sobre o cotidiano do povo baiano.




É com essa protagonista feminina da Gabriela que ele passa a trabalhar a figura de mulheres sensuais, usando das pitadas de erotismo, mas ainda assim, mantendo um pouco do caráter crítico ao explorar a trajetória de uma pobre retirante saída da seca e se torna cozinheira do comerciante turco Nacib com quem vive um tórrido romance em paralelo ao cenário da região viver em conflito dos poderosos coronéis como Ramiro Bastos e Mundinho Falcão, e a hipocrisia da moralidade da população.

Assim como tive a oportunidade de ler Dona Flor e Seus Dois Maridos, publicado em 1966, que se ambienta no cenário urbano da capital baiana, a Salvador dos anos 1940 e suas vidas boemias, com os malandro e abordando a forte influência da religiosidade de matriz africana dos orixás.




Eu já tive a oportunidade de turistar por Salvador, algumas vezes foi quando eu era moleque que me hospedei junto com minha família na casa de um tio que reside por lá há mais de 30 anos, prestando serviço no oficio de pastor evangélico para uma Igreja Batista.

Além de conhecer muito da visão de cartão postal turístico do lugar, como o Elevador Lacerda, o Pelourinho, as Construções Antigas das Igrejas e tudo mais. Também pude observar que a parte urbana da capital deixa muito a desejar.

Também pude apreciar muito dessa riqueza da musicalidade das micaretas que surgiram de lá e foram espalhadas para todo Brasil.

Inclusive, falando em música, o cantor Cid Guerreiro tem uma canção intitulada de Amado Jorge, que fez bem uma ode a importância dele como autor que exaltou sua Bahia, como o trecho abaixo pode ser mostrado:

Jorge, amado Jorge Amado
Sua poesia engrandece a Bahia
Me dá vontade de cantar
Jorge, meu mensageiro Jorge
Seu cabelo branco, seu sorriso franco
Seu jeito de encantar
Dona Flor cozinhou os quitutes
Do meu coração
E Tieta jogou o seu charme
Pra todo o país...

Diz um hino num livro aberto
De imaginação
Gabriela provou que o baiano
É um povo feliz...

Eta, eta, eta Bahia porreta!
Eta, eta país do carnaval!

(Autor: Cid Guerreiro).

O que quero colocar com isso, é que a Bahia que já tive a oportunidade de conhecer difere dessa mesma Bahia que Jorge Amado descrevia em suas obras, onde ele dava voz aos tipos das camadas marginais, criticando a opressão dos poderosos, exaltando sua culinária, exaltando figuras femininas com toques de erotismo, criando uma mística quase fantasiosa dessa Bahia de todos os santos que ele tanto imaginava em seus livros.  E é esse o legado que ele deixou foi  único.

 

ADAPTAÇÕES PARA CINEMA E TELEVISÃO:

O autor Jorge Amado foi bastante adaptado para cinema e televisão, algumas dessas obras já foram adaptadas mais de uma vez. É o caso, por exemplo, que posso começar explorando aqui dentre as que mencionei já ter lido foi:  Dona Flor e Seus Dois Maridos, principalmente por exaltar o teor erótico que já foi adaptado três vezes: Em 1976 foi adaptado para cinema numa produção assinada pelo recém-falecido Luiz Carlos Barreto(1928-2026), que teve a direção de seu filho Bruno Barreto, na época um jovem de 21 anos que começando a conquistar sua carreira no cinema.  Ele que também assinou o roteiro ao lado de Eduardo Coutinho(1933-2014) e de Leopoldo Serran(1942-2008). Que contou com Sonia Braga como protagonista Dona Flor, José Wilker(1944-2014) como Vadinho e Mauro Mendonça como como o Doutor Teodoro.




Em 1998, Dona Flor e Seus Dois Maridos foi adaptado como minissérie na Rede Globo, cujo roteiro foi adaptado pelo renomado novelista Dias Gomes(1922-1999), com colaboração de Ferreira Gullar(1930-2016) e de Marcílio Moraes, com direção de Rogério Gomes, Carlos Araújo, direção geral de Mauro Mendonça Filho e direção de núcleo de Guel Arraes.

Onde Flor foi representada por Giulia Gam, Vadinho por Edson Celulari e Teodoro por Marco Nanini.




E a última vez até o momento em que escrevo esse texto que Dona Flor* ganhou uma adaptação audiovisual foi em 2017 para cinema, nessa versão que contou com a direção de Pedro Vasconcellos, que assina também o roteiro e a produção nesta versão que coube a Juliana Paes(Flor), Marcelo Faria(Vadinho) e Leandro Hassum(Teodoro), a difícil tarefa de representarem o trio principal da obra amadiana.



Que representou bem este caráter mais sobre o cotidiano dos vários tipos da população baiana, em especial da boêmia capital Salvador-BA da década de 1940.

Onde a história girava em torno de Florípedes, que é chamada pelo apelido de Flor, uma cozinheira de mão cheia, casada com Vadinho um sujeito malandro, viciado em jogo, boêmio, mulherengo, que vive torrando a sua grana. Chegando ao ponto disso azedar a relação deles.

Vadinho morre durante o carnaval e Flor viúva e inconsolada, cai de amores pelo farmacêutico Teodoro, um homem muito culto, mas que não é muito bom de cama. É nesse momento que o espirito de Vadinho aparece para lhe atormentar o juízo e ela precisará do apoio de todos os santos e muitas benzedeiras para que Vadinho deixe de lhe atormentar.

Não só Dona Flor foi bastante adaptada para o audiovisual, como a Gabriela-Cravo e Canela, a primeira pouco conhecida e não muito lembrada foi em 1961 como uma telenovela da extinta Tupi, que contou com a direção de Mauricio Sherman(1931-2019), e com roteiro adaptado por Antônio Fernando de Bulhões Carvalho(19?-2009), cuja primeira atriz protagonista foi Janete Vollu, cuja carreira foi abreviada depois que casou e faleceu aos 34 anos. Que contou com Renato Consorte(1924-2009) como o Nacib.

 
Rara imagem da atriz Janete Vollu, a primeira 
atriz que representou Gabriela. 

 As informações sobre essa primeira adaptação audiovisual de Gabriela são um tanto escassas, ainda mais pelo fato dela ser uma lost media e depois do fechamento da Tupi em 1980, pouco foi o que sobrou de material preservado dessa época.

Diferente da versão da novela de 1975, produzida pela Globo, cujo roteiro foi adaptado por Walter George Dust(1922-1997), direção de Walter Avancini(1935-2001) e de Gonzaga Blota(1928-2017).




Essa que é a que mais ficou famosa, contando com Sônia Braga estrelando a retirante com a antológica cena dela subindo o telhado, a tornando símbolo sexual, e que com Armando Bogus(1930-1993) no papel de Nacib e marcada pela canção de abertura gravada por Gal Costa(1945-2022) chamada de Modinha para Gabriela. Essa mesma Sônia Braga foi quem protagonizou a Dona Flor no cinema e repetiria o papel da Gabriela, anos depois, em 1983 para o cinema, num filme dirigido por Bruno Barreto e que contou com a participação internacional do astro italiano Marcello Mastroianni(1924-1996) no papel do Nacib.


 
Cartaz do filme Gabriela(1983). 


Em 2012, foi lançada outra versão audiovisual da Gabriela, novamente pela Rede Globo, adaptada por Walcyr  Carrasco, na época, um já consagrado novelista na emissora que tinha um estilo “marcado por narrativas ágeis, forte apelo popular, bordões marcantes, bem como um contraste direto entre o melodrama clássico e o humor escrachado. Suas obras misturam vingança, mocinhas sofredoras, vilãs caricatas e críticas sociais leves.”





Ele assinou o roteiro em conjunto com Daniel Belinsky e André Ryoki, com direção de Mauro Menonça Filho e Roberto Talma(1949-2015).

Onde a Gabriela foi protagonizada por Juliana Paes e o Nacib por Humberto Martins.

Do mesmo jeito que Terras do Sem-Fim, foi adaptada como novela pela Globo em 1981, cujo roteiro foi escrito por Walter George Fost, e com direção de Herval Rossano(1935-2007), que é pouco lembrada.



Mais lembrada mesmo é a adaptação da Tieta do Agreste**, publicada em 1977, que virou a famosa novela da Globo em 1989, estrelada por Betty Faria, cujo texto foi adaptado por Agnaldo Silva, Ricardo Linhares e Ana Maria Moretzsohn, e teve entre seus diretores: Reynaldo Boury(1932-2022) e Paulo Ubiratan(1947-1998).



Essa mesma obra também ganhou uma pouco lembrada adaptação para cinema lançada em 1996, num filme estrelado por quem? Sônia Braga numa produção da Sky Light Serene, cuja direção foi de Cacá Diegues(1940-2025) que assinou o roteiro junto com Antônio Calmon e o escritor João Ubaldo Ribeiro(1941-2014).




Assim como há os menos lembrados Capitães da Areia, publicada em 1937, a mais marcante de sua fase panfletária onde abordou o abandono dos menores de idade. Foi adaptada como minissérie pela Bandeirantes em 1989, com roteiro de José Louzeiro(1932-2017) e direção de Walter Lima Júnior. E em 2011, foi adaptado para cinema num filme dirigido por Cecilia Amado, neta do próprio Jorge Amado.




Tenda dos Milagres, obra publicada em 1969, que ganhou uma adaptação para cinema em 1977, num filme dirigido, produzido e roteirizado por Nelson Pereira dos Santos(1928-2018). Em 1985, essa obra foi adaptada para uma minissérie da Globo, roteirizada por Agnaldo Silva e Regina Braga(1941-1999) e com direção de Paulo Afonso Grisolli(1934-2004).



 
Cartazes do filme e da minissérie  Tenda dos Milagres. 


Também pouco conhecida é Tereza Batista Cansada de Guerra, romance publicado em 1972, que em 1992 foi adaptado como uma minissérie da Globo cujo roteiro foi adaptado pelo veterano novelista Vicente Sesso, e cuja direção é assinada por Paulo Afonso Grisolli e que marcou a estreia de Patrícia França como protagonista.




Também existe o romance Pastores da Noite, publicado em 1964, que em 2002 foi adaptado para uma minissérie da Globo dentro do programa Brava Gente(2000-2003), com roteiro adaptado por Sérgio Machado e direção de Guel Arraes.




Há também Tocaia Grande: A Face Obscura, publicado em 1984, que em 1995 foi adaptado como novela pela extinta Rede Manchete, cujo roteiro foi adaptado por Duca Rachid, Mário Teixeira e Marcos Lazarini e com direção geral de Walter Avancini.




Mais curioso mesmo foi a junção dos romances Mar Morto, publicado em 1936 e A Descoberta da América pelos Turcos  publicado em 1992 que resultou na novela da Globo Porto dos Milagres (2001) que teve seu roteiro adaptado pela dupla Agnaldo Silva e Ricardo Linhares e com direção geral de Marcos Paulo(1951-2012).






E para terminar, há também de mencionar o romance A Morte e A Morte de Quincas Berro D´Água, publicado em 1959, que em 2010 virou o filme Quincas Berro D´Água(2010), com roteiro adaptado por Sérgio Machado que também assina a direção e teve a produção-executiva de Walter Salles, o diretor ganhador do Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional  do filme  Ainda Estou Aqui(Brasil, 2024).


 

 

 

 

*Em 2019, o romance ganhou uma adaptação no México em forma de novela, produzido pelo canal Las Estrellas, onde a Flor foi representada por Ana Serradilla.

**Em 2025, foi anunciado que Tieta do Agreste ganhará uma nova adaptação para cinema, quem vai ficar encarregado de produzir essa adaptação é a produtora Muiraquitã Filmes, que vai ter a produção de Eliana Ferreira, vai ser dirigido por Joana Mariani e cujo roteiro contará com a assinatura da atriz Suzana Pires, que também vai protagonizar o papel principal. Até o momento dessa publicação, não saiu nenhuma notícia nova a respeito dessa produção.


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