No
dia 6 de Agosto de 2001, a literatura brasileira perdia o talento de Jorge
Amado(1912-2001).
Nascido
em Itabuna-BA, em 1912, Jorge Amado costumava trabalhar em suas obras um
caráter sócio-político, panfletário, de denúncia que tinha começado a escrever
na década de 1930 inspirado no
revolucionário movimento artístico-modernista da década anterior.
Especialmente por ter sido durante muito tempo militante esquerdista, já foi
inclusive filiado ao PCdoB.
Equivocadamente
há gente que o rótula como autor
pornográfico, principalmente quando ele deixou de lado o caráter mais
panfletário em suas obras e passou passar
a escrever sobre o cotidiano com aqueles toques apimentados de erotismo, principalmente pelas mais
diversas adaptações audiovisuais que já foram feitas de seus livros, onde os
mais famosos são das protagonistas femininas que criaram aquele estereótipo da
objetificação sexualizada da
baiana.
Quem
pensa a respeito disso da obra de Jorge Amado comete muitos equívocos, só o
conhece superficialmente.
Dentre
os romances que ele escreveu da qual eu tive a oportunidade de ler dessa fase
mais panfletária do autor é Terras do
Sem-Fim, publicada em 1943, que abordava bem o cenário bucólico do sertão
baiano do auge da economia cacaueira na década de 1920, abordando a opressão do
autoritarismo coronelista e a pobreza da seca. Uma realidade que ele bem
conhecia por ter nascido e crescido dentro dessa realidade.
Já
da fase que o autor passou a escrever mais sobre o cotidiano das quais já tive
a oportunidade de ler, faço menção a Gabriela-Cravo
e Canela, publicada em 1958. Foi a partir desse romance ambientado no
cenário bucólico do sertão baiano da Ilhéus da década de 1920 em pleno auge do
ciclo econômico cacaueiro que representou um importante marco de sua transição literária,
onde o autor deixava de lado o caráter sócio-político panfletário, de denúncia
e passou a escrever sobre as crônicas dos costumes com tipos populares, mas ainda
mantendo os tons de crítica social sobre o cotidiano do povo baiano.
É
com essa protagonista feminina da Gabriela que ele passa a trabalhar a figura
de mulheres sensuais, usando das pitadas de erotismo, mas ainda assim, mantendo
um pouco do caráter crítico ao explorar a trajetória de uma pobre retirante saída
da seca e se torna cozinheira do comerciante turco Nacib com quem vive um
tórrido romance em paralelo ao cenário da região viver em conflito dos
poderosos coronéis como Ramiro Bastos e Mundinho Falcão, e a hipocrisia da
moralidade da população.
Assim
como tive a oportunidade de ler Dona Flor
e Seus Dois Maridos, publicado em 1966, que se ambienta no cenário urbano
da capital baiana, a Salvador dos anos 1940 e suas vidas boemias, com os
malandro e abordando a forte influência da religiosidade de matriz africana dos
orixás.
Eu
já tive a oportunidade de turistar por Salvador, algumas vezes foi quando eu
era moleque que me hospedei junto com minha família na casa de um tio que
reside por lá há mais de 30 anos, prestando serviço no oficio de pastor
evangélico para uma Igreja Batista.
Além
de conhecer muito da visão de cartão postal turístico do lugar, como o Elevador
Lacerda, o Pelourinho, as Construções Antigas das Igrejas e tudo mais. Também
pude observar que a parte urbana da capital deixa muito a desejar.
Também
pude apreciar muito dessa riqueza da musicalidade das micaretas que surgiram de
lá e foram espalhadas para todo Brasil.
Inclusive,
falando em música, o cantor Cid Guerreiro tem uma canção intitulada de Amado Jorge, que fez bem uma ode a
importância dele como autor que exaltou sua Bahia, como o trecho abaixo pode
ser mostrado:
Jorge, amado Jorge Amado
Sua poesia engrandece a Bahia
Me dá vontade de cantar
Jorge, meu mensageiro Jorge
Seu cabelo branco, seu sorriso franco
Seu jeito de encantar
Dona Flor cozinhou os quitutes
Do meu coração
E Tieta jogou o seu charme
Pra todo o país...
Diz um hino num livro aberto
De imaginação
Gabriela provou que o baiano
É um povo feliz...
Eta, eta, eta Bahia porreta!
Eta, eta país do carnaval!
(Autor:
Cid Guerreiro).
O
que quero colocar com isso, é que a Bahia que já tive a oportunidade de
conhecer difere dessa mesma Bahia que Jorge Amado descrevia em suas obras, onde
ele dava voz aos tipos das camadas marginais, criticando a opressão dos
poderosos, exaltando sua culinária, exaltando figuras femininas com toques de erotismo,
criando uma mística quase fantasiosa dessa Bahia de todos os santos que ele
tanto imaginava em seus livros. E é esse
o legado que ele deixou foi único.
ADAPTAÇÕES
PARA CINEMA E TELEVISÃO:
O
autor Jorge Amado foi bastante adaptado para cinema e televisão, algumas dessas
obras já foram adaptadas mais de uma vez. É o caso, por exemplo, que posso
começar explorando aqui dentre as que mencionei já ter lido foi: Dona
Flor e Seus Dois Maridos, principalmente
por exaltar o teor erótico que já foi adaptado três vezes: Em 1976 foi adaptado
para cinema numa produção assinada pelo recém-falecido Luiz Carlos
Barreto(1928-2026), que teve a direção de seu filho Bruno Barreto, na época um
jovem de 21 anos que começando a conquistar sua carreira no cinema. Ele que também assinou o roteiro ao lado de
Eduardo Coutinho(1933-2014) e de Leopoldo Serran(1942-2008). Que contou com
Sonia Braga como protagonista Dona Flor, José Wilker(1944-2014) como Vadinho e
Mauro Mendonça como como o Doutor Teodoro.
Em
1998, Dona Flor e Seus Dois Maridos foi adaptado como minissérie na Rede Globo,
cujo roteiro foi adaptado pelo renomado novelista Dias Gomes(1922-1999), com
colaboração de Ferreira Gullar(1930-2016) e de Marcílio Moraes, com direção de
Rogério Gomes, Carlos Araújo, direção geral de Mauro Mendonça Filho e direção
de núcleo de Guel Arraes.
Onde
Flor foi representada por Giulia Gam, Vadinho por Edson Celulari e Teodoro por
Marco Nanini.
E
a última vez até o momento em que escrevo esse texto que Dona Flor* ganhou uma
adaptação audiovisual foi em 2017 para cinema, nessa versão que contou com a
direção de Pedro Vasconcellos, que assina também o roteiro e a produção nesta
versão que coube a Juliana Paes(Flor), Marcelo Faria(Vadinho) e Leandro
Hassum(Teodoro), a difícil tarefa de representarem o trio principal da obra
amadiana.
Que
representou bem este caráter mais sobre o cotidiano dos vários tipos da população
baiana, em especial da boêmia capital Salvador-BA da década de 1940.
Onde
a história girava em torno de Florípedes, que é chamada pelo apelido de Flor,
uma cozinheira de mão cheia, casada com Vadinho um sujeito malandro, viciado em
jogo, boêmio, mulherengo, que vive torrando a sua grana. Chegando ao ponto
disso azedar a relação deles.
Vadinho
morre durante o carnaval e Flor viúva e inconsolada, cai de amores pelo
farmacêutico Teodoro, um homem muito culto, mas que não é muito bom de cama. É
nesse momento que o espirito de Vadinho aparece para lhe atormentar o juízo e
ela precisará do apoio de todos os santos e muitas benzedeiras para que Vadinho
deixe de lhe atormentar.
Não
só Dona Flor foi bastante adaptada para o audiovisual, como a Gabriela-Cravo e Canela, a primeira
pouco conhecida e não muito lembrada foi em 1961 como uma telenovela da extinta
Tupi, que contou com a direção de Mauricio Sherman(1931-2019), e com roteiro
adaptado por Antônio Fernando de Bulhões Carvalho(19?-2009), cuja primeira atriz
protagonista foi Janete Vollu, cuja carreira foi abreviada depois que casou e
faleceu aos 34 anos. Que contou com Renato Consorte(1924-2009) como o Nacib.
As informações sobre essa primeira adaptação audiovisual
de Gabriela são um tanto escassas,
ainda mais pelo fato dela ser uma lost media e depois do fechamento da Tupi em
1980, pouco foi o que sobrou de material preservado dessa época.
Diferente
da versão da novela de 1975, produzida pela Globo, cujo roteiro foi adaptado
por Walter George Dust(1922-1997), direção de Walter Avancini(1935-2001) e de Gonzaga
Blota(1928-2017).
Essa
que é a que mais ficou famosa, contando com Sônia Braga estrelando a retirante
com a antológica cena dela subindo o telhado, a tornando símbolo sexual, e que
com Armando Bogus(1930-1993) no papel de Nacib e marcada pela canção de
abertura gravada por Gal Costa(1945-2022) chamada de Modinha para Gabriela. Essa mesma Sônia Braga foi quem protagonizou
a Dona Flor no cinema e repetiria o papel da Gabriela, anos depois, em 1983
para o cinema, num filme dirigido por Bruno Barreto e que contou com a
participação internacional do astro italiano Marcello Mastroianni(1924-1996) no
papel do Nacib.
Em
2012, foi lançada outra versão audiovisual da Gabriela, novamente pela Rede Globo, adaptada por Walcyr Carrasco, na época, um já consagrado novelista
na emissora que tinha um estilo “marcado
por narrativas ágeis, forte apelo popular, bordões marcantes, bem como um
contraste direto entre o melodrama clássico e o humor escrachado.
Suas obras misturam vingança, mocinhas sofredoras, vilãs caricatas e críticas
sociais leves.”
Ele
assinou o roteiro em conjunto com Daniel Belinsky e André Ryoki, com direção de
Mauro Menonça Filho e Roberto Talma(1949-2015).
Onde
a Gabriela foi protagonizada por Juliana Paes e o Nacib por Humberto Martins.
Do
mesmo jeito que Terras do Sem-Fim, foi
adaptada como novela pela Globo em 1981, cujo roteiro foi escrito por Walter
George Fost, e com direção de Herval Rossano(1935-2007), que é pouco lembrada.
Mais
lembrada mesmo é a adaptação da Tieta do
Agreste**, publicada em 1977, que virou a famosa novela da Globo em 1989,
estrelada por Betty Faria, cujo texto foi adaptado por Agnaldo Silva, Ricardo
Linhares e Ana Maria Moretzsohn, e teve entre seus diretores: Reynaldo
Boury(1932-2022) e Paulo Ubiratan(1947-1998).
Essa
mesma obra também ganhou uma pouco lembrada adaptação para cinema lançada em
1996, num filme estrelado por quem? Sônia Braga numa produção da Sky Light
Serene, cuja direção foi de Cacá Diegues(1940-2025) que assinou o roteiro junto
com Antônio Calmon e o escritor João Ubaldo Ribeiro(1941-2014).
Assim
como há os menos lembrados Capitães da
Areia, publicada em 1937, a mais marcante de sua fase panfletária onde
abordou o abandono dos menores de idade. Foi adaptada como minissérie pela
Bandeirantes em 1989, com roteiro de José Louzeiro(1932-2017) e direção de
Walter Lima Júnior. E em 2011, foi adaptado para cinema num filme dirigido por
Cecilia Amado, neta do próprio Jorge Amado.
Tenda dos Milagres, obra
publicada em 1969, que ganhou uma adaptação para cinema em 1977, num filme
dirigido, produzido e roteirizado por Nelson Pereira dos Santos(1928-2018). Em
1985, essa obra foi adaptada para uma minissérie da Globo, roteirizada por
Agnaldo Silva e Regina Braga(1941-1999) e com direção de Paulo Afonso
Grisolli(1934-2004).
Também
pouco conhecida é Tereza Batista Cansada
de Guerra, romance publicado em 1972, que em 1992 foi adaptado como uma
minissérie da Globo cujo roteiro foi adaptado pelo veterano novelista Vicente
Sesso, e cuja direção é assinada por Paulo Afonso Grisolli e que marcou a
estreia de Patrícia França como protagonista.
Também
existe o romance Pastores da Noite, publicado
em 1964, que em 2002 foi adaptado para uma minissérie da Globo dentro do
programa Brava Gente(2000-2003), com
roteiro adaptado por Sérgio Machado e direção de Guel Arraes.
Há
também Tocaia Grande: A Face Obscura, publicado
em 1984, que em 1995 foi adaptado como novela pela extinta Rede Manchete, cujo
roteiro foi adaptado por Duca Rachid, Mário Teixeira e Marcos Lazarini e com
direção geral de Walter Avancini.
Mais
curioso mesmo foi a junção dos romances Mar
Morto, publicado em 1936 e A
Descoberta da América pelos Turcos publicado em 1992 que resultou na novela da
Globo Porto dos Milagres (2001) que
teve seu roteiro adaptado pela dupla Agnaldo Silva e Ricardo Linhares e com
direção geral de Marcos Paulo(1951-2012).
E
para terminar, há também de mencionar o romance A Morte e A Morte de Quincas Berro D´Água, publicado em 1959, que
em 2010 virou o filme Quincas Berro
D´Água(2010), com roteiro adaptado por Sérgio Machado que também assina a
direção e teve a produção-executiva de Walter Salles, o diretor ganhador do
Oscar 2025 de Melhor Filme Internacional
do filme Ainda Estou Aqui(Brasil, 2024).







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