domingo, 16 de agosto de 2026

O DITADOR PARAGUAIO QUE MORREU EM TERRITÓRIO BRASILEIRO.


 

Há 20 anos, no dia 16 de Agosto de 2006, o tirano mais cruel que o continente sul-americano conheceu partia exilado no Brasil, estou falando do general paraguaio Alfredo Stroessner(1912-2006).

Stroessner governou o pais com mãos de ferro ao longo de 35 anos, entre 1954 a 1989 com perseguições, torturas, censura e mortes.

Alfredo Stroessner Matiauda nasceu em Encarnacion, localizado no sul do Paraguai, próximo à fronteira com a Argentina, no dia 3 de Novembro de 1912. Era filho de um imigrante alemão que chegou ao Paraguai em 1895, e montou uma cervejaria e sua mãe carregava a descendência hispânica pertencendo a uma importante família da classe alta paraguaia.




Aos 17 anos, Stroessner entrou no exército, que por intermédio de seu tio Vicente Matiauda, alcançou o posto de tenente dois anos depois. Participou da Guerra do Chaco(1932-1935) contra a Bolívia.

Em 1948, com 36 anos, alcançou o posto de General de Brigada, tornando-se o general mais jovem da América do Sul.

Promoveu nesse mesmo ano uma tentativa fracassada de golpe, fugiu para a embaixada brasileira, no porta-malas de um carro, o que lhe rendeu a alcunha de “coronel do porta-malas”.  Em 1951, ingressou no Partido Colorado e foi nomeado Comandante Chefe das Forças Armadas.

 


Stroessner participou da Revolução de Pyandi(“Pés Descalços” em guarani), uma guerra civil na qual a classe trabalhadora de Assunção foi massacrada, encerrando o governo liberal e colocando o Partido Colorado no Poder.

Em 1954, liderou o Golpe de Estado que derrubou do poder o então presidente Federico Chaves(1882-1978). Ironicamente seu companheiro de partido.




O Conselho de Administração do Partido Colorado o elegeu candidato a presidente. Em 11 de Julho de 1954, foi eleito presidente sem oposição e assumiu o mandato da presidência do Paraguai em 15 de Agosto. Stroessner foi reeleito em oito legislaturas quais também participaram candidatos do Partido Liberal, Partido Liberal Radical Autêntico e do Partido Revolucionário Febrerista.

Já comandando a nação com o objetivo de acabar com os 50 anos do que ele chamou de anarquia, mas que era uma sucessão controversa de presidentes constitucionalistas, incluindo o próprio Federico Chaves, democraticamente eleito pelo Partido Colorado, que ele foi destruindo através de sua ditadura para transforma-los nos bajuladores do seu governo.

Stroessner aboliu as garantias constitucionais e exerceu severa repressão. Governando com o apoio do Exército e do Partido Colorado. Além de praticar muita corrupção.  Num modelo de regime anticomunista que favorecia os interesses dos americanos.

Estima-se que durante os 35 anos que ele governou autoritariamente o Paraguai de forma repressiva, as estatísticas sobre as violações dos direitos humanos sejam de: 336 pessoas assassinadas, 9.862 pessoas foram presas de forma arbitrária, 18.772 foram torturadas e 3.470 forram forçados a se exilarem.

Dentre essas violações de direitos humanos, houve relatos de crimes sexuais praticados a meninas menores de idade entre 10 e 15 anos, que eram estupradas por esses bandidos de farda.

Apesar de manter uma postura conservadora, Stroessner não teve boas relações com a Igreja Católica, existe três datas que ficaram marcadas pelos conflitos que ele encarou com essa importante instituição religiosa: 1967, 1969  e 1988.

Foi durante o seu mandato que foi inaugurada a Ponte da Amizade, que interliga a fronteira do Paraguai com o Brasil.

Stroessner mostrava grande simpatia pelos nazistas, inclusive chegou a garantir a asilo político a dois oficiais alemãs que haviam fugido de sua terra natal após perderem a Segunda Guerra Mundial que eram: Josef Mengele(1911-1979)* e Eduard Roschman(1908-1977)**, o que terminou rendendo muitas críticas do seu governo na mídia internacional.

 
Foto do criminoso nazista Josef Mengele. 


Foi inspirado no modelo do genocídio nazista contra os judeus, que Stroessner praticou isso contra o povo indígena Aché.

        Foi no mandato de Stroessner que o setor econômico paraguaio obteve um bom crescimento, mesmo uma medida de implementar uma liberalização econômica, durante a década de  1960, o seu crescimento econômico foi em média de 4,2%.   Entre 1976 a 1981, ocorreu um boom econômico com a construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu que permitiu um crescimento de 11% no PIB, ao mesmo tempo que crescia a corrupção e o contrabando.

 

       O final da década de 1980 foi um período onde os países vizinhos ao Paraguai, estavam deixando de viver sob a repressão dos militares, se redemocratizando. Foi nesse clima que o povo paraguaio passou a sair nas ruas para se manifestar, com lideranças Febreristas e pelos sindicatos. Stroessner foi abandonado pelos seus ex-aliados e agravado pelo cenário econômico inflacionário. Tudo isso resultou no fim melancólico do seu governo no dia 3 de Fevereiro de 1989, dia em que ocorreu o Golpe de Estado e ele foi deposto do poder.

      Logo após ter sido deposto do poder, Stroessner pediu asilo politico no Brasil, onde passou a residir desde então.

 

       Nos 17 anos que Stroessner viveu exilado em território  brasileiro depois que foi desposto do poder no Paraguai  com o Golpe de Fevereiro de 1989, um dos momentos que marcou a sua estadia em solo brasileiro foi o seu  envolvimento indireto com o  crime de sequestro e assassinato  de uma criança que  ocorreu em 1992 na região litorânea de Guaratuba/PR que chocou o Brasil inteiro, foi  na época da investigação do desaparecimento do  menino Evandro Ramos Caetano de 7 anos, até hoje sem solução.


 
Foto do menino Evandro Ramos Caetano. 


Sua conexão indireta com o sumiço do menino Evandro  se deve ao fato de que dois dos sete suspeitos do   sequestro e assassinato do menino: Osvaldo Marcineiro e Davi dos Santos Soares haviam sido mandados para a sua antiga mansão de veraneio para serem interrogados e torturados pelo grupo TIGRE(Táticos Integrados de Grupos de Repressão) onde muito tempo depois de passarem por julgamentos equivocados foi provado a inocência deles.

Esse episódio foi relatado na série documental do Globoplay O Caso Evandro(Brasil, 2021).





Durante esse tempo, o governo paraguaio fez muitas tentativas em vão de tentar convencer o governo brasileiro com  um pedido de extradição de Stroessner para  retornar ao Paraguai e responder pelos seus crimes.  Numa dessas tentativas ocorreu em setembro de 2000, onde um pedido de extradição foi despachado pelo juiz Rubén Dario Frutos, como consequência do desaparecimento e assassinado do médico Agustin Goiburú em 1977, mas o Brasil se absteve de cumprir o pedido. Outra tentativa ocorreu em outubro de 2003, quando Stroessner foi convocado a retornar ao Paraguai após o juiz Arnaldo Fleitas determinar a sua prisão e solicitar a Interpol ser acionada pela policia paraguaia para capturar o ex-presidente, no caso envolvendo o assassinado de Celestina Pérez em 1974,  que é a  esposa do ativista de direitos humanos Martin Almada(1937-2024) um dos presos políticos de sua ditadura. E a última tentativa em vão ocorreu em setembro de de 2004, onde o juiz paraguaio Gustavo Santander ordenou a extradição de Stroessner, dessa vez pelo envolvimento no desaparecimento de três pessoas. O que foi vetado pelo governo brasileiro com a justificativa do seu asilo politico.

 

 
Martin Almada, um dos famosos 
presos políticos durante 
a ditadura de Stroessner 
no Paraguai.  

 

Foi em solo brasileiro que Stroessner viveu o seus últimos dias de vida, na época em que faleceu ao 93 anos, com uma idade avançada e com sua saúde  fragilizada, havia se submetido a uma operação cirúrgica em duas hérnias iguinais no Hospital Santa Lúcia de Brasília, e dessa cirurgia ele precisou enfrentar uma complicação pulmonar que resultou numa pneumnia que o manteve em estado de alerta até o seu falecimento em 16 de agosto de 2006, devido as essas complicações.

Strossner  foi sepultado em 17 de agosto de 2006 no Cemitério Campo da Paz de Brasília, em uma cerimônia privada, onde apenas compareceram o seus familiares e amigos íntimos. Foi planejado mudar os restos mortais de Stroessner para o Paraguai dentro de  alguns meses, mas o governo Paraguai anunciou que não iria receber o corpo de Stroessner com honras militares.

Sobre a vida intima de Stroessner, ele casou-se com Eligia Mora(1910-2006), mais conhecida publicamente como Ligia Stroessner em 1945. Tiveram três filhos, fora os filhos ilegítimos de casos extraconjugais que Stroessner teve envolvendo os casos de estupros de menores que só vieram a conhecimento público após ele deposto do poder.

  
Foto de Strossner ao lado de Eligia. 


A união dela com Stroessner durou até o seu falecimento ocorrido em 3 de fevereiro de 2006, seis meses antes do falecimento de Stroessner. Na ocasião com 95 anos, ainda que legalmente ela estivesse casada com Stroessner, que comente-se que ela detestava o seu estilo de vida com essas atividade sociais e digeriu suas infidelidades. Por conta do exilio, eles estavam separados, ela fugiu para os Estados Unidos, enquanto o marido vivia exilado no Brasil. Ainda retornou ao Paraguai, onde viveu até o fim da vida morrendo no Hospital Americano de Assunção.   

Stroessner que faleceu seis meses depois, não pode estar presente no funeral a ponto de terminar sofrendo prisão pelas autoridades paraguaias.

 *O Anjo da Morte como ficou conhecido o criminoso nazista viveu seus últimos anos exilado no Brasil até falecer em fevereiro de 1979, vítima de um acidente vascular cerebral quando estava se banhando no mar da praia de Enseada, em Bertioga, município litorâneo paulista. Ele estava com uma identidade falsa de Wolfgang Gehard e sendo acolhido pelo casal Boisert. Somente em 1985, foi que a polícia alemã teve conhecimento por meio de Hans Sedmeier, um amigo de Mengele que ele havia morrido em solo brasileiro. Foi então que em junho de 1985,  numa operação conjunta entre os agentes alemães e o governo brasileiro, os restos mortais enterrados no cemitério de Embu das Artes, foram enxumados e mandados para o Instituto Médico Legal que em 1992 com um DNA do seu filho Rolf, se verificou que a ossada era mesmo de Mengele. Após a enxumação, os restos mortais ficaram no IML, a família se recusou a fazer repatriação para a Alemanha. Até que a partir de 2016, esses restos mortais passaram a ficar sob a vigília da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo que passaram a compor os materiais de auxílio para os estudantes.

**Há poucas informações sobre criminoso nazista, principalmente a respeito de como foi o seu modo de vida exilado no Paraguai até o seu falecimento em 1977. Cuja causas são desconhecidas. 


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